Suíte Tóquio
Capítulo 26
Entramos no carro. Abro a janela, acendo outro cigarro. Enquanto isso, Cacá liga para a mãe da Bebel, colega de classe da Cora. Explica a situação, eu ouço o desespero dela no viva-voz. Cacá apazigua, mente que talvez Cora esteja dormindo na casa de alguma outra amiga, mas de qualquer forma pede que acorde a filha e pergunte se viu Cora na escola. Demora uns cinco minutos e a mãe volta dizendo que a menina não viu. Sabemos que isso não é garantia de nada, às vezes crianças de quatro anos veem uma batalha de dragões, mas não veem o colega ao lado. Atendendo à sugestão que o delegado tinha dado, mandamos uma mensagem no grupo do colégio, abrindo o jogo e pedindo que nos informem se viram ou se seus filhos viram a Cora.
Estou acostumada com o imediatismo dos meus grupos, com os workaholics, com os gringos em outro fuso, acho que teremos respostas imediatas, mas são quase duas da manhã e, aparentemente, mães e pais de crianças pequenas às vezes dormem. Cacá sugere que enquanto esperamos essas e outras notícias, façamos os caminhos que Cora e Maju devem ter feito. De casa para o clube, do clube para a escola. Embora não ache a proposta promissora, aceito.
Cacá abre sua janela. Não trocamos mais uma palavra. Os olhos atentos, os ouvidos atentos. O carro a trinta por hora. Ele vasculha o lado esquerdo da rua, eu o outro. É um daqueles quarteirões típicos da cidade, de pequenas construções geminadas. A essa hora, não há ninguém na rua. Só os letreiros disputando o exíguo espaço urbano. Passamos pela Ótica Vivian com a grade abaixada. Os portões também abaixados de uma oficina mecânica. Na lateral, a porta que leva ao segundo andar, uma academia de muay thai cujas janelas são escuras, talvez nem de dia deixem transparecer alguma coisa. Em seguida, um portão de setas metálicas oculta um corredor estreito. Uma clínica de podologia com uma abertura baixa, claustrofóbica, como que talhada só para pernas e pés entrarem ali. O chaveiro não chega nem a ser uma casa, é uma porta apenas, com uma chave amarela de boné sinalizando o serviço. Ao lado, uma loja de doces, uma papelaria. E na esquina, o Taste Delivery, com a porta de aço abaixada mas não totalmente, um palmo de luz acesa vazando pela abertura, uma moto estacionada na frente. E tudo isso em somente um quarteirão. Se cada porta e cada janela de uma cidade escondem um mistério, por mais banal que seja esse mistério, quantos se escondem num lugar do tamanho de São Paulo? A mesma cidade que um dia me fascinou pelo seu infinito de possibilidades agora me aterroriza.
CENA 1 — TASTE DELIVERY — NOITE
Maju entra no delivery com Cora e pergunta se vendem pizza
em pedaço, a criança sentiu o cheiro e ficou com vontade. O
homem que está no caixa olha para Maju, depois para um
motoboy sentado num banco. Os dois trocam um sorriso. O
homem volta-se de novo para Maju.
HOMEM DO CAIXA
A cozinha já fechou, mas posso arranjar alguma coisa.
O homem do caixa entra na cozinha enquanto o motoqueiro
se levanta e abaixa a porta de aço. O homem do caixa volta
com uma faca de cozinha. Encurrala Maju na parede, passa a
lâmina rente ao seu pescoço.
HOMEM DO CAIXA
Tira a roupa senão vamos cortar você e a menina.
Maju começa a tirar a roupa. O motoqueiro se aproxima, abre
o zíper do macacão. Tira o pau duro para fora. Maju dirige-se
aos homens.
MAJU
Não na frente dela.
O homem do caixa pega a criança, senta-a no colo dele, tapa
seus olhos com uma das mãos. O motoqueiro encosta Maju
no balcão e mete nela por trás. O homem do caixa assiste
enquanto bolina Cora com a outra mão. A menina chora.
O farol abre e o Taste Delivery fica para trás. Eu nem conto para o Cacá o que imaginei. Não é hora de pirar, preciso prestar atenção na rua, lamento não ter trazido um Rivotril. É pensar nisso que uma farmácia aparece. Não surpreende que apareça, tem uma Droga Isso e uma Droga Aquilo em cada esquina, mas de qualquer forma eu não teria a receita para comprar o meu benzodiazepínico. Só olho lá para dentro, para aquela luz obscena de branca nas embalagens coloridas, procurando uma mulher e uma criança, uma mulher e uma criança, mas o balcão está vazio. Pleno de dor no seu vazio. E as aberturas não param de surgir, a padaria fechada, a casa gradeada, seguida de uma garagem com portas metálicas enlaçadas por um cadeado grosso.
CENA 2 — CASA — NOITE
O taxista para na calçada, abre as portas metálicas. Entra
com o carro. Fecha o cadeado. Em seguida abre o porta-
malas. Pega Cora desacordada, leva no colo para dentro.
Atravessa com ela uma sala, passando pelo sofá, mesa de
centro, tevê. No fundo do ambiente, há outra porta, que ele
destranca com a mão que está livre, revelando um lance
profundo de escadas. Ele desce com cuidado para não pisar
em falso, para não derrubar a menina. Lá embaixo há outra
porta, grossa, com duas fechaduras que ele destranca usando
o mesmo molho de chaves. A porta abre e revela um
minúsculo apartamento, de pé-direito baixo. Uma menina de
onze anos, com a pele muito branca, de quem não vê a luz do
sol há anos, está lavando a louça. Ela se vira assim que ouve
a porta abrir. Aproxima-se para ver a criança que o taxista traz
consigo, um olhar curioso mas ao mesmo tempo morto. A
menina afasta o cabelo do rosto de Cora. Seu pulso branco e
magro está circundado por inúmeras cicatrizes finas.
Lembro das mulheres que mataram o bugio. Sinto uma força que nunca senti, talvez nem no parto. Tenho a sensação de que consigo fazer qualquer coisa. Arrancar uma casa do chão, um prédio do asfalto como Godzilla, olhar nas entranhas de cada construção até achar a Cora. E só não tento fazer isso porque me falta altura e uma mão que abarque todo um telhado ou o diâmetro de um edifício. Penso que posso até voar se for preciso, embora não consiga voar para fora da minha própria loucura. Se bem que “loucura” não é a palavra. Tudo que imagino enquanto vejo esse labirinto de portas e janelas é possível, já aconteceu com diversas meninas. Pego mais um Marlboro, acendo e puxo com tanta força que a brasa consome um terço do cigarro de uma só vez. Intuo que não devo olhar para os buracos, Cora e Maju não devem estar nesses lugares e mesmo que estivessem, eu não veria. Devo olhar para a calçada, para onde posso encontrá-las. É isso que faço, quarteirão após quarteirão, os olhos cegos para as janelas acesas que tentam me seduzir, até que enxergo um viaduto. E embaixo dele três adultos e umas dez crianças perambulando entre colchões, um carrinho de catar papel e um fogareiro.
CENA 3 — RUA — NOITE
Maju e Cora caminham pela rua na hora do rush, as calçadas
apinhadas de gente. Maju para e compra água, distrai-se
conversando com o vendedor ambulante. Uma mulher pega
Cora, que logo é posta num carrinho de catar papel junto com
outra criança, em meio a grande quantidade de entulho. O
carrinho segue por diversas ruas até chegar debaixo de um
viaduto. A mulher veste Cora com roupas velhas. Depois a
manda ir com um garoto pedir dinheiro no farol.
CENA 4 — RUA — NOITE
Maju paga o vendedor ambulante, vira para trás e percebe
que Cora não está mais ali. Se desespera, sai andando por
toda parte. Entra nos estabelecimentos comerciais, na
estação de metrô, na galeria. Aborda a polícia, que pede seus
documentos. Maju se assusta. Esgueira-se. Depois entra num
táxi, vai até a rodoviária e embarca num ônibus para
Mandaguari.
Ainda vejo o viaduto pelo retrovisor. Jogo fora o cigarro e digo: para. O Cacá não entende. Para esse carro agora, já sei o que aconteceu. Ele obedece. Eu saio, bato a porta. Ando rápido em direção ao viaduto. De perto, o amontoado de pessoas é ainda mais triste, de repente e pela primeira vez entendo o significado da palavra “miséria”, o chão coberto de embalagens pisoteadas, os meninos chupando plásticos vazios. Não são eles que procuro. Procuro por ela. Eu a vi de costas, o jeitinho de andar, a altura, os cabelos. Começo a gritar: Cora, Cora. Todos viram para mim com seus rostos encardidos. Sigo pisando sobre os colchões rasgados, como se este lugar não pertencesse a ninguém, como se pessoas não fossem ninguém, só cones dos quais preciso desviar para achar a minha filha. Cora, a mamãe tá aqui, grito, passando por cima de um cobertor e me aproximando da barraca que não preciso arrancar do chão como Godzilla porque já está solta, sem porta e quase sem teto. Cora, repito, tocando o ombro da menina que agora já sei não ser quem procuro. A menina me olha confusa. A mulher que está na barraca me olha confusa. Escuto Cacá chamando por mim. Vejo nosso carro parado no meio da rua, o pisca-alerta ligado, meu marido correndo na minha direção. Vamos pra casa, Fer. Sinto sua mão tocando meu ombro. Sua voz repetindo: vem, vamos pra casa. Acho que ele pede desculpa para os moradores de rua, não sei bem. Caminhamos juntos, entramos no carro. Viro e pergunto pra ele: você acha que a gente vai encontrar a Cora? Acho. Acha mesmo? Acho, ele repete. Tomara que sim, porque deve ser melhor ter um filho morto do que desaparecido.