Suíte Tóquio

Giovana Madalosso · Capítulo 34 de 38

Páginas do PDF

Suíte Tóquio

Capítulo 34

 

 

Acordo com a primeira luz do dia. Olho em volta, o cinzeiro transbordando, a tela estraçalhada. Minha boca, uma pasta amanhecida de restos de Rivotril, álcool e nicotina. Lembro o porquê de tudo isso e a dor aterrissa de novo no meu peito. Passo direto da sonolência para o estado de alerta, vasculhando o celular em busca de alguma nova informação. Nem notícia da polícia, nem notícia de ninguém. Pego o celular do Cacá, sei a senha, foi Cora quem me ensinou, a data de nascimento dela. O grupo da escola em silêncio, a Neide sem novidades, as outras babás também.

Levanto. Preciso fazer alguma coisa, qualquer coisa. Vou até o quarto da minha filha de novo, numa esperança infantil de vê-la ou de achar alguma pista que meu olho cansado de ontem não tenha notado. Sem pensar, abro seus armários, olho suas roupas. Na pilha de camisetas há uma toda embolada, a Cora mesma deve ter guardado, eu tinha pedido a Maju que lhe ensinasse a guardar as próprias roupas. Pego a peça e coloco sobre o rosto. Cheiro o tecido com vontade, um sopro que pode fazer minha filha voltar para mim por um segundo. No começo é bom, o perfume dela e de amaciante, mas de repente esse mesmo cheiro começa a me dar enjoo. Deve ser o vinho, o gim, as talagadas que dei ontem. Vou até o banheiro, ajoelho na frente da privada, mas o vômito não sai. Vou até a varanda pegar um ar. Não adianta. Preciso de mais, da atmosfera inteira.

Pego o celular, calço os chinelos. Me vejo descendo pelo elevador. Dou as costas para o espelho, ainda me negando a registrar a minha realidade. Passo pela portaria, Chico já está lá. Trocamos um bom-dia seco, furtivo. Ele sabe o que está acontecendo, não tem coragem de encarar meu desespero. Saio caminhando pela calçada, respirando, lembrando da mania que minha filha tinha de pisar só nas pedras pretas, ou era só nas brancas?, uma coisa que achei esquisita a ponto de dividir com a psicóloga, que me devolveu um sorriso grande, dizendo que isso era coisa de criança, e também de alguns adultos.

Será que eu e minha filha somos parecidas? Nunca soube direito, Cora sempre foi daquelas crianças que não têm tanto da mãe nem do pai. Mãe, falo em voz alta, repito em voz alta, quase grito, enquanto entro na praça vazia, só as árvores por testemunha. Uma delas enorme, cheia de raízes. Sinto raiva da sua estabilidade. É fácil ser planta e não ter memória. É fácil ser planta e não ter arbítrio. No lugar dela, também não despencaria nunca. Como despenco agora, sobre o banco, sem nem limpar a merda de pombo que carimba a minha bunda.

Penso na Yara. Na verdade nunca deixei de pensar nela, mesmo com tudo que aconteceu ela nunca saiu da minha cabeça, apenas ficou em segundo plano, como um cenário tremulando atrás do meu drama. É cedo para falar com ela, o dia mal clareou, mas foda-se. Eu ligo, toca quatro, cinco vezes. Ela atende, a voz de quem acabou de acordar. Tá tudo bem? Acharam a Cora? Digo que não. Começo a chorar. Lágrimas gordas e silenciosas que molham o meu pescoço. Ela fala alguma coisa para me consolar, não escuto direito, é uma frase sem importância, dessas que as pessoas soltam diante da catástrofe alheia, um isopor vocal para preencher o desconforto. Eu sinto as lágrimas chegando à minha saboneteira, talvez se acumulem aí como a água na poça depois da chuva. O alívio do choro vai me dando alguma paz, já começo a ficar pronta para falar de novo. Sem planejar, digo: se a Cora nunca mais aparecer, vou largar tudo pra ficar com você. E achando que foi pouco, completo: pra sempre. Ela não diz nada. O silêncio se prolonga a ponto de eu pensar que a linha caiu. Yara? Desculpe, finalmente diz, não respondi porque ainda tô meio dormindo. E depois de outra pausa: mas claro, vamos ficar juntas. Agora quem não diz nada sou eu. E nem conseguiria, meu choro vem aos borbotões. Ela percebe. Vai dizer alguma coisa, mas não tenho estômago para engolir outro isopor. Falo que preciso ir e desligo.

Levanto, tiro os chinelos. Começo a andar descalça na terra, os pedriscos pontiagudos da praça machucam as minhas solas e eu acho bom, sigo pisando em frente. Entre as dores, as do corpo são quase um alívio.