Suíte Tóquio

Giovana Madalosso · Capítulo 29 de 38

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Suíte Tóquio

Capítulo 29

 

Não sei o que deu nesse homem. Está falando mais rápido, as narinas abrindo como se estivesse com raiva de alguma coisa. Eu olho pra estrada e não vejo nada, a assombração deve estar dentro dele. Ou talvez seja pressa, porque eu sinto que ele também está andando mais rápido. E logo agora que eu quero ir ao banheiro. Passamos por um posto, mas não tenho coragem de pedir pra ele parar, não quero incomodar, resolvo segurar um pouco. A pressa dele não é de todo ruim, pra mim quanto antes a gente chegar melhor, mas tem outro lado meu que quer que ele vá a vinte por hora. Que ele ande em círculos, que faça o retorno da estrada por dias e dias sem parar, o sol nascendo e se pondo, nascendo e se pondo, só para eu sentir o cheiro desses cabelos de criança por mais tempo.

Quando levanto o nariz da Cora, vejo que o Ednardo está pisando mais ainda, o marcador do painel passando dos cem. Pra mim já é questão de segurança. Tomo coragem e digo, como quem não quer nada: pela gente não tem pressa, viu? Ele olha pra mim. Diz: isso é coisa do prego. Prego? Quem será esse, talvez o motorista que ele tanto procura pelo retrovisor? Eu não vou cometer a indiscrição de perguntar. Até porque é capaz dele falar por conta, ele não está parando de falar. Diz que é bom que a gente chegue cedo, porque São Paulo é treta, os caminhões têm horários limitados pra rodar. Depois pergunta onde nós moramos. Eu dou uma referência. Ele diz que consegue me deixar lá. Agradeço a Deus por ter colocado esse homem no meu caminho. E se ele está sendo tão gentil, não tem por que eu me acanhar. Peço pra ele parar quando aparecer um posto, preciso ir no banheiro. Ele diz que tudo bem e segue falando, agora da mulher, o cristal dele. É assim que chamam mulher de caminhoneiro, cristal. Talvez porque precise ser muito preciosa pra aguentar um marido na estrada, aparecendo em casa uma, duas vezes por mês. Mas o cristal dele trincou. Arrumou outro. Viro para o lado e vejo seus olhos aguando, esse consegue ser mais manteiga derretida do que eu. Me conta que ela avisou, ela bem que avisou. Estava cansada de ficar sozinha. Ou ele largava a vida de caminhoneiro ou ela ia sair com alguém. Penso no meu caso, na decisão de trabalho que me custou o casamento. Pergunto se ele não considerou largar a estrada pra ficar com ela. Disse que não, porque enlouqueceria. Na vida não temos controle de nada. Na estrada, pelo menos, ele tem a ilusão de que controla alguma coisa, que está no manche. Não sei o que é manche, mas imagino. Ele segue falando que ter que chegar em algum lugar também dá sentido pra falta de sentido que existe em tudo. Se sua vida fosse todo dia o mesmo sofá com a mesma janela, já teria metido uma bala na cabeça. Penso: como as pessoas são diferentes. Eu, se soubesse que os dias da minha vida iam ser cada um de um jeito, aí é que metia uma bala na cabeça.

Vejo um posto, mas é do outro lado da estrada. Pergunto para o Ednardo se eles se separaram, menos por curiosidade e mais pra me distrair da minha bexiga que está estourando. Ele diz que eles continuam juntos. Que na vida tudo se aprende, até a ser corno. Só fez um pedido pra mulher, que não conte das escapadas, que minta para ele se for preciso, mas diga para o amante que ele sabe de tudo. Corno sim, mas idiota nunca, diz, e suas narinas abrem de novo. Ele segue falando, mas já não consigo prestar atenção, minha bexiga é como aquelas que as crianças enchem de água, o plástico balangando pesado, apertando as minhas partes por dentro. Seguro com tanta força o xixi que os pelos do meu braço levantam. Cada segundo vira um minuto. Ô tempo duro de atravessar. O corpo mostrando quem é que manda. Quem já passou fome e frio, sabe o poder do corpo. Quem nunca passou, descobre na doença. Ou na velhice. Uma hora todo mundo acaba se ajoelhando perante a própria carcaça. Eu estou aqui humilhada pela minha. Quando vai aparecer um posto? Sinto uma gota escapar, a urina molhando a calcinha.

Pode parar? Preciso urinar agora, digo. O Ednardo balança a cabeça. Dá seta e vai reduzindo até o acostamento. Só então me dou conta de que não tenho como fazer. Não posso deixar a Cora sozinha no caminhão. Até que estou confiando no Ednardo, mas de olhos fechados não confio em ninguém, nem nos taxistas da praça. Mesmo com eles, embarco eu antes e a Cora depois, porque se tem uma coisa que aprendi vendo programa policial, foi que psicopata não manda aviso. Vou ter que descer com ela no colo. O Ednardo diz: deixa a menina, eu cuido dela. Digo: não, obrigada, e vou descendo do caminhão, procurando um canto na beira do milharal. É tudo tão desgraçado nesta noite desgraçada que até a plantação está seca, escuto as folhas estalando debaixo dos meus pés. Pelo menos a lua está aqui, me guiando até uma moita. Penso em pôr a Picochuca no chão, mas lembro das cobras que andavam pelo meio dos pés de amora. Vou ter que fazer com ela no colo.

Ainda bem que estou de saia, se estivesse de calça seria impossível. Com a mão que está livre, levanto o tecido, enrolo na cintura. Depois vou abaixando a calcinha até ela cair no chão. Tiro um pé de dentro, depois o outro, empurro a peça para o lado. Tento me agachar um pouco, mas não consigo, me desequilibro, a Cora está pesada demais. O jeito é fazer de pé. Abro bem as pernas. Não acredito que vou urinar feito homem, o quadril apontado pra frente para o mijo não molhar os meus pés. Mas eu não sou homem, não tenho nem o direito de urinar em paz, as gotas respingam nos meus joelhos, nos meus tornozelos, nos meus calçados. Será que o Ednardo está vendo? Sacudo, sacudo como um homem faria. Em seguida tento me abaixar pra pegar a calcinha, mas também não consigo, quase caio no chão. Além disso me dou conta de que a calcinha deve estar suja, empesteada pela terra vermelha. Desisto de pegar. Solto a saia. Volto para o caminhão sentindo o cheiro de urina que vem comigo. O Ednardo estende a mão pra gente subir e abre as narinas, será que está sentindo o ranço? Logo eu, uma mulher tão limpa, passando por isso. Sinto uma tristeza. Uma sozinhez. Um cansaço. E o Ednardo também deve estar cansado, porque dessa vez não puxa papo. Segue com os olhos bem abertos, os dedos batucando no volante, mas a boca fechada, trincada por aquela tensão que não consigo entender. Olho no relógio do caminhão. São quatro da manhã. Você não vai pegar no sono?, pergunto. Sem chance, ele diz. Relaxo um pouco. Minha Nossa Senhora, que exaustão.