Suíte Tóquio

Giovana Madalosso · Capítulo 12 de 38

Páginas do PDF

Suíte Tóquio

Capítulo 12

 

Sigo ligando para a minha irmã. Depois de um tempo, ela atende. Diz que falou com a nossa mãe às cinco da tarde, mais ou menos. Foi um papo rápido, porque ela estava carregando o porta-malas para ir para o sítio. Concluímos que Cora e Maju poderiam mesmo ter ido. Isso justificaria a escolha do péssimo horário de partida, hora de trânsito e da saída da escola. De qualquer forma, não temos certeza, e minha irmã, que já pretendia ir para o sítio no dia seguinte, oferece-se para antecipar a viagem e partir na próxima hora, ficando combinado que vai me ligar assim que chegar ao Hard Rock Café.

Conto para o Cacá. Ele diz que vai tomar um banho e deixa o celular comigo, vai que alguém liga. Olho a tela dele, dez e cinco. Penso que está na hora de preparar outro drinque. Enquanto misturo a bebida, escuto uma mensagem da Yara chegando e sinto o rebuliço que senti da primeira vez.

Foi uns dias depois de voltar de Corumbá. Era cedo, eu estava me arrumando para ir ao trabalho quando vi: quer jantar aqui em casa hoje? Sentei na cama, sem saber o que responder. Claro que eu queria, mas não sabia se deveria. Talvez não devesse, estava na cara que ia dar problema. Mas eu não sentia nada parecido fazia muito tempo, e quem se priva do que a vida oferece tão poucas vezes? Respondi e comecei a pensar em coisas práticas, como a situação da minha virilha. Depois peguei a bolsa para sair, mas não consegui chegar até a porta. Cora pendurou-se na minha perna. Quanto mais eu tentava me desvencilhar, mais ela grudava em mim. Incapaz de sair sem machucá-la, falei que a levaria comigo. Ela se levantou e disse: hoje é o melhor dia da minha vida.

A frase me enterneceu. Talvez por eu já saber o programa que ela faria no melhor dia da vida dela. A depiladora ficava num predinho caído na avenida Angélica. No térreo não havia nada além de um elevador e uma placa indicando a escada. Não sei por que, em tantos anos em que estive ali, sempre subi de escadas. Talvez pela pressa, essa minha companheira constante. Também pela pressa eu tinha me tornado cliente daquele lugar. Ao contrário dos outros, onde era necessário marcar hora, Audrey funcionava quase sem parar, das oito da manhã às oito da noite, dias de semana, sábados e feriados. Uma linha de montagem de mulheres lisas.

Era a primeira vez da Cora naquele lugar. Para quem chegou ao mundo há pouco, qualquer coisa é uma aventura, tanto que ela não achou ruim subir de escadas, pelo contrário, excitou-se com a ideia de escalar de dois em dois degraus. Chegamos à recepção e fomos encaminhadas para uma das baias. Já fui tirando a roupa, deitando na maca. Sara, com seu nome bordado no jaleco, logo entrou segurando uma panela grande. Perguntou onde ia ser. Perna e virilha, respondi, mas não soube detalhar o estilo. Do que gostam as mulheres? Dei uma busca rápida na internet confirmando que nem para isso há consenso, mas algo desbastado, em forma de triângulo, me pareceu uma boa pedida.

Sara girou a colher de pau na panela. Cora pediu para ver o que havia dentro. Sara lhe disse para subir no banco ao lado da maca. Minha filha obedeceu, seus olhos curiosos passeando sobre tudo. Sara passou a cera na minha virilha esquerda, delineando a primeira aresta. Esperou esfriar um pouco e puxou. Dei um urro, era a primeira vez que eu depilava uma ala de pelo tão avançada, quanto mais perto do clitóris, mais sensível é a pele. Ao virar para o lado, com os olhos cheios de lágrimas, encontrei Cora petrificada. Por que ela tá fazendo isso com você, mamãe? Pra tirar os pelos, falei com a voz embargada, e Sara lhe mostrou o que tinha na mão, uma lasca âmbar recoberta por centenas de pentelhos eriçados, como um inseto anômalo capturado na cera. A fim de minimizar a dor, a depiladora deu uns tapas na região avermelhada. Por que você deixa ela fazer isso, mamãe? Eu não sabia o que responder, por mais que eu me esforçasse didatizando questões culturais, que argumento seria mais eloquente do que o grito que agora vinha de outra baia, fazendo aquele lugar parecer um hospício a serviço de masoquistas do lado de dentro e de sádicos do lado de fora? Enquanto Sara preparava outra colherada, Cora sussurrou: eu vou ter que fazer isso um dia? Disse que não, só se ela quisesse, e isso pareceu tranquilizá-la. Depois que a depiladora espalhou a cera de novo no mesmo lugar, para tirar os pelos que sobraram, Cora pegou na minha mão e falou: vai dar tudo certo, mamãe. Sorri para ela. Depois olhei para o teto, esperando a cera esfriar, pensando no que eu estava me metendo ao aceitar o convite da Yara, porque uma vez que abrimos uma porta, não temos controle do que vem na nossa direção. Eu sabia que aquela segunda aplicação de cera não ia doer tanto, então quando pedi para a Cora repetir, foi um pedido que fiz para a minha epiderme emocional. Fala de novo, filha? Vai dar tudo certo, mamãe.