Suíte Tóquio

Giovana Madalosso · Capítulo 4 de 38

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Suíte Tóquio

Capítulo 4

 

Entro no elevador e vejo a hora, nove e quinze da noite. Depois observo a minha aparência no espelho e faço o que minha filha faria: aperto o 3 e os botões anteriores. Não dá para chegar em casa com essa cara de satisfação. O rosto corado, as sobrancelhas despenteadas, os cabelos revirados. Meus fios são finos, o hoka-hoka embaraça de um jeito que vira um bolo. Enquanto o elevador para no 1, puxo o emaranhado para trás e amarro com um elástico, depois aliso as sobrancelhas e ensaio a expressão de quem viveu apenas mais um entre tantos dias de sua vida.

Quando passo pela porta, percebo que poderia ter aparecido com um chupão na testa que não faria diferença. Cacá está na poltrona, inclinado para a frente, as mãos segurando a cabeça, que parece pesar tanto quanto uma bola de ferro. Diz que está tentando falar com Maju desde a primeira vez que me ligou, às sete da noite, mas ela não atende. Já ligou para a vizinha e para a casa da melhor amiga da Cora, nada dela e da babá. Pergunto se Cacá tentou falar com a minha mãe, às vezes ela aparece para levar a neta para algum passeio. Ele diz que sim, mas que o celular dela está fora de área. Essa informação me dá um clique. Minha mãe tem um sítio perto de Avaré, num lugar tão escondido que o celular só pega perto de uma jaqueira e de uma pedra específica, que apelidamos de Hard Rock Café. Achamos possível que minha mãe tenha levado a Cora para o sítio. Afinal já fez isso em diversos feriados e fins de semana, pegando as duas, ela e a babá, na saída da escola. Chamo nossa empregada, Cida, que nos conta que Maju e Cora saíram de manhã com uma bolsa que mais parecia uma mala, levando um tupperware. Calculamos que foram para o clube, almoçaram por lá, como de costume, e da escola pegaram a estrada com a minha mãe. Impulsionado por um lampejo, Cacá corre até o quarto da Cora e volta dizendo que a Bibi foi junto. Demoro alguns segundos para me tocar quem é Bibi, parece o apelido de alguma amiga da minha mãe, aquelas senhoras bêbadas de licor e saudosismo que não saem de sua casa. Mas logo lembro da ovelha e sorrio junto com o Cacá. Terem levado a naninha é mais um indicativo de que se prepararam para dormir longe de casa. Claro que minha mãe deveria ter nos consultado. Ou pelo menos avisado. Mas a verdade é que dela não espero muita coisa, nunca teve a menor consideração pelos outros, já chegou a entrar na minha casa e levar uma tevê sem pedir, alegando que a dela havia quebrado e que não podia ficar sem ver a novela. A Maju, pelo contrário, é de uma consideração exaustiva, manda fotos e vídeos da Cora o dia todo, inclusive em momentos banais como comendo uma maçã ou cheirando uma flor. Então é meio estranho que ela não tenha enviado nenhuma mensagem, nenhuma foto da Cora na estrada. O que, concluímos, pode ser atribuído à falta de bateria. De qualquer maneira, não temos certeza. Resolvemos seguir ligando para a minha mãe e, na dúvida, também para algumas amigas da Cora.

Mas, antes de mais nada, preciso relaxar um pouco. Dos problemas de casa, dos problemas do meu trabalho, da paixão que me corrói a pele. Preparo um drinque. Com o copo na mão esquerda e o celular na direita, procuro pelo telefone das mães da escola, mas logo lembro que saí do grupo, quem tem os números atualizados é o Cacá, deixo que faça as ligações.

Já levemente bêbada, deitada no tapete da sala, ouço meu marido conversando com mulheres de quem nunca ouvi falar, sobre crianças de quem nunca ouvi falar e sobre episódios que eu não faço ideia que tenham acontecido, como um surto de piolhos. Enquanto ele fala com a mãe de uma tal de Bebel, fico pensando o que aconteceu comigo para eu me tornar uma turista na minha própria casa, boiando num tapete com um coquetel em punho e retribuindo emojis de dedo com emojis de língua.