Uma Surpresa na Primavera
Capítulo 32
A justiça usa sempre igual medida.
— Trabalhos de amor perdidos
O tempo mais quente finalmente chegou a Edimburgo enquanto ela estivera fora. As flores caíram das árvores, criando um manto de pétalas cor-de-rosa e branco no Prince’s Park, e os primeiros flocos de neve e jacintos tinham sido substituídos por uma profusão de narcisos amarelos, as trombetas anunciando novos começos. Um raio de sol amarelo brilhava através da janela do escritório de Lucy, refletindo na tela do laptop. Ela se inclinou, tentando ler o contrato que estava aberto, destacando as partes que queria mudar.
— Lucy, tem um minuto?
Ela olhou para cima e viu Malcolm Dunvale parado na porta do escritório. Clicou para salvar o documento e em seguida baixou a tampa do computador.
— Claro. Quer que eu vá ao seu escritório? — Por favor, Deus, não deixe ser uma má notícia. Ela tinha tido o suficiente para durar uma vida inteira.
— Sim, por favor. — Ela o seguiu até a sala com paredes de vidro, entrando quando ele fechou a porta e se sentou junto ao canto da mesa. — Só queria que soubesse que a coisa de Glencarraig acabou.
— Acabou? Como? — Uma sensação de pânico tomou conta dela. — Achei que vocês estivessem esperando a data da audiência ser confirmada.
Malcolm deu de ombros.
— Eu só sei que as duas partes chegaram a algum tipo de acordo e o caso está encerrado. — Ele lhe deu um sorriso tenso. — Achei que você ficaria satisfeita. Espero que agora nós possamos esquecer tudo e continuar o nosso trabalho.
No entanto, ela não se sentiu satisfeita. Sentiu como se o tapete estivesse sendo puxado debaixo dela e ela estivesse caindo. Mesmo tendo sido afastada do caso, a herança de Lachlan ainda era uma das últimas coisas que o ligavam a Edimburgo.
E talvez o ligasse a ela.
— Que tipo de acordo eles fizeram? — ela perguntou.
— Não faço ideia. Aparentemente, a Dewey e Clarke estão cuidando disso, e o John Graves vai assinar do outro lado. No que diz respeito à Robinson e Balfour, o caso está oficialmente encerrado.
— Ah. — Era difícil ignorar o olhar de alívio no rosto de Malcolm. Como seu chefe, ela sabia que o havia colocado em uma posição desconfortável e que ele estava claramente satisfeito por estar livre disso. Ela deveria estar satisfeita também, não é?
— Você sabe se o sr. MacLeish vai manter o título e o chalé? — ela perguntou. Por um momento, pôde ver Glencarraig em toda a sua glória, o cenário de montanhas e colinas. Ele tinha desistido de tudo para não ter que vê-la novamente?
— Qual sr. MacLeish? — Malcolm perguntou a ela.
— Lachlan. O cliente. — Ela engoliu em seco.
— Não faço ideia. Ele foi vago sobre os detalhes, só disse que não havia nada para nos preocuparmos. E pediu que eu transmitisse seus agradecimentos pelo trabalho duro, é claro. — Ele franziu a testa por um segundo. — Posso presumir que você não falou mais com ele?
— Sim.
Ele olhou para ela por um longo minuto, e ela quase pôde adivinhar o que ele estava pensando. Por que ela colocara a todos em uma posição tão difícil para se afastar de Lachlan em seguida? Mas ele não fez a pergunta, apenas se levantou e esticou os braços, sua ação praticamente a descartando.
— Certo, bem, isso foi tudo. — Ele fez uma pausa antes de acenar para ela. — Isso é bom, Lucy. Você pode continuar com o seu trabalho e não se preocupar em como essa questão vai afetar a sua carreira.
Ela assentiu e tentou sorrir, sussurrando um agradecimento ao sair da sala. Assim que voltou a sua mesa, baixou a cabeça entre as mãos, cobrindo o rosto com as palmas.
Era como se ela tivesse se esforçando para se manter na superfície e de repente tivesse sido engolida por um maremoto. Havia um vazio dentro dela, um profundo sentimento de perda. Como se o laço final que a ligava a Lachlan tivesse sido desfeito.
Você não precisa se preocupar em como essa questão vai afetar a sua carreira.
Mas agora a carreira era a última coisa em sua mente.
Seus dedos pairaram sobre o teclado do telefone enquanto ela olhava para o aparelho preto. Ao lado do celular, a caneca cheia de café que Lynn havia trazido estava fria e agora era uma coisa nojenta que seu estômago não estava preparado para tomar. Lucy mordiscou o lábio inferior, sentindo o gosto metálico em sua boca.
Ela estendeu a mão para pegar o aparelho, depois afastou o braço novamente, como se tivesse acabado de ser queimada. Deus, ela não conseguia se lembrar da última vez que estivera tão indecisa. Esse tipo de comportamento simplesmente não estava em seus genes. Ela era Lucy Shakespeare, a garota que assumia o controle. A mulher que tomava decisões e as assumia.
Ou, pelo menos, era quem costumava ser.
Antes que conseguisse levantar o fone até o ouvido, o aparelho começou a tocar. Ela olhou pela janela do escritório para ver Lynn apontando para ela.
— Alô?
— Estou com o sr. Tanaka na linha para falar com você. — Lynn sorriu para ela através do vidro.
— Sr. Tanaka? — Lucy repetiu. — Certo, pode passar.
Em um instante ela ouviu um clique.
— Grant?
— Lucy. Como você está?
— Um pouco confusa. O Lachlan está aí? — ela perguntou.
— Está viajando. — O tom de Grant continha uma nota de arrependimento. — Eu só queria te atualizar sobre a situação de Glencarraig.
— Ele está bem? — ela perguntou. — Eu realmente preciso falar com ele. — Deveria ter falado com ele dias antes, sabia disso agora. Mas, toda vez que pegava o telefone, não conseguia encontrar as palavras certas. Talvez elas não existissem.
— Ele está indo para Miami. Precisa explicar algumas coisas para a mãe. — Ela podia ouvir Grant mexendo em algo na sua mesa.
— Ah. É claro, a família vem em primeiro lugar sempre. — Não era ela quem dizia isso? — O que aconteceu? Meu chefe acabou de me dizer que o caso está encerrado.
— É verdade. O Lachlan e o Duncan estão conversando. Eles chegaram a um acordo.
— Ele tem conversado com o irmão? — Ela se endireitou. — Quando isso aconteceu?
— No baile que você perdeu.
Suas palavras a atingiram como uma repreensão. Ela recuou com o impacto.
— Ah, me desculpe. Eu não queria falar desse jeito.
— Tudo bem. — Sua voz era suave. — Ele é seu amigo, é claro que você vai ficar do lado dele. — Ela não pôde evitar sentir o arrependimento em sua boca. — Como ele está?
O silêncio durou o suficiente para que ela começasse a se perguntar se a ligação havia caído. Ela apertou o aparelho para ver se havia algo errado com ele.
— Ele não anda bem. — Grant finalmente disse. — Você mexeu com a cabeça dele, Lucy. Ele achou que você gostasse dele. Caramba, o cara se apaixonou e você partiu o coração dele.
Suas palavras pareciam um punhal fincado no coração dela.
— Não — ela sussurrou no mesmo tom de Grant. — Sou eu que estou com o coração partido.
Grant deu uma risadinha.
— Bem, você sabe o que dizem: os iguais se atraem.
— E pessoas magoadas magoam os outros — ela disse, com o coração ainda preso na garganta. Tentou respirar, mas o ar entrou por sua boca. — Eu não queria magoá-lo.
— Ele também não. — Grant soava verdadeiro. — Mas você o deixou quando ele precisou de você. Entende como isso o fez se sentir? Ninguém nunca ficou com ele. Nem o pai, nem a mãe. Caramba, até eu estou indo embora. Ele achou que você fosse diferente, e você... — Grant suspirou — foi embora.
— Eu tive que cuidar da minha família — Lucy disse. — Ele devia entender isso. Ela tem que vir primeiro.
— Você tem uma definição muito restrita de família — Grant destacou. — Isso não significa apenas laços de sangue. Olhe para o Lachlan e eu. Nós somos de famílias diferentes, caramba, somos de raças diferentes. E ainda assim eu amo esse homem como um irmão. E, não importa onde um de nós acabe, se ele precisar de mim, eu vou estar ao lado dele.
— Ele tem muita sorte em ter você. — Ela não conseguia esconder as lágrimas na voz.
— O sentimento é bastante recíproco — Grant falou. — Ele é um cara legal, Lucy. Por baixo do ar ameaçador e da merda de macho alfa, ele é só um cara. Alguém que merece ser amado. — Ela fechou os olhos para conter o fluxo de lágrimas. Quantas vezes tinha chorado nas últimas semanas? Deveria estar faltando água em algum lugar por causa dela. Mas até mesmo sua cabeça estava contra ela, as pálpebras fechadas fornecendo uma tela para um replay das suas memórias. Da primeira vez que vira Lachlan, quando ele entrara naquele restaurante em Miami, tomando conta do lugar assim que entrou. De quando ele entrara em seu quarto em Glencarraig, levantando-a tão facilmente como se ela fosse um cobertor, seu corpo quente e duro contra o dela.
Do jeito que ele se abrira para ela, se desnudando enquanto contava a história de sua infância.
Então ela o deixara e partira o coração dos dois.
— Eu não sabia o que fazer — ela sussurrou, os olhos ainda bem fechados. — Tive que ver a minha irmã, precisei vir embora... — Ela balançou a cabeça, tentando entender tudo. — As coisas estavam fora de controle.
— O que aconteceu, Lucy? Você podia ter ligado para ele quando chegou em casa. Em vez disso, ele só recebeu silêncio.
— Eu fiquei esperando que ele desse o primeiro passo. Não queria piorar as coisas. — Deus, parecia tão estúpido agora. Por que não tinha ligado para ele? — Estava com medo — admitiu.
— Do Lachlan? — Grant parecia surpreso. — Por que você tem medo dele?
Tudo estava fazendo sentido. Dizer em voz alta era como uma lâmpada se acendendo na sua cabeça. Durante as semanas em que ela e Lachlan estiveram juntos, sempre havia uma parte sua esperando que terminasse. A maneira como as coisas sempre terminavam com alguém que ela amava.
Amor? A palavra era o suficiente para provocar um arrepio na sua coluna e, ao mesmo tempo, aquecê-la. Porque o amor a tornava vulnerável, abria a chance de alguém te magoar. Amar significava perder o controle.
— Não era dele que eu tinha medo — respondeu, mais para si mesma do que para Grant. — Era de mim. Estava com medo de estar me apaixonando por ele. Com medo de que ele me magoasse. Então, eu vim embora antes que ele fizesse isso.
— Você é tão terrível quanto ele. — Grant bufou. — Nunca conheci duas pessoas que são tão bem-sucedidas profissionalmente e não têm ideia do que estão fazendo com a vida pessoal. Se não tivesse certeza, diria que vocês foram feitos um para o outro.
Era errado que suas palavras parecessem um buquê de esperança florescendo dentro dela?
— Talvez seja isso mesmo— ela falou. — E talvez nós dois estejamos cegos demais para ver isso.
— Se vocês conversassem, isso ajudaria. E não me refiro a dizer a ele que roupas você está usando quando ele liga.
Suas bochechas coraram. Grant sabia disso?
— Sério, ligue para ele. Parem de fugir um do outro. Isso não te leva a lugar nenhum. Ele sente a sua falta, quer você, mas está com medo. Desde criança ele está determinado a sair da vida em que nasceu. Determinado a provar coisas para si mesmo, para o pai, o irmão e Deus sabe quem mais. Ele ainda está aprendendo que a vida não é só vencer, mas sim aproveitar a jornada.
— Eu podia ajudá-lo.
— Você já começou. Mas interrompeu no meio do processo.
— Vou ligar para ele — ela disse, decidida. — Mas e se ele não atender?
— Você acha que isso vai ser motivo para desistir? Você tem medo de ser rejeitada?
Ela tinha. Mas talvez pudesse parar de deixar o medo guiá-la. Talvez pudesse se tornar vulnerável, se abrir e ver aonde a brisa a levava. Sim, seria assustador demais e ela tropeçaria no caminho. Mas a alternativa — perdê-lo — era ainda mais dolorosa.
— Grant?
— Sim — ele disse, pacientemente.
— Que acordo ele fez com o irmão?
— Que tal você perguntar para ele? — Grant sugeriu. — Eu só posso dizer que ele parece feliz com a situação.
Ela assentiu, ainda segurando o telefone no ouvido.
— Sim, vou perguntar.
— Que bom.
Era, não é? Mesmo que todo o seu corpo estivesse tremendo com o pensamento. Eles se despediram e ela gentilmente colocou o telefone no receptor, batendo na base com os dedos, imersa em pensamentos.
Ela não podia deixar de se lembrar de quando ele voara para Edimburgo naquela noite de sexta-feira, lhe dando o choque de sua vida da maneira mais delicada. Ele tinha feito um grande gesto, tinha feito Lucy se sentir querida, amada, cuidada. Abrira o coração dele para ela quando dissera que queria mais.
Talvez fosse a sua vez de fazer um grande gesto em retorno.