Suíte Tóquio
Capítulo 22
Não sofri muito para resolver. Era melhor não ir. Eu ficaria de lado, um satélite em torno das mato-grossenses que se conheciam havia anos. E lambendo o saco da poeta. Bela capa, belos versos, me dá um autógrafo? E todo esse desconforto para quê, só para mijar no meu território, coisa que nem adiantava com a Yara, e ainda aumentar o álbum de imagens flertativas que já estava me incomodando tanto? Valia mais a pena ficar em casa com duas rodelas de pepino nos mamilos e entrar em ação quando Violeta partisse.
Outra vantagem de não ir era dispensar a Maju, eu estava irritada porque ela havia me deixado na mão, não conseguia nem olhar para ela. Falei que podia ir embora, eu ia tirar a tarde e a noite para fazer algo com meu marido e minha filha. Posto isso, fomos para o nosso programa: passear no shopping. Eu não sei o que a humanidade fez para acabar assim. Depois de passar por tantas guerras, sobreviver a tantas epidemias, inventar a penicilina e o avião, atingimos o nosso ápice civilizatório caminhando por corredores estreitos e desviando de cotovelos para ver roupas em liquidação. Não era o que eu queria fazer, mas era o que Cora queria, e num sábado à tarde o voto de uma criança vale mais que o de um adulto. Além do mais, Cacá também queria ir, precisava comprar sei lá o quê. Ou essa foi apenas uma desculpa que inventou para fazer o programa mais próximo, com mais ar-condicionado e estacionamento.
Logo que chegamos, vimos um cachorro. Um pug com uma roupa estranha — só o fato de um cachorro usar roupa eu já acho estranho, mas esse ia além —, uma saia de babados vermelhos e dourados. Cora adora cachorros, agachou-se para agradar o au-au. A dona, orgulhosa, contou: tá de rumbeira, explicando depois que seu pet participaria de um concurso de fantasias no átrio do shopping. Cora deu um grito de felicidade. Olhei para Cacá e através da telepatia desenvolvida pela convivência concordamos que o concurso seria uma roubada mas não poderíamos negar esse prazer para a nossa filha.
No átrio, descobri que não era só ela e meia dúzia de pessoas que achavam aquele concurso interessante. As cadeiras em volta do palco já estavam quase todas ocupadas, demoramos um pouco para encontrar três lugares vagos. Bem na nossa frente, estava uma amiga da Cora. As duas sentaram juntas. Eu, Cacá e a mãe da menina ficamos na fila de trás. Que sorte ela ter sentado ao lado do meu marido, porque além de eu não estar com cabeça para conversa, não estava com cabeça para a conversa dela. Era uma mãe holística, dessas que assam o próprio pão, espremem as frutas para o suco orgânico, improvisam brinquedos de madeira reflorestada e sem querer instituem um padrão de exigência tão alto para a maternidade que provocam um retrocesso. Para dar conta de ser tão perfeita, só abdicando da vida profissional e voltando para casa, amarrando-se voluntariamente ao pé do fogão. Enquanto ela contava que estava tentando fazer terrários em casa junto com a filha, meu celular vibrou. Vamos pro lançamento? A gente tá acabando de se arrumar, saímos daqui a pouco.
Gostei que Yara me escreveu, mas contar que estavam se arrumando pôs em funcionamento a minha ilha de edição.
CENA 1 — QUARTO DA YARA — DIA
Yara está de peitos de fora, vestindo a calça para sair. Violeta
se aproxima com a ponta de um baseado. Coloca na boca de
Yara. Enquanto ela traga, seus corpos se roçam, os mamilos
de Yara endurecem.
CENA 2 — QUARTO DA YARA — DIA
Violeta põe um vestido. Pede para Yara fechar o zíper nas
costas. Yara se aproxima, olha para a abertura do vestido, que
deixa ver a coluna e o começo da bunda. Yara ajoelha-se e
puxa o vestido para baixo.
Quando voltei a mim, a mãe holística falava sobre fermentação natural. Eu também fermentava, não só de ciúmes mas de tesão. Imaginar as duas tinha me deixado molhada, e não sei por que estar molhada às dez para as seis da tarde num shopping center parecia um crime. Fiquei tão desconcertada com meu corpo e minha incapacidade de conversar que resolvi ir ao banheiro e dar uma espairecida. Mas não ter o Cacá e a mãe holística para me trazer para a realidade foi pior. Segui pensando na Yara e na Violeta enquanto entrava na cabine e tentava fazer um pouco de xixi. Ali me ocorreu que o botão ficava no meio das minhas pernas, talvez apertá-lo pudesse me desligar. A única vez que eu tinha me masturbado num lugar público fora no banheiro de um avião, num voo para Tóquio, quando eu não sabia mais o que fazer com as mãos. Levantei e me encostei contra a parede da cabine. Comecei a pensar na Yara e a me tocar. Devia ter fila, porque num certo momento alguém se incomodou com a minha demora e perguntou: tá tudo bem aí? Lembro que pensei: puta que pariu, não dá nem pra se masturbar em paz no banheiro de um shopping, e disse que sim, estava tudo ótimo. Depois continuei me tocando até gozar ao som de descargas e torneiras.
Saí do banheiro como quem não queria nada e voltei para a plateia. O concurso já estava começando, a apresentadora agradecia aos patrocinadores e explicava os critérios da premiação. Sentei-me, aliviada pelo orgasmo mas também tomada por aquela incompletude que vem depois. Não acho que sejamos incompletos, somos inteiros ainda que precários, mas que a melancolia pós-orgasmática da dissolução existe, disso eu não tenho dúvida, porque era o que eu estava sentindo depois de ter me fundido e fodido, mesmo que apenas mentalmente, a Yara. Talvez essa leve tristeza também fosse agravada pela conclusão, cada vez mais concreta, de que eu nunca teria aquela mulher. De que ela me escaparia nas suas viagens, paixões paralelas, aventuras das quais nunca abriria mão. E era justamente isso, sua natureza livre, que me dava tanto tesão. Que paradoxalmente me amarrava a ela. E eu, era quem? Naquele momento uma mulher que assistia a um concurso de fantasias de cachorros.
O primeiro candidato a entrar na passarela foi um vira-lata de tamanho mediano com um chapéu de caubói e uma cartucheira amarrada à barriga, puxado por uma adolescente. O público aplaudiu, Cora chegou a gritar, gostei de vê-la vibrando. Em seguida, apareceu um candidato minúsculo, talvez fosse um recém-nascido, vestido com uma camiseta do Super-Homem e coberto por uma capa vermelha. O herói assustou-se com a plateia, empacou na entrada do palco, sua dona puxou-o pela coleira, inutilmente. Teve que pegar o cãozinho no colo e mesmo assim, e talvez por isso, ganhou uma salva de palmas. Depois foi a vez de um cachorro vestido de astronauta, acompanhado de um garoto vestido de astronauta. Foram ovacionados por causa da perfeição dos trajes, ambos usavam macacões, capacetes e adesivos da Nasa. Na sequência um cachorro com chapéu e nariz de palhaço, e atrás dele a nossa já conhecida rumbeira. E então um vira-lata pequeno, arredio, com uma peruca preta topetuda e um blazer branco cravejado de pedras coloridas. Não sei exatamente por quê, o cachorro vestido de Elvis me fez chorar. Um choro provocado pela tristeza subliminar que havia naquele concurso mas também cheio de outras coisas, como sempre são os choros, corredeiras que levam tudo junto.
Não consegui me conter. Ou talvez não quisesse. Deixei que as lágrimas escorressem pelo canto do meu rosto, Cora estava distraída demais para vê-las. Mas Cacá percebeu e me olhou com pena. Para minha surpresa, disse: vai passar, e colocou o braço em volta do meu ombro. Naquele momento, tive a sensação de que ele sabia da Yara, de que tinha me ouvido dizer “eu te amo” no celular, de que tinha lido os tantos sinais que eu acabara por deixar transparecer. E mesmo desconfiando, teve a inteligência de não me pôr contra a parede — de que adiantaria? Senti amor pelo meu marido, um amor que não sentia havia tempos. Aninhei-me a ele. E lamentei os mecanismos do casamento, as dinâmicas que induzem mas também desgastam o amor. Ou seria apenas o tempo, a erosão inevitável do tempo? Eu não tinha a menor ideia, porque ainda que fizesse documentários ou terapias ou pensasse sobre o amor, nunca havia chegado perto de dissecá-lo. Para mim o que gerava e regia o amor era algo inexplicável, como a orquestração que leva as aves a voarem em bando formando desenhos. Lá estavam todos os elementos que um dia me atraíram no Cacá: seu bom humor, seu companheirismo, sua capacidade de falar sobre qualquer assunto, mas os predicados não voavam mais em harmonia, não formavam mais desenho algum. Não me diziam nada. E que pena que não diziam, porque para mim seria mais fácil seguir amando o pai da minha filha do que amar outra pessoa. Mas era Yara que eu queria e foi nela que pensei quando vi alguém tentar colocar um troféu na pata de um astronauta que veio do lobo.