Suíte Tóquio
Capítulo 23
Resolvo me arrumar para sair. Sou caprichosa, nunca saio de qualquer jeito, mas agora é ainda mais importante parecer uma mulher decente, não uma louca que saiu carregando o filho dos outros. Paro na frente do espelho do banheiro, molho as mãos, aliso a piaçava. Parece que o cabelo sente quando a gente está nervosa, vai ver é a umidade das lágrimas, esses fios todos elétricos no topo da cabeça. Aliso tudo, prendo num coque. Maquiagem não tenho, mas passo uma água no rosto, penteio as sobrancelhas.
Depois vou juntando meus poucos pertences, as coisas que peguei por aí, as bijuterias, os saquinhos de ketchup, o saca-rolhas, a caneta, os produtos do Fruto Proibido que voaram da bolsa. E os pedaços da Nega, o que vou fazer com isso? Deixar tudo jogado no chão parece desprezo, não é bom fazer pouco-caso de uma Nossa Senhora. Vou juntando os pedaços pra jogar no lixo, mas me toco que é pior ainda. Se abandonar é desprezo, pôr no lixo é ofensa. Se pudesse, enterrava, do barro veio e ao barro voltará, uma cruz de palito de dentes sobre a terra, uma oração de despedida e o mato cobrindo tudo depois. Seria um fim bonito, mas não tenho tempo nem terra pra isso. Quase nunca temos terra pra nada, sempre estamos tão longe de onde nossos pés nunca deviam ter saído, vai ver por isso sofremos tanto. Diga, Nega, o que faço com você? Se eu deixar os pedaços na mesa de cabeceira, alguém pode encontrar e colar. Pobre é tão bom em ressuscitar as coisas. Mas também pode jogar no lixo. Talvez a melhor solução seja deixar tudo debaixo da cama, aposto que arrumadeira de motel não se dá ao trabalho de limpar lá embaixo, passar vassoura e aspirador como se faz em casa de família. A Nega vai ficar uma eternidade debaixo dessa cama, e então começo a imaginar a quantidade de coisas que esses ouvidos santos vão testemunhar, talvez esse seja o inferno, morrer e ficar pra sempre preso debaixo de uma cama onde ninguém nunca dorme.
E já que não sei onde enfiar a Nega, resolvo levar junto. Na bolsa não cabe direito. Embrulho no saco plástico onde vieram as toalhas, um nozinho bem dado na ponta. Dou uma olhada no quarto pra ver se não esqueci alguma coisa. Depois coloco a bolsa debaixo do braço, pego a Cora no colo, o saco plástico na mão. Com tanta coisa mal consigo abrir a porta, fechar nem pensar, a arrumadeira que resolva depois. Vou caminhando rápido, o peso da criança aumenta com o passar dos minutos, sei que uma hora vou me cansar.
Quando chego na saída do motel, tem um veículo no caixa, sou obrigada a parar atrás, abaixo a cabeça por causa das câmeras. O carro logo arranca e eu avanço. O moço do caixa parece que viu uma assombração, a senhora tava aí no motel? Digo que estava na suíte Orquídea e apoio a Cora no balcão pra pegar o dinheiro. Tenho medo de que me descubram se eu usar o cartão. Ele calcula, teve comida, teve bebida, me entrega o total por uma gaveta, ainda olhando encafifado pra mim. Dou o dinheiro e pergunto se ele pode chamar um táxi. Ele diz que sim e pega o telefone. Segue me olhando enquanto digita os números. De repente sinto medo de que esteja ligando pra polícia. Alô, as duas procuradas estão aqui comigo, pode mandar a viatura. Bato discretamente na madeira do balcão, o moço vê. E minhas batidas devem funcionar, porque ninguém atende. E se ninguém atende, é para o ponto mesmo que ele deve estar ligando. A essa hora é difícil, diz. Toda hora é difícil, resmungo irritada. Meu plano era ir até uma rodoviária. Dependendo do preço, quem sabe pegar um táxi até o meu destino. Mas às vezes a gente tem um plano e Deus tem outro. No meu caso, Deus sempre tem outro. Pergunto onde tem um ponto de ônibus e saio caminhando do motel.
Ando uns quinhentos, oitocentos metros. Talvez isso não seja muito pra quem vai com os braços soltos, mas estou carregando uma menina que virou um saco de cimento, sinto o suor descendo pela minha testa. Chego no ponto com aquela sensação de que não poderia dar mais nem um passo. Acomodo a Cora no banco. Depois tiro o meu casaco, cubro o corpinho dela. Reparo que um dos seus sapatos, o que estava acalcanhado, caiu do pé. Era só o que faltava, como é que eu vou achar um calçado uma hora dessas? Olho em volta, a noite está clara por causa da lua, talvez eu possa ver. Agarro a minha Nega e ando para um lado, para outro, uso a lanterna do celular, vejo até bosta de cavalo, mas não vejo a sapatilha. Deve ter caído mais pra longe, e até penso em avançar, mas não posso deixar a menina sozinha, nem correr o risco de não pegar o ônibus. Volto para o banco, imaginando o sapatinho caído num canto, mais um sapato caído num canto. É o que as pessoas mais perdem, o que têm nos pés. Eu sei porque minha timidez me faz andar olhando para o chão e já vi de tudo perdido por aí, chapéu, óculos, chave, presilha, documento, cartela de remédio. Até faca e carta de baralho já vi. Mas nada supera o número de sapatos. Em tudo que é canto tem um pé perdido, um pé sozinho. E eu sempre pensei no estado da pessoa pra largar o calçado, porque você pode largar tudo nesta vida, um marido, uma casa, uma cidade, um passado inteiro, mas não aquilo que vai te levar pra frente. Quem larga um sapato não tem mais esperança de nada.
Eu ainda não estou a ponto de largar a minha sandália. Se Deus quiser, daqui a pouco passa um ônibus que me leve pra alguma cidade onde posso arrumar um transporte. Duro é aguentar esse frio. Esfrego os braços. Depois arrumo melhor a Cora, tento enrolar minha jaqueta nela como um saco de dormir, mas não consigo porque me desconcentro. É o seu Cacá, ligando de novo. O barulho da chamada me dá nos nervos. Meto o aparelho dentro da bolsa e volto o olho pra estrada.