Suíte Tóquio

Giovana Madalosso · Capítulo 15 de 38

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Suíte Tóquio

Capítulo 15

 

É por essas coisas que eu acredito em Deus. Tem gente que ia dizer que, se perdemos o ônibus, é porque Ele não estava olhando por nós. Mas sempre dá pra pensar de outro jeito. Se pegamos a estrada ainda de dia, é porque Ele está com a gente. Pelo menos espero que esteja, porque vamos levar mais de vinte minutos pra chegar em Santa Cruz, uma criança de quatro anos andando é como um adulto perneta. Eu tento ter paciência, não é certo estressar a menina, os dois feijõezinhos que caminham ao meu lado nos sapatos de verniz fazendo estalar os pedriscos. Deus também existe na providência da estrada, porque podia ser um percurso estreito no pé de serra, mas não, essa BR corta um descampado, nada de um lado, nada do outro.

Seguimos por alguns minutos sem nenhuma construção à vista, até que alguma coisa aparece. O portão de um castelo, a Cora se anima. E talvez por ser azul, conclui ser de Arendelle. A entrada para o reino de Frozen. Eu mesma não sei o que é aquilo, claro que não estamos em Arendelle, no Beto Carrero ou muito menos na Disney, pobre só tem direito à fantasia durante o sono, mas aquelas três hastes afofadas no formato de uma porta de uns seis ou sete metros de altura lembram mesmo uma entrada, no caso pra lugar nenhum, porque em volta é só mato, e um casebre que agora vejo, uma construçãozinha branca com uma porta no meio. Aquilo é o castelo?, a Ana diz, e aponta desanimada pra construção. Aquilo não é um castelo. Vamos nos aproximando, até que minha vista velha e cansada entende o que são as hastes. São as três escovas que um dia formaram um lava-rápido de ônibus ou caminhão, imagino pela altura, agora com os fios caindo aos pedaços, tiras azuladas sacudindo ao vento. No chão também vejo umas bombas de combustível abandonadas, jornais voando baixo, a porta do casebre entreaberta, como se estivesse convidando o tatu aqui pra dar uma entrada lá. Resolvo bisolhar, estamos passando por aqui mesmo, qual o problema? Só não podemos demorar muito pra não pegar noite na estrada, falo pra minha companheira, e vou empurrando a porta, que range.

Entro e encontro o que deve ter sido a administração daquela espelunca, e digo espelunca porque, ô gente relaxada, parece que foram embora correndo, deixando tudo para trás. Na parede tem um calendário com um traseiro arreganhado, um relógio parado, uma prateleira com uns frascos empoeirados de óleo lubrificante, eu sei porque o Lauro tinha uma lida com esse Havoline, e lá pelo meio um armário baixo e uma registradora. Eu digo pra Cora não tocar em nada, imagine a quantidade de micróbios, depois abro a gaveta do caixa, vai que deixaram alguma nota pra trás. Claro que não, num incêndio, se alguém tiver que escolher entre pegar uma roupa pra vestir ou uma nota pra levar, certeza que a pessoa sai correndo pelada entre as chamas. Esses não foram diferentes, deixaram tudo pra trás menos o cascalho, a única coisa que consigo arranjar cavoucando na lateral da gaveta é uma moeda de cinquenta. Mas então escuto uma gaveta abrindo, a Cora dizendo: olha o tesouro. Viro pra trás pra dar uma bronca na Picochuca, não disse pra não mexer em nada?, e vejo uma gaveta cheia de pérolas, correntes douradas, pedras coloridas. É uma quantidade grande, vinte, trinta peças, claro que tudo falso, eu aprendi com a Neide, joia de verdade nunca é grande desse jeito, ela mesma só usava coisa miúda pra poder mentir que era ouro. Me agacho pra ver, pego um pingente de coração. A Ana pergunta se pode pôr um anel. Eu limpo, digo pra ela que agora pode, e enquanto ela se distrai com a esmeralda de feira, penso o que aquelas bijuterias estão fazendo ali, na gaveta de um posto abandonado de beira de estrada. Talvez vendessem aquelas mercadorias, mas não parece, a salinha não tem um mostruário, não parecia vender nada além de óleo, e se não vendiam nem água ou café, por que venderiam coisas de mulher num lugar pra caminhoneiros? Imagino ser de alguma funcionária, mas também é estranho, quem teria tanta coisa e por que deixaria na gaveta do trabalho e não de casa? O anel que a Ana pegou é grande para o seu dedo, ver ela girando a pedra me traz uma lembrança. Eu vejo a Dinalvinha com a mesma idade que eu, uns oito, nove anos, segurando o estojo de maquiagem pra me pintar. Eu lembro do estojo porque eu já estava começando a ler, e enquanto ela passava a sombra, eu tinha que ficar mirando pra baixo, e meu olhar caía bem nos quadrados coloridos, eu tentava entender os nomes escritos embaixo de cada sombra, mas era difícil, devia ser tudo em outra língua. Acho que perguntei se o estojo era da mãe dela, ou não perguntei nada e ela quis me contar, não sei, só sei que enquanto passava sombra verde na minha pálpebra, ela falou que tinha ganhado o estojo de um caminhoneiro que vinha do Paraguai, que se ela subisse na carreta e brincasse de tirar a roupa, ele dava tudo pra ela, e me mostrou um tubo cheio de bolas de chiclete que ele também deu, e perguntou se eu queria um. Talvez eu tenha lembrado tão bem disso porque estava vendo a Cora com uns penduricalhos de mulher adulta na minha frente, e porque quando eu cheguei maquiada em casa, minha vó Brígida me bateu com a cinta, me fez prometer que nunca mais ia usar pintura nem ir na casa da Dinalvinha, e a dor das cintadas foi tanta que nunca mais me maquiei, só fui usar batom de novo com o Lauro, o Doce Veneno. Será que era por isso que tinha uma gaveta cheia de bijuterias ali, para o pessoal do posto pagar as mulheres da estrada, quem sabe as meninas que apareciam? Essa ideia me revira o estômago e vou tirando tudo da Cora, isso não é coisa de criança, ela faz bico, mas acaba aceitando. Nem eu quero usar essas bijuterias, só que deixar pra trás também não consigo. Vou pegando tudo, depois abro a gaveta de baixo, encontro uma caneta, um saca-rolhas, um bloco de nota fiscal com papel-carbono, meto na bolsa também, nunca se sabe o dia de amanhã. Depois digo: vamos, Picochuca, e sei lá por quê, saímos pela porta de trás, onde vejo uma sujeirada pior ainda, uns pneus velhos misturados com o mato. Escuto um barulho e na hora penso em cobra, pego assustada a Picochuca no colo, mas logo vejo que o ruído vem de uma moita de onde se levantam duas orelhas. Custo um pouco a entender que bicho é aquele, porque a cabeça é de cachorro mas o corpo mais parece o de um potro doente, mais de um metro de altura, as costelas cortando a pele de tanta magreza. É um au-au, Cora diz, e vejo que tem razão, mas ô bicho grande, ô aberração da natureza, em toda a minha vida nunca vi um cachorro desse tamanho, só não saio correndo porque ele está mais pra morte do que pra vida, levanta com fraqueza. A Cora pede pra descer do meu colo, quer agradar o au-au, nunca vi menina pra gostar tanto de cachorro, mas não deixo, apesar desse infeliz não ter força nem pra coçar uma pereba, ainda tenho um pouco de medo dele, de alguma coisa da ordem do sinistro que não sei explicar direito. Ou talvez saiba, porque já pensei nisso antes, no tanto de medo que só as coisas pequenas me dão. Com o exagerado não me assusto, trabalhei numa casa em que o filho da patroa adorava filmes de terror, assisti sei lá quantos, ele se apavorava com aquele boneco indecente, o Chucky. A minha vó também tinha medo dessas bobagens, de espíritos voando debaixo de lençóis. Eu não, o que sempre me assustou foram as estranhezas miúdas, porque acho que assim como Deus está nas pequenas coisas, o diabo também está. Eu ouvia o tinhoso nas badaladas de uma igreja perto da casa da dona Tarsila. O sino badalava treze vezes à meia-noite. Eu cheguei a perguntar na paróquia: que que tá acontecendo com esse sino?, e o padre me disse que nada, que eu estava enganada na minha reclamação, mas passei a anotar, eu esperava acordada, ouvia o sino e ia riscando num papelzinho, eram sempre treze badaladas noturnas. Outra vez que avistei o rabo do chifrudo foi quando tive uma noite de insônia e fiquei no Facebook, vi uma empregada do bairro publicando fotos. Ela começou à uma da manhã, colocando retratos dela sorrindo em diversos tipos de lugar, aquela bobajada de rede social, a questão é que ela não parou mais de postar, pelos meus cálculos foram mais de cinquenta fotos, uma atrás da outra até o sol raiar, e a partir de uma hora o que eu via não era mais felicidade naquele sorriso, era loucura, aquelas imagens todas tentando gritar alguma coisa pra gente. E agora esse cachorro do tamanho de um potro, essa besta estranha, o tinhoso não é trouxa de criar um emissário com olhos vermelhos ou cabeça de fogo, o cão vem disfarçado de normal pra perto de mim, com cara de pidão, cheirando a minha calça. A Ana diz: vamos pegar esse au-au pra gente, Maju? Digo que não dá, esse é graúdo demais, e penso: calma, mulher, talvez seja só isso mesmo, um cachorro grande, um infeliz que foi abandonado por um funcionário do posto e está até hoje esperando o dono voltar, tanto que vou lá dentro de novo pra ver desde quando ele deve estar aqui sem vivalma que lhe dê de comer. Aproximo os olhos da folha de calendário e vejo a data, 23 de dezembro de 1998. Agora não é só o cachorro que me assusta, como pode tudo aqui estar tão intacto há mais de vinte anos?

Ajeito a Picochuca no colo e vou me afastando rápido daquele lugar. O cachorro vem atrás e eu digo: vade-retro, mas ele não desiste, tenho que jogar uma fatia de pão lá longe para o piduncho largar do meu pé. Ele se manda e ponho Cora no chão, não aguentava mais carregar a menina, vamos, Ana, vamos andando, e caminhamos por uns dez minutos, até que ela começa a reclamar que o sapato está machucando. No começo não dou muita bola, acho que é da boca pra fora, mas logo ela reclama de novo e para de caminhar. Tenho vontade de dar umas palmadas em mim mesma, ô mulher burra, fui botar um calçado novo pra menina viajar bem-arrumada e nem pensei que podia machucar. Talvez não tenha pensado porque nunca imaginei que andaríamos tanto e porque tinha outros pares pra ela na mala, mas agora não tenho nada, nem um bandeide pra pôr no calcanhar, que está rosado, quase em carne viva. Acalcanho o sapato pra não ficar roçando na pele, mas ela não consegue andar desse jeito. O sapato escapa do pé, tenho que calçar de novo. Ela reclama. Abro a bolsa e pego um saquinho de açúcar. Rasgo e digo: chupa, Ana, vem andando com a Maju e chupando o saquinho, quem sabe assim ela se acalma ou para de prestar atenção na dor, mas não tem jeito, ela dá uns passos e começa a chorar, tá doendo muito. Eu penso em levar no colo, mas não vou aguentar, não tem nem sinal de cidade pela frente. Sentamos ali mesmo, eu torcendo pra passar um ônibus de linha, nunca teria coragem de pegar uma carona. Ficamos assim por uns minutos, a Cora choramingando, eu olhando o sol se depositar feito uma moeda brilhosa no horizonte.

De repente, ela me cutuca. Aponta pra um luminoso de neon e diz: eu quero milho. O luminoso está uns metros mais adiante, aperto a vista pra ver. É um milho mesmo, e em cima do milho tem um coração que também pisca e umas letras grandes, Motel Espigão. Eu digo que lá não tem milho. Ela diz que tem sim, ela está vendo. Explico que não é um lugar pra comer, é um lugar pra fazer outra coisa. Ela fala que na sorveteria perto de casa tem desenho de sorvete e dentro tem sorvete, então lá vai ter milho. Falo que aquele é um lugar pra namorar, olha lá o coração, mas ela segue teimando e começa a chorar, quero milho, quero milho, e eu procuro o que mais dizer, como explicar que aquilo não é uma espiga? Quer dizer, até é. Benza Deus, que espigão. Penso em falar que os namorados vão lá pra pôr uma semente dentro da namorada, os homens põem na barriga da mulher um grão de milho, mas nem é verdade, esses homens de hoje só servem espiga embalada que eu sei, e isso também não é assunto pra um anjo dessa idade, então só tento acalmar, pega aqui a tua naninha, Picochuca, mas ela segue chorando, reclamando do pé, repetindo: quero milho. Me pergunto por que não ir até lá, mostrar pra ela que não tem comida nenhuma e quem sabe pedir ajuda pra chamar um táxi, pra dar um jeito de chegar logo nessa desgraça de Santa Cruz.

Pego a Picochuca no colo, olho para os lados e atravesso correndo a estrada. É estranho como de repente já é noite, parece que pra lá da rodovia o mundo é outro, agora com estrelas em volta do milho, o coração de neon feito uma amígdala na garganta do céu. Vamos chegando cada vez mais perto, já consigo ver direito o pulgueiro, ô gente relaxada que não presta nem pra podar o jardim, ou vai ver acham bom esconder atrás dessa matarada toda os carros que chegam. Eu fico meio sem jeito, porque nunca entrei num lugar desses, uma vez eu e o Lauro até tentamos ir num motel, mas era Dia dos Namorados, a fila estava enorme, quando chegou a nossa vez só tinha as suítes mais caras, não tivemos coragem de gastar tanto pra fazer amor. E se aprendi alguma coisa naquele dia, foi que ninguém chega a pé num Espigão da vida, e muito menos uma senhora com uma criança.

Passamos pela entrada, paramos na cabine. A moça não percebe a nossa chegada, está virada para o computador, deve estar acostumada a só prestar atenção em barulho de carro, se assusta quando bato no vidro. E se assusta mais ainda quando olha pra mim, pra menina que trago comigo. Com a mão que está livre, ajeito a piaçava e vou logo me explicando, perdemos o ônibus, será que ela sabe quando passa um de linha para o centro de Santa Cruz do Rio Pardo? Ela diz que mora para o outro lado e vem trabalhar de moto, não faz a menor ideia. Pergunto se ela não pode chamar um táxi, ela diz que pode, que tem um ponto na cidade, peraí que vou achar o telefone. Enquanto isso, ponho a Picochuca no chão, dou uma bisolhada lá dentro, ela ligando com umas unhonas vermelhas. Ela tenta algumas vezes, eu sou testemunha, faz bolas com o chiclete enquanto espera alguém atender. Depois diz: não tem ninguém no ponto. Eu pergunto se a gente pode esperar um pouco, se ela pode tentar de novo mais tarde. Ela diz que infelizmente não dá, que a direção do motel proíbe qualquer pessoa de ficar ali na frente, já teve funcionária que foi demitida por receber durante três minutos uma vendedora da Avon. Pergunto se posso carregar meu celular, ela diz que não, se não podem dar conversa pra ninguém, imagina trazer coisa dos outros pra dentro. A Cora puxa minha blusa. Maju, por que tão demorando tanto pra dar o milho? Aqui não tem milho, digo meio irritada, e a Picochuca começa a chorar. Eu não sei o que fazer. Como se não bastasse, um carro chega bem nessa hora, e não sei se pra ajudar ou pra se livrar da gente, a moça dá uma sugestão, por que a senhora não pega uma suíte, descansa um pouco, carrega o celular, dá de comer pra menina? Eu sou pobre, fia, quase digo pra ela, mas antes resolvo olhar os preços na plaquinha ao meu lado. Não é caro que nem o motel de São Paulo, talvez seja mesmo uma saída.

Fico meio confusa porque o pulgueiro da paixão chama todas as suítes com nome de flor, mas o preço não tem nada a ver com a planta, prego o olho na Margarida achando que é a mais barata, mas não, parece que a Orquídea e a Rosa Colombiana estão mais em conta, a moça vê que eu me bato e fala que as duas últimas não têm hidromassagem mas são muito boas, e a Orquídea até tem uma banheira simples, é o melhor custo-benefício, a mais pedida. Eu nem posso analisar direito, porque o alarido segue firme, eu quero milho com salzinho, eu quero milho com manteiga, o motorista do carro estica a cabeça pra fora intrigado com a gente, a funcionária do motel fica nervosa, a senhora tem que resolver logo, capaz de denunciarem a gente por pedofilia. Peço a suíte Orquídea. A moça me passa a chave pela gaveta da cabine. Eu digo: vamos, Ana, e avançamos pra dentro do motel de mãos dadas, nosso caminho iluminado pelos faróis do carro atrás da gente.