Uma Surpresa na Primavera
Capítulo 35
Vamos, cavalheiros; espero que afoguemos no copo
os aborrecimentos.
— As alegres comadres de Windsor
— Estou tão feliz por vocês terem resolvido as coisas. — Jenn se sentou na espreguiçadeira ao lado da de Lucy, bufando enquanto segurava a barriga e balançava as pernas na cadeira. Ela e Grant haviam chegado a Miami na noite anterior, tendo passado alguns dias procurando apartamento perto de seu novo emprego na Universidade da Flórida. Enquanto ele e Lachlan passavam a manhã trabalhando na suíte de negócios do Greyson Hotel, Lucy tinha decidido aproveitar o sol quente e se acomodar ao lado da piscina com vista para a praia particular do hotel.
— Eu também — Lucy concordou, puxando os óculos escuros sobre os olhos para bloquear o sol. — Foi meio difícil por um tempo.
— Posso trazer uma bebida para vocês? — O garçom parou ao lado delas, usando bermuda branca e uma polo cinza com uma pequena insígnia do hotel costurada no bolso.
— Sim, por favor. Pode me trazer um daiquiri? — Lucy sorriu para ele.
— Claro.
— Muito retrô — Jenn brincou. — E eu vou tomar água, por favor. Observe que isso não parece a bebida de um mártir. Que é exatamente como tenho me sentido nos últimos seis meses.
— Mas tudo vai valer a pena — Lucy respondeu, observando enquanto o garçom se dirigia ao bar da piscina. Uma barraca coberta pelo que parecia ser um telhado de palha, era igualzinha aos bares de coquetel da década de 80.
— É o que me dizem — Jenn falou, o sorriso contradizendo seu tom seco. — É incrível como os meses se passaram lentamente. Parece que tem uma eternidade desde a última vez que te vi.
O garçom chegou, entregou um grande copo de água para Jenn, depois colocou o coquetel de Lucy na mesa ao lado da espreguiçadeira. Era vermelho-escuro, com um morango e um canudo no topo, e é claro que havia um guarda-chuva de papel laranja encostado na lateral da taça. Parecia deliciosamente refrescante.
— De qualquer forma, voltando para você e o Lachlan — Jenn falou enquanto Lucy tomava sua bebida. — Ele é um cara legal e você é muito boa para ele. O Grant disse que não o vê tão feliz em anos. Disse que ele está sempre com um sorriso bobo no rosto durante as reuniões.
Lucy não pôde deixar de se sentir iluminada pelas palavras de Jenn. Ele a deixava delirantemente feliz também. Toda vez que ele aparecia, era como se o mundo começasse a fazer sentido. Sem ele, ela se sentia desequilibrada.
— Ah, meu Deus, você está sorrindo, igualzinha ao Lachlan. — Jenn cuspiu a água que estava bebendo. — Cara, vocês dois estão ferrados.
— Sim — Lucy concordou. E ela não conseguiu encontrar nada de errado nisso.
— Quem está ferrado? — Uma sombra caiu sobre elas. Lucy olhou para cima e viu Lachlan em pé na frente de sua espreguiçadeira, com Grant a seu lado. Os dois usavam terno, o que era apropriado para os negócios, mas completamente impraticável no sol já quente de Miami. Fazia cerca de vinte e seis graus, quente o suficiente para o corpo de Lucy assumir uma leve transpiração enquanto estava lá. Ela viu quando o olhar de Lachlan cintilou para ela, observando o biquíni preto e branco que ela estava usando e a pele que revelava.
— Nós estamos — Lucy falou, com a voz inexpressiva. — Deitar aqui sem fazer nada é um trabalho duro.
Ele se sentou na ponta da espreguiçadeira, levantando os pés dela sobre o colo. Suas mãos acariciavam a pele de Lucy, massageando, tocando. Ela riu quando ele encontrou um ponto sensível no peito do pé.
— Sabe, vocês podiam ter trocado esses ternos — Jenn apontou. — Estão parecendo coroas ricos ou algo assim.
Lachlan encarou Lucy. Sorriu de forma calorosa para ela, que retribuiu o sorriso. Seria sempre assim? A atração intensa, juntamente com o jeito como ela se sentia como se fosse a única mulher que ele podia ver, fazendo sua temperatura subir mais do que o sol escaldante.
— Coroas ricos — ele repetiu, com os olhos franzidos. — O que isso faz de vocês então, garotas?
Lucy deu de ombros, ainda olhando em seus olhos. Atrás dele havia uma linha de palmeiras, separando a área da piscina da praia. Após o trecho de areia clara, ela podia ver o mar, tão vividamente azul quanto o olhar de Lachlan.
— Talvez isso nos faça sensatas.
— O que é muito melhor do que prostitutas, que é aonde eu acho que ele ia chegar — Jenn apontou. — E, de toda forma, nós temos uma carreira, ganhamos nosso próprio dinheiro. Não precisamos de vocês. — Ela encarou a expressão magoada de mentira de Grant. — Mas, felizmente, nós desejamos vocês assim mesmo.
Lachlan moveu as mãos dos pés de Lucy, acariciando os tornozelos com círculos lentos do polegar. Ainda que ela e Jenn estivessem tirando sarro de seus ternos, de alguma forma ele conseguia se encaixar na vibração de Miami. Talvez fossem os óculos de sol pendurados no bolso do paletó de forma casual, ou o jeito como ele havia tirado a gravata e desabotoado a camisa branca.
— Você parece um camaleão — ela disse para ele, balançando os pés com prazer enquanto ele continuava a massageá-la. — Se encaixa onde quer que vá. Em Nova York você parece todo polido e profissional, e aqui, um camaleão sexy. Como você consegue?
Ele inclinou a cabeça para o lado.
— Como eu pareço quando estou na Escócia? — ele perguntou.
— Frio — ela disse, tentando engolir a risada.
— É você que fica com frio — ele apontou. — Lembra que você praticamente me implorou para te levar para o meu quarto? Ah, Lachlan, preciso do calor do seu corpo. — Ele elevou o tom de voz enquanto tentava imitá-la muito mal. Lucy mordiscou o lábio, observando-o.
— Mentiroso! — ela disse, chutando-o de leve. — Reescreveu completamente a história. Eu estava feliz congelando na minha cama. Foi você que me levou para o seu quarto.
— Mas você gostou.
Sim, tinha gostado. Mesmo naquela época, quando havia pouco mais entre eles do que um relacionamento profissional, ela se sentia atraída. Como se houvesse um cordão invisível entre eles que os unisse. E agora parecia mais forte, mais firme. Inquebrável.
— Vocês dois, arranjem um quarto — Jenn reclamou, bloqueando o sol com a mão sobre os olhos. — Toda essa dopamina está me deixando louca. Não é justo para casais velhos como nós.
— Nós já temos um quarto — Lachlan respondeu, seus olhos nunca deixando os de Lucy. — Na verdade, temos duzentos.
— Bem, que tal usar um deles? — Jenn perguntou. — Eu amo vocês, amo mesmo, mas este bebê é precioso. — Ela esfregou o ventre. — Sinto que ele está sendo exposto a pornografia.
Lucy começou a rir. O pensamento de se deitar na cama macia e aconchegante no quarto com ar-condicionado realmente parecia atraente naquele momento. Se bem que, com Lachlan por perto, tudo parecia atraente.
— Você vai ser assim quando nós tivermos filhos? — Lachlan perguntou. As palavras mal escaparam de seus lábios quando Jenn atirou uma das suas sandálias nele. Ela tinha uma mira surpreendentemente boa. Lachlan teve que se esquivar para evitar o sapato voador, pegando-o com a mão direita antes que caísse na piscina.
Mas Lucy não prestou atenção em nada disso. Estava ocupada demais pensando em suas palavras. Quando nós tivermos filhos. Isso devia assustá-la até a morte, fazê-la querer fugir para muito longe. Mas, em vez disso, estava deitada lá, as pernas esticadas no colo do homem de terno à sua frente, o homem por quem ela percebeu que que estava se apaixonando loucamente.
Seria possível ter tudo? Pela primeira vez, ela realmente achou que poderia.
Essa casa de repouso não era tão diferente daquela em que seu pai morava, embora os prédios fossem mais adequados aos arredores da Flórida do que um subúrbio londrino úmido e cinzento. Também tinha um nome diferente — Residência Assistida —, em que a ênfase era no que os residentes podiam fazer em vez dos cuidados médicos vinte e quatro horas por dia que também ofereciam. Ainda assim, a equipe usava uniforme e, logo que se registraram na recepção, os dois foram levados para a sala de estar com ar-condicionado, onde a mãe de Lachlan estava sentada, de frente para o jardim. Era repleto de imponentes palmeiras e azáleas florescendo ao redor de um lago azul cintilante. Quando se aproximaram, Lucy foi tomada pela atmosfera na sala. As pessoas estavam rindo, jogando xadrez e ouvindo música. Havia uma sensação de vida ali que não parecia existir na casa do pai. Talvez aquele fosse o típico caso de que se conseguia o que se estava pagando.
A mãe de Lachlan não se parecia com nada do que Lucy esperava. Para uma mulher que sofria de uma doença crônica, parecia notavelmente alerta, com o cabelo perfeitamente arrumado em um coque francês, a maquiagem aplicada com cuidado para realçar as maçãs do rosto e os olhos azuis vívidos. Assim como os do filho. Até mesmo o cilindro de oxigênio a seu lado e os tubos em volta do rosto não podiam disfarçar a mulher bonita que ela havia sido.
— Você deve ser a Lucy. — Ela levantou a mão, pegando a de Lucy e a apertando. Sua voz estava rouca. — É um prazer te conhecer.
— É um prazer conhecê-la também, senhora... — Ah, Deus, do que deveria chamá-la? Ela nunca tinha sido uma MacLeish, mesmo que esse fosse o nome que havia dado ao filho. E Lucy não pensou em perguntar a Lachlan qual era o sobrenome da mãe.
— Por favor, me chame de Lori. — Ela apontou para os assentos opostos ao seu. — Sentem-se. Gostariam de uma bebida?
Seu sotaque não parecia nada como Lucy esperava também. Suas palavras foram perfeitamente pronunciadas. Se ela fechasse os olhos, eles poderiam estar sentados na varanda de uma antiga casa de fazenda, bebendo chá gelado e fofocando sobre os acontecimentos locais.
Depois que as bebidas chegaram — servidas por um garçom —, Lucy se viu tomando a água fria e olhando entre mãe e filho. Embora tivessem os mesmos olhos, havia pouca semelhança entre Lachlan e a mãe. Ele herdara a maior parte da sua aparência sombria do lado MacLeish da família.
Enquanto Lori contava sobre sua situação atual, explicando os exames que havia feito no começo da semana, Lucy observou os dois interagirem. A expressão de Lachlan era suave, sua voz carinhosa, e ela se viu apaixonada por ele um pouco mais.
Havia algo muito sexy em um homem que cuidava da mãe. Talvez fosse a esperança de que ele cuidaria dela também. Ou talvez estivesse vendo apenas outro lado dele que a aquecia. Seu camaleão com muitas faces.
— O Lachlan me disse que você é advogada — Lori falou, se virando para ela.
— Sim — Lucy concordou, colocando o copo na mesa ao seu lado. — Eu trabalho em um pequeno escritório em Edimburgo. — Ela notou que seus dedos tremiam quando soltou o copo. O que havia de errado com ela?
— Você gosta?
Ela assentiu.
— Sim, na maior parte do tempo. É um trabalho difícil, mas não deixa de ser bom. Além disso, estudei muito tempo para chegar aonde estou, por isso estou tentando aproveitar.
— Você acha que vai morar sempre na Escócia? — a mãe dele perguntou. Lucy olhou para Lachlan, alarmada. Podia ver que ele estava disfarçando um sorriso.
— Mãe — Lachlan falou, como se tivesse deixado Lucy sofrer por tempo suficiente —, que tipo de pergunta é essa?
Sua mãe deu de ombros, que eram finos sob o tecido de seda da blusa.
— Só estou interessada. Você não está ficando mais jovem, Lachlan. Quero saber se vocês pretendem se estabelecer aqui ou lá.
Foi a vez dele de parecer desconfortável. Lucy provavelmente teria gostado mais de seu embaraço se não se sentisse da mesma maneira. Quando foi a última vez que tinha sido levada para a casa de algum namorado para conhecer seus pais? Ela mal conseguia se lembrar.
— O que Lucy e eu decidirmos fazer é da nossa conta. — Sua voz permaneceu complacente. — E, quando nós decidirmos, você será a primeira a saber.
Ele olhou da mãe para Lucy. Seus olhos estavam quentes, o suficiente para acalmar os nervos dela. Toda vez que seus olhos se encontravam, ela se via querendo tocá-lo, senti-lo. Não era muito apropriado quando estavam visitando a mãe dele.
Havia algo na maneira como ele dizia “nós” que a fazia se sentir mole por dentro — e ela gostava demais. Refletia o modo como se sentia em relação a ele, que eram os dois separados do mundo por uma barreira invisível. E o que eles decidissem seria decidido pelos dois.
— Imagino que não possa perguntar se ela quer bebês.
— Vamos conversar sobre outra coisa? — Lachlan sugeriu. — Talvez possamos discutir política mundial, economia ou algo menos controverso que isso?
Lucy sentiu o canto do lábio tremer. Fizeram aquela pergunta de bebê novamente.
Era estranho como já parecia menos assustador, como se a exposição a isso estivesse diminuindo o choque. E por dentro dela — na parte que mal reconhecia — o pensamento de fazer qualquer coisa com esse homem lindo, engraçado e forte provocava um delicioso arrepio através do corpo.
Por toda a sua vida, ela estivera procurando por controle. Engraçado como, no momento em que ela desistiu disso, coisas boas começaram a acontecer.
Uma hora depois, estavam andando pelo estacionamento, a mão dela entrelaçada na dele. Lachlan estava meio passo à sua frente enquanto passavam pelos carros, se esquivando e desviando dos espelhos retrovisores enquanto saíam da casa de repouso. Embora fosse fim de tarde, o calor do dia ainda estava forte, aquecendo a lã do paletó e fazendo os cabelos grudarem na nuca.
— Você ainda está aqui — ele disse quando chegaram a seu carro. Por um momento, ele saboreou o pequeno milagre.
— Onde mais eu estaria? — Ela inclinou a cabeça para o lado, o rosto demonstrando curiosidade.
— Achei que a minha mãe poderia ter te assustado. — Ele puxou sua mão, trazendo-a para mais perto até que ficassem a centímetros um do outro. — Toda aquela conversa sobre se acomodar e ter filhos. Achei que poderia te fazer correr para as montanhas.
Embora o tom fosse provocativo, ele podia sentir seu corpo hesitando. Esperando por uma resposta. Ela fugiu dele antes — de Nova York e de Glencarraig — e não tinha certeza se sobreviveria pela terceira vez.
— Não tenho medo de você — ela murmurou, estendendo a mão para traçar círculos em seu peito coberto pela camisa. — Por que eu fugiria?
Mas não foi dele que ela fugira. Ele sabia disso agora. Havia sido dela mesma.
Não a perseguir foi a coisa certa a fazer. E, embora tivesse levado duas semanas terríveis, ela tinha voltado correndo para ele.
Graças a Deus.
— Me ame, ame a minha mãe. Não é o que dizem? — Ele passou o braço ao redor de sua cintura, puxando-a para mais perto. — Isso não te assusta?
Ela levantou a cabeça para olhar para ele.
— Deveria? — perguntou. Duas pequenas linhas se formaram entre suas sobrancelhas enquanto ela pensava nas palavras. — Eu ficaria mais preocupada se você não fosse próximo da sua mãe. Gostei de ver vocês dois juntos. — Ela sorriu com malícia, envolvendo os braços ao redor do seu pescoço. — E, de qualquer forma, a minha família é maior que a sua, então acho que você vai ter mais gente para lidar.
— Mais três como você — ele sussurrou, roçando os lábios na bochecha dela. — Não tenho certeza se isso parece como o céu ou o inferno.
— Tudo depende do dia — ela respondeu, com a voz cheia de humor. — Quando estamos bem, somos ótimas. E, quando estamos mal...
— É hora de ir para as montanhas.
— Pare com isso. — Ela estava rindo, os braços ainda ao redor do seu pescoço. Estavam tão perto que ele podia ver uma linha de sardas em seu nariz, provocada pelo sol quente de Miami. Podia ver também como ela era linda, com sua pele macia e olhos azuis. Seu cabelo quase brilhava sob os raios da tarde, caindo em ondas suaves até os ombros.
Ela era linda, naquele jeito perfeito de rosa inglesa. Mas sua beleza era mais profunda, ele sabia disso agora. Estava em seu humor, sua tristeza, sua bravura e seus medos. Estava no modo como ela sempre dava tanto quanto recebia e, de algum jeito, o fazia sentir como se tivesse ganhado.
Inclinando a cabeça para ela, beijou a ponta de seu nariz, movendo-se para baixo, capturando seus lábios contra os dele. Pressionou a palma das mãos com firmeza contra suas costas, sentindo seu calor através do tecido fino do vestido de verão. Ela se arqueou contra ele, abrindo a boca para deixá-lo entrar, seu corpo flexível, ainda exigindo mais. E, enquanto eles se beijavam, as línguas brincando e deslizando de uma forma que os deixava sem fôlego, ele percebeu que não se pode consertar um prato com laca cheio de ouro até que esteja quebrado e não se pode ter cicatrizes bonitas sem ser ferido primeiro.
Eles tropeçaram e caíram, mas se levantaram de novo, sacudiram a poeira e recomeçaram. Mas, dessa vez, fariam isso juntos, o que soava perfeito para ele.