Suíte Tóquio

Giovana Madalosso · Capítulo 24 de 38

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Suíte Tóquio

Capítulo 24

 

Perto da meia-noite, o telefone toca. É a minha irmã, ligando do sítio. Não sei por quê, sinto que algo está errado. Talvez pelo jeito demorado como diz meu nome. Ela conta que a Cora não está lá. E a mãe, não sabe dela? Minha irmã diz que não. Que estão preocupadas. Que vão fazer um lanche, descansar um pouco e pegar a estrada para São Paulo. Desligo, conto para o Cacá. Ele pega o celular e a carteira e diz: vamos pra delegacia. Nem troco de roupa. Saio de calça de moletom e chinelos, só levo a bolsa. Aperto o botão do elevador várias vezes. Entramos. A viagem do terceiro andar ao térreo nunca foi tão longa, a viagem do elevador ao carro nunca foi tão longa.

O Cacá dá partida, sai acelerando pela garagem. Digo: puta merda, o que pode ter acontecido? Boa coisa não foi, ele diz. Começamos a aventar teorias. Quando ele para, eu sigo sozinha.

Era um, o sacizinho.

Uma arma alguém sacou.

O sacizinho morreu

e não sobrou nenhum.

Era um, o sacizinho.

Para, Fernanda, sua idiota, digo para mim. Abro o vidro, respiro fundo. Ainda bem que a delegacia é perto. Logo estacionamos na avenida Angélica. Caminhamos depressa, entramos pelo portão do 14o DP. Tenho a sensação de que uma nova realidade, triste e talvez irreversível, se consolida a cada passo que dou. Cogito não passar pela porta, como se negar um fato o salvasse de existir, mas claro que não me prendo a essa bobagem e avanço.

Encostamos no guichê. Nossa filha sumiu. Um policial se vira para nós: tem quantos anos? Quatro, Cacá responde, mais rápido que eu. O homem franze a testa. Quatro é problema. Agora há pouco apareceu uma mãe dando queixa do desaparecimento da filha de vinte e dois anos. Vinte e dois geralmente não é problema. Mas, enfim, já vamos atender vocês, diz, e aponta para uma sala de espera com algumas cadeiras.

Eu não consigo sentar. Como alguém pode sentar numa situação dessas? Nem o monge do Cacá consegue, anda de um lado para outro, pega um copo d’água. O meu celular vibra, torço para ser uma mensagem da Maju. Dona Fernanda, viemos dormir na casa da fulaninha, desculpe avisar só agora. Mas é a Yara me mandando boa-noite e uma mordida na bunda. Tenho vontade de contar para ela o que está acontecendo. Não posso fazer isso na presença do Cacá, mas de repente tudo parece tão irrelevante: a crise do meu casamento, o meu marido, a própria Yara. Me afasto um pouco e falo rapidamente com ela. Depois volto para a sala.

O delegado nos chama. Antes de mais nada, pede que a gente dê os nossos dados para o escrivão. Assim como a viagem de elevador, meu nome parece um longo percurso, nunca me incomodou tanto soletrar as várias consoantes do meu sobrenome polonês. Eles também querem a identidade da Cora. Cacá diz que não temos. É a babá quem cuida da nossa filha a maior parte do tempo, leva com ela o RG, o cartão do plano de saúde. De qualquer forma, damos as informações sobre a Cora, nome e data de nascimento, aparência física. Mas na hora de falar da Maju, não sabemos tudo. Nem eu que a registrei lembro o seu nome completo, só sei que é Maria Júlia, cabelos castanhos, olhos castanhos, pele branca, estatura mediana, quarenta e quatro anos, a mesma idade que eu. O delegado diz que tudo bem, quando chegar em casa lhe envio o que falta. O mais importante agora é entender o caso.

Quem conta é o Cacá. Explica um pouco a rotina da Cora e da Maju, fala que nessa segunda não foi diferente, as duas saíram cedo, logo depois do café da manhã, para pegar um táxi no ponto e ir ao clube, onde a nossa filha faz natação. O delegado pergunta se vimos as duas saindo. Dizemos que não, mas que a outra empregada viu e nada lhe chamou a atenção, a não ser o fato de a babá estar carregando uma bolsa grande e um tupperware, coisa que não chega a ser estranha porque, além da toalha e de roupas para Cora, Maju costuma levar frutas picadas para o lanche. Tem também a naninha, que elas levaram, acrescento, contando que foi o que nos fez crer que as duas tinham viajado com minha mãe. O delegado quer saber se isso é incomum, levar a naninha. Dizemos que não tanto, quando Cora está manhosa deixamos que saia com a ovelha. Ele olha bem para o Cacá, já entendeu quem é quem na relação, e indaga se Maju é de confiança. Totalmente, Cacá responde, e eu assinto, acrescentando que ela está conosco há três anos. O delegado pergunta se sabemos qual foi o taxista que as levou para o clube. Respondemos que não, mas será fácil descobrir, algum conhecido do ponto. Depois pergunta se ligamos para o clube e para a escola, elas estiveram nesses lugares? Cacá diz que não ligamos, até pouco antes achávamos que elas estavam no sítio, viemos correndo para a delegacia, assim que soubemos que não tinham ido para lá. Em seguida, o delegado quer detalhes da nossa situação financeira. Conto em que bairro moramos, que temos um Renault. Ele pergunta se recebemos algum telefonema estranho, alguma ligação de número desconhecido. Digo que não. Ele olha para o relógio de parede. Diz que não deve ser sequestro. Além de não termos bens ostensivos, se fosse esse tipo de coisa os sequestradores já teriam entrado em contato. Mas claro que nunca se sabe, ainda mais num país de técnicas de extorsão tão criativas, tão variadas. Posto isso, nos orienta sobre o que fazer caso recebêssemos uma dessas ligações.

Em seguida, o delegado baixa os olhos para umas anotações ilegíveis que fez no papel na sua frente. Continua: e essa Maju, sabem se estava passando por algum aperto financeiro? Digo que não, não que eu saiba. E é difícil que esteja passando, recebe um salário excelente. Às vezes ela tem alguma dívida, um filho envolvido com drogas, ele sugere, e percebo que está indo no caminho errado, desconfiando de quem não tem que desconfiar. Cacá deve achar a mesma coisa, porque logo responde que Maju não tem filhos. Que é uma mulher bem-casada, está tentando engravidar, não tem por que se meter em confusão. O delegado pergunta sobre os funcionários do prédio. Cacá fala um pouco do Chico, do Aldo, também não acreditamos que eles possam estar envolvidos.

O delegado quer saber se temos algum palpite. Pode parecer ridículo, ele diz, mas às vezes a solução do caso está dentro das pessoas. O Cacá dá uma risada nervosa, fala que adoraria que a solução estivesse dentro dele. Eu digo que também não faço ideia, mas temo que se trate de assalto. E depositando em cima da mesa a minha angústia contida e recontida, pergunto: você acha que elas podem ter sido assassinadas? Pela primeira vez, ele me olha com pena. Eu entendo que sim, era possível que tivessem sido, e sinto vontade de ir ao banheiro. Seguro, não vou sair dali sem ouvir tudo. O que mais pode ser?, indago. Ele responde: um acidente, podem ter sido vítimas de uma batida e por algum motivo não acharam os documentos. Vítimas, Cacá repete, olhando para o nada, e tenho a sensação de que vai chorar, ponho a minha mão sobre a sua coxa. O delegado diz que também pode se tratar de um desaparecimento, um sumiço sem explicação. Pergunto se isso é comum. Ele afirma que mais do que a gente pensa. Não ouvimos falar tanto a respeito porque as mães de filhos desaparecidos costumam ter vergonha de expor suas histórias. São como as mães de crianças que morrem afogadas, acham que foram negligentes mesmo quando não foram, têm certeza de que a culpa é delas. Depois disso, ele pega mais alguns dados, entrega o boletim de ocorrência e diz para mantermos a calma. Vão colocar tudo no sistema, checar hospitais e delegacias, dentro de umas três horas já devem ter algum tipo de informação e ligam para nós.

Assim que saímos da sala, corro para o banheiro. Nem olho se o assento está limpo. Sento e, para minha surpresa, cago. Cago muito. Depois, ainda na privada, olho o celular. As mensagens da Maju, que eu tanto ignorei nos últimos anos, agora são as que mais espero. Mando para ela: kd vc? kd vc? kd vc?, mesmo sem ter muita esperança de que responda.

Ao sair do banheiro, encontro Cacá me esperando. Caminhamos em silêncio até a rua. Perto do carro, tem uma banca de revista. Parei de fumar faz anos, mas foda-se o esforço que eu fiz. Peço um maço de Marlboro vermelho, quero o que há de mais forte. Peço também um isqueiro. O moço da banca aponta para uma dezena de Bics, me pergunta qual a cor. Digo que tanto faz. Pago, dou alguns passos pela calçada. Cacá nunca fumou, detesta o cheiro de cigarro, mas me pede um. Está frio, ventando, temos que fazer cabaninhas com as mãos para acender o cigarro um do outro. Olho o rosto tenso do Cacá. Esse cara já foi meu namorado, meu marido, meu amigo, em alguns momentos meu pai. Agora é também meu irmão.