Suíte Tóquio
Capítulo 33
A cidade aparece. Ednardo diz que é São Paulo, mas nem precisava avisar. Eu reconheço essa desgraça de longe. Esse monte de prédios sem cor. Casulos empilhados uns em cima dos outros, milhões de casulos. Dentro de cada um, uma lagarta, fiando o dia inteiro, a semana inteira, a vida inteira. A maioria sem nunca virar mariposa. Eu bem que tentei dar o meu voo, mas parece que quem nasce pra fiadeira não usa seda, usa poliéster e viscose, como o exército branco. Imagino minhas colegas agora, dentro dos seus pequenos casulos, desligando o despertador, lavando o rosto, escovando os dentes, prendendo o cabelo, vestindo o uniforme pra entrar no grande casulo e preparar o café, pôr a mesa, trocar a fralda, dar a papinha, juntar os brinquedos. O que é ótimo, porque com tanta coisa pra fazer, nenhuma deve aparecer na praça antes das sete horas.
Me ajeito no retrovisor, não quero chegar com essa cara de quem passou a noite varada. Estou ajeitando a piaçava quando percebo uma movimentação estranha. Íamos pela marginal, conheço o caminho, mas agora o Ednardo pega uma saída. Tiro os olhos do espelho, miro em frente e vejo que estamos entrando num bairro da periferia. Bairro é elogio, estamos entrando num apinhado de casulos sem acabamento. Imagino que o Ednardo virou aqui pra cruzar para o outro lado da Marginal, pra fazer algum retorno, mas não, ele avança pra dentro. O que vamos fazer nesse buraco?, penso. Um pouco depois, como se tivesse ouvido, ele olha pra mim. Vou fazer uma parada rápida. Digo: tá bom, embora pra mim não esteja nada bom. Quero perguntar que parada é essa, mas ele está cada vez mais taciturno. Vai ver está indo pegar droga. Talvez tenha dito vou fazer uma parada nesse sentido, de fazer um rolo, uma compra, penso, e de repente as peças se encaixam. Deve ser por causa da maconha ou do crack que esse homem não dorme. Deve ser por causa da abstinência que batuca no volante. Deve ter sido por causa de tóxico, e não de muamba, que ele foi preso.
Já começo a procurar a casa do traficante, a imaginar como é uma boca de fumo, a pensar se vou poder esperar na boleia ou se vou ter que descer. Será que vou ter que descer? O medo que eu tenho de uma bala perdida. De uma batida da polícia, de ir presa sem motivo, a Cora sendo encontrada do jeito mais absurdo. As autoridades perguntando se o que tenho na bolsa é joia roubada. O caminhão segue avançando entre os casulos cheios, sei lá quantas lagartas dentro de cada um. Algumas já cedo com o pescoço pra fora. De repente, ter sido uma mulher sozinha na Suíte Tóquio parece um privilégio. Eu era rica e não sabia. Agora não tenho nada, e mesmo não tendo nada, sigo tendo alguma coisa a perder. Começo a rezar um pai-nosso. O Ednardo vira numa rua mais larga, de um lado um mercadinho, do outro uma lotérica. Ele avança mais um pouco, escuto o barulho do caminhão acelerando, quando a gente está cansada fica tão sensível, tanto que também escuto o silêncio que vem depois, e em seguida o motor suspirando até parar numa esquina, num posto. Graças a Deus, um posto. Relaxo, mas não totalmente, pra que abastecer aqui neste fim de mundo?
Alguma vantagem deve ter, porque o Ednardo conhece até o frentista, cumprimenta pelo nome. Pede pra encher o tanque, paga no cartão. Depois fala alto pra ele: vou lá, beleza? O frentista faz que sim. Eu olho em volta. O posto é pequeno, tem só uma loja de conveniência sem-vergonha e um banheiro, ele só pode estar falando do banheiro. O Ednardo começa a cavoucar atrás do banco dele, imagino que procurando um rolo de papel higiênico, por que não me ofereceu quando precisei? Ele se bate, já vou sugerir que se não achar, peça um jornal para o frentista, mancha o traseiro de tinta mas é melhor do que nada, mas então ele puxa lá de trás um saco grande. Não é uma mochila nem uma sacola, é um saco mesmo, talvez de náilon, um fio dando um nó na ponta. Ele põe o saco debaixo do braço. Já volto. Qualquer coisa, buzina.
Bate a porta. Fico lá dentro, observando ele se distanciar. Passa pela outra bomba, pelo pulgueiro da conveniência, segue com o saco pra ponta do posto, onde, só agora vejo, tem uma meia-água com uma porta, um escritório ou um depósito ou a casa de alguém. Ele dá uma batidinha, volta a segurar o saco debaixo do braço com as duas mãos. Talvez o traficante seja ele, trazendo carregamento da Bolívia, do Paraguai, daquele outro país do lado do Paraguai. Não sei se alguém abre a porta ou ele mesmo abre, não dá pra ver direito. Olha pra dentro, entra. O frentista, que estava mexendo em alguma coisa perto da bomba, vai até a meia-água e senta numa cadeira que tem lá na frente. Eu já enxergo o Ednardo fazendo a tal da parada, botando o sacão na mesa, pesando a mercadoria, pegando o dinheiro. Ou eu estou louca e o homem não está fazendo nada de mais. Mas, Jesus Cristo, o que ele está fazendo? Seja o que for, não é mais problema meu. Estou em São Paulo, posso pegar um táxi, mas olhando pelo retrovisor, não vejo nenhum. Vejo carro, carrinho de papel, carreta, mas nada de veículo branco. Pobre só apela pra táxi quando está à beira da morte. E só de pensar em entrar em outro transporte, com outro motorista, já me dá um negócio. O Ednardo pode ser traficante, usuário, mas é conhecido. De confiança, ou pelo menos é nisso que quero acreditar, embora já tenham passado quase quinze minutos e nada dele aparecer.