Suíte Tóquio

Giovana Madalosso · Capítulo 11 de 38

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Suíte Tóquio

Capítulo 11

 

Paro de ler o livro da Nora antes que chegue perto do fim. Não quero ficar sem leitura por esses dias, ainda mais não sabendo como vão ser as coisas, sabe Deus se aquele povo evoluiu, se abriram alguma livraria em Mandaguaçu. Na época em que eu morava lá, um homem passava na fazenda vendendo livros, eu lembro bem, já gostava de ler, mas eram umas histórias de guerra, quase nada de romance. Também tinha os de poesia, mas disso nunca gostei, parece que esse povo que escreve verso tem preguiça de preencher as páginas. Então economizo mais um dedinho da minha água com açúcar e boto a imagem da Nega pra marcar onde parei. Depois olho o relógio, quatro da tarde, deve estar quase na hora do ônibus parar. E claro que vamos descer, sou feito tatu, não posso ver um buraco que quero espiar dentro.

Acorda, Ana, vou sacudindo a Picochuca, tá na hora de descer. Ela esfrega os olhos e pergunta onde estamos. Digo: Santa Cruz do Rio Pardo, é o que vejo embaixo do nome do posto. Assim que o ônibus para, levantamos. Os passageiros que estavam no convencional entram na nossa frente. É a agonia de passar horas sentado num toco duro. Descemos, vemos a lanchonete e um parquinho na parte de trás. A Cora puxa meu braço. Quero ir no balanço. Explico que não dá, só temos vinte minutos. Ela pede: por favor, só um pouco. Fico com pena. Só cinco minutos, contados no relógio. Ela olha pra mim, diz: hoje é o melhor dia da minha vida, e sai em disparada com a Bibi.

Depois pede para eu empurrar. Puxo o balanço com força pra trás, sei como ela gosta de ir longe. Olho o cocuruto indo e vindo e penso que talvez não seja tão difícil ser mãe. O pessoal complica porque gosta de complicar tudo, mas talvez a maternidade seja só isso, empurrar o filho todo dia até que ele não precise mais ser empurrado. Eu podia ficar nesse vaivém por horas, não sei por que o rangido do balanço me dá uma coisa boa, mas o nosso tempo está contado. Vamos, Ana, já passaram cinco minutos. Ela atende pelo nome novo, ô menina obediente. Se bem que obediente não é bem a palavra, a danada desce da cadeirinha e corre para o escorregador, só uma vez, grita, enquanto entra no tubo. Vou fazer o quê, sair voando que nem a Mulher Maravilha e arrancar a menina lá de dentro? Fico esperando, batendo a ponta do pé na grama de plástico, até a levadinha sair dali. Assim que aparece, pego sua mão e caminhamos até a lanchonete. Vamos passando pelos balcões, pelas prateleiras, por uma pilha de doces de mocotó que me dá água na boca, até penso em levar um, mas desisto, o preço está pra lá do firmamento. Pego um pacote de pão. Paro junto de uma mesa, cato uns saquinhos de maionese e ketchup, depois entramos na fila do caixa. Fiz que fiz pra desviar a Picochuca da prateleira de chocolates, e agora está tudo aqui no corredor de pega-trouxa, um paredão de doces e chicletes de cada lado de nós, a menina revirando os olhos. Eu conheço a Corinha, lá vai ela pegar o mais caro, um M&M’s que vem com o boneco, uma bola verde com dois olhos vidrados e galochas brancas. Compra este?, ela diz, e eu fico em silêncio, pensando que vinte e oito reais é o preço de uma refeição. Eu agora sou uma desempregada, não posso ficar gastando com bobagem. A Picochuca já começa a fazer bico e vou me impacientando também, porque as coisas mudaram, não levo mais no bolso o saco sem fundo de dinheiro da dona Fernanda. É duro, mas eu preciso explicar isso pra Cora. Me agacho e olho com carinho pra minha menina. Quando a Maju tiver dinheiro, vai te dar esta loja toda. Mas hoje a Maju não tem, falo, e mostro a minha carteira, vazia porque guardei todo o dinheiro no sutiã. O cartão, a espertinha diz, tocando o plástico. Aqui tem bem pouquinho dinheiro. A Maju é pobre, filha. Ela larga o limão. Então me dá só uma balinha? Sinto amor por ela, um amor que atravessa as paredes da loja e sai estrada afora. Uma balinha pra mim e outra pra Bibi? Então nós duas percebemos, cadê a Bibi? Olhamos pras nossas mãos, pra minha bolsa, que abro já sem muita esperança, não lembro de ter colocado a naninha ali. Um desespero toma conta da gente. Dela porque não pode viver sem a naninha, de mim porque isso não é hora de perder coisa, o ônibus está pra sair. Vejo a hora no celular. Temos cinco minutos. Saímos em disparada pela loja e, não sei por quê, agora tudo parece tão diferente, um emaranhado de embalagens coloridas bagunçando a minha cabeça. Ajuda a Maju, onde foi que você largou a Bibi? Ela diz que não sabe, não lembra. Eu percorro com ela todos os cantos, não tá aqui, ali também não. Até que eu lembro do parquinho. A fila do caixa cresceu, não vai dar tempo de pagar e ainda procurar a Bibi lá fora. Largo o pão, arranco as balinhas da mão dela, depois a Maju te dá outras, e saímos da lanchonete. Procuro o ônibus, está lá no meio dos outros, ainda temos três minutos e esse povo sempre atrasa, vai dar tempo, mas temos que correr. Entramos no parquinho. Olho pra todos os lados, não vejo a ovelha. A Cora cruza os braços. Eu não vou embora sem a Bibi. Vai, sim, senão nós vamos perder o ônibus, falo brava, e puxo a mão da Cora. Ela solta a minha mão e se agarra no trepa-trepa, numa barra de metal onde prende os dedos com uma força que nunca vi, não adianta puxar que não vêm, tenho que ir arrancando dedo por dedo, mas é só eu tirar o fura-bolo e o mata-piolho que ela gruda eles de novo, ai que vontade de bater nessa menina. Vamos senão você vai levar uma palmada, grito, e ela chora, nunca me ouviu falar assim antes, me sinto mal, mas agora não é hora de sentir nada. Me ajoelho pra puxar ela com força, pra arrancar ela pela cintura, e vejo dentro do tubo do escorregador a ovelha. Vou lá e pego a desgraçada. Dou pra Cora, boto as duas no colo e corro com elas até a frente da lanchonete. O ônibus não está mais ali.