Suíte Tóquio
Capítulo 18
Era quase uma da manhã quando o avião aterrissou. Eu nunca tinha pisado no Acre. Logo senti que era outro mundo, pelo cheiro de floresta, pelo calor que não arrefece nem noite adentro. Peguei a mala, ajeitei meus cabelos num espelho que encontrei no caminho, pensando onde eu estava com a cabeça para pousar naquele lugar, mentindo para o meu chefe, para o meu marido, dizendo que ia acompanhar uma filmagem quando as gravações já tinham sido concluídas.
Logo descobri que eu estava com a cabeça no meio das pernas. Tanto que senti uma fisgada na pélvis ao ver Yara me esperando, encostada numa picape toda suja que devia ter sido usada na filmagem. Entrei, nos beijamos. Pra onde vamos?, disse, assim que consegui me recompor. Até então, Yara não tinha detalhado nada sobre a viagem e eu não quis fazer muitas perguntas. Vamos pra Tarauacá, a umas três horas daqui, e de lá pra São Vicente, onde pegamos o barco às seis da manhã pra subir o rio até a aldeia. Você não vai cansar de dirigir a madrugada toda? Sou diretora, tô acostumada a virar a noite. E colocando a mão na minha perna: se prepara, porque daqui a duas horas acabou o sinal. E, depois, toda a comunicação. Não tem nem telefone na aldeia. Nem telefone público? Ela balançou a cabeça. Entrei em pânico, pensando no Matthew, no Cacá, na Cora, na possibilidade de tomar uma picada de cobra e não poder chamar uma ambulância.
Já cogitando o que falaria para o meu chefe, perguntei como tinha sido a filmagem. Yara disse que foi excelente, a ariranha tinha cumprido o cronograma, me contou algumas cenas. Em seguida, mandei um recado para o Matthew dizendo exatamente o contrário, que a filmagem foi um desastre, talvez tivéssemos até que substituir o animal escolhido, por isso fiz o sacrifício de ir pessoalmente até a Amazônia. Depois mandei um recado para o Cacá, a Cora e para a minha assistente, que sabia o que eu estava aprontando e, se preciso, me daria cobertura.
Eu seguiria cutucando o celular se não fosse a figura ao meu lado acender um baseado, aumentar o rádio e cantar o refrão de uma música sertaneja com seu erre esquisito. Fiz como ela, demos risada. Que mundo injusto, pensei. Se Cacá estivesse cantando e fumando maconha numa estrada esburacada como aquela, à noite no meio do nada, eu teria arrancado o bagulho dele e desligado o rádio dizendo que prestasse atenção, mas amantes são amantes e simplesmente pulei para o assunto seguinte, perguntando como ela havia conhecido os yawanawas.
Yara me contou que esteve a primeira vez na Aldeia Sete Estrelas aos nove anos, foi acompanhar a mãe numa pesquisa sobre as tribos amazônicas. Ficaram dois meses e, nesse período, fez amizade com uma yawanawa da mesma idade que ela, a Shakuna. Sete anos depois, quando Yara já estava com dezesseis e a mãe dela já havia desaparecido, o pai disse que queria voltar à Sete Estrelas para pesquisar uns jacarés. Ela achava que ele não queria pesquisar bicho nenhum, queria era ver se a mulher estava lá. Não estava, mas ir lá acabou sendo bom, entre outras coisas porque Yara reencontrou Shakuna e restabeleceram a amizade. Há poucos anos, foi Shakuna quem a visitou com o marido nos Estados Unidos. A yawanawa tinha ido para um congresso de ameríndios, tinha virado uma figura importante. A primeira mulher da etnia a se tornar pajé. Como ela conseguiu?, perguntei com interesse verdadeiro, mas não lembro o que Yara respondeu, eu já estava tomada pelo sono, minhas pálpebras tentando encerrar um turno que havia começado às seis da manhã. Ela olhou para mim e comentou que quando entramos no portal do mundo sem comunicação, é assim mesmo, o corpo relaxa. Em seguida, tirou uma das mãos do volante e me fez um carinho. Peguei no sono.
Acho que foi o sacolejo do carro que me acordou. Ou a luz que anunciava o dia, batendo nas casas da única rua de São Vicente. O vilarejo existia só em função do rio Gregório, era dali que subiam os barcos para as aldeias. Estacionamos perto da água, Yara me despertando de vez com um beijo bafudo na boca. Descemos, ela descarregou a bagagem. Vi que tinha trazido um galão de água, pão, biscoitos com fibra. Talvez você estranhe a comida da aldeia, disse para mim, e senti por ela o amor que sentimos por quem cuida da gente.
Olhei o celular, nem o relógio fora atualizado, sinal de que estávamos mesmo em outra dimensão. Um indígena, que também esperava um barco, nos disse que eram seis e quinze. Será que nosso barqueiro foi embora?, perguntei para Yara. Ela deu risada. Claro que não, nosso barco sai às seis na hora índia, que é quando tudo está pronto. Pode ser às seis e meia, sete, até oito. Nunca às seis e pouco. Era verdade, nem sinal do barqueiro por um bom tempo, só dos mosquitos aumentando o meu medo de malária, me fazendo passar repelente até dentro das orelhas. Toma isso aqui, Yara disse, me dando um comprimido de complexo B que segundo ela faria meu sangue ficar ainda mais intragável do que já era.
Lá pelas sete, nosso barco chegou. Na verdade uma canoa motorizada, com ripas de madeira como banco. Carregamos a nossa bagagem. Eu queria sentar ao lado dela, mas o barqueiro não deixou, precisava ficar uma em cada ponta para distribuir o peso. Partimos rio acima, com a perspectiva de quatro horas de viagem, o que me pareceu uma loucura mas, aos poucos, foi fazendo sentido. Como Yara disse, custa chegar aonde o Starbucks não chegou, e tudo ia ficando cada vez mais bonito à medida que nos distanciávamos dos dedos do capital.
Finalmente chegamos ao pé de um barranco. Lá de baixo não dava para ver nada. Subi com expectativa as escadas. Ao pisar em terra plana, tive uma surpresa agradável, um grande descampado rodeado de ocas, crianças correndo com saias de palha, algumas mulheres de seios nus, vozes cantando. Uma mulher, que imaginei ser Shakuna, veio andando na nossa direção. Deu um abraço na Yara, depois em mim. Fomos para a casa dela. Pensei que seria uma oca maior, mais reservada, ela não era pajé?, mas sua habitação era igual às outras, de madeira com um monte de redes penduradas dentro, no fundo a cozinha com uma mesa. Imagino que estejam morrendo de fome, disse, e pediu para sua cunhada servir o almoço.
Enquanto comíamos, Shakuna comentou que à noite era melhor fazermos uma refeição mais leve, não era bom tomar uni com o estômago cheio. Uni?, indaguei. Essas pessoas que estão cantando, Shakuna disse, e fez uma pausa para que ouvíssemos o canto que vinha de longe, estão cantando para fazer o uni. Yara virou-se para mim: é como eles chamam a ayahuasca. Acho que arregalei os olhos, porque ela disse que se eu não quisesse, não precisava tomar. Ou pode tomar só um pouquinho, Shakuna sugeriu. Mas depois não pode fazer sexo por um dia inteiro, completou, olhando para a gente com um sorriso materno. Fiquei tensa, até lidava bem com drogas, mas só as recomendadas pela FDA ou perseguidas pelo FBI. Resolvi mudar de assunto, perguntei a Shakuna como conseguira virar pajé. Disse que foi difícil, teve que ficar isolada na floresta nove meses para provar que era tão forte quanto um homem. E durante todo esse tempo se alimentando muito pouco, só com o que ela caçava e com o uni, que tomava todo dia para falar com os espíritos. Acho que Shakuna sentiu a minha perplexidade, porque explicou que aquilo era normal entre eles, passar um tempo sozinhos na selva para ganhar força.
Depois ela e Yara botaram em dia o papo de não sei quantos anos, até que Shakuna resolveu nos conduzir a nossa oca. Ficava isolada do resto da aldeia — segundo a pajé, os turistas gostavam de alguma privacidade —, num clarão no meio da mata, junto a um igarapé. A oca era construída sobre palafitas, tinha um telhado bonito de palha, mas não tinha paredes. Nem banheiro. Assim que a pajé nos deixou, perguntei: nós vamos dormir aqui? Vamos, Yara disse, e começou a pendurar as redes. Em seguida vestimos o biquíni, pegamos os nécessaires e descemos em direção ao igarapé, na companhia de uma quantidade impressionante de borboletas. Do nada, Yara parou. Olha que linda essa Scolopendra. Olhei para baixo e vi uma lacraia repulsiva atravessando na nossa frente. Minha vontade era dar uma chinelada no bicho, mas fiquei parada, ouvindo Yara dizer: olha as cores dela, olha essa antena. Ela seguiu fitando a artrópode por um bom tempo, pensei até que estivesse chapada, mas me toquei que ainda não tinha fumado. Quando a lacraia sumiu pela vegetação, fomos em frente. E então foi a minha vez de ficar impressionada, vendo a paisagem na sua totalidade. Um riacho cristalino cortava a floresta, galhos e flores debruçados sobre a água como numa reverência. Do lado em que estávamos, havia uma pequena faixa de areia. Uma praia particular. Fazia quase trinta graus, foi maravilhoso dar um mergulho. Yara encaixou o sabonete líquido numa pedra, começou a passar nos meus cabelos. Esfregou a minha cabeça, lavou o meu rosto, os meus ombros. Puxou o laço do meu biquíni, tocou com a mão cheia de espuma os meus mamilos. Fiz a mesma coisa com ela, nossos tops boiando ao nosso lado. Depois mergulhamos juntas. Fomos nadando até a bancada de areia. Deitamos no raso, só com água suficiente para cobrir os nossos corpos, e ali fizemos um hoka-hoka.
Quando olhamos em volta, percebemos que nossos tops tinham sumido correnteza abaixo, o que não era exatamente um problema naquele ambiente. Deitamos na areia, os quatro mamilos olhando para o sol. Yara acendeu um baseado. Ficamos um tempão conversando. Num certo momento, escutei um barulho. Olhei e vi uma espécie de porco, só que bem miúdo, não muito longe de mim. Yara disse para eu não ter medo, era só um caititu inofensivo. Depois deitou-se de novo sobre os cotovelos, o olhar lá longe, na dobra do rio. Quando era pequena, tinha um pesadelo recorrente, contou. Sonhava que as luzes da cidade iam invadindo o campo, que nem uma praga. Brotavam até no vale atrás do rancho onde a gente morava. Depois, virando-se para mim: às vezes acho que esse pesadelo tá acontecendo de verdade. Sabe quantos por cento dos mamíferos são selvagens? Vinte, chutei. Quatro por cento. O resto são seres humanos e seus animais de criação. Transformamos tanto a natureza que tem um biólogo que diz que a era em que estamos vivendo não deveria nem se chamar Antropoceno. Deveria se chamar Eromoceno. O que isso quer dizer? A era da solidão. Me aproximei, beijei a sua tristeza na boca. Depois subimos em silêncio até a oca, talvez por estarmos cansadas ou em paz. Ou as duas coisas. Yara deitou na rede, disse que ia tirar um cochilo. Deitei na minha, sem esperança de dormir, mas cinco minutos depois peguei no sono.
Acordamos com um barulho de pratos. Shakuna mandou essas tapiocas pra vocês, um garoto disse, deixando também dois copos de suco. A noite já caía, Yara acendeu o candeeiro. Ainda estávamos letárgicas, comemos em silêncio na borda da palafita, nossas pernas se roçando de vez em quando. Depois escovamos os dentes com a água do galão e caminhamos com nossas lanternas até o centro da aldeia.
Notei que diversas pessoas subiam o barranco, chegando à Sete Estrelas. Yara me explicou que eram yawanawas de aldeias vizinhas, no sábado à noite todos se reuniam para fazer a cerimônia. Deduzi que aconteceria no descampado, onde havia agora uma fogueira. Ao fundo, uma mesa comprida, com duas cadeiras e dois jarros bojudos, com a boca coberta por tecido. Quem chegava ia sentando em torno do fogo, o que era compreensível, a temperatura caía de madrugada. Shakuna logo apareceu, com uma serpente de miçangas no pescoço. Nos cumprimentou com o mesmo carinho, perguntou como estávamos. Depois nos apresentou para várias pessoas, entre elas outro pajé, que conduziria com ela a cerimônia. Ele quis saber se seria a minha primeira vez, referindo-se à ayahuasca. Não soube o que dizer, nem tinha certeza se ia tomar aquele negócio. Estava me cagando de medo de ter um piripaque no meio da floresta. Por outro lado, não queria desperdiçar a chance de provar num lugar como aquele, e com a Yara. Disse que iria. Yara sorriu. Logo depois, me puxou até a mesa, onde Shakuna e o outro pajé haviam sentado, uma fila na frente de cada um.
Quando chegou a nossa vez, Shakuna disse que me daria pouquinho para começar. Se eu sentisse enjoo, podia vomitar na mata. E procurá-la para qualquer coisa. Depois me estendeu um copo com dois dedos de uni. Olhei para o lado e vi Yara entornando um copo cheio. Virei o meu. Sentamos juntas em torno da fogueira. Logo comecei a sentir um peso na barriga, uns arrotos inconvenientes. O que eu mais queria era roubar uns beijos da Yara, e aqueles gases não ajudavam muito. Mas ainda que eu estivesse pronta para beijá-la, ela já estava em outra, de olhos fechados, levada pela música. Também fechei os olhos, vai que assim aquela feijoada de cipó batia, mas o tempo passou, e nada. Fiquei prestando atenção nas pessoas, nas melodias. Em como as letras eram simples, despojadas de metáforas ou narrativas, talvez para dar espaço ao inconsciente, como um trampolim que só existe para aprofundar o salto. Mais ou menos meia hora depois, percebi que Yara estava chorando. Sequei suas lágrimas. Seu olhar estava diferente, ou talvez eu é que estivesse enxergando melhor. Nas suas pupilas dilatadas pela noite e pelo chá, vi uma tristeza além daquela causada pela perda dos selvagens ou da natureza. Yara tinha a tristeza de quem não tem para onde voltar. Abracei-a. Perguntei como estava. Disse que bem, estava sendo bom chorar. E eu, tava sentindo alguma coisa? Falei que não. Ela puxou a minha mão e disse: vem.
A fila começava a se formar de novo, com as mesmas pessoas, o que me sugeriu que era normal tomar uma segunda rodada. Entramos juntas. Shakuna perguntou se eu estava bem. Disse que sim. Ela me deu um copo cheio. O pajé deu outro para Yara. Tomamos, dessa vez eu querendo que batesse, querendo entender o que todos sentiam — depois soube que a viagem é sempre imprevisível, não se repete nunca. Também aprendi que a quantidade não é garantia de nada, mas que estar desarmado ajuda bastante. E como me ajudou, porque dessa vez o uni veio com tudo. Comecei a sentir ondas fortes de enjoo. Vomita, Yara disse, vai te fazer bem. Me conduziu até a borda do descampado, onde outras pessoas também deixavam as tripas. De longe, vi o pajé me observando, e percebi a pequenez de achar que eu estava sozinha num lugar sem socorro, quando eu estava amparada por uma comunidade e por uma sabedoria de centenas de gerações. O conhecimento deles recomendava ainda que tomássemos o uni com um propósito, não à toa também chamavam a substância de “medicina”. Pensei na Yara, no que eu faria com o meu casamento caso as coisas tomassem o rumo que eu sentia que estavam tomando. Mas como alguém disse mais tarde, você pode até pedir resposta ou cura para alguma coisa, e pode até conseguir, mas quem decide mesmo o que precisa ser curado é o chá. E o chá me mostrou Cora. De olhos fechados, vi minha filha gigantesca, na frente de uma porta minúscula que ela tentava abrir mas não conseguia. Girava o trinco, olhava pelo buraco da fechadura, empurrava, e nada. Da mesma forma como a imagem surgiu, sem aviso ou explicação foi embora. E então me vi pequena, na casa em que passei a infância. Andei pelos cômodos, vi detalhes que não lembrava, que deviam estar guardados numa parte inacessível da minha memória e agora brotavam com a mesma qualidade palpável de um sonho ou da vigília em si, eu abrindo a caixa de charutos do meu pai na mesa de centro, vendo em vermelho a marca Menendez. Sei que estava no meu corpo de menina porque em algum momento vi a mim mesma no jardim, com um macacão que eu usava quando tinha uns cinco anos. Eu olhava amedrontada para as plantas altas que meus pais nunca aparavam, para os pneus velhos e o entulho que deixavam se acumular naquele quintal sombrio. Chamei várias vezes pela minha mãe, mas ninguém veio me buscar. Até que eu mesma apareci, adulta, e peguei a minha versão menina no colo. Calma, lhe disse, vamos embora daqui. Senti que deveríamos buscar mais alguém, mas nesse momento abri os olhos e tudo cessou.
Quanto tempo teria transcorrido? O fogo continuava ardendo, mas os indígenas e Yara estavam no outro canto do descampado, cantando em círculo, de mãos dadas, suas silhuetas e vozes alongadas sob a lua. Toquei o ombro da Yara, me posicionei entre ela e uma senhora, no começo me achando meio ridícula, cantando e cirandando como uma criança, mas logo percebendo que o problema não era cirandar, e sim julgar a ciranda. Julgar tudo, o tempo todo. Levada pela música, fui sentindo que a barreira entre mim e as pessoas e as plantas e a lua se desintegrava. E sendo tudo, eu não era mais eu. E não sendo mais eu, não sofria tanto. Foi a experiência mais próxima que tive do divino, algo que nenhuma religião com todo o seu esforço litúrgico tinha conseguido me oferecer. Depois Yara me contou que a Igreja sempre tentara marginalizar a ayahuasca por isso, porque sabia desse poder. Enquanto católicos e evangélicos precisavam de um atravessador — o padre, o bispo — para falar com Deus, o chá desmanchava essa hierarquia, colocando a pessoa em contato direto com o divino ou com a sensação dele.
Nisso, os indígenas começaram a formar fila para a terceira rodada e Yara perguntou se eu queria mais. Disse que não, estava tão bem que não queria estragar. Ela disse que também não queria. Ficamos ali por um tempo, observando a roda se diluir, os tambores voltarem, até que ela falou: vamos? Iniciamos a caminhada em direção a nossa oca. Quando levantei os olhos do caminho projetado pela lanterna, vi que o céu já clareava um pouco, era possível enxergar o contorno da nossa palhoça. Yara pulou para cima da palafita e estendeu a mão para eu subir. Perguntou se eu estava com fome. Disse que não, mas ela insistiu que era bom comermos. Dividimos uma fruta, falamos um pouco sobre as nossas visões com o uni. Depois vesti uma camisola, ela uma camiseta, aquele olhar recíproco de tesão. Começamos a nos beijar. Lembra que não podemos?, falei. E ela: vou matar a Shakuna.
Resignadas, deitamos nas nossas redes, ouvindo, além dos bichos, o ranger dos ganchos, até que uma mão entrou como uma aranha no meu mosquiteiro, levantando o tule. Senti o corpo da Yara aninhando-se ao meu, a rede se balançando para acomodar o volume das duas. Não podemos, ela sussurrou, e apertou meu mamilo. Não podemos, repeti, e levantei a camisola. Seguimos nos encostando e falando “não podemos” até que colamos boca com boca, peito com peito, buceta com buceta, e fodemos siamesas na rede. Quando acabamos, não viramos para o lado nem para cima, não havia espaço para isso. E mesmo que houvesse, eu não queria. Olhando para suas pupilas ainda dilatadas, falei: eu te amo. Também te amo, ela disse, olhando para as minhas.
Acordamos com o sol pregado feito uma lâmpada no céu. Demos um mergulho rápido e fomos almoçar levando a nossa bagagem, não faltava muito para a hora de ir embora. Shakuna nos recebeu com a mesa posta, a cunhada tirando um peixe da brasa. Comemos. Yara fez algumas fotos.
Depois a pajé nos conduziu até o rio, onde um barqueiro de uns dezesseis anos já nos esperava, um pé na terra, outro no casco. Me despedi e embarquei. As duas ainda conversaram um pouco, acho que Shakuna falava sobre uma possibilidade de se encontrarem em breve, não sei direito, porque acabei me distraindo com o barqueiro, com as marcas no seu abdômen. Ele tinha dezenas de bolinhas brancas na pele, cicatrizes iguais às que eu tinha visto num documentário, abertas para a aplicação do veneno do sapo. Eu lembrava porque aquilo havia me intrigado. Quão bom deveria ser o barato da substância para que os indígenas agredissem a pele daquela maneira? Resolvi assuntar com o barqueiro. Me confirmou que os buracos eram mesmo da aplicação do veneno e disse que a sensação era péssima, um pesadelo. Quantas vezes você já tomou? Quinze, comecei aos sete anos, falou com orgulho, me mostrando três furos pequeninos na altura das costelas. Depois que partimos, atinei com a função do veneno. Além de limpar o corpo, era uma forma de ganhar coragem, por isso eles exibiam com tanto orgulho os furos. Tomar cambô e ayahuasca não era exatamente bom, passar meses sozinho na selva como Shakuna e outros indígenas faziam não era bom, e isso era estranho para mim, porque na nossa sociedade só vemos sentido no que dá prazer. E o foco dos indígenas não tinha nada a ver com hedonismo, o que eles faziam era treinar para encarar temores. Tudo girava em torno de enfrentar o medo, algo que achei fascinante, porque fui educada para suprimi-lo. Seja corajosa, ouvi a vida toda, não tenha medo. E naquele momento me perguntava: é possível não ter? Claro que não, daí a sensação de impotência que eu experimentava, porque o medo sempre seguirá voltando repaginado. Pensei que a partir de então iria dizer para Cora: vá apesar do medo. Se eu tivesse esperado o meu sumir, não teria mentido para o Cacá e o Matthew, não teria entrado no avião, não teria enfrentado a zona endêmica de malária, não teria subido o rio sem sinal e sem pronto-socorro, não teria tomado ayahuasca, não teria conhecido uma floresta que talvez nem exista daqui a vinte anos e não teria ouvido “eu te amo” numa rede. Senti uma satisfação tão grande por ter feito o que fiz. E foi com essa satisfação e os cabelos desgrenhados pelo vento que algumas horas depois aportei em São Vicente.
Era quase o fim do dia e ainda tínhamos muita estrada pela frente. O que não era bem um problema, eu seguiria viajando até os polos com aquela mulher. Mas eu tinha um voo, uma vida, aquela coisa toda. Carregamos a picape, nos preparamos para partir, mas antes disso Yara disse que precisava tomar uma Coca-Cola. Achei curioso, nunca a vira tomando uma, por que aquela necessidade urgente? Entramos no único comércio local, que vendia de batatas a vestidos. Encostada no balcão, Yara abriu o refrigerante, me ofereceu um gole. Eu disse que não gostava tanto de Coca. Ela falou que também não, mas era um lance dela, do pai e da mãe. Toda vez que iam a campo, em alguma região isolada, na volta bebiam uma Coca. Não pelo gosto em si, mas porque depois de um tempão privados das regalias civilizatórias era como se dissessem para o corpo: estamos de volta.
Em seguida pegamos a estrada, o tempo passando rápido, quando me dei conta já tínhamos até sinal, eu podia reavivar o meu aparelho. Parecia tão grave ficar sem contato, mas, quarenta e oito horas e quase duzentas mensagens depois, nada de relevante tinha acontecido. Em algum momento falamos do futuro, o que me deixou feliz, só quem ama faz planos. Claro que se tratava de um futuro próximo, Yara não sabia onde estaria dali a um ano, mas sabia que assim que encerrasse a nossa série, iria para a Escócia filmar a migração dos lobos. Com satisfação, me contou que os escoceses haviam percebido que precisam dos selvagens para equilibrar o ecossistema e resolveram importar uma alcateia da Dinamarca. Vai ser lindo ver eles chegando, disse, e apertou o volante. E depois: eu alugo uma casa na colina. Vamos ficar fruindo daquela paisagem linda. Não sei o que me surpreendeu mais, o verbo “fruir” ou o convite. Disse que não podia desaparecer por um mês, tinha filha, marido, trabalho. Ela disse para eu levar a Cora, me ajudaria a cuidar dela. Quanto ao trabalho, eu poderia fazer à distância. E, para o marido, era só contar que eu tinha encontrado a mulher da minha vida. Ainda que achasse aquele papo uma bobagem, senti um frio e um calor simultâneos. Disse que ia pensar. E ia pensar mesmo. Ao longo dos dias seguintes, a cada minuto eu pensaria naquilo, em conhecer com Yara um mundo diferente do meu. Talvez paixões sejam avassaladoras também por isso, porque se apaixonar por outro é se apaixonar por uma nova possibilidade de si mesmo.