Suíte Tóquio
Capítulo 27
Não dá um minuto de silêncio, ele pergunta meu nome. Maju, respondo. Depois fico pensando se devia ter dito a verdade. E o teu? Ednardo. Eu já ouvi esse nome na boca do Lauro. Ednardo que nem o cantor? Exatamente, ele responde, e sorri orgulhoso, como se o cantor fosse ele. Depois aponta para a foto no painel. Conta que a mãe era fã do Ednardo. Estico o pescoço pra olhar melhor a foto. Ele descola do painel, põe na minha mão. Comento que a mãe é bonita. Ele sorri orgulhoso de novo, todo mundo me diz isso. Em seguida reencaixa a foto. Me conta que ela se chamava Samara. Morreu quando ele tinha catorze anos. Conto que minha mãe morreu quando eu tinha cinco. Ele me olha com pena. Não diz nada, mas entendo o que pensa, de repente se sentiu felizardo, teve nove anos a mais pra conhecer a mãe dele. Mas também paga o preço de ter amado, o amor sempre cobra um preço tão alto, está na cara que sofre mais a perda do que eu. Tanto que segue no assunto. Me conta que ela adorava a música Pavão Mysteriozo, você conhece? Digo que sim e é verdade, a memória surge na minha cabeça, lembro do Lauro na sala com o pano de prato no ombro cantando o refrão. Ele me conta que essa era a música preferida da mãe, uma época estendia até roupa no varal escutando, fez uma extensão para o aparelho de som chegar no quintal. Viro, percebo que ele está com a boca seca e os olhos cheios de lágrimas. Ele toma um gole d’água. Conta que quando a mãe estava morrendo, prometeu pra ela que escutaria a música todo dia, pelo resto da vida, em sua homenagem. E assim foi, durante anos, ouvindo todo santo dia, não importava onde ou com quem estivesse. Até que num certo sábado foi preso. Arregalo os olhos, agora que estava me acalmando ele vem com essa? Para meu alívio, ele logo explica que não fez nada de errado. Atravessou muamba sem saber que era muamba de Palotina pra Guarapuava, uma carga de nove tevês sem nota no meio dos eletrodomésticos. Dou uma bisolhada nele, parece que está sendo sincero. Ou sou eu que quero que ele esteja sendo sincero. O que dá na mesma. Retoma dizendo que foi pego de trouxa, tanto que ficou só uma noite em cana, o tempo de desbaratarem a quadrilha. E nessa noite surgiu o problema, como é que ia fazer pra ouvir Pavão Mysteriozo? A delegacia era pequena, a ala dos presos tinha só um corredor com três celas. Ficou na primeira, com um homem estranho, acocorado o tempo todo. Uns minutos depois de ir pra jaula, chamou o carcereiro, disse que precisava pedir uma coisa. Estava com vergonha de contar o pedido em voz alta, pediu que se aproximasse dele. O carcereiro disse que nem a pau, o último funcionário que se achegou de um preso naquela delegacia quase foi estrangulado através das grades. Se quisesse falar, que fosse de longe mesmo. Ednardo limpou a garganta e explicou o que prometera pra sua mãe, será que o carcereiro não podia arranjar um aparelho de som ou um celular, um jeito de tocar a música pra ele? O carcereiro ficou alguns segundos em silêncio. Depois estourou numa gargalhada e disse: larga mão de ser viado, rapaz! Nesse instante, o Ednardo ouviu outras gargalhadas, assobios, vozes gritando: viadinho. Não imaginava que tinha tanta gente nas celas vizinhas, como foi colocado na primeira, não tinha passado pelas outras. Calou-se e ali ficou, quieto como o acocorado. Já era tarde da noite e ele não tinha mais esperança de ser solto naquele dia, tanto que se desculpou com a mãe, dizendo pra ela que já tinha feito muita coisa errada e ela era testemunha, mas das tevês não sabia, nem que terminaria a noite ali, sem escova de dente e pavão. Depois tentou dormir, mas o colchão de molas gemia mais que um doente. Além disso, Ednardo sempre virava a noite dirigindo, não estava acostumado a pregar o olho àquela hora. E que bom que não pregou, porque um tempo depois, quando a delegacia estava em silêncio, quando devia ser perto da meia-noite, ouviu uma voz. Vinha de uma das celas ao lado. Aguda, afinada, cantando as primeiras palavras. Pavão misterioso, pássaro formoso… Ficou com medo de que fosse uma tiração de sarro, mas a voz continuou: tudo é mistério nesse teu voar…, e assim seguiu, verso a verso, pausa a pausa, afinada até o final, eles são muitos, mas não podem voar. Ednardo achou que o preso ia ser vaiado, mas não, ninguém deu um pio, nem mesmo o carcereiro. No dia seguinte ele foi solto, sem nunca saber como é o rosto do homem que cantou pra ele. Vejo que os olhos do Ednardo aguaram de novo. A história também me arrepiou. Ou arrupiou, como diria minha vó, que nem gostava de música mas me aparece na cachola, puxada pelos mistérios do pavão. Chego a pensar se a história é verdade, mas por que ele inventaria isso? Como não sei o que falar, digo que conheço a música. Que é muito bonita. Ô se é, ele diz. Depois olha nos retrovisores e continua, dizendo que não sabe se é só com essa letra ou com outras, porque as outras ele não escuta nem canta sempre, mas é muito curioso como cada dia ou cada época que ele ouve, a música ganha um significado diferente. Como a estrada, que nunca é a mesma, não importa quantas vezes você passe por ela. Na noite em que estava preso, era da prisão que a letra falava. Meu pássaro formoso, no escuro dessa noite me ajuda a cantar. Derrama essas faíscas, despeja esse trovão, desmancha isso tudo que não é certo não, ele cantarola. E eu penso que não, o pavão fala é da Cora, de todo o errado que precisa ser desmanchado o quanto antes. Não sei se é de tanto falar ou cantarolar ou o quê, mas a boca do Ednardo fica seca de novo. Eu sei porque os lábios dele grudam na gengiva, ele pega a garrafa d’água. Depois me oferece um pouco. Estou morta de sede, mas aguento, essa loucura de germes e bactérias, por Deus que eu não queria ser assim.
Um posto aparece. O Ednardo pergunta se estou com fome. Digo que não, nunca daria a ele o trabalho de parar por minha causa. Além de nem estar sentindo muita fome. Nunca sinto quando estou nervosa desse jeito. Ele diz que deu uma banguela no almoço, também não está com fome, mas precisa comer alguma coisa pra seguir de pé. Depois vai freando, entra no posto. Estaciona. Pergunta se vou descer. Até quero, mas não dá. Teria que levar comigo a Picochuca e não posso correr o risco de acordar a menina. Deixar a Cora sozinha no caminhão, nem pensar. O medo que eu tenho de asfixia com as janelas fechadas. O medo que eu tenho de roubo com as janelas abertas. O medo que eu tenho do Ednardo me deixar e partir com ela. O jeito é ficar na cabine. Peço pra ele me comprar água e uma coxinha. Tiro o cascalho do sutiã, boto na mão dele uma nota de vinte. Ele diz que já volta e bate aquela portona pesada.
Me dou conta de que tenho uma chance de ouro. A chance de ver se esse homem é de confiança. Se posso seguir tranquila até São Paulo. Espero ele entrar na lanchonete. Abro o porta-luvas, minha mão tremendo porque não sou de fazer esse tipo de coisa, em quase trinta anos trabalhando em casa de família nunca fuxiquei uma gaveta. Mas hoje não é um dia qualquer. Mexo lá dentro, encontro mais remédios, um pacote de camisinha, um CD com uma pluma azul e bege na capa. E a carteira de trabalho. Abro, vejo a foto. Ele mais novo, mais bonito ainda. Viro a página sentindo um frio na barriga, já pensou se o nome dele é José Carlos, vou ter que sair correndo em fuga com a Cora? Mas ele se chama Ednardo mesmo. Ednardo Pereira de Souza. Filho de Maria Samara Alves Pereira e Rogério de Souza. Viro as páginas, faço o que aprendi com minhas patroas, verificar se a pessoa dura nos empregos, mas antes que eu ache a data de admissão, vejo o Ednardo voltando. Fecho rápido o porta-luvas, ele cada vez mais perto, com duas garrafonas d’água, um saco de papel na outra mão. Abre a porta. Me entrega uma Minalba e duas coxinhas, diz que a outra é pra menina. Conto pra ele que criança dessa idade, quando dorme, demora a acordar. Mas obrigada, quando ela acordar é bom que tenha o que comer. Ele também trouxe uma coxinha pra ele, come em duas mordidas. Limpa a boca com as costas da mão. Será que só comeu isso? Acho estranho um homem tão grande comer tão pouco, lembro do Lauro, era uma retroescavadeira, mas claro que não comento nada. Como falava a minha vó, carona não pia. Ainda mais de boca cheia, mastigando. Quando acabo, estou com tanta sede que bebo quase um litro d’água. O Ednardo engole mais um comprimido e toma a Minalba dele.