Suíte Tóquio
Capítulo 13
Eu custo um pouco pra acreditar que isso é verdade, as coisas ruins são assim, demoram um tanto pra assentar na cabeça. Olho pra lá e pra cá pensando se o ônibus não mudou de vaga, se não está manobrando no estacionamento, mas claro que não, o ônibus fez o que tinha que fazer, pegar a estrada no horário marcado, ninguém tem culpa se você foi trouxa, Maju. E daí vem o pior, me dou conta de que a mala ficou lá. Tenho vontade de chorar pensando em cada coisa, nas mudas de roupa da Cora, como a menina vai ficar sem ter o que vestir, sem uma calcinha limpa? Eu sem uma escova pra ajeitar a piaçava? Os garfinhos de plástico, os saquinhos de sal e açúcar, tudo isso eu arranjo por aí, mas o livro da Nora… nunca vou saber no que deu a paixão da Rosalind. E o que mais me desespera nem é isso, é a imagem da Nega que ficou no meio das páginas, mas pelo menos os documentos e o dinheiro estão comigo. Aliso o sutiã e sinto as notas, talvez eu não seja tão trouxa assim, mas de qualquer jeito sinto vontade de chorar. Quando penso que não tenho mais nada neste mundo a não ser uma bolsa, tenho vontade de despencar ali mesmo, na vaga vazia do ônibus onde eu e a Picochuca estamos paradas, e só não me agacho e começo a ganir porque não posso me dar a esse luxo, preciso resolver a situação. Cadê nosso ônibus, Maju? Foi embora, mas já vamos dar um jeito, digo, tentando não passar o meu nervosismo pra ela.
Olho pra porta da lanchonete. Vejo um homem de uniforme, deve ser algum caixa no intervalo do serviço ou o vigia, se bobear já estava ali desde sempre e eu nem reparei. Antes de ir falar com ele, digo pra Cora não abrir a boca, tenho medo que ela fale da mãe, que dê motivo pra alguma desconfiança. Depois ajeito meus cabelos e vamos até lá, boa tarde, o senhor pode me ajudar? O homem é simpático, quase dá um sorriso. Eu conto a situação pra ele. Ele me fala que essa companhia tem feito isso, deixar passageiro pra trás, os motoristas levam gancho se chegam depois da hora no destino. Conto pra ele da bagagem. Meus olhos águam, eu me seguro de novo. Ele diz pra eu ficar tranquila que a bagagem eles guardam. Eu duvido um pouco, do jeito que tem perebento em rodoviária, alguém vai passar a mão. Mas o que quero mesmo saber é como faço pra chegar em Presidente Prudente. Boa pergunta, o homem diz, e coça a cabeça. Depois fala que tem um ônibus da Cometa que passa mais tarde indo pra lá, mas é outra viação, eles não vão me deixar embarcar. Tem um da Garcia que vai pra Maringá, fala pra eu explicar a situação para o motorista, ele vai me deixar subir. De Maringá já é meio caminho andado, só comprar a passagem na rodoviária mesmo e seguir mais um pouco pra Presidente. Eu acho a ideia boa, pergunto que horas passa o ônibus. Ele diz que não sabe ao certo, ali passam mais de vinte coletivos por dia, mas sabe que é mais para o fim da tarde.
Faço meus cálculos, botando uma boa margem de erro. Temos meia hora pra ir no banheiro e na lanchonete. Depois quero ficar de pé na frente do estacionamento esperando o ônibus parar. Me abaixo, conto pra Ana o que vamos fazer. Depois vamos para o toalete. Enquanto seguro a Picochuca para o popô não tocar na privada, penso na Nega. Se eu seguro a Cora, é a Nossa Senhora que me segura. Não posso sem ela. Lavo bem as nossas mãos e entro na lanchonete, vou até uma prateleira que já tinha visto, entre a gôndola de doces e de revistas. Lá estão dezenas de imagens sagradas, um poleiro divino, posto de estrada sabe o que é importante pras pessoas: comida, bebida, proteção. Olho imagem por imagem, o são Francisco está barato, bem mais barato do que a Nossa Senhora Aparecida, talvez porque tenham levado o voto de pobreza dele até as últimas consequências, ô imagem miserável, uma tora de argila mal esculpida, não se deram nem ao trabalho de fazer os cinco dedos do pé, riscaram só dois, mais parece uma pata de porco. Não quero nem de graça, coisa feia do capeta, capaz de dar mau agouro. Pego a imagem do são Jorge, olho o preço, também está mais barato do que a Nega, e não tão tosco quanto o barro de Assis. A Cora olha o cavaleiro com a espada e diz: esse não, tenho medo de dragão. Esticando-se na ponta dos pés, aponta pra uma Nossa Senhora com o Menino Jesus. Pega essa boneca aqui, Maju. Essa já vem com o bebezinho. Gosto da sugestão, em termos de proteção é bom negócio, pagar um e levar dois. E que dois, os patrões da coisa toda. Mas oitenta reais não dá, Picochuca. Então pega essa, por favor, pega essa, ela diz, apontando pra Nossa Senhora de Fátima com três pastores e uma ovelhinha. A imagem é mesmo linda, cabe na minha bolsa e o preço está bom, mas de repente começo a pensar o que a Nossa Senhora Aparecida vai achar disso. Você reza a vida inteira pra uma certa Nossa Senhora, já tem aquele canal aberto, como se fosse uma amiga que você nem precisa explicar as coisas, diz o desgraçado e ela já sabe quem é, fala daquele medo e ela já sabe do que se trata, e de repente, além de perder toda essa intimidade, você vira a cara pra tua companheira. E tudo isso por causa de vinte reais de diferença. Não pega bem. E outra, não é à toa que sou fiel à Nega. Sabe essa aqui?, digo, mostrando a Nossa Senhora Aparecida pra Cora. Essa aqui é fogo na roupa. Já apareceu até em rede de pescador. Eles não estavam conseguindo pescar nada. Depois que ela deu o ar da graça, pegaram tanto peixe que nem cabia na embarcação. Então leva essa, Maju. Eu ainda fico em dúvida, assim que puder vou ter que comprar roupas pra mim e pra Cora. Olho de novo o preço da Nega, a etiqueta na parte de trás do manto. A Picochuca observa. Depois me puxa pra baixo, olha nos meus olhos. Quando a Cora tiver dinheiro, vai te dar todas essas bonecas, diz, apontando o dedo pra santarada. Eu sinto aquele amor de novo, saindo de mim e passando por ela e voltando pra mim. E o amor me dá coragem. Penso que logo arrumo um emprego, que sempre me virei, que não tenho nada que temer, e pego a imagem da Nega. Depois vou atrás de um pacote de pão, uma garrafa de água e de suco. Antes de passar no caixa, ainda me encosto numa das mesinhas como quem não quer nada, vou juntando guardanapos, açúcar, mais saquinhos de maionese e ketchup. Em seguida passamos pelo corredor de pega-trouxa, deixo Cora pegar uma bala, pagamos a conta. Sentamos num banco em frente às vagas de ônibus, sei que são de ônibus porque o nosso parou ali, além disso são compridas, retângulos pintados com tinta amarela no cimento escuro. Pergunto se Cora está com fome. Ela diz que sim. Maionese ou ketchup? Os dois, me responde, e passo os molhos no pão com a pazinha de mexer bebida que também peguei lá dentro. Mastigo minha fatia e a Ana a dela, é tão bom fazer alguma coisa junto em silêncio, e silêncio é o que não falta em Santa Cruz do Rio Pardo, não tem um ônibus estacionando, uma vivalma andando por aqui.
E agora, o que vamos fazer?, ela pergunta assim que acaba o sanduíche. É um problema de todas as crianças dessa época, achar que tem que ficar fazendo alguma coisa o tempo inteiro, como se estar aqui vivendo já não fosse uma ocupação. Eu já contei pra ela, quando era criança ficava no terreiro de casa o dia todo sem fazer nada, uma minhoca passando era um acontecimento. Agora não, a criança precisa de fogos de artifício pra achar a vida interessante, e lá vai a mãe correr atrás de foguete. Eu não quero esse trabalho pra mim, já vou logo dizendo pra Ana parar de besteira, que olhe a vida passando, o pardalzinho ali se equilibrando na placa do posto. Ela olha, corre até ele, o bicho voa. Ela volta correndo. E agora, o que vamos fazer? Não digo nada. Ela pede o celular e acabo dando, fazia tempo que não pedia. Ficamos ali juntas, aninhadas, eu fungando sua cabecinha ainda com cheiro de bebê, ela assistindo ao desenho, não sei por quanto tempo. O Cometa que vai pra Presidente aparece, outros ônibus aparecem, eu desde longe tentando ler o letreiro, Apucarana, Marília, Penápolis. O vigia que não era vigia, porque sumiu da frente da lanchonete, estava certo com relação ao horário. O sol já está descendo quando o ônibus que vai pra Maringá aparece. Eu vejo as letronas de longe e já me levanto.
A figura do motorista me anima. A barriga desce do ônibus antes dele, pança rotunda, o que deve comer de costela esse homem, o que deve dar de prejuízo pra churrascaria, e quem come desse jeito não pode ser amargo. Ele se alonga, estica os braços, estala os dedos. Os passageiros vão descendo. Eu digo pra Cora não abrir a boca e nos aproximamos. Desculpe incomodar, seu… Josias, falo, lendo o nome no crachá. Conto a situação, mostro o canhoto das passagens pra ele ter certeza de que não estamos de sem-vergonhice. Ele diz que me deixaria embarcar… se tivesse assento. Véspera de feriado no convencional é complicado, o ônibus está sempre cheio. Se não tem uma poltrona vaga, imagine duas, que é do que vocês precisam. Eu digo que não precisamos, que boto a menina no colo. Ou boto sentada e vou de pé. Ele diz que se autorizar isso e for parado, perde a carteira e depois o emprego. Não sei o que dizer, olho para o calçado dele, todo engraxado, reluzente. Penso que se eu e a Cora ficamos pra trás, talvez alguns passageiros desses ônibus também fiquem, podemos esperar a contagem pra ver se enche? Diz que sim, mas vai ser difícil ele abandonar alguém, não é irresponsável como o motorista que nos trouxe, era o Solano?, me pergunta, e não sei dizer. Depois fala pra gente esperar, às vezes calha de algum passageiro ficar na parada por vontade própria.
Esperamos. Eu contando as pessoas que voltam para o ônibus. Não sei pra quê, não faço ideia de quantas poltronas tem naquele toco duro, nem de quantos passageiros já estão sentados lá dentro. Quando já entrou uma pá de gente, o motorista olha o relógio e embarca. Eu vejo ele através do vidro fumê, avançando pelo corredor, olhando pras poltronas de um lado, do outro. Finalmente sai de lá e grita: Maringá, última chamada. Eu aperto a imagem da Nega dentro da bolsa. Uma mulher aparece correndo, segurando um daqueles pés de moleque que parecem uma pata de elefante. A gulosa entra e o motorista fala pra mim que lotou. Eu ainda tento. Vou abaixada, ninguém vai me ver. Ele não fala nada, mas me olha com pena. Aproveito a esmola do olhar. Que eu faço agora? Ele pensa um pouco. Diz que à noite passa um ônibus pra Presidente Venceslau, serviria bem, Presidente Prudente fica no caminho. Mas acha que eu não posso correr o risco de tentar outro lotado, preciso comprar a passagem na internet. Mostro meu celular pra ele, está sem bateria. Parece que ele lê meu pensamento, porque não insiste. Diz que o melhor é eu ir até o centro de Santa Cruz. Fica pertinho, uns vinte minutos caminhando pela beira da estrada. Chegando lá, é só ir numa casa lotérica e comprar as passagens.