Suíte Tóquio
Capítulo 19
O telefone do quarto toca. Eu tomo um susto, será que alguém descobriu que nós estamos aqui? Penso em não atender, mas daí pode ser pior ainda, o pessoal da recepção ou seja lá quem for pode vir até aqui. Tiro do gancho, digo: alô. O prato está na gaveta, o moço fala pra mim. Digo: tá bom, e desligo, e só então percebo a esquisitice do que ele falou. Não sou ignorante, já fiquei em muito hotel com minhas patroas, em todos é a mesma coisa, o funcionário toca a campainha, entra no quarto e deixa em cima da mesa uma bandeja coberta por uma tampa. Sempre achei tão chique aquela tampa. Mas comida na gaveta, que loucura é essa? Ligo pra recepção. O moço fala pra eu olhar na parede, não tem um gavetão cinza? Até tem, um quadrado de metal com um puxador, achei que fosse uma caixa de luz. Abro e lá está o bife com batatas fritas.
Coloco o prato em cima da mesa. É tão estreita que lembra uma tábua de passar com duas cadeiras. A comida também é pobre que só, não sei por que essa mania de usar a alface como cama, talvez seja pra distrair da feiura do bife cheio de nervos, tenho que cortar em pedacinhos minúsculos pra Ana conseguir mastigar. Depois sento, começo a jantar também. Não dá nem dois minutos e escutamos um barulho, uma porta batendo, uma voz de mulher dizendo: vem logo que eu gosto de foder chorando. Era só o que faltava. Levanto e aumento o volume da tevê pra abafar a bagunça do vizinho. A Ana reclama, tá muito alto, mas logo nos distraímos com uma brincadeira que invento. Ela diz que estava com fome e eu digo que sim, quem cozinhou foi um homem. Ela diz: me dá um palito, e eu digo que não tenho apito, e assim vamos, eu fingindo que não escuto direito, ela se matando de rir.
Quando acabamos de jantar, abaixo o volume da tevê, falo que está na hora do banho. Vou até a pia, pego xampu e sabonete, os frasquinhos com uma maçã na embalagem, Motel Fruto Proibido. Pelo jeito o dono do Espigão não tem cascalho nem pra fazer os produtos dele. Abro o chuveiro. Até que esquenta rápido, o único problema é a quantidade, uma goteira. Pra mim até que serve, mas já pensou lavar a cabeça da menina nesse ritmo? Vai demorar mais de cinco minutos só pra tirar o xampu, com ela gritando, o que é meio normal num motel, mas não na boca de uma criança num motel, e a última coisa que eu quero é chamar a atenção. Penso em não lavar os cabelos dela, mas não encontro touca de banho, o que vou fazer? Olho pra banheira. Os milhões de germes lá dentro olham pra mim. Chego a ficar vermelha só de pensar de onde eles vieram. Se for pra tomar banho, melhor dar uma desinfetada.
Lembro do que vi em cima do frigobar. Vou até lá, dou uma olhada no rótulo do Old Eight, quarenta por cento de álcool. Seagers, quarenta e cinco, melhor ainda, mas deve ser gim paraguaio, não dá pra acreditar no que está escrito na embalagem. Olho o preço no cardápio. Paraguaio, com certeza, só não sei se pra economizar eles põem mais ou menos álcool na garrafa. Resolvo dar uma bicadinha. Deve ser concentrado, porque queima meu estômago. Com a garrafinha aberta, vou até o banheiro, a Picochuca atrás de mim, curiosa pra ver o que vou fazer. Espalho o gim pela banheira, mas é pouco, não cobriu todo o espaço, e não quero gastar com outra garrafa, o Old Eight está os olhos da cara. Então tenho uma ideia, um jeito de matar de vez os micróbios. Vou até minha bolsa e cavouco lá no fundo. Acho o que esperava, a caixa de fósforos de um restaurante aonde fui jantar com a dona Fernanda. Risco a cabecinha vermelha e jogo na banheira. Uma labareda levanta. A Ana vibra, escuto ela batendo palmas do meu lado. Me debruço rápido pra abrir a água, o plano é deixar o fogo só por uns segundos, mas a torneira não solta nada, só faz barulho e não solta uma gota, a chama se alastra. Minha Nossa Senhora, é agora que eu vou botar fogo nesse banheiro, nunca imaginei que iam descobrir a gente desse jeito, no Jornal Nacional incendiando um motel de beira de estrada. Corro para pegar um copo, encher de água, mas nisso a torneira da banheira solta um jato, uma rajada fedida que apaga o fogo e toda a agitação dentro de mim. Sento do lado da banheira e caio na gargalhada. Que susto, que alívio. A Ana ri comigo, foi muito legal, Maju. Depois, enquanto enxugo as lágrimas que caíram de tanto eu rir, ela diz: eu te amo. O quê, Picochuca? Eu te amo.
Não é a primeira vez que ela diz isso, mas talvez seja a primeira vez que vou responder. Não fui educada pra dizer essa frase. Sei que minha vó Brígida me amava porque fazia tudo por mim, mas nunca ouvi da boca dela um eu te amo, ninguém na roça falava isso, era como se o amor fosse uma coisa delicada demais pra nós, uma caixa de bombom com papel de seda que só algumas mãos podiam abrir. Convivemos quinze anos, dormimos na mesma cama, sentimos tanto amor uma pela outra e não trocamos essa frase nem quando ela estava partindo. Depois fiquei anos sem dizer porque não sentia, o amor parecia um privilégio, uma sorte grande que se tira e exibe, aqueles casais se beijando na rua. Daí veio o Lauro, e eu descobri que podia amar, mas falar já era diferente. Depois de dois meses juntos ele disse eu te amo e eu quase morri, olhei pra ele dura como um sabugo, que que eu faço agora? Um receio de dar pra ele a frase que nunca tinha dado nem pra minha vó. E um medo de gastar uma coisa que eu aprendi que era só uma vez na vida. Tanto que não consegui, a frase parou atrás dos meus dentes, fiquei com o eu te amo dentro da boca, pensando se devia botar pra fora ou não, até que finalmente consegui responder, baixinho e gaguejando, oito dias depois. Não sou a única, sei que não sou a única. Empregada conhece a intimidade das pessoas, suas calcinhas e cuecas do avesso, por isso sei que dizer eu te amo não é pra qualquer um. Tem homem que passa a vida sem dizer para o filho. Tem mulher que passa a vida sem dizer para o marido. E tem pessoas como a Neide que dizem pra todo mundo. Eu achei um absurdo quando nos conhecemos, uma coisa de sirigaita, dizer isso pra todo mundo. Até que eu comecei a reparar como a Neide era feliz, como o Lauro era feliz, e que talvez fossem felizes porque amavam mais, e talvez amassem mais porque falavam mais eu te amo. Como alguém me disse uma vez, a fome vem ao comer. Quem sabe o amor também venha ao amar. Eu aprendi e passei a dizer, contado e medido como é do meu jeito, e teria dito pra Cora nas vezes que ela me falou na casa da dona Fernanda, de madrugada quando escapulia da cama dela e ia dormir no meu casulo, e só não disse porque seria muita confiança da minha parte falar isso pra filha de uma patroa. Mas agora ela é minha. Respondo: eu também te amo. Ela não dá bola, já se distraiu com outra coisa. Está debruçada, tentando tocar a água com os dedos. Tira essa mão daí, Ana, enchi pra fazer um caldo e mandar a sujeira embora, só depois a banheira vai estar pronta. Me abaixo pra desrosquear a tampa. A água começa a escoar, vai ficando cada vez mais rasa, a Ana olhando, pelo jeito perdeu até a preguiça de tomar banho. Viro pra pegar o sabonete. Ela me chama. Olha isso, Maju. Aponta para o ralo, para a água que forma um redemoinho comprido, girando sem parar. A água é bailarina, diz, sorrindo para mim.