Uma Surpresa na Primavera
Capítulo 11
Não zombeis de mim, é o que vos peço. Sou um
velho imprestável e caduco.
— Rei Lear
— Você está bem? Está olhando para o relógio de novo. — Cesca estava sentada na cadeira em frente a Lucy, com o pai entre elas. Era hora do almoço na Casa de Repouso Wickstead, um evento bem organizado que permitia aos pacientes (ou convidados, como insistiam em chamá-los) ter familiares por perto. O cardápio era o mesmo toda semana, assim como as poltronas, todos os dias. Até a música, transmitida pelos alto-falantes da sala de jantar, era repetida.
— Precisa de ajuda com isso, pai? — Lucy perguntou, observando o pai empurrar o frango pelo prato. — Quer que eu corte tudo?
— Não sou criança.
Lucy engoliu em seco, colocando um sorriso no rosto.
— Eu sei. — Ela voltou sua atenção para Cesca. — Estou bem. Só estava me perguntando se o meu cliente já chegou a Heathrow. Ele está vindo de Nova York.
— Com certeza você não trabalha aos domingos — Cesca observou. — Não precisa encontrá-lo ou algo assim, né?
— Ah, não. Ele vai pegar um voo de conexão para Edimburgo.
Cesca parecia confusa.
— Então que diferença faz a que horas ele vai chegar em Heathrow?
— Não importa. — Lucy franziu a testa. — Eu estava pensando, só isso. — Ela balançou a cabeça para si mesma. Até Cesca estava percebendo o quanto ela estava se comportando de forma estranha. Era tudo culpa de Lachlan MacLeish, com seus profundos olhos azuis e sorriso com covinhas, sem mencionar a voz, que fazia sua pele formigar toda vez que conversavam.
Ah, Deus, ela precisava se conter. Não dava para passar o fim de semana inteiro pensando nele. E, agora que estaria na mesma cidade que ela — no mesmo escritório —, precisava assumir o controle. Afinal, era só por alguns dias.
Ela poderia lidar com isso. Já havia lidado com coisa muito pior. Cesca semicerrou os olhos.
— Certo.
— Terminei. Acho que vou voltar para o quarto. — O pai delas afastou o prato e os talheres bateram contra a porcelana.
Lucy ergueu os olhos do próprio prato, que ainda não estava terminado.
— Quer que eu vá com você? Que te mostre o caminho?
— Eu sei o caminho. — Ele estava de mau humor. — Gostaria de um pouco de paz e tranquilidade, se for tudo a mesma coisa para você. — Ele se levantou e saiu antes que ela pudesse protestar. Qual era a pior coisa que poderia acontecer? A casa era construída para abrigar pessoas que se perdiam de forma crônica. O pior que ele poderia fazer era acabar no quarto de outra pessoa. E, como a enfermeira as tranquilizou, isso acontecia muitas vezes.
— Está no modo “velho chato” — Cesca murmurou.
— Cess — Lucy falou. — Não é culpa dele.
— Eu sei, mas você acha que quando está lúcido ele realmente tenta ser legal? Ele não faz nada além de reclamar e criticar todo mundo, o dia todo. Ele até começou a ser grosseiro com relação à mamãe...
— O que ele disse? — A voz de Lucy era concisa.
— Nada. Só o de sempre. — Cesca deu de ombros. — Você sabe como ele é.
— Ele diz um monte de coisas idiotas — Lucy concordou, sentindo o peito apertado. — Você devia ignorá-lo.
— É o que eu faço. Mas, quando ele faz isso com você, tenho vontade de dar um chacoalhão nele. Ele não sabe o quanto você fez por ele? Puta merda, você praticamente assumiu tudo quando a mamãe morreu. Ele simplesmente desaparecia no quarto o tempo todo. É como se ele tivesse se esquecido de que tinha quatro filhas para cuidar.
Lucy pressionou os dedos na têmpora, esfregando a pele.
— Sim, mas nós conseguimos, né? E sei que ele é irritante às vezes, mas lembre-se, vai chegar um momento em que ele não poderá mais falar. Vamos ter saudade do tempo em que ele brigava com a gente.
Os olhos de Cesca estavam vítreos. Ela piscou algumas vezes.
— Você está certa — ela disse em um sussurro. — É horrível, né? Não sei como você lidou com isso todo esse tempo. Nós devemos muito a você, Luce.
— Eu sou a mais velha. É o meu trabalho.
— Você é muito mais que isso. Eu só queria que nos deixasse cuidar de você algumas vezes. Você parece desgastada.
— Tenho trabalhado muito, só isso. Vou me encontrar com esse cliente que está vindo para cá e participar de uma grande reunião na terça-feira, por isso tive que trabalhar até tarde na semana passada. — Ela não mencionou que o cliente ficara na sua cabeça durante todo o fim de semana também. Desde que a irmã se apaixonara por Sam, ela se tornara uma romântica de novo. E a última coisa que Lucy precisava agora era de um sermão.
— Além disso, você veio até aqui e ajudou o papai a se mudar para este lugar — Cesca apontou para a casa. — Você até desistiu do seu fim de semana. Sem um agradecimento dele.
— Não estou esperando nenhum agradecimento.
Cesca se inclinou para a frente.
— Então você está esperando o quê?
— Nós somos uma família. E podemos estar espalhadas pelo mundo inteiro, mas somos unidas pelo sangue. Eu faço porque amo vocês. A gente se separou uma vez, e não vou deixar isso acontecer novamente. Não se eu puder impedir.
— Você não pode controlar a vida. — Cesca balançou a cabeça. — Olhe para mim. Eu me envolvi com um homem que eu odiava. Você acha que eu planejei isso? A vida é confusa, Luce. Você só tem que seguir em frente.
— Aliás, como está o Sam? — Lucy perguntou, desviando a conversa. — Como vai a filmagem em Budapeste?
— Ele está cansado, rabugento e sobrecarregado. Mas, quando isso terminar, nós vamos ter férias longas e maravilhosas — Cesca respondeu.
— E quais são os planos depois disso? — Há muito tempo, Lucy havia perdido a esperança de que a irmã voltasse para o Reino Unido. Sam estava ficando famoso demais para isso. Sem mencionar o fato de que a estrela de Cesca também estava em ascensão. Sua peça tinha feito sucesso no West End e havia rumores de uma produção na Broadway. Ainda assim, Cesca fazia o máximo que podia para visitá-la sempre que tinha chance.
Cesca mordeu um sorriso.
— Não posso falar sobre isso ainda.
Lucy arqueou as sobrancelhas.
— Por que não? Não me diga que o Sam vai ser o próximo James Bond.
Cesca riu.
— Provavelmente não. Ele foi estereotipado como salva-vidas, e acho que não está planejando fazer qualquer outra franquia de filmes por enquanto. — Ela olhou para as unhas, aquele sorriso ainda brincando em seus lábios. — Sou eu que preciso manter o sigilo. Estou negociando um roteiro.
— De cinema? — Lucy perguntou a ela.
— Não, é uma série. Estou negociando com um serviço de streaming popular, mas não posso dizer muito mais.
— Você assinou um acordo de confidencialidade? — Lucy sabia tudo sobre esse tipo de negociação. Eram bastante comuns em LA. Kitty também havia pedido seu conselho sobre um.
— Sim. — Cesca ergueu as sobrancelhas. — Mas eu espero conseguir falar mais em breve. Assim que nós assinarmos.
— Uau. — Lucy não conseguia esconder a felicidade pela irmã. — Duas de vocês estão agitando Hollywood. Irmãs Shakespeare Produções soa bem.
— O Sam disse a mesma coisa. Nós estamos pensando em transformar isso em um grande negócio de família. Embora eu suspeite que ele só queira conseguir os melhores papéis.
— Talvez eu deva ir para lá — Lucy brincou. — Eu poderia me tornar uma advogada de entretenimento.
— Eu queria que você fosse. — O sorriso desapareceu do rosto de Cesca. — Sinto sua falta quando estou lá. Todas nós sentimos. Odeio pensar em você aqui com essa grande responsabilidade enquanto nós três moramos nos Estados Unidos.
— Você não está exatamente morando lá — Lucy apontou. Ela abriu a boca para dizer que Juliet e Kitty também não, mas um estrondo na cozinha abafou suas palavras. Alguém havia empurrado o carrinho de bandejas e pratos sujos, fazendo talheres e louças voarem pelo piso. Um segundo depois, um exército de enfermeiras e cuidadores entrou correndo, alguns deles indo direto para os moradores para garantir que a calamidade não lhes causasse ansiedade e outros indo limpar a bagunça.
— Acho que é a nossa deixa para ir embora — Cesca falou, quando o barulho começou a diminuir. — Só vou me despedir do papai, e é melhor pegar um táxi para Heathrow. O meu voo sai daqui a algumas horas.
Lucy olhou para o relógio. Por um momento, imaginou Cesca e Lachlan no mesmo lugar ao mesmo tempo. Eles podiam passar um pelo outro e nem mesmo saber que estavam conectados por meio dela.
Ela balançou a cabeça, tentando se livrar desse pensamento bobo. Claro que eles não estavam conectados. Afinal de contas, ele era apenas um cliente.
As duas saíram da sala de jantar e entraram no grande corredor pintado de branco, empurrando a porta pesada que dava para os quartos dos moradores. O som de seus sapatos batendo no piso ecoou pelo corredor.
— É estranho, né? Não ter ideia de quanto tempo vai demorar para o papai piorar... sem saber realmente o que piorar significa. É tão assustador.
— Se é assustador para nós, imagine como ele deve se sentir — Lucy falou, assentindo. — É isso que eu sempre digo a mim mesma quando ele está tendo um dia como o de hoje. Ele deve estar muito assustado, sem entender o que está acontecendo, sem saber que dia é. Imagine olhar para alguém que você não reconhece e saber que é parente seu. É impossível me colocar no lugar dele.
Dessa vez as lágrimas que se formaram nos olhos de Cesca rolaram pelo rosto dela.
— Coitado.
— E coitadas de nós. Essa coisa toda é uma droga.
— É verdade — Cesca concordou. — Mas seria dez vezes pior se não fosse por você. — Ela apertou a mão de Lucy. — Graças a Deus nós temos você para confiar. Nosso farol em uma tempestade.
Uma chama de calor reluziu no peito de Lucy. Ela estava bem. A vida continuava jogando bolas curvas, mas, de alguma forma, ela mantinha tudo sob controle. Também manteria Lachlan MacLeish sob controle ou, pelo menos, suas reações estúpidas a ele. Ela seria a calma e tranquila Lucy, e era assim que gostava.
Lucy chegou ao escritório às sete da manhã de segunda-feira. Ela pegou o último voo de Londres na noite anterior e depois passou algumas horas terminando os preparativos para a reunião de terça-feira, ciente de que Lachlan MacLeish chegaria ao escritório por volta das nove. Eles tinham falado brevemente sobre o grande encontro com o meio-irmão de Lachlan e seus advogados, mas Lucy sabia que tinham muito mais trabalho a fazer sobre isso.
Ela entrou na recepção. Estava vazia àquela hora da manhã — nem a recepcionista havia chegado ainda. Encontrou o segurança da noite, com o uniforme enrugado graças às horas que passara sentado na mesma posição e o boné de aba preta preso na cabeça.
— Bom dia, srta. Shakespeare.
— Oi, Mark. — Ela parou em frente à mesa. — Um cliente vai vir aqui hoje. Pode verificar se ele está registrado no sistema?
— Claro, qual é o nome?
— Lachlan MacLeish — uma voz profunda soou atrás dela. Lucy sentiu um arrepio percorrer sua coluna, deslizando do pescoço até o cóccix. Por que toda vez que ouvia aquela voz sentia isso? Bem, ela não aceitaria essa situação. Pelo que lhe dizia respeito, aqueles arrepios podiam parar agora.
Respirando fundo, ela abriu um sorriso antes de se virar para olhá-lo.
— Olá, Lachlan. Eu não estava te esperando tão cedo.
Ele estava usando terno azul-marinho e camisa branca. Uma gravata cinza-escuro fina estava perfeitamente atada ao colarinho. Estendeu a mão para ela, as mangas do paletó subindo para revelar duas abotoaduras de ouro simples brilhando contra seus pulsos.
— Não consegui dormir — ele disse, sorrindo para ela. — Além disso, nós podemos precisar de um pouco mais de tempo. Eu quero falar sobre nossa estratégia.
O sorriso de Lucy não vacilou, embora ela estivesse pensando em todo o trabalho que tinha feito na noite passada.
— É?
— Não fique tão preocupada. Eu só pensei em algumas coisas enquanto estava no avião. Podemos falar sobre isso mais tarde.
— Não fiquei preocupada. — Seu olhar encontrou o dele. — Você é o cliente. Se quiser fazer mudanças, é o que faremos. — Ela poderia ser profissional. Tranquila e calma.
Ela ficou ali, observando Mark registrar Lachlan, pegando seus dados e entregando um cartão de visitante. Em seguida, os dois se dirigiram para as portas que levavam aos escritórios da Robinson e Balfour, e Lucy deslizou seu cartão no leitor para abrir a porta.
— O que você acha de ficar em um dos escritórios? — ela sugeriu. — O de visitantes fica ali. — Ela apontou para área de portas de vidro que levava a três salas pequenas, mas perfeitamente equipadas. — Pode usar a rede de visitantes. A senha do wi-fi está na parte de trás do seu cartão.
— Ótimo. — Ao contrário da maioria dos clientes, ele não a deixou liderar. Em vez disso, seguiu em frente, escolhendo o escritório à direita. — Existe algum lugar onde eu possa tomar um café? — ele perguntou. — Só para o caso do jet lag me atingir.
Ela estaria disposta a apostar mil libras que Lachlan MacLeish nunca sofria de jet lag. Ele parecia muito revigorado e composto para isso.
— Vou pedir para trazerem. Preto com creme, certo? — Droga, isso era óbvio demais? Ou era uma simples cortesia se lembrar das preferências de bebida de seus clientes? Ela tentou se lembrar de como a sra. Dalgliesh — uma das suas clientes favoritas — tomava seu chá, mas não conseguiu.
Seu olhar suavizou.
— Sim, isso mesmo.
— Certo. — Ela olhou para o relógio, mais para afastar os olhos dele do que qualquer outra coisa. — Eu tenho que responder algumas mensagens e dar uns telefonemas, então por que não nos encontramos no meu escritório daqui a meia hora?
— Pode ser daqui a uma hora? Eu tenho alguns e-mails para responder também.
— Claro. Se precisar de qualquer coisa nesse meio-tempo, me avise. Estou no ramal 342. E a Lynn, a minha assistente, vai chegar logo.
— Tenho certeza de que vou ficar bem. — Ele assentiu. — Mas, se eu precisar de você, com certeza vou ligar.
Ela estava relendo o mesmo e-mail nos últimos dez minutos e ainda não havia absorvido a mensagem. Talvez tivesse algo a ver com a maneira como ficava olhando pelo vidro do escritório em direção às salas de visitantes. Ela podia vê-lo digitando e fazendo telefonemas ocasionais. Algumas vezes ele se levantava e andava de um lado para o outro enquanto falava e seus olhos encontravam os dela do outro lado do escritório.
Sim, ela sentiu o coração disparar. E não, isso não significava nada.
Suspirando, fechou o laptop e foi ao toalete se refrescar. Lynn já estava lá, parada em frente à parede de espelhos ao lado das pias, retocando o batom rosa.
— Como foi o fim de semana? — ela perguntou, secando o canto do lábio com um lenço de papel. — O seu pai está bem?
Lucy olhou para as cabines, mas todas as portas estavam abertas. Lynn era a única no escritório que sabia sobre o pai, e ela preferia continuar assim.
— Não foi tão ruim. Acho que ele gostou de ter companhia, embora nunca vá admitir. Agora nós só precisamos resolver as questões da casa e estamos quase lá.
Lynn sorriu com simpatia.
— Você fez a coisa certa. Mas deve estar exausta. O Mark disse que você chegou aqui muito cedo. Junto com o seu cliente. — Lynn levantou uma sobrancelha. — Que é um gato, por sinal. Por que você não me contou? Eu teria colocado um vestido melhor.
— Ele é? — Lucy perguntou, colocando as mãos embaixo da torneira fria e depois sob a saboneteira automática. — Nem notei.
No espelho, ela podia ver o sorriso de Lynn.
— Então você é cega. Todas as solteiras esticaram o pescoço para dar uma olhada nele. E Anneka já levou uns três cafés.
Lucy sufocou um gemido.
— Ela não tem nada melhor para fazer? — Anneka era uma das estagiárias, embora não trabalhasse com direito familiar ou imobiliário. Obviamente, havia feito uma longa viagem pelo prédio. — O pobre coitado vai acabar intoxicado de tanta cafeína.
— Eu tenho certeza de que a Anneka quer que ele tenha alguma coisa — Lynn disse com malícia —, mas não é intoxicação.
— Bem, espero que ela não faça um papel ridículo. Isso é ruim para a imagem do escritório.
— Ah, ela é uma boa estagiária — Lynn falou. — E ele vai embora amanhã. Deixe-a aproveitar enquanto pode.
Lucy suspirou, deslizando as mãos por baixo do secador.
— É por isso que eu detesto receber visitantes. Atrapalha tudo.
Quando ela foi até o escritório de Lachlan para buscá-lo, Anneka estava encostada na porta, falando baixinho enquanto ele olhava para ela. Assim que Lucy apareceu, os olhos de Lachlan focaram na advogada e ele sorriu.
— Olá, Lucy.
Anneka se virou para olhá-la.
— Oi, srta. Shakespeare.
— Ouvi dizer que você está cuidando do Lachlan por mim — Lucy disse, acenando para a estagiária. — Obrigada.
— Ela faz um café muito bom — Lachlan elogiou, se levantando e desligando o laptop. — Obrigado, Monica.
— É Anneka — a garota o corrigiu.
— Claro. — Ele fez uma careta. — Obrigado mais uma vez. — Ele assentiu quando Anneka saiu da sala, claramente irritada por ele ter esquecido seu nome.
Lucy não pôde deixar de disfarçar um sorriso.
Lachlan seguiu Lucy até o escritório — muito maior que os cubículos para visitantes, com uma mesa no centro onde eles poderiam trabalhar com mais facilidade.
— Sinto muito por Anneka — ela falou enquanto ele colocava a bolsa do laptop na mesa. — Ela é jovem, mas tem muita iniciativa. Espero que você tenha conseguido trabalhar um pouco.
Ele olhou ao redor da sala, observando Edimburgo, a antiga cidade de arenito, em contraste com as linhas elegantes do escritório, com seus móveis modernos de vidro e aço. Havia fotografias por toda parte — emolduradas em sua escrivaninha, instantâneos presos ao quadro e algumas afixadas nas paredes que separavam seu escritório dos outros. Ele olhou mais de perto para ver. Algumas mostravam Lucy em pé com algumas garotas e um homem mais velho — sua família, talvez —, enquanto em outras ela estava sorrindo nas cidades e locais turísticos do mundo todo. Alguns ele reconheceu — Machu Picchu, Taj Mahal, Ponte Harbour, em Sydney —, enquanto outros não fazia ideia de onde ficavam.
— Você viaja muito? — ele perguntou, ainda observando as fotos. Ela parecia tão diferente nelas, sem seus ternos bem cortados, o cabelo esvoaçando na brisa. Havia uma tranquilidade que ele não via quando se encontravam. Ela estava relaxada e claramente se divertindo.
— Às vezes — respondeu, pegando uma garrafa de água e dois copos da mesa ao lado. — Não tanto quanto eu gostaria. Era mais fácil quando eu estava estagiando. Eu tinha mais tempo e conseguia descontos para estudantes também. Hoje em dia, ficar longe requer um pouco mais de planejamento.
Ele pegou uma foto dela de pé no topo de um prédio alto com Manhattan de fundo disposta em um padrão quadriculado.
— The Top of the Rock — ele murmurou, ainda olhando para a foto.
— Sim. Eu prefiro ele ao Empire State. Parece menos turístico, e eu sei que isso pode soar estúpido, já que é uma atração turística e tudo o mais. Mas tinha uma vibração de que eu gostava.
— Também prefiro — ele concordou, sorrindo para ela. Mil perguntas surgiram em sua cabeça: o que ela viu, onde comeu. Era estranho imaginá-la na sua cidade, talvez frequentando os mesmos locais que ele. Eles poderiam ter passado um pelo outro na rua sem que ele soubesse. — Qual foi a sua melhor viagem? — ele perguntou, querendo saber mais.
— Eu amei Nova York, é claro — ela disse. — Mas Sydney também é ótima. Além disso, tem todas as cidades europeias, cheias de história e cultura. Lisboa é linda, e Barcelona é cheia de vida.
— Que tal Paris? — ele perguntou. — Gosta?
Suas bochechas coraram.
— Acredita que nunca fui? Sempre quis, mas não consegui. É tão perto que sempre acho que vou para lá na próxima viagem, mas toda vez surge algum imprevisto. — Ela deu uma risadinha. — Você vai me dizer que esteve lá e me deixar envergonhada, não vai? — Ela passou um copo de água a ele, os dedos se tocando quando ele o pegou. Um pequeno pulsar de eletricidade (estática proveniente do chão) passou entre eles.
Ela parecia tão chocada quanto ele.
— É um dos meus lugares favoritos — ele admitiu, sorrindo para o tom vermelho em suas bochechas. — Não acredito que você não tenha ido. Seu namorado nunca te levou?
— Que namorado?
Assim que a última sílaba escapou dos lábios, uma expressão de horror surgiu em seu rosto. Ela olhou para ele por um momento e depois desviou o olhar quase que imediatamente. Mas foi tempo suficiente para que ele visse a verdade.
Ela estava mentindo sobre ter um namorado.
A sala ficou em silêncio, exceto pela sua respiração suave e o pulsar em seus ouvidos. Ele levou o copo aos lábios, umedecendo-os enquanto tentava encontrar a coisa certa a dizer. Mas não havia nada em que pudesse pensar para acabar com o momento estranho e tirar aquele olhar do rosto dela.
Nada além de mudar completamente o assunto.
— Vamos conversar sobre a reunião de amanhã? — perguntou a ela. — Eu sei que não temos muito tempo e queria ter certeza de que estamos alinhados.
Seus ombros relaxaram, o mais fraco dos sorrisos cruzando seus lábios.
— Sim, vamos — ela disse, gesticulando para ele se sentar. — Só vou pegar os arquivos e nós podemos começar.
Lucy raramente bebia durante a semana e quase nunca mais do que uma taça, mas naquela noite ela se viu servindo uma segunda dose, enchendo a taça com generosidade. Fechou a tampa e colocou a garrafa de volta na geladeira — que era onde ficaria por mais um dia — e depois se sentou no sofá, levando a bebida aos lábios.
Enquanto engolia o Sauvignon fresco, fechou os olhos, saboreando o buquê seco. Mesmo estando gelado, o álcool aqueceu seu estômago de imediato, relaxando-a de um jeito que ela não sentia havia dias.
Que confusão. E tudo por sua causa. Embora Lachlan não tivesse mencionado seu namorado — ou a falta dele — pelo restante do dia, algumas vezes Lucy o pegara olhando para ela, um questionamento em seus olhos. Ele não tinha que verbalizar; ela sabia exatamente o que ele estava pensando. Por que foi que ela mentira sobre algo tão estúpido?
Era algo que ela continuava se perguntando. Ela simplesmente se fizera de boba na frente de um cliente e, embora ele tivesse sido gentil o suficiente para mudar de assunto, não podia evitar que ele pensasse menos dela.
Isso doeu, porque a opinião de Lachlan sobre ela importava.
Eram só oito horas, embora parecesse muito mais tarde. Talvez fosse o esgotamento. Ela estaria em melhor forma amanhã. Deixou o dia terrível de lado, com o namorado imaginário e qualquer atração estúpida que sentia por Lachlan sempre que se encontravam.
Ela teria outra chance de provar a boa profissional que era. E então não estragaria tudo.
Tomando outro gole de vinho, pegou seu laptop. Automaticamente, a tela acendeu.
Ela moveu o cursor até que estivesse piscando sobre a caixa de entrada, mas depois o desviou para o Internet Explorer, abrindo a caixa de pesquisa. Seus dedos pairaram sobre as teclas, hesitando no que planejava fazer. Porque era errado, não era profissional e provava que ela estava perdendo a batalha.
Tomou todo o vinho da taça. Ah, caramba, ela seria profissional amanhã.
Antes que pudesse pensar duas vezes, ela digitou o nome de Lachlan na caixinha cinza, depois pressionou enter. Quase que imediatamente, a tela se encheu de resultados e uma linha de pequenas imagens quadradas apareceu, retratando Lachlan em poses diferentes. Em algumas ele estava sozinho; em outras, acompanhado. Ela as ignorou, clicando no primeiro artigo. Foi redirecionada ao Business Buzz, um site de notícias financeiras com um toque irreverente.
Uma foto de Lachlan carregou. Ele usava terno escuro e gravata listrada sobre a camisa branca. Estava encostado em sua mesa — bem, ela assumiu que era —, parecendo tão relaxado como de costume. Será que nada o perturbava? Ela desceu a tela até o artigo, os olhos rapidamente examinando as palavras, procurando por algo — qualquer coisa — que lhe desse alguma ideia.
Lachlan MacLeish, 34 anos, pode vir de uma boa
linhagem — afinal, seu pai era dono do Fiesta Cruise Line —, mas esse promissor empreendedor está se tornando um homem de negócios respeitado por conta própria. Sua empresa, a MacLeish Holdings, foi criada em 2007, possivelmente o pior momento para se iniciar um negócio na recente história econômica. Mas, em vez de deixar o colapso financeiro o prejudicar, MacLeish viu uma oportunidade e se entregou.
“Aprendi com meu pai que a melhor época para
começar qualquer coisa é agora. Se esperarmos que as estrelas se alinhem e tudo mais seja perfeito, vamos esperar para sempre.”
Workaholic confesso, MacLeish construiu seu negócio
do nada e o transformou em uma empresa que emprega mais de duas mil pessoas no espaço de dez anos. Mas não é o tamanho da equipe que impressiona, e sim o seu portfólio, que abrange desde hotéis em Miami até minas de aço no Meio-Oeste. Se é lucrativo, MacLeish quer entrar.
Criado na parte mais pobre de Miami, MacLeish diz
que esse foi o melhor tipo de educação que ele poderia ter esperado. “Foi nas ruas que aprendi a lutar pelo que queria. Também aprendi que ganhar não é o mesmo que não perder. Você precisa continuar até que não haja concorrentes.”
Uma pequena nota à parte, MacLeish é menos
acessível sobre seu relacionamento com o pai. Duncan MacLeish era uma figura notória no cenário empresarial
de Miami. Conhecido na região como o Onassis Escocês, ele construiu seu próprio negócio do zero, criando uma frota de navios de cruzeiro começando com um barco quebrado.
Seu filho fica notavelmente quieto ao ser questionado
sobre o relacionamento com esse lado da família.
“É um assunto particular”, foi tudo o que disse quando
perguntado se havia comparecido ao funeral do pai e se estavam se relacionando quando ele morreu. No entanto, esse é um homem de negócios em quem você deve ficar de olho. Envolvido em muitas transações americanas — e internacionais —, Lachlan MacLeish conquistou seu espaço na lista dos homens mais bem-sucedidos.
Ela moveu o mouse, pretendendo clicar no próximo artigo, mas depois se conteve.
Já era o suficiente.
Saiu do navegador e abaixou a tampa para fechar o laptop. Ela se sentia suja, como se estivesse navegando em pornografia em vez de ler o que acabou sendo um artigo bastante inócuo.
Esse comportamento não era típico dela. Era uma profissional completa. Podia ter bancado a idiota aquela manhã, mas teria certeza absoluta de que não faria isso de novo.
Era Lucy Millicent Shakespeare. Ela devorava empresários americanos no café da manhã.