Suíte Tóquio
Capítulo 14
Achei curioso o horário marcado, sete da noite, meio cedo para os padrões brasileiros. Também achei curioso o lugar. Em São Paulo as pessoas costumam preferir a segurança de um apartamento ou de uma casa de vila, e a dela nem sequer se escondia atrás de um muro, ficava atrás de um portão frágil tomado por hera. Toquei a campainha. Yara apareceu e me deu um beijo no rosto.
Entramos. O interior tinha pouquíssima mobília, apenas um sofá antigo, com o tecido meio gasto, uma tevê e um baú que ficava entre o sofá e a tela, fazendo as vezes de mesa de centro. Fora isso, só plantas, em diversos tipos de vaso. É o que dá pra ter quando você não mora muito tempo em nenhum lugar, Yara disse. E apontando para o baú: tudo que tenho tá aí dentro. Sério?, falei, pensando na extensão do meu closet. Ela balançou a cabeça. Pensei que você morasse num apart-hotel. Faria mais sentido, mas aí eu não poderia ter todas essas plantas. Nem ter o Paul e o Lennon, falou, apontando para um aquário, na passagem entre a sala e a cozinha. Quem não pode ter cachorro, se vira com peixe-beta, concluiu, me mostrando de perto os Beatles aquáticos, enquanto eu pensava que nem de peixe eu conseguia cuidar. Quando tinha dezoito anos ganhei um que matei de inanição depois de esquecer da ração por sei lá quantos dias, mas claro que não contei isso para ela, não ia pagar de insensível, ainda mais com relação à natureza, tanto que falei: adoro peixes, em seguida torcendo para que ela não perguntasse quais, porque teria que dizer: o linguado e o bacalhau à Gomes de Sá. Esses são seus Beatles preferidos?, disse, desviando o assunto. Eram os meus preferidos, hoje sou mais o George, mas Paul e Lennon foram meus primeiros peixes, um casal de tetras que tive que abandonar em Miami quando eu e meu pai nos mudamos pra Tasmânia. Desde então batizo todos os meus peixes com o nome dos dois primeiros, como uma forma de homenagem, disse, e ficou olhando para o aquário. Depois continuou: se bem que de um tempo pra cá tenho pensado que batizo assim pra ter a sensação de que nunca larguei peixe nenhum, de que dentro desses dois estão todos os outros. Que carma para os coitados, falei. E demos risada. Depois seguimos em frente, entramos na cozinha.
Ela puxou uma banqueta para mim. E se posicionando do outro lado do balcão, falou: quer beber o quê? Perguntei se tinha algum destilado. Disse que seu bar estava mais para boteco, o único destilado que tinha era uma garrafa de 51 esquecida ali pela Herta, mas tinha cerveja gelada e um vinho ótimo que trouxe da sua última viagem, será que servia? Aceitei o vinho, tomando um gole para descontrair, para deixar de ser a garotinha de quinze anos que eu havia subitamente me tornado, olhando para os peitos sem sutiã que se insinuavam através da camiseta. Me dei conta de que não ficava fissurada em seios desde os dois meses de idade, e pensando nisso, virei quase toda a taça de vinho. Ela parecia bem mais tranquila do que eu, esmigalhando numa mesma tábua um montinho de maconha e outro de hortelã, enquanto me perguntava se eu gostava de cordeiro. Ia fazer um koshari, um prato egípcio que combinava muito bem com essa carne.
Logo ofereceu o baseado para mim: tem certeza de que não quer? Falei que não e expliquei o porquê, ainda teria a minha call da noite pela frente, podia até falar com o Matthew meio bêbada mas não chapada. Se bem que já tinha falado com ele de tudo que era jeito. Inclusive — só contei isso porque o vinho me desinibiu — costumava fazer as calls no banheiro, sentada na privada, aguardando simultaneamente a entrega de trabalhos do meu pior subalterno: o intestino. Yara deu risada. Você fala cagando com o seu chefe de Los Angeles? Cagando não. Tentando cagar. E dessa vez rimos juntas, eu pensando que meu constrangimento havia desaparecido não só por causa do vinho, mas também porque a minha anfitriã estava tão à vontade que acabara por me deixar à vontade. E pra que esse despacho coletivo?, perguntou. Pra ganhar tempo. Tempo pra quê? Não soube responder, nem assistir a séries eu andava conseguindo, era Agnes, a minha braço direito, que fazia isso por mim. Minha pressa era para ter mais tempo para afundar na banheira onde eu relaxava para evitar a insônia e a ingestão de mais um Rivotril. Mas tudo isso eu apenas pensei, enquanto Yara vinha para o meu lado do balcão, parando pertinho de mim e dizendo: sei como é difícil a vida de produtor executivo, te admiro por fazer isso. Depois me beijou. Segurou minha cintura e passou a mão com suavidade no meu peito. Fiquei molhada a ponto de pensar que deveria usar fraldas geriátricas num próximo encontro.
Yara voltou para a panela, que começava a borbulhar. Baixou o fogo. Em seguida pôs-se a ajeitar os pedaços de cordeiro numa assadeira, encaixando os ossos de um lado e de outro, me fazendo pensar na complexidade de um ser humano que ama os animais mas que também gosta de estraçalhá-los entre os dentes. Enquanto ela foi pegar alecrim em algum vaso, lembrei do baú, imaginando o que deveria ter lá dentro, como essa seria uma forma eficiente de conhecermos as pessoas: através dos seus baús, da seleta lista de itens imprescindíveis em suas vidas. Veríamos o baú do outro e vice-versa, os objetos proporcionando a descoberta simultânea que nenhum diálogo proporciona, pois ao contrário do que acontece numa conversa, ninguém teria tempo de improvisar afinidades com base no que foi entregue previamente pelo outro. E o que eu encontraria no baú da Yara? Pensei em câmera, lentes, postais, canivete, quem sabe uma bússola. E no meu baú, o que ela iria encontrar? Uma garrafa de gim, uma caixa de Rivotril, um saco de fibras solúveis, um notebook, um massageador cervical. Puta que pariu, já fui melhor do que isso, pensei. E com essa cara de dona de baú de executiva bunda-mole de classe A/B, vi Yara se aproximar com o alecrim. Espalhou na assadeira. Colocou tudo no forno. Íamos nos beijar de novo quando meu telefone tocou. Era Agnes querendo discutir uma compra de direitos de imagem.
Quando desliguei, Yara estava pondo a mesa. Ajudei-a, levando as taças, outra garrafa de vinho e o saca-rolhas. Ela deu uma espiada no cordeiro, disse que já estava bom, perguntou se podia servir. Costumava acordar com o sol, e àquela hora já estava faminta. Falei que sim, que também estava com fome, me tocando que havia passado o dia quase sem comer, ansiosa pelo nosso encontro. Sentamos. Provei a comida. Disse que estava maravilhoso, mesmo não estando lá essas coisas.
Ela me contou que aprendeu a cozinhar por necessidade, não tem delivery em habitat de jacaré. E também porque sempre foi um jeito de levar alguma coisa dos lugares por onde passou, não podia carregar a panela de barro dos beduínos, mas podia carregar a receita. Comentei que andava doida para viajar para algum lugarzinho ermo. Desde que Cora tinha nascido eu só ia a países colonizados pelo Starbucks. Ela perguntou por quê. Tive que pensar para responder. Talvez o problema não fosse o destino em si, se crianças sobrevivem comendo pimenta no México ou coliformes na Índia, por que a minha não sobreviveria? A questão era a dificuldade que eu estava tendo para acomodar a Cora na minha vida. Com uma honestidade que novamente me surpreendeu, contei para Yara como eu estava apanhando no cargo de mãe. Que para mim era muito mais fácil aguentar os desmandos de são Pedro numa filmagem ao ar livre do que os desmandos de uma criança num momento de birra. Não é só deixar chorar?, perguntou. Não faço a menor ideia, falei, e demos risada. Depois disse que estava brincando, que sabia o que fazer, só me faltava paciência. Ela me contou que também não era das mais calmas, mas aprendeu a ter paciência com o pai, que por sua vez aprendeu com a natureza. Me contou que uma vez ficaram três horas e vinte minutos cronometrando o intervalo de respiração de um papo-amarelo. Eu falei que estava feliz em ter achado uma monja como ela para fazer a série. Que tinha visto o primeiro corte do episódio e achado ótimo, que tinha amado o trabalho dela e da Herta. Ficou bom mesmo, ela disse. E em seguida passou seu pé descalço e cascudo na minha perna. Senti um arrepio, a máquina toda entrando em funcionamento de novo, como aprendi num documentário que fizemos, a testosterona me dando tesão, a adrenalina fazendo meu coração disparar, a dopamina me fazendo perder qualquer traço de inibição e tirar o meu sapato, botando minhas cinco lombrigas táteis para escalar a panturrilha dela. Quando vi, estávamos de pé, eu apoiada na mesa, ela beijando a minha boca, depois descendo a língua pelo meu pescoço. Meu celular tocou de novo. Comecei a conversar com o Matthew, mas ela não se afastou. Continuou onde estava, acariciando a minha barriga. Meu papo com ele era importante, eu não podia me desconcentrar. Me afastei dela, fui recuando até encostar na parede, mas ela veio junto, sua língua no cós da minha calça, seus dedos abrindo o botão. Para com isso, disse para ela, ouvindo um what? confuso do outro lado da linha, seguido de preocupações com uma série que estava em produção, o Matthew na cantilena e a língua bandeirante a desbravar a floresta, ele me contando de um problema de casting e eu lembrando da depilação, tava boa aquela depilação?, e em seguida não pensando em mais nada, só dizendo yes para tudo que ele falava, e a cada yes que eu dizia, ela me chupava com mais vontade. Desencana, Yara, nunca gozo com sexo oral, cheguei a suplicar, mas ela ignorou e seguiu em frente e em torno, até que de repente, enquanto o Matthew falava sobre o câncer que iria afastar um ator da série, eu gozei. Gozei de pé com sexo oral ouvindo meu chefe falar sobre um câncer fulminante de bexiga. Tive vontade de me ajoelhar e condecorar a Yara com uma medalha de pelos pubianos, mas claro que continuei na linha, entrando numa frequência de bem-estar que me fez até pensar no estado emocional do ator com câncer, e não só no prejuízo que ele nos daria.
Assim que desliguei, olhei para ela e balancei a cabeça. Não é você que gosta de despachar tudo junto pra ganhar tempo?, me disse. Fiquei com vontade de dar uns tapas naquela pessoa que sorria para mim, isso o documentário não explicava, por que temos vontade de apertar, esmagar, matar o objeto do nosso desejo. Peguei-a com força pela cintura, planejando fazer tudo que ela fizera comigo. Fui levantando devagar a sua camiseta, mas o celular tocou mais uma vez. Ignorei a chamada por um tempo, mas a insistência da babá da minha filha acabou vencendo. Maju disse que Cacá tinha esquecido de comprar o presente de aniversário da colega da Cora, a festa era na manhã seguinte, será que ainda dava tempo de eu levar alguma coisa? Falei para Maju que não ia sair atrás de presente àquela hora. Ela disse que a Cora não gostava de chegar nas festinhas de mãos abanando, sentia vergonha. Perguntou se eu não podia parar em alguma banca de revista, comprar qualquer coisa. Tá bom, falei, para me livrar dela, suspirando para Yara, que me encarava com expectativa, e já ia desligar quando Maju prosseguiu, dizendo que o presente não podia ser de qualquer personagem, tinha que ser de menina pequena, alguma coisa com a Peppa, a Hello Kitty… ou não sei mais quem, e nessa hora Yara arrancou o celular da minha mão e o atirou longe. Tá louca?, disse, vendo o aparelho descrever uma parábola luminosa, transformando-se em vaga-lume à medida que adentrava o jardim escuro, para logo sumir na vegetação. Virei para ela e vi um sorriso crescendo no seu rosto. Enfim livres, disse. E me peguei sorrindo também.
Subimos as escadas de madeira. Davam para o quarto dela. Estava iluminado pela lua, a lua solitária de São Paulo, sem uma constelação que apareça por inteiro para lhe fazer companhia. Mas ainda assim a lua, entrando pela varanda, incidindo sobre o colchão de casal. Ao lado, tinha um holofote de set de filmagem coberto por um papel plástico laranja, mas ela não acendeu, o que achei bom, eu ainda estava um pouco intimidada, porque aquilo tudo era novo para mim, um corpo igual ao meu. Com peitos menores que os meus, com uma virilha que, pasme, Fernanda, nunca tinha visto uma gilete ou uma gota de cera, mas de resto com todos os botões nos mesmos lugares. E, ainda assim, eu não sabia muito bem o que fazer. De repente, estava deitada sobre ela, tocando seu clitóris e pensando quantos dedos eu deveria enfiar lá dentro: um, dois, três? Até que fui percebendo que não deveria pensar em nada, que as coisas iam fluindo, e com uma naturalidade que eu nunca tinha sentido. Com o homem existe o coeficiente indissociável da pressa, ou ao menos da consciência do tempo. Uma hora ele vai gozar, e acabou. Por mais bacana que um homem seja, isso cria uma hierarquia. Entre nós, o tempo nem sequer parecia linear, íamos em círculos, brincando, pegando, gozando, lambendo, mordendo, gozando. Uma hora levantei para ir ao banheiro e me dei conta de que tinha gozado mais naquela noite do que nos últimos meses com o Cacá.
Quando voltei para o quarto, Yara tinha ligado o holofote com o foco para a parede, e o quarto estava mergulhado numa atmosfera cálida. Ela tirou um baseado não sei de onde, acendeu. Dessa vez dei um pega só para não bancar a chata, mas nem quis fumar muito, estava me sentindo tão bem que não queria estragar o momento. Como pasto para ter um pouco de bem-estar, o tempo todo vivendo em desnível, ansiosa pelo trabalho ou exaurida por ele, faminta ou empanturrada pela gula, sedenta ou transtornada pela bebida, e sempre tão dificilmente em equilíbrio, a plenitude pairando sobre uma navalha sempre prestes a cortá-la ao meio. Mas eu ainda flutuava, envolta pelo braço da Yara.
Meu celular, lembrei só um tempo depois.
Quer eu busque?, perguntou.
Melhor não. A essa hora a única pessoa que pode me ligar é a minha mãe. E a minha mãe só liga pra encher meu saco, pedindo dinheiro, pedindo favor… Talvez eu também não tenha nascido pra ser filha.
Ninguém nasceu pra ser nada.
Frase linda, mas não funciona nem na savana. Você sabe melhor do que eu que até os animais têm suas funções.
Tô falando de expectativa moral.
Como assim?
Tá se achando uma filha ruim? Saiba que o filho da ácaro Acarophenax fertiliza as irmãs na barriga da mãe. Depois as irmãs matam a mãe pra saírem lá de dentro.
Nascem todos livres do almoço de domingo.
E mesmo que pudessem se culpar por isso, não se culpariam.
Mais um exemplo.
Algumas aranhas e escorpiãs matam o macho depois da cópula. E a louva-deus não só mata o parceiro, como também come a cabeça dele.
Deus seja louvado.
Você já viu?
Nem em documentário.
A louva-deus segura a cabeça do macho como uma taça e sorve a gelatina que transborda lá de dentro, disse com um vocabulário que chamou a minha atenção, porque apesar de ela ter sido criada em português e morado no Mato Grosso do Sul, que eu soubesse não usava a língua com tanta frequência. Ia fazer um comentário sobre isso, mas não quis perder o fio da conversa. Mas com os filhos ninguém brinca, falei.
Como não? Você viu o jacaré que eu filmei. Aquele não sei se tava comendo o próprio filhote, mas isso é bem comum. Os leões, que não fazem ideia de que são os reis da selva, que nem sonham ter uma imagem a zelar na Disney, às vezes matam os filhotes pra fêmea voltar logo pro cio, não têm paciência de esperar o período de amamentação pra dar uma cruzadinha.
Tudo isso é pra me convencer de que não existe heroísmo no mundo animal?
Imagina, já desencanei disso, tô fazendo a série do meu jeito, ela disse com uma risada dúbia, que não deixava saber se estava falando sério ou brincando. Eu tô te dando esses exemplos pra você se libertar das suas culpas. Inclusive da sua culpa de estar comigo, porque…
As abelhas de Botsuana corneiam seus machos com outras abelhas.
Abelhas nem copulam, a única que passa por esse martírio é a rainha. Mas alguns peixes mudam de sexo durante a vida… E as macacas bonobos, que eu considero a espécie mais evoluída do planeta, copulam com machos, mas também transam livremente entre si.
Conta mais.
Elas expandem a amplitude do lance. Me toquei que “lance” era uma palavra que ela usava quando não achava outra melhor. Continuou: quando eu tava no meio das bonobos, lá no Congo, vi uma cena interessante. Um grupo de fêmeas chegou debaixo de uma árvore onde havia uma fruta grande, tipo uma jaca, não sei direito, e todas ficaram olhando meio tensas pra cima, na expectativa de quem ia atacar e comer primeiro. Eu tava esperando uma disputa, que elas se pegassem, disse, e parou um pouco, como se vislumbrasse a cena.
E daí?
E daí que elas se pegaram mesmo, só que de outro jeito. Começaram a se esfregar e tocar o clitóris uma da outra. A fazer hoka-hoka, como aprendi com um pesquisador que tava comigo.
Mas peraí, e a jaca?
Elas fizeram isso justamente por causa da jaca. Pra poderem relaxar, reforçar o laço entre elas e comerem juntas a fruta. Elas fazem isso direto em situações de estresse ou competição.
Enfiam o dedo na jaca.
Isso, ela disse, e nos divertimos pensando que o método poderia ser adaptado para empresas. Que, num impasse, a reunião seria interrompida e todos tirariam a roupa por alguns minutos, voltando em seguida mais calmos para resolver a questão.
Ela deu uma risada longa, depois repescou o baseado.
Mas peraí, falei, enquanto ela acendia a ponta. Você percebeu que o mundo animal subverte todas as regras menos uma?
Ela deu um pega.
Todo mundo ferra com todo mundo, os peixes mudam de sexo, as bonobos jogam pro alto a ideia de que o sexo só existe pra reprodução, mas o papel da mãe nunca é subvertido.
Tem mães que matam os próprios filhotes.
Em que situação?
Que eu saiba, só quando não reconhecem os filhotes como seus. Ou quando um é anômalo. Elas preferem alimentar os que têm mais chance de vida.
Ou seja…, eu disse. E depois fiquei em silêncio, sentindo o peso daquilo. Percebi que Yara também sentia, provavelmente pensava na própria mãe, porque seu rosto murchou.
Vem cá, vem, disse para ela. Vem me explicar melhor como é esse hoka-hoka.
Ela me olhou com carinho, veio sorrindo para cima de mim. Ficamos enfiando o dedo na jaca por sei lá quanto tempo. Até que, novamente exaustas, nos viramos de barriga para cima. Que horas são?, perguntei. Quatro. Comecei a me vestir. Depois descemos e fomos para o jardim, ainda precisávamos achar o meu celular. Yara pegou uma lanterna. Eu estava meio reticente de entrar naquele mato, tinha medo de que alguma rã pulasse na minha perna, mas ela foi me puxando devagar pela mão. Fomos avançando, ela um pouco à frente, o foco de luz revelando o chão: raízes, flores, um balde amarelo. Ergui os olhos para ela e a imaginei mais velha e igual, infantil e eterna nas suas explorações, e pensei que poderia segui-la por muitos jardins.
O celular estava debaixo de algumas folhas. Vivo, para minha sorte. E sem ligações não atendidas. Quando eu já estava indo embora, Yara perguntou quando íamos nos ver de novo, se eu acompanharia a próxima filmagem no Acre. Eu disse que não poderia ir, porque tinha reuniões importantes durante toda aquela semana. Ela sugeriu que eu pegasse um voo na sexta à noite e encontrasse com ela em Rio Branco. Eu não estava querendo sair do circuito Starbucks? Poderíamos passar um fim de semana incrível na Amazônia, hospedadas por seus conhecidos yawanawas. Eu só sorri e balancei a cabeça, sem dar resposta para ela ou sequer para mim.
Quando cheguei em casa, tomei cuidado para não fazer barulho. Mesmo assim, Cora acordou, talvez porque já estivesse com o sono leve. Queria fazer xixi, me pediu para levá-la ao banheiro. Sentei-a na privada, observando seus cílios penderem, os olhos quase fechando. Depois de secá-la, peguei-a no colo e a acomodei na cama. Ela pediu que eu ficasse um pouco no quarto. Sentei sobre o lençol, em meio aos bichos de pelúcia. Puxei sua cabeça para o meu colo, comecei a fazer cafuné. De repente, senti seu nariz fungando alguma coisa. A minha calça, a minha coxa. Ela olhou para mim e disse: você tá com um cheiro diferente, mamãe. Cheiro de Páscoa.