Suíte Tóquio

Giovana Madalosso · Capítulo 3 de 38

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Suíte Tóquio

Capítulo 3

 

No portão de embarque o relógio marca dez para o meio-dia. Pego a autorização que guardei dentro do livro com cuidado pra não amassar e penso que ainda posso voltar atrás, enquanto o ônibus não partir eu ainda sou dona das minhas pernas, mas olhando para o papel lembro que não terei outra chance dessas e sigo em frente.

Aonde a gente tá indo?, a Cora diz. Acho que pela primeira vez ignoro uma pergunta dela, ocupada que estou separando os documentos e a passagem, relendo a autorização. Foi o seu Cacá quem fez, firma reconhecida em cartório, pra eu acompanhar a menor Cora de Azevedo Cunha até a casa dos pais dele no Rio de Janeiro, viagem que acabou não acontecendo mas que me deu a ideia de usar a autorização, válida por trinta dias. E como é hoje ou nunca, vamos, mulher, coragem, veja como o motorista nem olha direito pras pessoas, quer mais é que embarque todo mundo logo, até porque aqui fora tem gente que não acaba mais, e uma gente mal-educada que só, não tá enxergando a menina?, digo pra uma moça que quase passa por cima da Cora. Pra evitar outra topada, levanto a Picochuca no colo, vem cá com a Maju. Ela olha encantada para o alto, para o ônibus de dois andares. A gente vai nesse aí? Digo que sim e dou um beijo nela, um medo tomando conta de mim, minha mão aguando de novo, será que o motorista vai perceber a mão suarenta entregando os documentos? Mentalizo a minha Nossa Senhora Aparecida e quando vejo ele já está lendo a autorização. Confere a minha identidade e ajeita a gravata amarela, não sei por que faz isso, ajeitar a gravata, e diz: boa viagem.

Sinto meus ombros caírem feito a mala que cai sobre o assento. Começo a ajeitar as nossas coisas, a pegar o que preciso, a pôr o resto no bagageiro. A Cora cutuca meu braço, aponta pra escada e diz que quer viajar no andar de cima. Me abaixo e explico que não vai dar. A Maju comprou os melhores assentos pra gente. Tá vendo este banco aqui? Vira cama. Lá em cima não, lá em cima os bancos são estreitos, não deitam, não é coisa pra uma menina que nem você. Quero ir lá em cima, ela repete, e vendo que não me mexo, que vamos seguir onde estamos, arma um bico e começa a chorar. Eu conheço a Cora, ela não é de fazer manha, pra chorar desse jeito é porque quer mesmo ir lá em cima, e eu penso em levar, mas talvez seja pior ainda, daí é que ela vai encarnar de sentar no convencional. Fico parada, o choro crescendo e o meu nervosismo também, porque claro que todo mundo começa a olhar pra gente, era tudo que eu não queria, chamar a atenção. Já vejo no noticiário um passageiro dizendo: eu lembro das duas porque a menina chorou, a menina não queria ir com ela, e pra acabar logo com qualquer possibilidade desse tipo e pra acalmar a Cora, dou colo, agrado seus cabelos, mas em vez de parar, o pranto aumenta, a boca quase rasga ao meio. O casal sentado na frente da gente já olha irritado prevendo a viagem dos infernos que vão fazer, e eu só repito: calma, Corinha, vou deixar você sentar na janela, mas ela nem dá bola e insiste: quero lá em cima, e parece que ouvir a própria voz aumenta a sua dor, porque agora o choro vem ainda mais encardido. Que saudade do tempo em que ela usava chupeta, deveríamos todos carregar a vida inteira uma chupeta no bolso, ninguém precisaria de cigarros nem de calmantes nem de unhas, ela agora chuparia a dela e eu a minha, os outros passageiros chupariam as deles, todos de volta para o reino do tetê. A palavra tetê me lembra outra coisa. A naninha, claro. A ovelha que agora tiro da bolsa e entrego pra Cora, coloco em seus braços, e que, pra minha surpresa, piora ainda mais a situação. Olhando pra sua companheira, Cora esperneia. Eu e a Bibi queremos ir lá em cima. Normalmente eu deixaria ela chorar até cansar, é o certo a se fazer por conta da educação da menina, mas hoje não dá. Começo a revirar a bolsa, pesco lá de dentro um saquinho de sal, um de pimenta-do-reino, quatro palitos de dente e, por fim, um pacotinho de açúcar. Queria que a Neide estivesse aqui pra ver o que vou fazer, ela que diz que juntar essas coisas por aí é mania de gente humilde, de quem não tem onde cair morto. Veja, Neide, veja se não tem utilidade, digo, enquanto pego um copo d’água e jogo lá dentro o açúcar. Depois entrego pra Cora e como conheço bem ela, falo: beba, Picochuca, mas deixe um pouco pra Bibi. Cuidadosa que é, ela vai parando de chorar, atenta à quantidade de água que deve reservar pra ovelha. Sinto minha respiração acalmando junto com a dela, dou parabéns pra Cora e pra Bibi por terem tomado tudo e dou logo sumiço no copo, no resto de água que acusa a ovelha e seu bucho de não existirem de verdade. Em seguida, ajeito a Cora no assento, coloco um travesseiro atrás da sua cabeça, o cobertor bem esticado sobre as pernas. Ela olha pra fora. Pra onde a gente tá indo, Maju? Não posso dizer o nome da cidade, não perto dos outros passageiros, e pra ela tampouco importa, então digo o que sei que ela quer ouvir: pra um lugar bonito. Um lugar cheio de bichinhos que trabalham de noite.