Suíte Tóquio

Giovana Madalosso · Capítulo 6 de 38

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Suíte Tóquio

Capítulo 6

 

Foi a maior humilhação, apanhar de um bebê de dois anos. Aconteceu durante um voo Rio de Janeiro-São Paulo. Voltávamos de um fim de semana na casa dos pais do Cacá, ele costumava voltar com a gente, mas dessa vez teve que ficar no Rio para fazer uma pequena cirurgia, e como precisaria descansar aos cuidados de sua mãe, retornei com nossa filha. Entramos no avião, sentei, acomodei Cora no assento ao lado. Quando fui fechar o seu cinto de segurança, ela freou a minha mão. Não foi uma surpresa, Cora sempre detestou cintos, volta e meia fazia onda para aceitar o da cadeirinha do carro. Mas, no avião, a recusa foi veemente. Ela tirou a fivela da minha mão e começou a chorar e a espernear com uma força que até hoje me impressiona, como se dentro daquele bebê houvesse um adulto prestes a romper pele afora. Tanto que tentei de todas as formas e não conseguia fechar a fivela, ela gritando e se debatendo. Quando finalmente o negócio fez clec sobre a fralda e eu achei que todo o problema ia acabar, veio a surpresa, ela deu um tapa na minha cara. Um tabefe sonoro, desses de novela, a despeito do tamanho de sua mão. Fiquei sem reação. E percebendo o poder do seu gesto — me congelar —, ela me deu outro tapa, e daria outro se eu não tivesse parado sua mão a tempo, com força, porque nesse momento eu também estava sentindo raiva dela. Um desejo que toda mãe já sentiu, de que o filho desapareça. Morra por alguns segundos. Por causa do choro intermitente, toda a fileira 14 olhava para mim. Os passageiros da 13 e da 15 idem. A aeromoça, só então percebi, estava fazia algum tempo estancada ao meu lado, assistindo à cena, pois o avião precisava que todos os passageiros estivessem afivelados para decolar. E agora estávamos, por fim estávamos. Eu disse para a aeromoça: está tudo bem, enquanto a máquina começava a se movimentar e eu segurava as mãos da Cora, prevenindo-me contra mais um ataque, mas ao mesmo tempo, e talvez sem me dar conta, segurando seus braços com ainda mais força, o que a levou a se irritar e gritar mais. Assim que o avião se estabilizou no ar e eu a soltei, ela me deu outro tabefe na cara. Não era mais um caso de mãe e filha, mas um espetáculo para uma plateia de passageiros, alguns com a sorte (ou azar) de poder assistir ao drama, outros de apenas ouvir, os mais curiosos tentando se inteirar do que acontecia na faiscante 14F. Foi então que, sem me dar conta do que fazia, subi ao palco. Para tentar acalmá-la, levantei-me e comecei a caminhar com ela pelo corredor, sob os olhos e ouvidos de todos os passageiros, balançando-a e cantando versos desesperados de “Alecrim dourado”, e de repente lá veio a mãozinha e me deu mais um tapa na cara. Lembro do rosto das pessoas nessa hora, muitas olhavam para mim, dividindo-se em dois grupos: as que me fitavam com pena e as que me fitavam com desprezo, creio que se perguntando: como pode uma mãe ter uma moral tão nula? Sim, eu também me perguntava, como pode? Não sabendo o que fazer, pois não podia bater na minha filha e reprimi-la provou-se ser algo ainda pior, fui andando rápido até o banheiro e me tranquei lá. Coloquei Cora no chão e comecei a chorar também. Eu de pé, ela lá embaixo, chorando juntas, por um tempo que pareceu longo a ponto de atravessar tudo que eu já tinha sido. Só voltamos para as poltronas quando o comissário avisou que o avião estava em procedimento de descida e, por sorte, Cora já estava exausta a ponto de me deixar pôr o cinto.

Ao aterrissarmos, peguei nossa bagagem de cabeça baixa, saí do avião de cabeça baixa. Só fui me ver livre do constrangimento quando entrei no táxi, deixando para trás todo e qualquer olhar que pudesse ter testemunhado a minha derrota. Abri a janela, talvez esperando que o vento levasse embora o que eu estava sentindo. Fiquei assim, com o rosto voltado para fora, enquanto Cora adormeceu no meu colo.

Quando chegamos em casa, coloquei-a na cama e fui para o meu quarto. Apesar de exausta, não consegui dormir. Fiquei pensando de onde vinha a raiva que a minha filha sentia de mim. Uma raiva por ser subjugada, talvez a mesma que eu sentia por ser subjugada pelo papel de mãe. E Cora sentia isso. Ainda que não saibamos de tudo, sempre sabemos de tudo. Ela deve ter percebido inclusive a minha angústia por uma decisão que também dizia respeito a ela. Por volta daqueles dias, eu havia recebido, do canal de tevê em que trabalhava, uma proposta para deixar de ser diretora de conteúdo e me tornar produtora executiva, o cargo mais alto do escritório no Brasil. A princípio eu disse não, porque sabia que, se aceitasse, passaria a me reportar para Los Angeles, trabalhando no fuso daqui e de lá, e teria muito pouco tempo para a minha filha. Mas claro que não fiquei em paz com a decisão. Aquele era um cargo que eu queria e percebi que ser uma mãe frustrada era um péssimo negócio, porque eu acabaria transferindo todo o meu amargor para a minha filha. Era melhor passarmos menos horas juntas mas, como diriam os gurus pedagógicos, horas de qualidade.

Ainda não era meia-noite, resolvi ligar para o meu marido para contar que havia mudado de ideia e aceitaria a proposta. Ele não questionou, era eu quem sustentava a casa, era eu quem decidia essas coisas. Depois que desligamos, dormi um sono vigilante, a ponto de ouvir a Maju chegar e começar a mexer no roupeiro do corredor. Me enrolei num robe e fui até ela. Levei-a para tomar um café na cozinha. Eu precisava ser sedutora, de certa forma tudo dependia dela. Usei a experiência que tinha adquirido contratando gente para a minha equipe: oferecer um valor razoável e aumentá-lo logo em seguida, dando a sensação de que entregava mais do que havia planejado, de que a oferta era fora do comum e portanto irrecusável. Fiz isso com a Maju, mas mesmo assim ela ficou relutante, tinha um bom motivo para isso. Lembro que nessa hora me senti meio satânica, fumando um cigarro com o cabelo desgrenhado e aquele robe vermelho, projetando para ela as benesses de um futuro regado a dinheiro, um futuro que talvez — e inclusive por conta do aceite da própria proposta — não chegaria, mas talvez chegasse, como poderíamos saber? E talvez fosse bom, como poderíamos saber? E talvez fosse melhor ainda se a Maju fosse esperta e tivesse me pedido mais grana, porque ela nem imaginava, mas naquele momento eu daria tudo: quanto custa pra você dormir direto aqui, seis salários mínimos mais esse anel de ouro no meu dedo? Está aqui, já estou assinando a sua carteira de trabalho com um salário de editor de vídeo, porque você é muito mais valiosa pra mim do que um editor de vídeo. Mas Maju era humilde e inocente demais para sonhar além do que Deus ou a patroa lhe oferecia. Tanto que depois que ela aceitou, senti pena dela. Para compensar, transformei aquele quarto de empregada num lugar claro, descolado e dotado de amenidades como tevê e frigobar, um quarto que poderia muito bem ser a suíte de um hotel japonês. E por isso, e para me sentir menos escravocrata, batizei o cômodo de Suíte Tóquio.

Um mês depois, pingava um salário novo na conta dela e um novo na minha. Fiquei olhando para aquela cifra sem saber o que fazer. Pensei em sair de viagem, mas aquela não era a hora de tirar férias. Pensei em comprar uma joia, mas já tinha algumas e não era nem um quilate mais feliz por isso. Conversando com uma amiga, tive a ideia de comprar arte. Fui a uma galeria onde havia uma tela da Adriana Varejão. Pequena mas impactante: uma sauna de azulejos brancos manchados de sangue. Adquiri o mimo e pendurei na sala, argumentando para Cacá que a tela custara uma fortuna, mas longe de ser uma extravagância era um investimento, um patrimônio que deixaríamos para a nossa filha.