Uma Surpresa na Primavera
Capítulo 31
Não nos dobremos sob o peso do fardo das
lembranças do que já se passou.
— A tempestade
No começo, foi um alívio voltar para seu apartamento em Edimburgo. Mesmo a tentativa sorrateira e bem-sucedida da gata de correr para dentro não arruinou a sensação de calma de Lucy. Mas, assim que ela olhou para a mesa e se lembrou de como eles tinham compartilhado o jantar ali no dia em que ele foi para Edimburgo, pareceu menos com um santuário e mais como uma prisão. Ela não conseguia olhar para a cozinha sem se lembrar de ter cozinhado com ele, ou olhar para o sofá sem se lembrar de terem feito amor ali. Tudo guardava lembranças do homem que a tocara em todos os lugares.
Pelo canto do olho, teve um vislumbre do pelo da gata malhada enquanto a bichana entrava em seu quarto. Pegando a caixa de novo, Lucy entrou na cozinha, colocando-a com calma na bancada. Quando puxou a tampa, sentiu a garganta ficar congestionada. O comissário de bordo tinha razão — não havia se danificado enquanto cruzavam o oceano Atlântico. Também havia sobrevivido à viagem de Londres até Edimburgo, quando Lucy a colocou no banco a seu lado no trem, guardando-a como se fosse algo precioso.
Talvez porque fosse.
Prendendo a respiração, segurou o objeto delicado, levantando-o gentilmente da embalagem de espuma que o mantinha seguro. Ela o colocou na bancada, passando os dedos pela porcelana lisa, absorvendo cada centímetro.
Era um prato preto — muito maior do que se usaria para jantar. O curador da galeria explicou que, provavelmente, havia feito parte de um conjunto maior em um determinado ponto do período Edo, no início do século XIX. Mas não foi a proveniência que a encantara — foram os belos reparos de ouro que atravessaram a porcelana chinesa, transformando algo banal e bem trabalhado em uma obra de arte.
Assim que ela o vira, soube que queria comprá-lo para Lachlan. Um presente de agradecimento por tê-la recebido em sua casa. Mas, por algum motivo, tinha trazido consigo quando saíra de Nova York, incapaz de entregá-lo a ele sem uma explicação adequada.
Ele não ia querer, de qualquer maneira.
Passou os dedos pela porcelana, traçando as linhas douradas que cruzavam o centro do prato. Fechando os olhos, se lembrou da maneira como traçaram as cicatrizes um do outro, os dedos macios, as palavras mais suaves enquanto ele sussurrava que, às vezes, o que se quebrava poderia se tornar mais forte.
Um som como se fosse de um grito vindo da sua esquerda levou sua atenção para o quarto, de onde a gata saiu e entrou na cozinha, correndo como se estivesse sendo perseguida. Ela pulou no balcão, batendo no braço de Lucy enquanto corria para a porta fechada.
Aconteceu como se tudo estivesse em câmera lenta. Lucy cambaleou para a esquerda com o impacto, e seu aperto no prato foi precário. Então o cotovelo bateu contra a bancada, a dor subindo pelo braço enquanto o prato caía no chão de madeira. Curvando-se, ela agarrou a porcelana negra, os dedos esticados quando colidiu com o chão. Ela viu enquanto a peça se partia em pedaços, o som de estilhaços ecoando através da cozinha, a porcelana afiada cravando na madeira macia das tábuas corridas. Quase imediatamente ela caiu de joelhos, a boca se abrindo ao ver o prato quebrado ali.
Podia sentir seu peito ofegar quando pegou o maior pedaço, passando o dedo ao longo da borda irregular. Era afiado como uma faca, quase cortando-a, e a sensação trouxe lágrimas a seus olhos.
Ou talvez não tenha sido a sensação que provocou isso. Talvez fosse a percepção de que ela havia quebrado algo lindo de novo. Apesar dos reparos da laca dourada e da embalagem de espuma, o prato ainda era frágil o suficiente para se quebrar em um único impacto. Por mais que ela tivesse tentado protegê-lo, apenas uma queda simples foi suficiente para fazê-lo se quebrar.
E, enquanto segurava aquele pedaço nas mãos, sentiu as lágrimas começarem a escorrer por suas bochechas.
Demorou três dias para todas estarem disponíveis ao mesmo tempo. A essa altura, Cesca e Sam estavam de volta a LA e convidaram Kitty e Adam para almoçar. Lucy não pôde deixar de sorrir com carinho enquanto os quatro se amontoavam em volta do laptop, Adam se elevando acima de Kitty enquanto ela se sentava, com as mãos pousadas sobre os ombros dela. Sam estava sentado ao lado de Cesca com o braço apoiado nas costas da cadeira. Isso fez Lucy sentir uma dor no coração, de um jeito bom, por ver as irmãs tão felizes, tão cuidadas. Era tudo que sempre quisera para elas.
Mas então olhou para o canto da tela que mostrava Juliet. Como Lucy, ela estava sozinha. Mas, ao contrário dela, a irmã tinha um marido que deveria estar ali também. Cuidando dela, abraçando-a, dizendo-lhe que tudo ia ficar bem.
Maldito Thomas. Ele era mais ausente que presente.
— Onde está a Poppy? — Kitty perguntou. Assim como Lucy, ela notou o vazio na cozinha de Juliet.
— Está na casa de uma amiguinha. Vai passar a tarde lá — Juliet respondeu baixinho. — Achei que seria melhor.
A segunda das quatro irmãs, Juliet era de longe a que tinha a beleza mais clássica. E, mesmo assim, isso não era suficiente para encobrir as sombras sob seus olhos nem a expressão comprimida no rosto.
— Você está bem, querida? — Lucy perguntou gentilmente. — O Thomas está aí?
Juliet balançou a cabeça, mas não disse nada. Lucy não tinha certeza se estava respondendo à primeira ou à segunda — ou talvez as duas.
— Sim, você não parece muito bem — Cesca concordou, seu rosto demonstrando preocupação. — Precisa de alguma coisa?
Juliet umedeceu o lábio inferior.
— Estou cansada, só isso.
Isso não era tudo, mas Lucy não tinha certeza se agora era o momento certo para pressioná-la.
Ela odiava o modo como a irmã parecia mais abatida a cada vez que se falavam.
— Vou ficar bem — Juliet continuou, tentando sorrir. — Mais importante: Como você está?
— Eu? — Lucy ergueu as sobrancelhas. — Estou bem, como sempre.
— Mentira. — Cesca tossiu as palavras. — Vamos, Lucy. Você não tem que ser forte o tempo todo. — Ela se virou para Kitty, que estava sentada ao seu lado — Você acredita nessas duas? Por serem as mais velhas, elas deveriam ser mais inteligentes que nós.
Kitty sorriu.
— Bem, definitivamente, elas são as mais velhas.
— Argh, quer calar a boca agora? — Lucy retrucou, sentindo um calor inundá-la. Havia algo em ter as irmãs próximas, mesmo que fosse em uma tela, que fazia tudo parecer melhor. — Você precisa respeitar os mais velhos.
— Não vou cair nessa de novo — Kitty respondeu. — Essa sempre foi sua desculpa para tudo.
— Que tal vocês todas ficarem quietas por um minuto e me deixarem falar? — Lucy propôs. — Nunca consigo abrir a boca quando estou com vocês.
— Deve ser de família — Sam murmurou.
— Eu ouvi isso — Lucy disse a ele.
— Acho que você tem razão — Cesca respondeu, sorrindo.
Lucy balançou a cabeça, sorrindo consigo mesma. Após os últimos dias, era bom estar rodeada novamente pelas pessoas que amava. Só de ver Sam passar o braço pelos ombros de Cesca, ela se sentia melancólica.
— Olha, vocês querem ouvir o que eu tenho a dizer ou não? — Lucy perguntou. — Porque tem mil coisas melhores que eu poderia estar fazendo agora.
— Tipo o quê? — Foi a vez de Adam sorrir para ela enquanto ele zombava da cunhada.
— Eu gostava de você, Adam — Lucy falou. — Agora não tenho tanta certeza.
Era mentira. Ela amava Adam da mesma forma que amava Sam — porque eles faziam as irmãs mais novas felizes. Um dos maiores presentes de sua vida foi ver as irmãs desabrocharem e se apaixonarem. E, quando ela via Juliet, sozinha, apesar de ser casada e ter uma família, não pôde deixar de desejar que a terceira irmã tivesse experimentado o mesmo.
— Certo, eu vou assumir o controle da videoconferência — Lucy declarou, percebendo que, se não o fizesse, os seis continuariam assim para sempre. Ainda que parte dela gostaria disso, foi sincera quando disse que tinha outras coisas para fazer. Uma grande quantidade de trabalho que ela vinha negligenciando por semanas. — Tudo bem se eu falar? — ela perguntou. — Ou querem me fazer perguntas?
Cinco rostos olharam para a tela.
— Conte tudo — Cesca sugeriu.
Os outros assentiram.
Certo. Lucy pegou o copo de água, tomando um gole para umedecer a língua. Ela não fizera nada além de pensar nisso nos últimos dias — bem, nisso e na confusão que deixara em Nova York — e de alguma forma, era bom estar, finalmente, falando sobre o assunto.
— Acho que a primeira coisa a lembrar é que todas nós éramos muito novas naquela época — Lucy começou, colocando o copo no balcão ao lado do laptop. — Eu sei que nos achávamos adultas, incríveis e que sabíamos tudo. Mas, na verdade, ainda éramos crianças. E naqueles dias eu via tudo preto no branco. As meninas da escola eram minhas amigas ou inimigas, embora isso pudesse mudar diariamente. E, na nossa opinião, nossa mãe era um lindo anjo que cuidava de todos nós.
Do outro lado do Atlântico, as irmãs estavam assentindo. Ela podia ver que seus olhos já estavam vidrados. Pensar naqueles dias estava mexendo com as emoções de todas elas.
— E eu não quero que o que tenho a dizer mude a opinião de vocês sobre ela ou o nosso pai. Eles são humanos como todas nós, isso é tudo.
Ela tomou outro gole de água. Não estava certa se era toda a conversa ou as memórias que estavam fazendo sua boca secar.
— Era um dos últimos dias do semestre. Lembro disso porque era Dia do Esporte e eu não queria participar. Então, quando eu realmente fiquei doente, pensei que todos os meus desejos de Natal haviam se tornado realidade. Passei a manhã na enfermaria da escola, vomitando enquanto eles tentavam ligar para a mamãe ir me buscar. Eles até tentaram ligar para o papai, mas ele estava em uma reunião na universidade; então, no fim das contas, eles me mandaram ir sozinha para casa.
Ela fechou os olhos por um momento, se lembrando daquele dia. A lembrança estava tão vívida que ela quase podia sentir o estômago se contorcer no caminho para casa e na forma como ela tampava a boca para se impedir de vomitar na calçada.
— Havia um carro estranho na frente de casa quando cheguei, mas eu nem pensei a respeito. Não sei se vocês se lembram, mas sempre havia alguém vindo para fazer consertos. Uma casa como aquela estava constantemente sendo reformada. Mas, no momento em que coloquei a chave na fechadura e abri a porta, me deparei com silêncio e não com os habituais sons de furadeira ou martelo aos quais estava acostumada.
Ela sentiu sua voz começar a tremer. Todos esses detalhes que estava contando era mais uma maneira de adiar o inevitável do que qualquer outra coisa. E isso estava piorando as coisas — ela quase podia se ver parada naquele corredor, esperando que seu mundo desmoronasse.
— Chamei, mas não houve resposta. Não havia ninguém na cozinha quando passei por lá. Naquele momento, achei que não tivesse ninguém em casa e decidi ir dormir para me recuperar do mal-estar. — Seu peito apertou enquanto ela continuava a falar. — Estava passando pelo quarto dos nossos pais quando ouvi um barulho. E, por um segundo, tudo fez sentido. Achei que nossa mãe também estivesse doente. Talvez ela estivesse com o mesmo problema que eu. Então abri a porta para dizer a ela que eu estava em casa.
Ela teve que morder o lábio para não chorar, do mesmo jeito que havia feito quando entrara no quarto. O tapete era macio sob seus pés. Do outro lado do cômodo, uma janela estava aberta, as cortinas balançando com a brisa, mas isso não atraiu sua atenção.
— Eu a vi na cama com um homem. Só mais tarde reconheci quem era. Era o par romântico dela na peça em que estava. Dan Simons era o nome dele. Mas, sem roupa, não parecia o mesmo.
— Ah, meu Deus. — Cesca balançou a cabeça, cobrindo a boca com a mão. — Você os viu.
— Só por um segundo, e depois corri para fora. Quase não deu tempo de chegar ao banheiro antes de vomitar de novo.
— Eles estavam...? — Juliet parou, embora a pergunta fosse clara.
— Graças a Deus, não. — Lucy franziu o nariz, não querendo pensar nisso. — Mas estavam deitados juntos na cama. Na cama do papai. — Podia sentir a raiva dominá-la, a mesma fúria que sentiu quando adolescente. A traição da mãe parecia um tapa em cada uma delas.
— Alguns minutos depois, ela entrou no meu quarto. Nós tivemos uma discussão daquelas. Eu disse a ela que ia contar para o nosso pai e que também contaria a todas vocês. Chamei ela de vaca e disse que a odiava.
Lucy podia ver as irmãs chorando e sentiu uma lágrima rolar pelo rosto. Ela a enxugou com impaciência.
— Isso foi na noite antes de ela morrer.
— E você contou para ele? — Juliet perguntou. — Contou isso para o nosso pai?
Lucy balançou a cabeça.
— Não fui corajosa o suficiente. Eu queria, mas estava com medo. Não aguentava pensar neles se divorciando e nele deixando todas nós. Achei que a nossa família seria desfeita por minha culpa.
— Você está errada. A culpa nunca foi sua. — A voz de Kitty era suave. — Nada disso foi culpa sua. — Por trás dela, Adam passou os braços ao redor de Kitty, puxando-a para mais perto dele. Ela apoiou a cabeça contra seu abdome. Ver a ternura entre eles fez o coração de Lucy se apertar.
— O restante parece um pouco confuso na minha cabeça — Lucy falou. — Claro que me lembro de ir à escola no dia seguinte e de a nossa mãe ir me buscar. Eu não estava esperando por ela, que obviamente decidiu conversar comigo para me dizer que não era nada, apenas uma aventura. Foi quando perdi a cabeça e nós duas começamos a gritar uma com a outra, fazendo todo tipo de acusação. Ela estava dirigindo rápido demais e estava chovendo muito forte. Assim que ela perdeu o controle do carro, tudo acabou.
— E ela não estava usando o cinto de segurança — Cesca completou.
— Sim. Mas eu estava. — E isso tinha sido o suficiente. A diferença entre a vida e a morte. Uma tira grossa de tecido e um pouco de metal moldado. — E ela morreu por minha causa
Um soluço alto escapou da boca de Juliet, ecoando sobre a conexão.
— Ela não morreu por sua causa — ela disse, com a voz aguda. — Nada disso foi culpa sua.
Lucy fez uma pausa para respirar, sentindo o fluxo de oxigênio através dela como um raio de adrenalina. Não podia parar agora, não quando estava quase no fim. Ela devia às irmãs o restante da verdade.
— Assim que cheguei em casa do hospital, tentei falar com o papai sobre o assunto, contar o que havia acontecido. Mas ele me impediu. Ficava no escritório por horas, esquecia as refeições e o fato de ter quatro filhas. Ele estava no seu próprio mundo de dor, e era como se ele não pudesse ser alcançado.
— Mas no fim você contou para ele, não é? — Cesca perguntou.
Lucy balançou a cabeça.
— Nunca falei. Ele não permitiu. Guardei tudo. Eu achava que vocês fossem me odiar. Já tínhamos perdido a nossa mãe, e o nosso pai estava se escondendo de nós. Eu não suportaria perder as minhas irmãs também.
— Ah, querida. — Juliet estendeu a mão para a tela, como se a tocasse. Lucy levantou os dedos, pressionando-os contra a imagem da mão da irmã. — Não foi culpa sua. Você nunca vai nos perder.
— O papai sabe que você sabe? — Kitty perguntou.
— Sobre o caso? — Lucy deu de ombros. — Não sei e é tarde demais para perguntar agora. Só quando ele começou a ficar doente eu me perguntei se ele sabia de alguma coisa. Ele começou a dizer coisas estranhas.
— Como fez comigo — Cesca completou.
— Exatamente. E eu teria dado qualquer coisa para você não ter descoberto assim. Deve ter sido horrível.
Sam apertou o ombro de Cesca.
— Foi muito ruim — ele disse. — Você devia contar para elas — ele insistiu.
— Agora? — Cesca fez uma careta. — Não parece muito apropriado.
Sam se inclinou para ela, passando o dedo pelos lábios macios.
— Não consigo pensar em nada mais apropriado. Todas vocês estão aqui juntas, que momento seria melhor?
Kitty se virou para olhar para Cesca.
— Do que ele está falando?
Cesca piscou algumas vezes e olhou para o seu colo.
— Nós fomos ver o papai porque o Sam queria dizer uma coisa para ele. — Ela se mexeu na cadeira.
— O quê? — Lucy perguntou, sem saber se devia ou não se preocupar. — O que você disse para ele?
Finalmente, Cesca voltou seu olhar para o laptop. Sam a puxou para mais perto dele, até que seus corpos estivessem esmagados um contra o outro.
— O Sam me pediu em casamento — ela contou, um sorrisinho brincando em seus lábios. — Era isso o que ele queria contar para o papai, mas ele ficou chateado, pensando que eu fosse a mamãe e estava me casando com outra pessoa.
— Você está noiva? — O rosto de Kitty se transformou com um sorriso. — Isso é maravilhoso. — Ela se inclinou para a frente, abraçando Cesca apertado. Lucy podia sentir o bíceps dela flexionar enquanto desejava estar lá para abraçar a irmã também. Por um momento, a chamada por vídeo explodiu em comemorações enquanto todas as irmãs falavam ao mesmo tempo e nenhuma delas ouvia ninguém.
— Já marcou a data? — Juliet perguntou quando as outras finalmente se acalmaram. No meio da confusão, Sam se sentou na cadeira, com Cesca no colo. Os dois pareciam a imagem da felicidade.
— Ainda não — Cesca respondeu. — Nós precisamos conversar com algumas empresas que fazem planejamento de casamento. E, obviamente, queremos manter as coisas em segredo o máximo que pudermos.
— Quando a imprensa descobrir, nós vamos ter que nos esconder — Sam concordou. — Então estamos mantendo as coisas entre nós por enquanto. — Ele se inclinou para beijar a bochecha de Cesca.
— É bem fácil isso acontecer — Cesca falou. — Esses caras podem farejar um vestido branco como um vampiro sente cheiro de sangue.
— Estou muito feliz por vocês dois — Lucy disse, sentindo o coração preenchido. — É uma notícia maravilhosa. Especialmente depois da semana que vocês dois tiveram.
— É, não é? — Cesca sorriu. — E me desculpe por não ter contado quando estive em Londres. Eu queria esperar até estarmos todas juntas.
— Não posso te recriminar por guardar segredos, né? — Lucy sorriu. — E, de qualquer forma, esse é o melhor tipo de segredo, e eu não me importo de ter esperado para saber. — Lucy olhou para elas, as três irmãs, sua família, sentindo uma imensa onda de orgulho atingi-la. Nunca conseguira se encaixar no lugar da mãe depois da sua morte, mas tinha mantido as coisas estáveis até que as três estivessem prontas para enfrentar o mundo. Talvez ela pudesse estar orgulhosa de si mesma pelo menos por isso. — Olhe para todas vocês, crescidas e se encaminhando. — Ela umedeceu os lábios para tentar tirar a secura. — Vocês sabem que, se a mamãe ainda estivesse viva, estaria orgulhosa de vocês. — E, se o pai dela ainda fosse capaz de manter o foco, ele também estaria.
— Ela ficaria orgulhosa de você também — Juliet falou. — E grata por você ter cuidado de todas nós quando ela não conseguiu.
— E quando você está pensando em sossegar também? — Kitty perguntou. — A Cesca me contou que achava que você estava visitando um certo laird em Nova York na semana passada.
— Sim, bem, não esperem que isso aconteça — Lucy falou, sentindo aquela dor familiar no peito. — Eu estraguei tudo com ele, como sempre faço com as coisas. — Deus, ela estava chorando de novo? Quando isso iria parar?
— Ah, querida, o que aconteceu? — Cesca tocou os dedos na tela. — Está tudo bem?
Lucy balançou a cabeça, enxugando as lágrimas com a palma da mão.
— Não, não está — respondeu, com sinceridade. — Nós tivemos uma discussão terrível antes de eu vir embora e agora acabou. — Seus soluços ficaram mais altos. — Eu estraguei tudo.
— Você o ama? — Kitty perguntou. Como Cesca, ela estava tocando na tela.
Lucy olhou para elas, seus olhos brilhando.
— Sim, estou apaixonada por ele. Mas ele me odeia e não há nada que eu possa fazer. — Apertou as pálpebras para conter o fluxo de lágrimas, mas elas simplesmente se acumularam e se espalharam.
— Ah, querida — Cesca murmurou, inclinando a cabeça para o lado em solidariedade. — Claro que deve haver algo que você possa fazer. O amor não desaparece simplesmente porque vocês tiveram uma discussão. Por que você não nos conta o que aconteceu para nós entendermos as coisas?
Pela segunda vez na videoconferência, Lucy se viu contando às irmãs sua história de aflição, ouvindo como elas se solidarizavam com ela. E era bom não estar escondendo nada, deixar tudo às claras. Eram sua família, afinal de contas. Pelo menos, ela sempre teria isso.