Uma Surpresa na Primavera
Capítulo 16
França, leve-a contigo; é tua.
— Rei Lear
Fazia mais de vinte e quatro horas que Lucy havia deixado Glencarraig Lodge e, ainda assim, não conseguia pensar em mais nada. Toda vez que fechava os olhos, podia ver Lachlan. Quando tocava os lábios, podia sentir sua boca contra a dela. Eles cruzaram aquela linha muito rápido, e não era engraçado. Ela deveria esquecer tudo o que aconteceu.
Mas algumas coisas eram mais fáceis de falar do que fazer.
Erguendo a mão, ela passou a ponta dos dedos ao longo da cicatriz que ziguezagueava em sua têmpora, lembrando o quanto Lachlan havia sido gentil quando a localizou.
O que foi isso?
A pergunta foi tão casual, e mesmo assim despertou um turbilhão de emoções dentro dela. Lucy se lembrou do que acontecia quando se tirava a atenção da estrada. Quando se era imprudente e não se incomodava em colocar o cinto de segurança.
O que acontecia quando se perdia o controle.
— Aqui estão o seu café e as cartas que chegaram. — Lynn colocou a caneca com cuidado na mesa de Lucy, depois entregou a ela a pilha de envelopes, variando em tamanho e cor. — Ah, e a sua irmã saiu nas revistas de fofocas de novo. Sabia que ela e o Sam estão esperando gêmeos?
Lucy sorriu pela primeira vez naquele dia.
— A Cesca me ligou na noite passada. Disse que ficou chocada, especialmente por que na semana passada, de acordo com a Entertainment Weekly, eles tinham se separado. Parece que no mês que vem eles vão fazer um casamento secreto. — As mentiras que as revistas de fofocas escreviam eram uma fonte de diversão no escritório de Robinson e Balfour. Há muito tempo Lucy havia parado de acreditar que qualquer uma delas era verdade.
— Bem, eu quero ser convidada — Lynn piscou.
Depois que ela saiu, Lucy cobriu o rosto com a palma das mãos, suspirando. Que confusão. Toda vez que pensava em Lachlan, seu estômago se apertava, como se estivesse sendo amarrado em mil nós. O que ela estava pensando?
Ela não pensou, esse era o problema. Se jogou no momento, sem se preocupar com nada. Não havia sido profissional.
Respirando fundo, deu uma olha rápida nos e-mails. O que estava no topo chamou sua atenção. Não era dele, mas se referia a ele. Uma última oferta do irmão para que ele renunciasse aos seus direitos à terra e ao título em Glencarraig. Pelo menos algumas coisas na vida eram previsíveis.
Seu cursor pairou sobre o botão encaminhar. Deveria enviá-lo para Lachlan imediatamente. Umedecendo os lábios, ela hesitou, com medo do que reabrir a comunicação entre eles pudesse desencadear.
Por que tudo não podia ser normal?
Era por isso que ela nunca deveria ter ido a Glencarraig. Isso tornou as coisas obscuras, a faz se questionar quando deveria estar no controle de tudo. Brincou com fogo e se queimou. Ela deveria aprender.
Suspirando, clicou no botão encaminhar, digitando rapidamente um pedido para que Lachlan desse suas ordens. Droga, quis dizer instruções. Destacou a palavra, substituindo-a, sentindo o alívio atingi-la enquanto clicava no botão enviar.
O simples pensamento de ouvir ordens dele era o suficiente para incendiar todo o seu corpo. Ela baixou a cabeça entre as mãos, fechando os olhos com força. Se estava afetada só de pensar nele, como estaria quando estivessem cara a cara de novo? Ele só precisava olhar para que ela ficasse com os joelhos fracos.
Erguendo a cabeça, olhou pela parede de vidro do escritório e observou a sala dos sócios do outro lado. Pensar em Malcolm descobrindo o que ela havia feito em Glencarraig a fez se sentir mal. Tudo pelo que ela trabalhara seria arruinado.
E, ainda assim, ela não conseguia tirar Lachlan da cabeça.
O restante da tarde foi inútil. As cartas, que normalmente levavam minutos para ser lidas, estavam sobre a mesa. Ela pediu a Lynn para segurar seus telefonemas — com um pouco de medo de que ele deixasse o celular de lado e ligasse para o escritório. Deixou o café na caneca, uma fina película cobrindo a parte superior do líquido enquanto esfriava.
Graças a Deus era quase fim de semana. Seu pai estava seguro em casa e as irmãs estavam bem, cada uma em sua vida, espalhadas pelo mundo. Ela podia se dar o luxo de se esconder em seu apartamento para realmente fazer o trabalho que deveria ter terminado aquela semana. E na segunda-feira tudo voltaria ao normal.
Seria calmo, tranquilo e completamente sob controle. Do jeito que ela gostava.
Quando o e-mail de Lucy apareceu na tela na tarde de sexta-feira, Lachlan estava sentado na biblioteca de Glencarraig, o laptop apoiado na mesa de carvalho polido enquanto ele participava de uma videoconferência com seus diretores em Nova York. Era de manhã em Manhattan, e o sol da primavera brilhava através da janela localizada atrás de Marcus, seu diretor financeiro, fazendo a tela do computador se ajustar à luz.
— O fluxo de caixa é bom. Nós temos alguns itens atrasados, mas nada a ser destacado — Marcus explicou. Lachlan se recostou na cadeira de couro, folheando o relatório na sua frente enquanto Marcus continuava a falar. Seus olhos foram atraídos para o telefone, e os dedos se contraíram quando a mensagem chegou.
— Quando você vai voltar para o escritório? — Marcus perguntou. — Tem algumas coisas que eu preciso te passar pessoalmente.
Lachlan desligou o telefone e se concentrou na tela.
— Vou voltar na segunda-feira à tarde. Peça ao Grant para reservar um horário para você. Devo estar no escritório depois da uma hora.
A reunião estava terminando. Ele podia ouvir Sean, o diretor de marketing, murmurando sobre sair na hora do almoço para ir aos Hamptons. Pelo que Lachlan pôde ver, era um belo dia de primavera em Nova York, com temperaturas na faixa de vinte e um graus, de acordo com seu aplicativo climático. Um contraste com a frente fria que o acompanhara até Glencarraig e o vento frio cortante que batia nas janelas do chalé.
— E você, vai ficar na Escócia até segunda-feira? — Marcus perguntou.
— Não. — Essa era uma das coisas de que Lachlan tinha certeza. Ele queria uma distração, uma maneira de acalmar os pensamentos. Seu corpo ainda vibrava com a lembrança do toque dela, provocando uma dor da qual não conseguia se livrar.
Ele tentou, Deus sabe que sim. E, ainda assim, sentia esse desconforto, essa coceira insuportável que não conseguia alcançar. Estava se agravando.
— Mas não vai voltar até segunda? — Sean questionou. — Vai passar o fim de semana em outro lugar?
— Devo ir para o continente — Lachlan respondeu em voz baixa. Certamente, em algum lugar da Europa poderia conseguir uma distração.
A videoconferência mal havia terminado antes de ele pegar o celular, desbloqueando-o com impaciência e abrindo seus e-mails. O nome dela estava bem no topo da lista. Ele ficou olhando por um momento, tentando descobrir se estava zangado ou aliviado.
Talvez um pouco das duas coisas.
Recebemos outra oferta dos advogados do seu irmão
(veja abaixo). Nada inesperado. Por favor, me dê instruções de como gostaria que eu procedesse. Atenciosamente, Lucy.
Era isso. Nenhuma observação amigável, nenhum indício de flerte, apenas puro profissionalismo. Era como se a viagem a Glencarraig nunca tivesse acontecido. Seus lábios se curvaram enquanto lia as palavras dela novamente, depois fechou o e-mail tão rapidamente quanto o abriu.
Precisava ir a algum lugar que não guardasse lembranças do sorriso dela. Algum lugar em que não passaria o tempo todo pensando sobre sua aparência enquanto ele se movia dentro dela.
Paris. Iria para Paris. Qualquer lugar era melhor do que ali.
Eram oito da noite de sexta-feira. Lucy estava encolhida no sofá, zapeando pelos canais de televisão, sem encontrar nada que valesse a pena assistir. A chuva batia em sua janela, uma mudança não muito bem-vinda da neve que tinha visto em Glencarraig no início da semana. Havia aumentado o aquecimento, mesmo que estivessem em abril e isso não devesse ser necessário.
Uma hora antes havia ligado para Juliet querendo saber da irmã, mas foi redirecionada para a caixa postal. Então ligou para Kitty e o mesmo aconteceu. Não se incomodou em ligar para Cesca — não queria ouvir uma voz gravada pela terceira vez. Até mesmo sua invasora peluda tinha coisas melhores para fazer — ela não via a gata dos vizinhos desde que voltara de Glencarraig. Era como se ela fosse a única que não tinha planos, e Lucy não podia deixar de se sentir solitária.
Depois de mais meia hora de reality shows que conseguiram matar mais do que algumas das suas células cerebrais, ela desligou a televisão e levou sua refeição, que estava pela metade, para a cozinha, raspando os restos no lixo e colocando o prato na lava-louças. Tinha acabado de fechar o eletrodoméstico quando seu telefone começou a tocar — os bipes altos fazendo Lucy quase correr para atender a ligação. Um bate-papo com uma de suas irmãs era exatamente do que ela precisava para voltar aos trilhos, para se lembrar de quem era.
E então ela viu o nome no visor e tudo virou de cabeça para baixo.
Hesitou por um momento, seu dedo pairando sobre o botão de chamada da mesma forma que sua mão pairou em frente à porta do quarto de Lachlan naquela noite. Observando, esperando, debatendo.
Ela não falava com ele desde que o deixara em Glencarraig na manhã de quinta-feira. Ele não respondeu ao e-mail que ela enviou também. Estava com raiva ou tão arrependido quanto ela? Lucy não tinha certeza do que preferiria.
Seu telefone tocou pela sétima vez, e ela sabia que era agora ou nunca. Mais um sinal sonoro e iria para a caixa postal, e qualquer coragem que ela tivesse poderia desaparecer para sempre. Respirando fundo, finalmente aceitou a chamada e lentamente levou o telefone ao ouvido.
— Alô?
— Alô?
Ele não esperava sentir aquele alívio quando ela atendeu o telefone. Seu corpo inteiro relaxou na cadeira, a tensão nos ombros se dissolveu no tecido acolchoado. Era uma loucura como apenas uma palavra fez toda a tensão desaparecer.
Estava em Paris fazia três horas. Apesar de suas melhores intenções, a cidade não tinha feito nada para impedi-lo de pensar nela ou de desejá-la. Em vez disso, acabou ficando ainda mais obcecado por ela. Enquanto o táxi percorria as belas ruas parisienses, ele se viu querendo mostrar as coisas para ela: como a Torre Eiffel se iluminava com o pôr do sol, a maneira como os bares nas ruas laterais tinham mesas metálicas finas às quais as pessoas se acomodavam. O jeito que todo mundo fumava como se ainda fosse 1989, as fumaças azuladas retorcendo no ar frio da noite.
— Lucy, é o Lachlan.
Ela não respondeu. Ele se inclinou para a frente, pegando o uísque que havia pedido meia hora antes. O gelo derreteu, mas a bebida ainda estava forte quando bateu na parte de trás da sua garganta.
— O que está fazendo agora? — perguntou a ela.
Outra pausa. Jesus, essa era uma péssima ideia. Mas então ela respondeu e ele se sentiu melhor.
— Estava pensando em ir para a cama.
— E o que vai fazer amanhã?
— Trabalhar. Tenho muitos e-mails para acompanhar e um dos meus clientes vai ao tribunal na próxima semana. Preciso ter certeza de que tudo está pronto.
Ele tomou outro gole de uísque, deixando aquecer a língua do mesmo jeito que a voz dela aqueceu sua alma.
— Venha para Paris.
— O quê? — O choque em sua voz reverberou na linha telefônica.
— Você nunca esteve aqui, não é? Então venha me fazer companhia. Venha conhecer alguns pontos turísticos. Marque outra coisa na sua lista de desejos.
— Você está em Paris? — Ela parecia confusa. — Achei que estivesse em Glencarraig.
— Eu tinha algumas milhas aéreas para gastar. — Ele sorriu. Uma viagem de Edimburgo a Paris dificilmente faria um estrago em suas milhas aéreas.
— O que você está fazendo aí?
— Agora? Estou sentado em um bar na Rive Gauche, vendo o mundo passar. E pensando em como seria melhor se você estivesse comigo.
Ele podia ouvi-la respirar profundamente.
— Eu sou sua advogada, Lachlan. O que nós fizemos em Glencarraig... nunca deveria ter acontecido. O melhor é fingir que nunca aconteceu. Simplesmente voltar a ser cliente e advogado. — Ela parecia tão pouco convencida quanto ele se sentia.
— Eu sei. Mas é sexta à noite. Você não é advogada agora, e eu não sou um cliente. Somos apenas um homem e uma mulher sem nada melhor para fazer. Então, por que você não joga a precaução para o alto e entra em um avião? Passe o fim de semana comigo e depois nós fingimos que nada disso aconteceu. — Ele não percebeu o quanto precisava disso até ouvir a sua voz. Agora, todo o seu corpo estava tenso de novo, esperando pela resposta.
— São nove da noite — ela falou. Ele quase podia imaginá-la balançando a cabeça. — Eu só iria conseguir um voo amanhã, e isso não nos deixaria muito tempo.
— Tem um voo saindo de Edimburgo daqui a uma hora e meia — ele disse. — E, se você olhar pela janela, vai ver um carro aí. Eu pedi para o motorista te esperar por vinte minutos, tempo suficiente para você fazer as malas e entrar. Ele vai te levar para o aeroporto.
Ele ouviu o som de passos enquanto ela atravessava a sala, depois o movimento da cortina quando ela a abriu. Ele estava ansioso, esperando pela resposta e desesperado para que ela dissesse sim.
— Ah, meu Deus, tem um carro bem aqui. — Ela riu e isso o fez sorrir. — Você é louco, sabia?
Sim, ele sabia. Mas era ela quem o deixava assim.
— Outro carro vai te buscar assim que você desembarcar. Você pode estar aqui em algumas horas.
— Você já organizou tudo, né? — Apesar de suas palavras, ela não parecia irritada. Estava mais intrigada do que qualquer outra coisa. — Então eu pego um voo, nós passamos o fim de semana juntos e depois voltamos a ser profissionais?
— Eu só quero mostrar uma linda cidade para uma bela garota. E então, o que me diz?
Ele ouviu outro som quando ela fechou as cortinas e passos enquanto ela ia para algum lugar em seu apartamento. Lachlan se viu prendendo a respiração, esperando pela resposta e desesperado para que fosse a certa.
— Tudo bem — ela finalmente disse, sua voz baixa. — Vou pegar o avião e te encontrar. Mas é melhor que você tenha uma grande taça de vinho francês esperando por mim.
— Combinado — respondeu, encerrando a ligação com um grande sorriso no rosto. Se fosse preciso, compraria todas as garrafas de vinho da França.