Suíte Tóquio
Capítulo 21
Agora sim, o banho está pronto. Testo a temperatura da água, mais pra morna, como a Picochuca gosta. Vem, digo pra ela, e vou tirando a roupinha. Assim que coloco seu corpo na água, ela começa a chorar. Tá doendo, Maju. Imagino que a dor seja nos calcanhares, vejo a pele vermelha debaixo d’água, ela saltitando, tentando tirar os pés dali, como se a banheira ainda estivesse com fogo. Sei que tá doendo, mas vai passar, falo. Ela tenta sair do banho, mas penso no dia que tivemos, na quantidade de germes grudados nessa criança, e seguro seus bracinhos. Logo vejo que não devia ter forçado a Picochuca. Não agora, neste lugar. Ela fica nervosa e começa a chorar mais forte. A falar: eu quero a minha mãe. É a primeira vez que ela diz isso desde que partimos, me entristeço e também me preocupo, vai que alguém escuta. Digo: calma, Ana. Eu não sou Ana, eu sou a Cora e quero a minha mãe, agora grita com aquela força que só nasce da raiva, e com essa mesma força sai da banheira. Eu pego a toalha pra enrolar seu corpinho, não dá pra ficar pelada nessa friagem, mas ela não quer saber de mim, parece possuída, vai correndo em direção à cama e agora sou eu que grito: para, Cora, não vai deitar com a pepeca de fora nessa colcha imunda. Ela não dá bola. Corro na frente, puxo rápido o cetim antes que ela deite, e quando faço isso, a bolsa que estava em cima da cama voa e bate contra a parede.
Estava aberta, a minha bolsa. Eu escuto. Antes de virar, já sei que a Nega quebrou. Conheço o barulho do barro seco espatifando, como espatifavam os vasos da fazenda. Só pode ter sido a Nega. Vou me aproximando, as coisas espalhadas pelo chão, as pérolas fajutas voaram longe, uma embaixo do meu pé. E perto, um pedaço do manto. Falo pra Picochuca sair dali, tem caco no tapete, vai cortar o pé. Ela sobe na cama, chorando. Eu me agacho, torcendo para o resto estar inteiro, minha Nossa Senhora, me ajude a não ter quebrado a Nossa Senhora, mas é só puxar a alça que vejo embaixo e atrás os pedaços, a cabeça para um lado, o manto para o outro, os pés não sei onde. Pego o rosto da Nega, seguro entre os dedos. Será que isso foi um sinal? Começo a pensar em tudo que aconteceu. A Cora tem a Bibi desde os dois anos e nunca tinha perdido a ovelha. Eu nunca tinha perdido um santo na vida, vim de Mandaguaçu com um Expedito dobrado dentro do sutiã, ainda ando com ele na carteira, mas hoje extraviei a imagem da Nega e depois quebrei a santa. Mesmo assim não ouvi. A minha Nossa Senhora teve que criar essa cena toda, esse escândalo da Cora, que bem parecia tomada por alguma outra força, pra chamar a minha atenção. O que você tá querendo me dizer?, pergunto, encarando o olho que sobrou. Você tá comigo? A resposta não vem. Não que eu esteja esperando um milagre, a Virgem aparecer num motel ou falar por uma boquinha de argila, mas surgir na minha cabeça, como já surgiu tantas vezes, quando sinto o sopro da Nega nos meus pensamentos. Mas nada, minha cachola é um branco. Meu Nosso Senhor, você tá comigo?, digo, e olho pra cima, e então vejo uma imagem estranha. Nem Jesus, nem a Nega, nem o teto, nem o céu. Vejo eu, a Nossa Senhora despedaçada e a Cora pelo espelho. E ao ver a gente, percebo que a Nossa Senhora e o Jesus Cristo estão falando comigo, porque perder o ônibus foi um sinal, perder a naninha e a Nega foi um sinal, ver o cachorro do tinhoso na estrada foi um sinal, a imagem quebrada foi um sinal e o espelho também é. Um jeito de virar a minha cabeça pra cima e abrir meus olhos para o que estou fazendo, de joelhos neste tapete imundo catando pedaços de uma santa, com uma filha que não é minha chorando pelada numa cama de motel.
Olhando para o reflexo dessa imagem toda errada, sinto meu coração bater. Um galope que vai acelerando quanto mais eu penso nas coisas. É uma sensação estranha, porque tento me acalmar, mas o peito não para. Como se tivesse vida própria. Me preocupo, nunca senti isso antes, será que vou ter um treco? Só de pensar nisso, meu coração dispara de vez, meu corpo sai do controle. Não consigo mais pensar em linha reta. Na verdade não consigo pensar, só sentir, as mãos aguando, os dedos formigando, uma onda de calor subindo do peito pra cabeça e levando embora o meu ar. Será que estou tendo um ataque cardíaco? Eu tive um patrão que morreu de ataque cardíaco. Quem vai cuidar dessa menina? Pensar isso me deixa pior ainda. Meu coração bate tanto tanto tanto tanto que parece que o meu corpo é só ele. Não tenho mais dúvida, vou morrer. Começo a rezar. Seguro com força a cabeça da Nega, meus olhos fechados, não me deixe ir, minha Nossa Senhora, não agora. E acreditando que sou ouvida, que minha fé pode me salvar, sinto meu coração desacelerar um pouco. Ainda corre, mas parece que menos, com certeza menos, o ar voltando, voltando.
Abro os olhos devagar. É a vida? Graças a Deus é a vida, toda torta, mas a vida. A Cora me olhando assustada, meu dedo sangrando de tanto apertar o cocuruto afiado da Nega. Só agora percebo que esse tempo todo eu estava de joelhos. Solto o corpo, desabo no chão. Começo a chorar de alívio. A Cora chega perto de mim. Me dá um abraço e diz: não chora. Você pode me chamar de Ana se quiser, eu não vou ficar brava.
Sento a Picochuca no meu colo, depois de tudo que passei, como é bom sentir o cheiro de cabeça de criança, o cheiro da cabeça desta criança. As lágrimas seguem descendo, parece que vêm pra limpar a minha vidraça, agora posso sentir até o sopro da Nega, uma clareza que eu mesma sozinha não tenho. Percebo o tamanho da intervenção divina que acabou de acontecer comigo. Depois de me mandar todos aqueles sinais e me obrigar a ver do alto o que eu estava fazendo, a Providência mandou a grande mensagem. Porque claro que não é normal uma pessoa ter uma crise do coração que não dá em nada. Onde é que já se viu sentir tudo aquilo, ir pra perto da morte e depois ser devolvida? Aquilo foi Deus interferindo pra eu perceber o que vai acontecer se eu morrer. Especialmente depois de fazer os documentos. Não tenho família, não tenho viço pra dar padrasto pra Cora, não tenho mais óvulo pra dar irmão. Se eu abotoo o paletó, ela vai parar num orfanato ou acabar sendo sirigaita ou doméstica de alguém. Vai ser uma mulher num casulo. Um bicho-da-seda que pode secar dentro da casca que ninguém vai perceber. É isso que você quer pra essa menina, que ela seja que nem…, penso, e olho pra cima, pra minha piaçava atiçada pelo suor. Se a Cora ainda fosse um bebê que eu peguei na rua que nem o filho da Neide, mas não, ela tem família, e uma gente que vai dar pra ela tudo que eu nunca vou poder. Por que você não pensou nisso antes, jeca de Deus? Porque foi tudo muito rápido, respondo em voz alta, e começo a chorar de novo. A Cora limpa meu rosto. Para com isso, Maju. Você já tem quarenta e quatro anos, já é uma adolescente, diz, usando a frase que sua prima disse uma vez para falar do irmão. Penso nos parentes dela, na árvore que estou cortando com uma machadada, e isso só me confirma o que devo fazer.
Levanto, digo que ela não precisa mais tomar banho. Vou até a pia, molho a toalha do Espigão. Passo no corpo de Cora. Visto a roupa nela, e pra dar uma sensação de limpeza, penteio bem os seus cabelos. Depois abaixo a luz do quarto, acomodo ela na cama, um travesseiro embaixo da cabeça, a naninha nos braços. Ela me pede um cafuné, ela me pede isso toda noite. Devia estar cansada, porque é só eu tocar os cabelos que pega no sono.
Melhor assim, penso. Não quero que ela me veja desesperada desse jeito. O que passou foi ruim, mas vem mais pela frente. Já entendi o que devo fazer, mas como? Peço por mais uma iluminação, nada acontece, só escuto a televisão baixinho. Me dou conta de que a Providência já fez sua parte, salvar a menina, agora pouco importa o que vai acontecer comigo. Ando pelo quarto, procuro uma janela. Quando estava com algum problema na cabeça, gostava de me debruçar na abertura do casulo, mas aqui não tem um único buraco, nunca vi uma coisa dessas. Paro pra olhar o celular. São dez e meia da noite, a tela com alertas de mensagem, ligações não atendidas. Resolvo não ler nem ouvir nada, tenho medo de que o aparelho me localize, diga onde estou.
Sinto raiva da dona Fernanda, se não fosse ela nada disso teria acontecido, eu agora estaria no meu casulo lendo o livro da Nora, a Picochuca dormindo tranquila com a Bibi no quarto dela. Tudo bem que eu não precisava ter orelhado a conversa, mas quem resiste a uma porta meio aberta? Eu estava saindo do quarto da Cora quando ouvi o meu nome, vindo da suíte. Virei para o roupeiro do corredor e fiz que estava arrumando os lençóis, enquanto ouvia a conversa do seu Cacá e da dona Fernanda. Eu sabia que ela estava brava comigo. Um dia antes, a Cora teve uma festa de aniversário depois da escola e eu disse que não podia acompanhar, era meu dia de visita íntima. O Lauro já tinha me abandonado, eu não ia fazer amor fértil com ninguém, mas tinha marcado pé e mão com uma manicure que atendia em casa, que vinha de longe, não ia deixar a coitada dar com a cara na porta. E nem perder os trinta e cinco reais. A Val cobrava pouco, mas se desmarcasse em cima da hora, tinha que pagar do mesmo jeito. Então fui firme, se eu não dormir em casa hoje, meu marido vai me matar. A dona Fernanda botou a mão na cintura. Tenho que acompanhar uma filmagem, como vou fazer? Fiquei quieta, a outra funcionária, que podia quebrar esse galho, já tinha ido embora e o seu Cacá tinha ido entregar uns terrários numa festa de casamento, eu não tinha o que sugerir. Lembro que nessa hora ela olhou o celular e suspirou, seus olhos se encheram de água. Achei estranho, a dona Fernanda sempre foi tão forte, nunca tinha visto ela se abalar desse jeito por causa de trabalho. Mas não quis nem saber qual era o problema, peguei minha bolsa e me mandei antes que ela resolvesse me amarrar na Suíte Tóquio.
No dia seguinte de manhã, a conversa no quarto deles. Eu já devia ter desconfiado que tinha alguma coisa de errado, porque a minha patroa estava transtornada, a filmagem devia ter sido péssima, parecia que ela tinha sido atropelada enquanto dormia, os olhos inchados, o robe todo torto, um seio quase pulando pra fora. Também não me deu bom-dia, estava com raiva de mim. No corredor, escutei ela dizendo que ia me mandar embora. O seu Cacá falou pra ela ter calma, eu não tinha feito nada de errado, foi ela mesma quem inventou aquele negócio de visita íntima. A dona Fernanda falou que era verdade, ela que tinha inventado, mas não tinha dado certo, precisava de alguém com quem pudesse contar todo dia. O seu Cacá sugeriu que ela falasse comigo, quem sabe eu não ficava direto. Acho que nessa hora a dona Fernanda andou pelo quarto, porque não ouvi direito o que ela disse, só escutei o seu Cacá pedindo pra ela esfriar a cabeça antes de tomar a decisão.
Não era nada certo, mas eu entrei em pânico. Larguei os lençóis de qualquer jeito no roupeiro e fui para o casulo. Pensei no salário. É no que a gente pensa. Mas não era a primeira vez que eu ia ser mandada embora, dá-se um jeito. O problema era a Cora, eu nunca mais ia ver a minha Picochuca? Eu já tinha passado por isso com outra criança, o Totô da dona Natália. Essa me mandou embora porque separou e ficou na rua da amargura, não tinha dinheiro nem pra comprar papel higiênico folha dupla, imagine pagar uma babá. Eu era louca pelo Totô, o Totô era louco por mim. Ficou combinado que eu ia voltar pra visitar o menino. Na primeira vez, o pitoco pulou no meu pescoço, a dona Natália fez sala pra mim. Seis meses depois apareci com um presente, tinha sido aniversário de três anos do Totô. Ele não me reconheceu. Pegou o helicóptero que eu dei e foi correndo para o quarto, a Natália incomodada com a minha presença, apressada pra fazer alguma outra coisa. Tomei logo minha água e fui embora, o danadinho não quis nem me dar tchau. Então a dona Fernanda que não viesse com aquele papo de a casa vai estar sempre aberta pra você que não colava, vai ver se tem outra trouxa na esquina. E o que é uma visita quando a gente quer estar com alguém o tempo todo? Eu tinha me afeiçoado à Cora de um jeito que nunca tinha me afeiçoado a outra criança. Naquele dia, fui até a janela do casulo, olhei pra fora. Pensei que aquele amor proibido de bebê e babá também era culpa da dona Fernanda. Ela tinha deixado a filha no cantinho da vida, e lá no cantinho da vida tinha eu.