Suíte Tóquio

Giovana Madalosso · Capítulo 20 de 38

Páginas do PDF

Suíte Tóquio

Capítulo 20

 

 

Depois que voltei da Amazônia, encontrei com Yara algumas vezes. Depois ela foi para o Espírito Santo captar outro episódio da série, e começou o silêncio. Mandei mensagens durante alguns dias, nada de resposta. Não entrei numas. O trabalho da minha equipe era justamente fugir do sinal, me preocuparia se estivessem captando onças sob o guarda-chuva da telefonia. Mas depois de quase uma semana comecei a ficar preocupada. Teria se envolvido com alguém? Ou fora engolida por uma jaguatirica? Pedi para Agnes dar uma discreta averiguada. Logo me contou que a diretora da série tinha aterrissado em São Paulo na véspera, às dez da manhã. Fiquei surpresa, se estava na mesma cidade que eu, por que não havia me procurado?

Saí do trabalho e passei em casa para tomar um banho. Tirando as alternativas que levavam ao IML, em todas as outras eu nutria esperança de fazer um sexozinho depois do encontro. Ao chegar, fui recepcionada pela Maju, sem o uniforme branco. Que bom que a senhora chegou, já ia mandar uma mensagem, achei que tinha esquecido da festa. Claro que eu tinha esquecido, mas não precisei de muito esforço para lembrar. A mãe da aniversariante, uma colega de escola da Cora, havia mandado um save the date para todas as mães dois meses antes do grande dia, como se alguém fosse adiar uma viagem ou mesmo uma consulta médica por causa daquele evento. Maju disse que tinha me mandado uma mensagem avisando que não iria ao aniversário por causa da visita íntima. E eu tinha mandado um positivo para ela. Mandei mesmo, sem ter entendido que quem teria que acompanhar Cora na festa — ela já estava lá, a turma havia ido direto da escola — seria eu, já que meu marido fora entregar cactos num casamento.

Sem opção, peguei a bolsa e fui cumprir o meu dever. Toquei a campainha do número 25 da rua Clélia. Uma funcionária atendeu e só então me dei conta de que não sabia qual era a aparência da mãe da aniversariante. Enquanto caminhava para o espaço da festa, na parte de trás da casa, dei uma olhada na minha agenda, mas não tinha o nome dela nem o telefone, quanto mais a foto. Cumprimentei as mães, todas sentadas a uma mesa, com a mesma efusividade. Depois fui atrás da Cora, que estava sendo maquiada por uma moça vestida de palhaça. Vi seus olhos girarem de alegria ao me ver. Dei um beijo na minha filha, disse oi para suas amigas. Perguntei a Cora quem era a mãe da aniversariante. Ela apontou para uma ruiva. Depois correu atrás das outras meninas.

Puxei uma cadeira, sentei-me com elas. Eu conhecia só uma, a mãe de uma menina que frequentava a minha casa, mesmo assim não tínhamos muita intimidade. As outras eu só conhecia de vista, de ois e sobrancelhas levantadas em festas da escola. De qualquer maneira, não era o caso de criar uma conversa paralela. Éramos apenas sete ou oito, não tenho certeza, as outras responsáveis pelas crianças eram as babás, sentadas pelos cantos do jardim. Fiquei ali tomando minha cerveja e ouvindo o papo. Uma delas, com olheiras que roçavam os tornozelos, disse que desde que o filho nascera, não sabia o que era sexo. E o pior: nem queria saber. Outra, com uma saia curta, disse que com ela era o contrário, estava transando mais do que nunca — embora não tenha especificado com quem. Essa segunda era a mãe da amiga da minha filha. Eu já a conhecia de vista, de vê-la pelo bairro, antes de nascerem as meninas. Me dei conta de que, desde que se tornara mãe, a Renata tinha mesmo mudado, ficou muito mais sensual, como se marcasse território com a minissaia, o pouco pano a tremular indicando que aquele corpo seguia sendo a pátria que sempre fora, não uma terra arrasada pela maternidade. Ter um filho era uma porrada tão forte que atirava cada uma num canto do ringue, com estrelas rodando em torno da cabeça. Sem saber mais quem eram, resvalavam em extremos. Ou se anulavam sexualmente ou seu desejo recrudescia. Ou mergulhavam no trabalho ou não sabiam mais o que fazer da vida, largando a carreira para tentar outros negócios ou viver crises existenciais que podiam durar anos. E tão inseguras na sua tarefa materna que precisavam implodir as semelhantes. Era a isso que eu assistia naquele momento, todas fazendo um exercício tão comum entre nós, comentar procedimentos duvidosos ou lamentáveis de outras mães. Fulana botou o filho para dormir com eles na cama de casal. Beltrana dá tudo que a menina pede. Sicrana deixou o bebê vinte dias com a avó. Não é usual que as pessoas questionem tanto o comportamento das outras, não por motivos tão irrelevantes. Desqualificando o outro, atenuamos a sensação constante de estar sendo péssimas mães. Eu não fugia à regra, tinha as fraquezas de todas e ainda um dedo compulsivo, que não parava de olhar as mensagens. Os tracinhos indicando que Yara havia lido. Como assim, ela leu as mensagens? Até então apareciam como não lidas, o que me tranquilizava um pouco, ela podia ter perdido o celular. Mas naquele momento eu sabia: ela não queria falar comigo.

Tentei voltar para a conversa, mas eu já não estava mais ali. Pedi desculpas para a ruiva, mas precisava ir embora antes do “Parabéns”. Ela sussurrou que a mãe da aniversariante era outra e apontou-a para mim. Cinco minutos depois eu saía da festa com Cora esperneando, gritando que não queria ir antes do bolo, eu entupindo seu alto-falante com brigadeiros. Arranquei a caminho de casa. Com Cora acordada, não havia muito que fazer. Mas, de repente, o silêncio. Cora se exaurira tanto que pegou no sono. Pensei: por que não ir? Minha filha estava tão cansada que não acordaria em hipótese alguma. Meti meu orgulho em algum lugar entre o freio de mão e o banco, e acelerei para a casa da Yara.

Toquei rapidamente a campainha, a mão logo voltando a segurar a Cora. Vi seu rosto me olhando por trás da janela. Sorri para ela, que sorriu de um jeito estranho para mim. Saiu da casa, caminhou hesitante até o portão, me cumprimentou com um beijo seco demais para sua média. É a Cora?, disse, e afastou os cabelos do rosto da menina, olhando-a com ternura. Depois tensionou-se de novo. Aconteceu alguma coisa pra você vir aqui? Fiquei preocupada porque você não respondia as mensagens, falei. E fui avançando em direção à porta, apressada pelo peso da minha filha.

Entramos. E só não derrubei Cora para não quebrá-la. Na sala havia uma mulher bem à vontade, com roupa de ficar em casa e pés descalços. Essa é Violeta, Yara me apresentou. A mulher levantou-se, sorriu para mim. Acomodei Cora no sofá. Depois beijei a recém-conhecida, cheirava a xampu. Sentei com as duas na sala e só então consegui absorver toda a figura. Tinha perto de setenta anos, cabelos brancos bem cortados, não era exatamente bonita, mas era muito elegante. Uma elegância que eu não sabia de onde vinha, porque ela não usava acessórios e estava de cara lavada. Era algo dela mesma, da maneira como segurava a taça, como sorria. E por que sorria tanto? Yara me contou que eram velhas conhecidas, de Corumbá. Violeta se hospedou na sua casa porque veio a São Paulo para lançar um livro. Ela é poeta, e foi essa palavra, “poeta”, que fez Violeta sorrir de novo, claramente feliz em ser ela própria. Respirei fundo, não tinha por que me incomodar. A explicação estava dada, eram velhas amigas, quem sabe ela não tinha sido namorada do pai da Yara? Tudo bem que havia as mensagens não respondidas, aquilo ela ainda não me explicara, talvez por não ter tido oportunidade. Ou seja, nada para me preocupar. Tanto que aceitei até uma taça de vinho. Comecei a beber num estado agradável de relaxamento, enquanto ouvia Yara contar que a captação no Espírito Santo havia ficado extraordinária, talvez se tornasse o melhor episódio da série. Depois de tirar uma dúvida sobre o material, puxei papo com Violeta. Acho que perguntei onde seria o lançamento, porque ela falou de uma livraria pequena, explicando que quase ninguém lê poesia. Depois contou que uma vez, num dos seus lançamentos, só uma pessoa apareceu. Ela autografou o livro para o sujeito, tirou foto, bateu papo. Depois descobriu que ele era o responsável pelo estoque da loja. Comovido com a situação, pegou um livro a preço de custo e foi dar uma força para ela. Mas isso foi no começo da sua carreira, antes de você ganhar o Jabuti, Yara disse, e notei uma ponta de orgulho pela outra. Foi sim, antes do prêmio, Violeta assentiu com modéstia, baixando os olhos para o vinho. Em seguida, me convidou para o lançamento e me serviu mais vinho, comentando que eu não tinha sorvido quase nada. Eu já ouvira a palavra “sorver” da boca da Yara. Então era da Violeta que vinha aquele vocabulário elaborado demais para uma estrangeira? Ou mesmo para uma brasileira?

Quando Yara foi ao banheiro, aproveitei a chance. Menti para Violeta, dizendo que também estava apertada, ia usar o banheiro lá de cima. Acho que ela nem me escutou, parecia ter um ouvido refratário a coisas que pesassem menos de duzentos gramas. Subi as escadas e entrei na suíte. Encontrei a cama desarrumada, com dois travesseiros. Junto ao colchão, um livro de poesia, um frasco de vitaminas, óculos de leitura. No banheiro vi uma segunda escova de dentes e uma calcinha grande demais para ser da Yara pendurada no chuveiro. Me olhei no espelho, vi meus olhos lacrimejando. Respirei, ajeitei os cabelos. Desci a escada sorrindo, fazendo de conta que estava tudo bem, mas sem nem sentir, comecei a usar o meu sarcasmo para atingir as duas. E para esse tipo de coisa Violeta tinha ouvidos atentos. Depois do segundo ou terceiro dardo verbal que soltei, ela disse que ia ao posto da esquina comprar cigarros.

Assim que a porta bateu, perguntei para Yara se ela estava comendo a Violeta. Disse que não, foram namoradas muitos anos antes, quando ela morava em Corumbá, desde então nunca tiveram nada. Eram amigas. Tão amigas que Violeta tinha feito a gentileza de nos deixar a sós, dizendo que ia comprar cigarros quando nem fumava. Falei que se era assim, por que ela estava me evitando? Disse que sabia que eu não levaria a situação na boa. E também não podia negar pouso para a amiga. Assim que Violeta fosse embora, me procuraria. Dito isso, encheu nossas taças, chegou perto de mim. Mas se um dia eu transar com outra pessoa, qual o problema? Fiquei sem reação. Demorei alguns segundos para rebater: como assim, qual o problema? Você disse que me amava. Te amo mesmo, quero ficar com você, mas não sou inocente a ponto de achar que nunca mais transaremos com ninguém. Que porrada. Que mão desnudando sem piedade a fisiologia frágil da relação monogâmica. O que eu ia falar, que pelo menos no começo preciso acreditar que entrelaçaremos himens para sempre? Talvez pudesse ter dito isso, mas nessa hora a porta rangeu e Violeta apareceu. Sem cigarros, comendo um pão de queijo. A lua tá grávida, disse, me fazendo pensar como Yara tinha aguentado aquela fábrica de supositórios poéticos no dia a dia. Não devia entender tão bem o português. Ou na ocasião precisava de uma mãe, vai saber. Mas a verdade é que tirando essa questão, Violeta foi se mostrando uma pessoa razoável. Talvez até interessante. Nos chamou até o jardim para ver a lua, o que foi uma boa ideia. Depois falou dos astros, de uma descoberta recente que punha em xeque a disposição astronômica que havia originado os signos. Falamos um pouco sobre o assunto, demos risada pensando na crise de identidade astral, em como um aquariano ferrenho faria para justificar que agora era Peixes.

Depois voltamos para a sala, Yara queria fumar um. As duas sentaram lado a lado no sofá e começaram a preparar o baseado como se estivessem numa linha de montagem. Uma dichavando, outra confeccionando o filtro. Uma enrolando, outra pegando o pilão. Como se não bastasse a sintonia em relação à erva, lembraram de um amigo do pai da Yara, um tal de Roundup, um cara tão desagradável que levava aquele apelido de pesticida, e rememoraram um certo escândalo que ele deu, o que provocou um acesso de riso. Forte a ponto de chorarem, de botarem a mão uma na perna da outra. E tudo isso sem nem terem acendido o baseado. Podia até ser que as duas já não tivessem nada, mas assistir àquela sintonia invejável noite adentro seria terrível. Achei melhor me poupar. Disse para elas que precisava ir. Yara falou para eu esperar, pelo menos fumar com elas. Falei que estava dirigindo, e com a Cora. Não era uma boa estar bêbada e chapada. Dei um beijo nas duas, peguei minha filha e saí da casa.

Yara me acompanhou, ajudou a acomodar Cora no carro. Falou para eu ir ao lançamento. Ia ter uma galera bacana, amigas dela e da Violeta do Mato Grosso do Sul que estavam morando em São Paulo. Não disse nada, só me despedi e arranquei. Depois, como toda pessoa atormentada pela paixão e portanto pelo pensamento cíclico, comecei a achar que tinha entrado numas, que não tinha entrado numas, que tinha entrado numas, que não tinha entrado numas, que tinha entrado numas… E assim, sem parar, até me agarrar na opção que renderia uma desculpa para falar com ela.

Cheguei em casa e larguei minha filha de roupa na cama. Depois fui até a sala e olhando para os azulejos manchados de sangue, mandei a mensagem de voz: fui embora com pressa e esqueci de dizer que te amo. Nesse exato instante, Cacá entrou, com a gravata afrouxada, carregando um cacto e uma suculenta.