Suíte Tóquio
Capítulo 31
Estou andando pelo supermercado. Paro junto de uma pilha de batatas, começo a escolher. Pego a primeira, sinto que está murcha. Pego outra, mas nem preciso apertar pra saber que está passada, vejo pela cor, meio verde. A terceira que pego está pior ainda, além de esverdeada, cheia de brotos, as coroas brancas pipocando. Desisto das baroas. Viro pra pilha de tomates, pego um vermelho, viçoso, mas logo sinto a pele toda enrugada. As alfaces, nem me dou ao trabalho de tocar, estão moles e pretas. O mamão todo carcomido, cheio de buracos escuros. Vou para o outro lado da gôndola, onde tudo parece mais fresco, as laranjas chamando a minha atenção. Pego uma. Na parte de baixo, uma mancha verde que vai clareando até ficar branca. Os morangos também não se salvam, neles o fungo é mais delicado, uma geada cobrindo os pontinhos amarelos. Desisto da seção de hortifrúti, vou até a geladeira. Pego uma garrafa de leite. Procuro a validade, não acho. Abro o lacre e cheiro. Azedo, coalhado. Fisgo um pacote de pão de fôrma, espio através do plástico, bolorento. As flores também estão morrendo, mas até nessa hora são mais bonitas, sem marcas na pele, só as pétalas caídas e marrons, pena que se desfazem nos dedos. Resolvo pegar um macarrão, coisa industrializada não estraga fácil. Puxo a caixa e os pennes caem de dentro, a embalagem está devorada pelas traças, a massa pelos carunchos, os bichos correm por dentro dos pedaços dos tubos, as outras partes já viraram pó. Devolvo a caixa pra gôndola e percebo que a madeira também está apodrecendo, devorada por cupins que correm junto com os carunchos. Começo a sentir um desespero, o que está acontecendo? Penso em ir embora, mas não posso sair de mãos abanando, estou com fome, preciso dar de comer pra Cora. Resolvo ir até a peixaria, quem sabe lá eu consigo alguma coisa. Encosto o carrinho no balcão de metal, vejo uns dez robalos inteiros. O Lauro me ensinou que o melhor jeito de checar se um peixe está fresco é pela consistência, sentindo se a carne está firme. Toco um dos robalos e meu dedo afunda feito numa gelatina. Reparo que a guelra do bicho está desbotada, o olho amarelo, tenho a sensação de que pisca pra mim. Saio andando rápido, passo pela seção de carnes. O coxão mole está em oferta, resolvo pegar uma bandeja. A carne está azulada. Nunca comprei mignon, parece que hoje não tenho escapatória. Pego alguns bifes. Não chegam a estar podres, mas vejo a cabeça de um verme aparecendo no meio das estrias. Sinto nojo, largo no chão. Só então percebo que minha mão também tem bichos, não o verme do mignon, mas as lagartas da seda. Não sinto asco, até gosto do que estou vendo, fazia isso quando era pequena, ia até a criação de lagartas e enchia a mão com elas, depois saía assustando as outras crianças e dando risada. Como agora, dando risada, até que percebo que não estou brincando, que não estou correndo pela grama de Mandaguaçu. Que essas lagartas estão saindo de dentro de mim, dos músculos da minha mão. Aproximo a mão dos olhos e enxergo as boquinhas, de onde costumam sair os fios brancos da seda. Só que agora as lagartas estão cuspindo fios vermelhos. Tecendo seda vermelha com o meu sangue. Percebo que também estou morrendo. A única diferença entre mim, o morango e o boi é quem come a nossa carne, quem vive através da nossa morte. Preciso parar as lagartas, ir embora daqui. Olho para trás procurando a saída e percebo que a peixaria não está mais lá. Lembro do que uma apresentadora de tevê disse uma vez, que sabemos que estamos sonhando quando olhamos pra trás e de repente, do nada, a paisagem não é mais a mesma. Preciso acordar, cadê a Picochuca?
Abro os olhos e vejo a Cora no meu colo. O Ednardo dirigindo. Observo as minhas mãos, inteiras. Benza Deus, digo, e aliso a Nega por cima do plástico. Tudo bem?, ele pergunta. Digo que sim, foi só um pesadelo. Por essas e outras que não gosto de dormir, diz, às vezes lá consegue ser pior do que aqui. E quanto pior aqui, mais sinistro lá. Olho pra ele. O dia está começando a raiar. Apesar da pouca luz, já vejo os contornos da estrada, o Ednardo de outro jeito, sem as fitas e rendas da noite. O rosto abatido, parece que levou um soco em cada olho. Há quanto tempo você tá sem dormir?, pergunto. Três dias. Quanto? Ele repete a mesma coisa e ri de um jeito estranho. Penso que talvez eu ainda esteja sonhando. Que ter raptado a Cora e pegado carona com um homem que não dorme é apenas a primeira e a última parte do pesadelo. Logo vou acordar e ser feliz de novo, pegando a minha condução para o trabalho, lendo o livro da Nora no caminho, vestindo o meu uniforme. Olho pelo retrovisor e vejo um barraco na beira da estrada. Olho para a frente, depois de novo para o espelho, e vejo o mesmo barraco, só que mais longe.