Suíte Tóquio

Giovana Madalosso · Capítulo 28 de 38

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Suíte Tóquio

Capítulo 28

 

Chegamos em casa. Cacá diz para eu tomar um comprimido, mas nem precisava. É a primeira coisa que faço, depois de revirar rápido a minha gaveta. Que alívio me dá sentir o plástico da cartela estalar, o comprimido derreter debaixo da língua. Penso em tomar dois, mas mudo de ideia, ficaria chapada demais e agora não posso, preciso estar atenta.

Volto para a sala e encontro meu marido no telefone. Pela conversa deduzo que uma mãe do grupo viu a mensagem e se desesperou, resolveu nos ligar para saber o que está acontecendo. Não estou ouvindo, mas sinto sua curiosidade mórbida através das respostas detalhadas do Cacá. Meu celular também tem perguntas. Da minha irmã, da Yara. Respondo de forma breve, estou com pressa, quero passar as informações que a polícia pediu. Abro meu computador, procuro pelo registro da Maju. Encontro o nome, CPF, RG, data e local de nascimento. Mandaguaçu, não Mandaguari. Depois procuro o endereço dela, o delegado ressaltou que seria bom encontrar o endereço, mas não acho. Também busco por ela nas redes sociais. Seu único perfil não tem informações nem postagens recentes.

Em seguida vou para o seu quarto, quem sabe lá ache algo relevante. Entro, acendo a luz. É tão raro eu pisar na Suíte Tóquio, a última vez deve ter sido quando acabei a reforma. Foi um trabalho bem pensado. Para o banheiro ganhar espaço, trouxemos a pia para dentro do quarto, como fazem os franceses. É a pia que olho primeiro, e lá encontro um pedaço minúsculo de sabonete. Bem a cara da Maju, usar tudo até o fim. A escova de dentes não está aqui, mas acho normal, saíram para almoçar no clube, a Maju deve ter levado. É neurótica com a limpeza dos dentes. Em seguida, viro para o armário, por um segundo imagino que possa estar vazio, que ela levou consigo todas as suas coisas. É um pensamento estranho, não acredito que ela tenha fugido com a minha filha, está tentando engravidar, por que ela e o marido ficariam com uma criança que não é deles? Sem falar que se ela fosse maluca de fazer isso, já teria feito. Mas agora tudo que é absurdo passa pela minha cabeça. Tanto que abro o armário com medo. E de fato tomo um susto. Não porque esteja vazio, mas porque está cheio demais. Meu corpo se contrai ao ver o volume grande e escuro que logo reconheço ser a nossa árvore de Natal. Um pinheiro semidesmontado que não coube no meu closet, não coube em lugar nenhum e acabou vindo para cá. Ainda que o trambolho não seja dos maiores, Cacá optou por um modelo slim, preenche quase todo o armário de uma porta. No cantinho sobra espaço para apenas três cabides, ocupados por camisas brancas. Ainda há as gavetas. Na primeira tem calças. Na segunda, calcinhas desbeiçadas, um pijama que era meu, agora completamente desbotado. Acho curioso, ela que é tão caprichosa, que ganha um salário tão bom, ter um vestuário tão roto. Talvez seja a pobreza, essa marca que nunca sai de ninguém, não importa quanto a borracha do dinheiro tente apagá-la. Abro a terceira e última gaveta, torcendo para encontrar algum documento, quem sabe um boleto com o endereço da Maju. Surpreendo-me ao dar com uma coleção de amenidades de lugares que frequentamos. Guardanapos do Starbucks, fósforos do Riviera, hashis do Sushi Cute. Por que diabos um ser humano ocidental precisa de tantos hashis? Não sei nem quero saber. Fecho a gaveta e o armário. Olho em volta, mas não há mais nenhum móvel nessa suíte além da cama. Curvo-me e lá embaixo só encontro um par de chinelos com a sola fina de tanto uso. Lembro da minha bisavó, das pessoas que costumavam guardar dinheiro debaixo do colchão. Levanto a ponta do Ortosono. Sobre o estrado, vejo uma profusão de livros. Dispostos lado a lado, decerto para não fazer volume. Pego um deles. O cretino irresistível, Coleção Paixões Picantes. Por um segundo esqueço a desgraça em que estou metida e sorrio. Mas é só por um segundo, ou um milésimo de segundo. Depois devolvo o livro para o lugar, levanto os outros à procura de algum papel que não tenha caráter fictício. Não encontrando nada, vou para o banheiro. Acho outro sabonete gasto, esse com um fio de cabelo, um frasco de xampu quase vazio.

Saio da Suíte Tóquio, passo pela sala. Cacá me intercepta, perguntando se achei alguma coisa. Digo que não, que vou dar uma olhada nos outros cômodos. Entro no banheiro. Vejo o banquinho que Cora usa para alcançar a pia. O copo em que guarda a escova de dentes. Está vazio, mas, de novo, isso não me parece indício de nada. Em seguida vou para o quarto dela, acendo a luz. Lá está o universo singelo da minha criança. O papel de parede com bandeirolas coloridas, o lustre em forma de nuvem. A mesinha que o Cacá pintou porque não conseguiu achar nenhuma com a cor igual à das bandeirolas. Desvio das cadeirinhas, caminho até o armário. Cacá aparece. Vamos ver se elas levaram as coisas da natação. Avança na minha frente, abre a porta. Sabe exatamente em qual gaveta estão. A quantidade de maiôs e biquínis da Cora é tão grande que não fazemos ideia se está faltando um. Com os óculos de natação, quase a mesma coisa. Às vezes esquecemos de levar nas viagens e compramos um novo, devem ser três ou quatro, quem tem certeza? Mas a touca com a logomarca do clube é única. E está aqui. Terão esquecido? Ou não foram para a natação? Lembro da mochila da escola, vamos ver se levaram. Começamos a vasculhar o armário em busca da Kipling com um macaquinho no chaveiro. Não encontramos. Touca presente e mochila ausente compõem uma informação ambígua. Mesmo assim, Cacá manda uma mensagem para a polícia.

Enquanto isso, sigo andando pelo quarto, não consigo ficar parada. Resolvo abrir os gavetões que guardam os brinquedos. Lembro de ter planejado esses gavetões, de ter etiquetado: bonecas, instrumentos, animais, jogos, carrinhos, massinha, outros. Um plano talhado para o fracasso. Crianças juntam cacarecos demais, babás não têm tempo para diferenciar um quebra-cabeça de um tangram, mães menos ainda, não há nada mais distante da vida do que a idealização da vida. Abro o gavetão classificado como “outros”. Encontro dezenas de pequenos objetos, itens que não se encaixam nos demais compartimentos ou dos quais minha filha reluta em se desfazer, como tampinhas, frutas de plástico, medalhas, braço mutilado de boneca, penas de uma velha peteca, tocos de giz de cera, sapatos de meio centímetro, fichas, balões murchos, pedaços de argila seca, um palmo de coisinhas soterradas umas sob as outras como restos de um tornado em Lilliput, onde agora afundo a minha mão, uma escavadeira trazendo à tona mais um monte de quinquilharias. Olho para tudo como um detetive perdido e desolado, observo um apito, um fantoche de papel cuja sustentação é um hashi. Giro o hashi entre os dedos. Descolo o desenho, dobro e guardo no bolso, se não como uma pista, como um amuleto. Depois sigo abrindo gavetas, revirando brinquedos, atirando chocalho, tambor e pianinho pelos ares. Cacá pergunta o que estou fazendo. Digo que não sei, e me sentindo pequena como minha filha, resolvo ligar para a minha mãe.

Nunca me dei muito bem com ela, mas de repente quero ouvir a sua voz. Aquele timbre de quem fumou e bebeu mais do que deveria. Aqueles conselhos inconsequentes que servem mais como indicação do que não fazer. Mesmo assim, ligo. Ela atende no viva-voz. Fala que já ia me ligar. Está com a minha irmã, acabaram de pegar a estrada, ansiosas por saber o que está acontecendo. Conto sobre a visita à polícia. Explico que estamos esperando notícias de outras delegacias, de hospitais. Minha mãe começa a lembrar uma história do meu pai, que uma vez sumiu por quase vinte e quatro horas, tendo sido localizado entre os indigentes de um hospital público depois de um coma alcoólico e de uma jogatina que o fez perder até a roupa. Ela conta detalhes. Minha irmã a repreende, a neta desaparecida, onde já se viu ficar de papo-furado numa hora dessas? As duas se põem a discutir. Eu fico ouvindo. Suas vozes são como um ruído branco, há quarenta e quatro anos escuto as duas discutindo. A típica relação mãe e filha, uma reclamando da outra, se frustrando com a outra, às vezes sentindo inveja da outra. E apesar de tudo, juntas. Os relacionamentos amorosos vão, a lua de mel com o filho homem esfria, mas mãe e filha seguem enganchadas, trocando farpas até o último suspiro, na relação mais difícil mas talvez mais bonita de todas. Eu mordo os lábios, não é o tipo de pensamento que queria ter agora. Elas me chamam: Nanda, você tá aí? Digo que sim, enquanto vou me abaixando e abraçando os joelhos.