Suíte Tóquio
Capítulo 7
A Cora pega no sono. Me ajeito no banco, olho pela janela. Tudo passa tão rápido lá fora. Tenho a sensação de que é a minha vida que está passando, vinte e sete anos de São Paulo sumindo num borrão. Como pode tanto se transformar em tão pouco? Levo comigo a Cora, um maço de dinheiro e cinco próteses dentárias. Todo o resto é memória, é tudo que temos, mas ao mesmo tempo não é nada. Memória é um filho que já nasce morto. E se decompõe. Como eu luto para o Lauro não se decompor. Será que se eu pensar nele todo dia consigo que o rosto dele nunca suma da minha cabeça? Porque as fotos e os vídeos eu apaguei num acesso de raiva depois do que ele me fez, só sobraram as fotos e os vídeos que a minha cabeça quis guardar, e eu fico pensando como é que o miolo da gente faz essa seleção, porque tem coisas que somem e outras que ficam tão inteiras que só falta o botão do play. Como o nosso começo. Eu trabalhava na dona Tarsila, lavava aquela calçada todo santo dia. Quer dizer, de segunda a sexta. Eles não tinham filhos, ela e o seu Ronaldo, mas ela tinha uma pá de manias que davam trabalho, como a história de lavar a calçada na frente de casa, serviço que eu tinha que fazer com a mangueira e um esfregão todos os dias, fizesse sol ou chovesse. A chuva de São Paulo mais suja do que limpa, a dona Tarsila dizia, e lá ia eu lavar o lavado, lustrar o lustrado, preparando a calçada pra não sei quem lamber, porque ela mesma nem saía de casa, passava o dia lendo e comendo chocolate, aquele traseirão no sofá, e cheirando a talco, porque ela adorava passar talco nas dobras pra evitar brotoeja. Não levantava nem pra atender o telefone, se gabava de nunca ter lavado um copo. E era verdade. Eu só podia ir dormir depois que ela e o seu Ronaldo fossem deitar, quando já não tinha chance de aparecer mais uma faca suja de requeijão na pia, lá pelas dez, onze da noite. Quando eles faziam jantar para os amigos, geralmente na sexta, eu tinha que ficar até de madrugada pra arear tudo. Nessas vezes, eles pagavam um táxi pra eu ir pra casa, e foi assim que o Lauro apareceu. Não botei reparo nele de cara porque não sou de reparar em homem. Até então só tinha tido um na vida, o zelador de um dos tantos lugares onde eu trabalhei, na alameda Franca, e foi tão triste com esse zelador, porque eu era uma bobona de dezessete anos, o homem se oferecia pra me ajudar com as sacolas de supermercado e eu achava que ele queria namorar, o homem abria a porta do elevador pra mim e eu achava que ele queria casar. Até o dia que ele me chamou para o quartinho lá no último andar e eu entendi o que ele queria. Tampou minha boca com uma flanela cheirando a limpador de metal e me colocou de quatro na cama de solteiro, o sangue manchando o lençol de flores e ele repetindo: a putinha é virgem, a putinha é virgem, o cheiro de Brasso queimando as minhas narinas. Depois daquele dia, nunca mais consegui limpar uma prataria sem chorar, fiquei conhecida por polir com Brasso e lágrimas as baixelas da minha patroa. E claro que nunca mais quis saber de homem nenhum. Então nem enxerguei o Lauro, naquela sexta estava no banco de trás do táxi ocupada com meus botões, até que ele começou a trocar de estação no rádio, parou numa música e me perguntou: gosta dessa? Eu não sou mulher de ouvir música, não tenho tempo pra essas coisas, só disse: hã-hã, e continuei na minha, mas uns minutos depois, quando entrou a propaganda, ele mudou de novo a rádio e perguntou: e dessa, gosta? Dessa vez eu conhecia a música. Era Chico Mineiro, tocava muito quando eu era criança no interior do Paraná. Eu disse que gostava. Ele disse que também gostava e aumentou o som. Tonico e Tinoco começaram a cantar do jeito que a gente falava em Mandaguaçu. Alembrando, úrtima, viajemo. Senti a minha vó do meu lado e meus olhos se encheram. O Lauro viu pelo retrovisor e sorriu pra mim. Nesse dia, não trocamos mais palavra. Dei o dinheiro, peguei o troco, mas percebi que ele ficou esperando eu entrar pelo portão enferrujado da minha casa antes de arrancar e ir embora.
Duas semanas depois, o seu Ronaldo ligou para o ponto de táxi e o Lauro apareceu de novo. Foi tudo a mesma coisa mas um pouco diferente, como a vida sempre é, tudo a mesma coisa mas um pouco diferente. Pro mesmo endereço?, ele perguntou, e eu balancei a cabeça. Em seguida ele sintonizou uma música, gosta dessa?, e assim nós fomos o caminho inteiro, ele procurando rádio e perguntando se eu gostava do que estava tocando, aumentando o som quando eu dizia que gostava muito. Na hora de ir embora, o mesmo, só depois que meu portão rangeu ele arrancou. Assim foi por semanas, meses. Claro que nem sempre eu dava a sorte de ir com ele. Vinha o primeiro taxista que atendesse no ponto, mas depois de um tempo o Lauro começou a vir cada vez mais, percebeu que era sempre sexta lá pela uma da manhã que o seu Ronaldo ligava, e ficava alerta, primeiro da fila esperando o telefone do ponto tocar. Eu também fazia o meu preparo, passei a usar umas roupas que via na vitrine perto do terminal, tudo meio apertado, parecendo que faltou tecido, umas blusas que depois eu abandonei porque não tinham nada a ver comigo, mas na época foi bom vestir aquilo. E batom, pela primeira vez usei batom, uma cor meio rosada que até hoje eu lembro o nome, Doce Veneno.
Eu já conhecia umas vinte músicas que ele gostava e ainda nem sabia que ele se chamava Lauro, porque o desgraçado era tímido que só vendo. E eu então? Era um tatu em pessoa. Melhor dizendo, uma avestruz, a cabeça enfiada na janela. Mas não era um silêncio ruim. Como descobri mais tarde, o Lauro é homem de poucas palavras, eu também sou, o alarido fica só dentro da minha cabeça, então era bom, o nosso silêncio era a conversa de quem não gosta de conversar. Até que um dia veio o Carnaval e a dona Tarsila resolveu dar uma festa de máscaras e eu não imaginei que, tão tarde numa segunda de feriado, ele viesse me pegar. Mas não é que veio? Eu nem ajeitada estava, sem batom nem banho, suada de aspirar confete no tapete. Lembro que soltei rápido o cabelo antes de entrar no táxi, esperando que a piaçava enfeitasse o meu rosto e tirasse a atenção das minhas olheiras. Nem precisei dizer pra onde íamos, ele já sabia, assim como eu já sabia o que a gente ia fazer no caminho, ouvir músicas, só não sabia quais seriam, e disso eu também gostava, de não saber. Só que essa foi uma noite diferente em tudo, porque era Carnaval.
A dona Tarsila morava no Alto de Pinheiros, pra pegar o caminho da minha casa precisávamos cruzar a Vila Madalena, com todos aqueles bares e gente na rua. E não deu outra, quando chegamos na Fradique, tivemos que parar no cruzamento porque tinha um bloco passando, um povo já caindo de bêbado mas firme no bumbo e na corneta, uma moça de seios de fora carregando uma bandeira. Eu lembro bem porque o nosso carro foi o primeiro que teve que parar pra boiada passar, o trânsito foi se acumulando atrás da gente. Era uma situação pra deixar qualquer motorista irritado, mas o Lauro era o Lauro, não tinha dessas coisas de se enervar à toa, ficou olhando o povo, uns meninos de sutiã, uma menina vestida de odalisca, outra com hábito de freira. De repente, o Lauro fez uma coisa que nunca tinha feito, desligou o rádio. Achei estranho, que que deu nesse homem?, mas logo comecei a ouvir a música. Se você fosse sincera, ô ô ô Aurora. Gosta dessa? Balancei a cabeça. Que bom que você gosta porque essa não dá pra trocar, ele disse, e demos risada, e seguimos olhando pra frente, pra gansarada avançando. Depois de um tempo, sem virar pra mim, ele começou a contar. Disse que nasceu numa vila chamada Picinguaba, no litoral de São Paulo, filho de pescador. De pequeno ficava com a mãe, trançavam cesto de manhã e limpavam camarão à tarde, mas quando estava perto dos dez anos, começou a pegar jangada com o pai, e achou bom não ter mais que ficar arrancando a merda das costas dos sete-barbas com palito. O mar tinha uma calma que ele gostava, só que também tinha a rede, aqueles peixes lá dentro se batendo pra viver. Claro que nenhum pescador que se preze pensa nisso, na agonia do bicho diante da morte, mas ele era criança e pensava, ou era só frouxo e pensava, mas fato é que um dia pescaram uma cioba de uns doze quilos, uma cioba com o rabão vermelho e o corpo dourado, um peixe que parecia pintado por Deus, e ele não aguentou ver aquela coisa bonita se batendo, rebentando a cauda contra o casco. Pegou a cioba no colo como um bebê e ficou ninando a criatura, que nem a mãe dele fazia com o irmão mais novo, cantando e sussurrando: calma, calma… Até o peixe rabanar cada vez menos e morrer nos seus braços. Ou quase morrer, porque um pouco antes do bicho estrebuchar de vez, o Lauro levou uma bofetada na cara, dada pelo pai com tanta força que quebrou o nariz dele, encheu de sangue a regata e a cioba. Não vê que desse lado é mais torto?, o Lauro me perguntou, virando de perfil, enquanto o bloco ainda passava pela rua. Nunca reparei, disse. E nunca tinha reparado mesmo, porque só via o nariz dele de um lado, o lado que ficava pra dentro do táxi. Quando fiz catorze anos, fui embora de casa, vim pra São Paulo sozinho, me disse. Depois se aquietou, de novo olhando pra frente. Senti vontade de agradar ele, mas claro que não podia fazer isso, ia pegar mal passar a mão no homem. Então resolvi agradar como dava, contando alguma coisa de mim, o que não foi fácil porque, Nossa Senhora Aparecida, como sou tímida, meu coração trota só de eu pensar em dizer alguma coisa, mas fiz força e disse, contei que fui criada pela minha vó, que sempre foi só eu e ela, e que quando ela sentiu que ia morrer, tratou de arrumar uma casa de família pra eu trabalhar em São Paulo, porque queria que eu fizesse faculdade, trabalhasse de dia e estudasse à noite. Foi por isso que vim pra cá, porque ela mandou, me botou o endereço na mão, rua Artur de Azevedo, 143, e eu vim segurando o papel e chorando de Mandaguaçu até aqui. Quando cheguei, descobri que a patroa tinha um bebê e eu precisava cuidar dele também à noite, o que não achei ruim porque adoro um recém-nascido, mas durante anos me senti mal por não ter honrado o desejo da vó Brígida e virado professora. E você queria ser professora?, o Lauro me perguntou. Eu disse: não, e demos risada, e ouvimos as buzinas, o bloco já tinha passado e a gente podia avançar.
Fomos até minha casa como sempre, sem falar nada, ouvindo rádio. Quando chegamos lá, ele não parou em fila dupla, foi estacionando numa vaguinha bem na frente do meu portão. Eu dei o dinheiro da corrida, mas ele não quis pegar, empurrou a nota de volta, desceu do carro e abriu a porta pra mim. Depois caminhou comigo até o portão e disse: posso? Senti medo, uma coisa esquisita, o cheiro de Brasso na minha cabeça ou no meu nariz, não sei direito, mas daí o Lauro segurou a minha bolsa pra eu procurar a chave da porta e fiquei tranquila de novo. Se bem que tranquila não é a palavra, minhas mãos estavam aguando, aquele homão ajeitado entrando na minha casa, eu preocupada em ver se estava tudo limpo, escondi logo um pano que tinha deixado jogado em cima da pia, disse: não repare a bagunça, mas ele nem olhou, foi direto para o aparelho de som do lado da tevê, um três em um que ganhei da dona Tarsila e nunca nem tinha ligado. Pegando um dos bolachões que também ganhei, falou: posso pôr o do Elton John? Tirou o disco com cuidado de dentro da capa, botou a agulha. Eu não conhecia a música, agora sei qual é, porque depois voltei pra ouvir várias vezes, Blue Eyes. E quando vi, o homão estava perto de mim, uma mão levantada, me tirando pra dançar. Me acheguei junto dele, meu nariz na altura da barba, e senti um cheiro bom que fez meu rosto avermelhar. Pensei: deixa de ser jacu, mulher, e só de pensar no tanto que eu estava sendo jacu, avermelhei mais ainda, e antes que o Lauro percebesse, falei: vou pegar uma coisa e já volto. Busquei dentro da minha bolsa a máscara que alguém deixou na festa, um rosto lilás com uma lágrima branca, um rosto triste mas bonito, dona Tarsila disse que devia ser do Carnaval de Veneza, e que sim, eu podia pegar pra mim, pensei que ia ficar chique pendurar na minha sala, nunca imaginei que ia usar no meu rosto naquela mesma noite, mas de repente eu estava com a máscara, vendo o Lauro pelos olhos recortados, a mão de novo no ar me esperando. Seguimos no Blue Eyes, até que esse homem me pegou no colo e me deitou no sofá, foi tirando bem devagar a minha blusa e soprando um a um os confetes grudados pelo suor no colo dos meus seios.
Depois dessa noite, o Lauro passou a me pegar toda sexta no serviço e foi ficando comigo cada vez mais, nos sábados e logo nos fins de semana inteiros, até que um dia apareceu de mala e cuia e televisão quarenta e três polegadas, botou seus sapatos junto dos meus, sua Bíblia junto dos meus livros. Eu dormia na dona Tarsila de segunda a quinta, então sexta quando ele me pegava era uma saudade que ocupava a gente a madrugada toda, no sábado acordávamos tarde, sempre os últimos a chegar na feira. Ele adorava escolher o que ia fazer pro almoço, gostava de peixe, acho que lembrava da mãe, me ensinou a descamar de um jeito que eu não sabia, ficávamos os dois virados pra pia, cada um com uma faca limpando, às vezes um cotovelo esbarrava no outro e a gente ria. Em seguida ele começava a cozinhar e a beber cerveja, o pano de prato sempre pendurado no ombro, um disco tocando, era batata que alguma hora me tirasse pra dançar. Me chamava de Nhazinha, porque dizia que eu era da roça, e fazia cada coisa pra mim. Um dia apareceu com uma cadela, agora que eu fico em casa você pode ter cachorro, falou, e batizou a guapeca de Biônica. Acho que nem sabia direito o que essa palavra queria dizer, mas achava engraçada, Biônica!, gritava jogando um chinelo pra ela pegar. Mais ou menos nessa época, a dona Tarsila e o seu Ronaldo resolveram ir morar no Guarujá, eu tive que procurar outro emprego. Acabei indo parar na dona Fernanda, e no começo fiquei feliz porque trabalhava o mesmo tanto de horas que trabalhava na dona Tarsila, mas ganhava mais e só cuidava de criança, da Corinha, que na época era um bebê. Só que um dia não sei o que deu na dona Fernanda, cheguei segunda cedo e ela estava tomando café com cara de quem não dormiu, o robe vermelho todo torto, o cabelo desgrenhado. Me disse que tinha uma proposta, perguntou se eu não queria ganhar mais, em vez de dois salários, três mínimos pra trabalhar direto, folgando só um domingo por quinzena. Agradeci a oferta, é pecado desdenhar da fartura, mas disse que não podia, que eu e Lauro estávamos tentando ter um filho, ir pra casa só uma vez a cada quinze dias não ia dar. Na época ela ainda fumava, lembro que acendeu um cigarro, bateu a cinza no primeiro pires que viu, disse que gostava muito de mim, por isso ia fazer outra proposta, quatro salários mais plano de saúde. Eu não queria ter filho? Já pensou que maravilha dar à luz num hospital particular? Mas pra isso eu preciso engravidar, dona Fernanda, e daí ela perguntou se o meu ciclo era regular. Eu disse que era um relógio, e ela falou que podíamos fazer o seguinte, eu folgaria um domingo por quinzena, e no dia em que estivesse ovulando, era só fazer a tabelinha, eu também podia dormir na minha casa. Teria direito a uma noite de visita íntima por mês. Na hora aquelas palavras me incomodaram, visita íntima, parecia coisa de presidiária, mas logo a dona Fernanda desatou a falar do dinheiro, que aquele valor ia ser com carteira assinada, que eu ia poder financiar uma casa, pôr meu filho numa escola particular, essas coisas. Eu disse que precisava falar com o meu marido. Fui lá no casulo e liguei pra ele. O Lauro disse que preferia que eu não aceitasse, mas como não tinha condições de me oferecer o que a dona Fernanda estava oferecendo, que eu fizesse o que o meu coração mandasse. Fui até a janela da área de serviço, fiquei olhando pra fora, lembrando da fila de mulheres na agência de emprego, lembrando de mim mesma procurando serviço, das patroas que na entrevista diziam que tinham me adorado e que iam ligar logo pra eu começar mas não ligavam nunca. Também fiquei pensando o que a vó Brígida ia achar de eu recusar um salário daqueles, salário de professora. Então disse para a dona Fernanda que tudo bem, eu aceitava.
No dia da visita íntima, o Lauro desmarcava a corrida que tivesse pra me buscar, a gente ia pra casa ouvindo música, eu no banco do passageiro, ao lado dele, um botando a mão na coxa do outro, ele me carregando no colo até a cama, e foi bom assim durante alguns meses. Tinha dias que eu estava cansada e o Lauro também, ou acontecia alguma coisa que apoquentava um dos dois, e ninguém ali tinha dezoito anos, era um senhor e uma senhora de quarenta e poucos, às vezes não tinha agrado que animasse aquele homem, mesmo assim a gente dormia abraçado. Até a hora que o amor também deu de faltar, porque quando eu chegava em casa no domingo era tarde, já não tinha mais feira nem peixe pra descamar juntos, já não tinha mais um dia todo para o Lauro se alegrar com cerveja e me tirar pra dançar, e assim devagar fomos ficando cada vez mais longe, como se a mesa da cozinha em que a gente jantava fosse crescendo no meio de nós, metros e metros de tampo no meio de nós, até que a gente não se ouvia mais direito, não se entendia mais como antes. Isso tudo eu sei agora, na época eu não sabia o que estava acontecendo, nosso amor era aquela fruta que começa a apodrecer por baixo sem ninguém ver. Só sei que devagar Lauro foi deixando de me buscar na dona Fernanda, de fazer a nossa janta, de me abraçar de madrugada, até o dia que cheguei em casa, numa noite de visita íntima, e senti um fisgadão no peito, porque a Biônica não correu para me receber no portão, e isso nunca tinha acontecido antes.
Abri a porta já pressentindo o que eu ia encontrar, ou o que não ia, porque quase nada estava lá. Faltava a rede no canto da sala, o cesto que a mãe dele trançou, o estojo de ferramentas e a Bíblia na estante, as roupas no armário e a cachorra, ele tinha levado a Biônica. Gritei feito um porco no abate, como ele tinha ido embora sem falar comigo? Depois me enrodilhei no chão do quarto e chorei, chorei como não chorava desde a morte da minha vó, me sentindo abandonada de novo, pelo Lauro, pela minha cadela e pelo bebê que nem cheguei a ter, e quanto mais eu pensava mais me doía, porque nem de culpar o desgraçado eu tinha condições, ele foi embora como chegou, sem dizer palavra, era o jeito dele, e levou a Biônica porque sabia que eu não ia poder cuidar dela, me poupou de um problema. Só de pensar nisso e na quarenta e três polegadas que ele deixou pra mim eu chorava mais, de raiva e amor, de amor e raiva.
Tentei ligar pro Lauro várias vezes, deixei um monte de mensagens, mas ele nunca me atendeu nem me retornou, o que me deu a certeza de que arrumou outra, que também não queria falar comigo pra não ter que me contar. Fiquei tão mal que durante semanas chorei no trabalho, a ponto da dona Fernanda, que nem parava em casa, reparar e me perguntar o que estava acontecendo, e eu nem podia falar a verdade, porque se ela soubesse que o Lauro tinha ido embora, acabou folga quinzenal, acabou visita íntima, ela ia me fazer morar na Suíte Tóquio, e claro que eu não queria isso, a pessoa quer ter uma casa pra de vez em quando poder sentar no sofá, escolher o que vai comer, largar um copo sujo em cima da pia. Disse pra dona Fernanda que estava triste mas não sabia por quê. Ela disse: isso aí é depressão, não dá pra ficar passando essa tristeza pra Cora, vou te levar no meu psiquiatra. Me senti agradecida, sabe Deus quanto custa uma consulta dessas, mas claro que não aceitei, meu problema não era de resolver com remédio. Disse pra ela ficar tranquila que a choradeira ia parar. Uns dias depois, descobri uma coisa curiosa, que a gente pode economizar o choro que nem economiza moedas. Eu guardava a quinzena toda e no domingo de folga abria o cofre, a chave era o disco do Elton John, eu deitava na sala com as cortinas fechadas, punha Blue Eyes e soluçava de acordar os vizinhos.