Uma Surpresa na Primavera
Capítulo 1
Os viajantes não mentem, muito embora na pátria os
tolos os condenem a isso.
— A tempestade
Lucy Shakespeare sacudiu o guarda-chuva molhado da Burberry — preto, liso e com a tradicional estampa xadrez bege do lado de dentro — e o colocou no suporte, estendendo a mão para ter certeza de que a chuva de Edimburgo não tinha umedecido seu cabelo loiro. Ela pegou um táxi do tribunal até os escritórios da Robinson e Balfour, mas mesmo a curta distância entre o meio-fio e a entrada elegante de arenito não tinha sido suficiente para salvá-la do aguaceiro da primavera. Retirando a capa de chuva dos ombros, colocou a peça em um cabide antes de pendurá-la, se certificando de tirar as rugas. Em seguida, se virou e entrou na área principal do escritório.
— A heroína conquistadora retorna. — Lynn, sua assistente, se levantou com um sorriso iluminando o rosto. — Parabéns, você deve estar satisfeita.
— Não tanto quanto os clientes — Lucy respondeu. — A última vez que os vi estavam indo para o bar, falando em pedir champanhe.
— Não te convidaram para ir junto? — Lynn perguntou, pegando a pasta de couro marrom das mãos de Lucy.
— Convidaram, mas eu recusei. Queria terminar a papelada. — E talvez ir ao escritório para se vangloriar um pouco. Mas quem poderia culpá-la? A sessão de hoje no tribunal foi o resultado de meses de trabalho duro. Vasculhou documentos antigos, tomou incontáveis depoimentos, isso sem mencionar o treinamento feito com seus clientes para manter as coisas tão cordiais quanto pudessem. A lei imobiliária era tão sentimental quanto o direito de família, mesmo que isso significasse lidar com vontades e propriedades. Era incrível a rapidez com que relacionamentos desmoronavam sempre que havia dinheiro envolvido.
Lucy olhou para as salas de vidro fosco onde os sócios seniores trabalhavam.
— O Malcolm soube do veredito? — Seus olhos se demoraram na placa afixada na armação de metal: Malcolm Dunvale, diretor de direito de família e propriedade.
— Foi ele quem me contou. Também estava com um grande sorriso no rosto. — O sorriso de Lynn se ampliou com a lembrança. — Ele quer falar com você quando for possível. Vou avisar que você voltou.
— Só me dê alguns minutos para me refrescar — Lucy pediu, caminhando até a espessa porta de carvalho que levava aos banheiros.
— Quer um café? — Lynn perguntou quando ela virou de costas.
Lucy se voltou para ela e sorriu.
— Sim, por favor, seria ótimo. Não bebi nada desde que fui para o tribunal.
Cinco minutos depois, com o cabelo arrumado e o rosto retocado, Lucy entrou no escritório de Malcolm Dunvale. Como todas as salas dos sócios seniores, a dele possuía enormes janelas de vidro com vista para a cidade, revelando a antiga Edimburgo em toda a sua glória encharcada pela chuva. Ao longe, dava para ver o castelo se erguendo majestosamente de Castle Rock, a construção quase integrada emergindo da colina gramada, como se tivesse crescido de uma semente em vez de ter sido construída pelo homem.
Lynn chamava aqueles escritórios de salinhas da ambição.
Malcolm tirou os olhos do laptop.
— Ah, Lucy, aí está você. Sente-se — pediu, apontando para a cadeira de couro preta mais próxima a ela. Ele passou a mão pelo cabelo grisalho e tirou os óculos de leitura, fechando-os cuidadosamente e os colocando ao lado do teclado.
Lucy se sentou, alisando a saia enquanto cruzava as pernas e endireitava a coluna.
— Olá, Malcolm.
— Fiquei contente de ouvir sobre o veredito — ele disse, se inclinando para trás enquanto tomava um gole de café. — Você também deve ter ficado.
Ela assentiu, deixando a sugestão de um sorriso surgir em seus lábios.
— Poderia ter acontecido de outra forma, mas o lado certo venceu no final. — Nem sempre funcionava assim. Ela tivera seu quinhão de perdas. Mas, quando tudo dava certo, não havia sentimento igual.
— O Robert Douglas me ligou enquanto você estava voltando para cá. Ele está tão feliz com o resultado que quer transferir todas as demandas dele para a Robinson e Balfour, e, como você sabe, é muito trabalho.
— Que notícia maravilhosa. — Ela manteve a expressão neutra, embora sua mão se curvasse. — Fico muito feliz em ajudar a equipe.
— Ah, eu gosto da sua sensibilidade inglesa — Malcolm falou. — Mas, com toda a sinceridade, vou te elogiar na próxima reunião entre os sócios. Você merece reconhecimento por isso.
Ela deixou o calor do seu elogio envolvê-la.
— Obrigada. Agradeço pelo seu apoio.
— Agora, eu preciso te pedir um favor — Malcolm apontou, colocando a xícara de café na mesa e pegando uma pasta amarela no lado oposto. — Você tem disponibilidade para um caso extra?
— Acho que sim.
— Um amigo americano nos indicou um caso interessante. Estão procurando alguém com experiência em direito imobiliário escocês, e, naturalmente, você foi a pessoa que surgiu na minha cabeça. Envolve algumas viagens... tudo bem quanto a isso, certo?
— Claro que sim. Eu estou sempre livre para viajar quando necessário. — Era uma das melhores coisas do seu trabalho. Ela adorava conhecer novos lugares.
— E nós apreciamos isso. É incrível como muitos membros da equipe não podem. — Ele empurrou a pasta pela mesa até Lucy.
— Pode contar comigo. — Ela abriu a primeira página e examinou as anotações no arquivo. Umedeceu os lábios enquanto lia os detalhes do caso, sentindo o familiar fluxo de adrenalina nas veias.
— É por isso que você é uma das melhores. E acho que vai gostar deste. Uma disputa familiar por uma propriedade nas Terras Altas, com o detalhe de que os dois membros da família moram nos Estados Unidos. É aí que nós entramos. A outra parte já contratou um advogado da região, então você vai ter que correr um pouco.
Pelo que ela podia ver, correr um pouco era eufemismo. Lucy olhou para a primeira página mais uma vez, os olhos deslizando da esquerda para a direita antes que voltasse sua atenção para Malcolm.
— Isso não é problema. Eu posso dar andamento ao caso rapidamente.
— Era isso que eu esperava que dissesse. O cliente quer se encontrar com você o mais rápido possível.
— Na propriedade? — Ela passou o dedo pelo papel, parando nas informações sobre a propriedade. — Glencarraig Lodge? — O nome era bonito, fazendo-a pensar na pintura O monarca do vale, de Landseer. Um cervo majestoso que saía das montanhas íngremes, com colinas de violetas ao fundo.
— Não, ele não tem tempo para vir aqui agora. Quer que você vá para Miami, onde fica um dos escritórios dele. — Malcolm fez uma careta. — Eu sei que está em cima, mas ele quer te conhecer no começo da próxima semana. Tenho a impressão de que ele quer ter certeza de que você é tão boa quanto eu disse que era. — Malcolm limpou a garganta. — Ele vai pagar as despesas, é claro.
— Claro. — Lucy assentiu. A primeira regra de um advogado: o cliente sempre paga a conta. Ela aprendeu isso assim que entrou na empresa como estagiária e lhe mostraram o sistema de faturamento antes mesmo de saber onde ficavam os banheiros. — Eu posso ler os detalhes do caso no fim de semana.
Malcolm levantou os óculos, colocando-os de volta sobre o nariz.
— Eu sabia que nós poderíamos confiar em você. O cliente reservou o hotel e a Lynn já providenciou a passagem e o táxi. Se você falar com ela agora, já deve ter o seu itinerário impresso. O seu voo sai logo cedo na segunda-feira.
— Certo. — Ela deu outro sorriso, embora sua cabeça já estivesse a meio caminho da porta, fazendo listas, localizando o passaporte e calculando quantos dólares americanos tinha em casa.
Claro que teria tudo de que precisava. Desde que era criança, organização era o seu nome do meio. E era exatamente assim que ela gostava.
— Este é seu. — O mensageiro deslizou o cartão de plástico no mecanismo de aço fosco, fazendo a porta zumbir quando foi destrancada. — Esta é a suíte Biscayne, uma das nossas melhores. — Ele colocou a mala no chão de mármore, parando ao lado de um sofá de couro branco que ficava em frente a uma parede de vidro. — A suíte foi reformada no ano passado, com o restante do hotel. Espero que goste. — Pegando um porta-bagagem dobrável do armário do outro lado da sala, levantou sua mala com habilidade e a colocou ali antes de se virar para ela com um sorriso.
Lucy colocou uma nota de dez dólares em sua mão.
— É adorável. Obrigada.
— Precisa de algo mais, senhora? — ele perguntou, guardando o dinheiro dobrado no bolso.
— Não, estou bem, obrigada. — Uma onda de cansaço tomou conta dela enquanto notava a máquina de café no canto. — Vou fazer um café e desfazer as malas.
— Bem, se precisar de alguma coisa, é só discar zero no telefone. Estamos aqui para atendê-la. — Ele saiu, fechando a porta com cuidado. Ela ficou no lugar por um momento, apreciando a vista. As portas de vidro que iam do chão ao teto se abriam para uma sacada. Lá embaixo, uma fileira de palmeiras verde-escuras descia até a praia de areia clara e o mar azul-celeste. As ondas batiam suavemente, deslizando pela areia até quase encontrarem as espreguiçadeiras vermelhas com detalhes amarelos. O sol estava claro e quente — um contraste com a melancolia cinzenta que Lucy deixara para trás em Edimburgo, onde o inverno ainda estava preso à cidade com toda a força.
Ela viajara por mais de vinte horas, parando em Heathrow para pegar um voo de conexão, e seu corpo estava cansado. Olhou para a cama — os travesseiros fofos e os lençóis macios — e, por um momento, pensou em pular o café e simplesmente se deitar para recuperar o fôlego. Seu outro lado queria sair correndo do hotel e pegar um táxi, se certificando de ver todos os pontos turísticos antes de partir na manhã seguinte. Não tinha muita chance de isso acontecer, não quando havia trabalho a ser feito.
Girando os ombros para relaxar os músculos, abriu a mala. As roupas ainda estavam perfeitamente ordenadas — cada peça embrulhada em papel de seda para mantê-las sem amassados —, e ela as retirou e pendurou no armário. Pegou os scarpins Saint Laurent do saco de algodão e os colocou com cuidado em uma prateleira, tirando uma linha.
Estava prestes a levar sua nécessaire da L‘Occitane para o banheiro quando o telefone tocou. Tirou os sapatos de couro cinza, atravessou a sala descalça e pegou o aparelho bege.
— Alô?
— Srta. Shakespeare?
— Sim.
— Aqui é a Maria, a concierge. Só gostaria de checar se precisa de alguma coisa. — Lucy olhou para a suíte. O bar estava abastecido, a televisão e caixa de som eram da melhor qualidade, além daquela vista que chamava sua atenção o tempo todo.
— Não, tenho tudo de que preciso.
— O sr. MacLeish perguntou se a senhorita pode se juntar a ele para o jantar. Fiz uma reserva para às oito horas, se não se importar.
Lachlan MacLeish, seu novo cliente. Quem estava pagando a conta daquela linda suíte. Lucy olhou o relógio; eram seis da tarde no horário local, o que correspondia ao meio da noite em Edimburgo. Muito além da sua hora de dormir.
— Oito horas está bom.
— Vou avisá-lo.
Respirando fundo, ela girou os ombros novamente, ignorando a maneira como eles protestaram contra o movimento. Daria tudo por um cochilo. Mas quem precisava mesmo dormir?