Suíte Tóquio
Capítulo 35
Não sei como, mas sinto que ele está chegando. Tiro os olhos da Cora já sabendo o que vou enxergar, Ednardo se aproximando pelo recorte da janela. Tenho a sensação de que estou vendo um filme, um galã saindo de um lugar misterioso e se aproximando de um caminhão. Acho que estou ficando louca de tanto cansaço, não é possível, porque a imagem segue sendo de cinema, ele parece um ator, com pinta de desconhecido, e não sei por quê. Carrega o mesmo saco, que parece cheio, talvez tão cheio quanto antes. A roupa também é a mesma, mas tem alguma coisa… Ele abre a porta, sobe sem dificuldade na boleia, joga o saco lá no fundo. Tudo bem por aqui? Digo que sim e então sinto o cheiro. Bozzano, a mesma loção pós-barba que o Lauro usava. Por isso ele está diferente, fez a barba, lavou os cabelos, agora vejo de perto que estão molhados, penteados de um jeito diferente. Eu começo a rir, rir da minha estupidez, da minha loucura, dos meus medos, das correntes e dos anéis que eu jogaria na mesa da polícia, dizendo: vejam, é bijuteria, eu só peguei carona com esse traficante. Eu dou tanta risada que me sacudo, o Ednardo olha pra mim. Que foi? Nada não, falo, e me seguro, seria ofensivo contar pra ele tudo que pensei. Acho que se fosse antes, ele insistiria mais um pouco, perguntaria de novo o porquê da risada, talvez contasse de alguma tia ou prima que ria à toa ou de como é difícil pra ele rir solto assim, mas o bicho está cansado demais, parece o capacho de uma casa cheia de crianças, nem a barba feita salva o Ednardo de ser apenas o resto de um homem.
Avançamos pela cidade. Sinto um alívio e, ao mesmo tempo, um aperto no peito ao reconhecer o caminho, o mesmo que faço com a minha condução, a academia de muay thai, a loja de doces. A cada fachada que passa, meu peito aperta mais. Sinto vontade de chorar, mas parece que fui lavada a talco. O choro não sai. Só as minhas narinas escorrem, como dois olhos fora do lugar. Viro para o Ednardo. E quando a gente tá na direção e mesmo assim não faz sentido? Ele pensa um pouco. Nunca faz sentido, diz. Depois me estende um lenço. Um lenço de pano, há quantos anos eu não via isso. Azul-claro, quadriculado de branco, o nome dele bordado em fio marinho. Fico pensando quem fez aquilo, quem teve o cuidado de escolher a linha combinando com o tecido, quem desenhou com tantas curvas a letra inicial. Deixo que aquela pessoa que abraçou o Ednardo com o lenço também abrace a mim que abraço a Cora. Por mais quanto tempo?
Pouco, não mais que uns cinco minutos. Melhor começar a pensar nas coisas práticas, preciso estar com tudo resolvido quando chegarmos. Dobro bem o lenço, coloco no painel. Pergunto para o Ednardo se lhe devo alguma coisa. Diz que não, claro que não. Ele que devia me pagar pela companhia, falou mais que o homem da cobra, nem sabe como aguentei. Sinto gratidão por ele, aquela gratidão que sentimos quando sabemos que não vamos mais ver uma pessoa. Quando a conta está fechada e ninguém pode estragar o resultado. Normalmente não daria nada pra ele, sempre fui pão-dura, ou cuidadosa, como dizia o Lauro, mas agora ter dinheiro não me importa tanto. Talvez o Ednardo possa fazer bom proveito de algum cascalho, comprar esse remédio que tanto toma. Cutuco o sutiã, separo duas notas, ponho discretamente debaixo do lenço. Ia acordar a Cora, mas mudo de ideia, tenho medo de que ela chame pela mãe na frente dele. Só me ajeito com minhas coisas, vejo se não estou esquecendo nada. Nem vi a tua filha acordada. Te disse, criança só acorda antes da hora se estiver doente. Ele balança a cabeça, como se dormir fosse falta de educação. Depois olha de novo pra Cora. Qual o nome dela? Penso um pouco e digo: Ana. Bonito, ele fala. Lembro que foi ela quem escolheu e dou um sorriso.
Depois peço pra ele contornar, quero parar do outro lado do ponto de táxi. A praça é grande, tem gente que chama até de parque, levamos mais alguns minutos pra dar a volta. Aqui tá bom, digo. Ele estaciona. Pergunta se preciso de ajuda pra descer. Falo que não, já encaixei a Nega dentro da bolsa, a bolsa debaixo do braço, o braço debaixo da Cora. Com a mão livre seguro no apoio, penso que não sou mesmo uma rapariga, descendo desengonçada desse jeito. Quando estou firme no chão, digo: vai com Deus, e aceno pra ele. Ele acena de volta. O caminhão vai embora. Eu olho ao redor, preocupada em ser vista. A única pessoa na rua é um homem com um cachorro, um desses tipos que você não sabe se acordaram muito cedo ou ainda nem foram dormir. Mesmo assim solto a minha piaçava. O pessoal do bairro sempre me vê de cabelo preso, de uniforme branco, nas poucas vezes que andei sem uniforme, algumas pessoas nem me reconheceram. Não conseguem ligar a babá com a pessoa. Devem pensar que depois do expediente a patroa esvazia a gente que nem boia e guarda dentro do armário. Mas eu não quero nem ser vista. Entro logo na praça e vou para um canto onde ninguém nunca vai, atrás de umas árvores grossas que são todas raízes. Eu conheço esse banco porque vinha aqui ler de vez em quando. Agora parece ainda mais escondido, a luz do dia quase não passa pelas copas, é sempre escuro debaixo dessa figueira. Que bom, porque não quero assustar a Cora, vou acordando ela com jeito, assoprando o rostinho. Ela abre devagar os olhos, onde estamos? Perto de casa, digo. Depois explico que vamos fazer uma coisa muito bacana. Um jogo, um desafio. Ela adora essas coisas, se desdobra toda quando os amiguinhos dizem duvido que você faça tal coisa. Explico que ela vai ter que chegar em casa sozinha, como uma menina grande. A Maju vai ficar escondida atrás das grades do parque, só olhando. A Cora vai sair do parque, atravessar a rua quando a Maju der o sinal, ir até o prédio e tocar o interfone. Se não alcançar o botão, tem que chamar o Chico. Só vence se entrar dentro do prédio, entendeu? Ela diz que sim. E não pode contar pra ninguém onde está a Maju. É segredo, como num esconde-esconde.
Dito isso, começo a preparar a Picochuca. Ou a me preparar, porque ela já está pronta, arrumo seus cabelos mais como um carinho do que qualquer outra coisa, ponho na sua mão a naninha. Antes que saia, seguro seus ombros. A Maju nunca vai esquecer de você. Agora, vai. Quero ver, hein? Ela sai andando de um jeito meio esquisito, quase mancando. Talvez porque esteja com um pé calçado e outro não. Eu me aproximo das grades que dão para a rua. Assim que ela sai da praça, chamo seu nome. Digo que pode atravessar. Rápido, rápido. Ela obedece, logo está do outro lado. Começa a andar e para, eu fico nervosa, o que tá acontecendo? Logo vejo que ela resolveu pisar só nas pedras brancas da calçada. Ainda bem que é boa nisso, não demora muito está na frente da portaria. Levanta na ponta dos pés e aperta o botão do interfone. Também chama pelo nome do porteiro. Assim que vejo o Chico sair da guarita, seco o meu rosto e dou as costas.