Uma Surpresa na Primavera
Capítulo 8
Os bons conselheiros sempre terão clientes.
— Medida por medida
Lucy saiu para o ar da primavera. O sol surgia entre as nuvens, os tons amarelos iluminando as poças da chuva que havia caído mais cedo. Ela piscou duas vezes, deixando os olhos se acostumarem com a luz. A temperatura estava esquentando o suficiente para que pudesse usar apenas um casaco leve, tirando as luvas e o lenço que havia se tornado uma espécie de segunda pele.
Era uma curta caminhada até o escritório — um ritmo acelerado de dez minutos pelos jardins da Princes Street e do outro lado da linha férrea. As calçadas estavam cobertas de canteiros de flores, os brotos verdes de narcisos e tulipas forçavam seu caminho pela terra marrom. Botões minúsculos desabrochavam nas árvores que antes eram estéreis, a flor de algodão cor-de-rosa anunciava a novíssima estação. Em poucas semanas, ela cairia, cobriria a grama e as calçadas e as folhas começariam a crescer. Depois de um inverno longo e frio, parecia que tudo estava finalmente voltando à vida.
Subiu as íngremes escadas de pedra que pareciam estar por toda parte em Edimburgo com os pulmões protestando pelo esforço súbito. Quando chegou ao topo, estava sem fôlego, embora não houvesse sinal de vapor quando ofegou. O ar estava quente demais para isso. Graças a Deus pelas pequenas misericórdias.
— Café? — Lynn perguntou assim que Lucy entrou no escritório. — Estava fazendo um para o Malcolm.
— Sim, por favor. E, quando estiver livre, pode vir até aqui falar comigo? — Lucy perguntou, pendurando o casaco no suporte que ficava no canto do escritório. — Preciso reagendar algumas reuniões.
Enquanto Lynn se afastava para fazer o café, Lucy pegou o laptop e o ligou à estação de trabalho, checando a secretária eletrônica para verificar se havia algum recado. Ultimamente, não recebia muitos — grande parte das pessoas enviava e-mail ou ligava para o celular. Mas ela ainda tinha alguns clientes tradicionais — a maioria senhoras idosas com tanto dinheiro que sequer sabiam o que fazer com ele — que ocasionalmente deixavam uma mensagem trêmula, pedindo que ela ligasse de volta.
Naquele dia, não havia nada.
Depois do café, deu alguns telefonemas e separou as pilhas de cartas que Lynn havia deixado, arrumando-as em ordem de importância. Foi quando viu uma de Dewey e Clarke, os advogados que Duncan MacLeish havia contratado. Ela pegou, examinando as palavras. Os dois propunham uma reunião para discutir um acordo e evitar a representação no tribunal.
Ela umedeceu os lábios, lendo as palavras novamente. Examinou a carta e enviou um e-mail diretamente para Lachlan. Ainda era meio da noite em Nova York, Miami ou onde quer que ele estivesse, mas ele veria quando chegasse ao trabalho pela manhã.
Demorou menos de cinco minutos para o telefone se acender e o nome dele aparecer na tela. Ela sentiu uma vibração de excitação — ou talvez fosse adrenalina. Toda vez que falava com Lachlan MacLeish, parecia que estava lutando com um lado seu que não reconhecia.
— Bom dia. Acordou cedo — ela comentou. — Ou é tarde?
— São quase cinco da manhã — ele disse. — Preciso dar uma corrida antes de começar a trabalhar.
Por um momento, ela o imaginou usando roupas de corrida. Pernas fortes e musculosas, braços duros como ferro. Ele tinha o tipo de corpo que poderia te proteger de uma tempestade, se você deixasse.
Ah, pelo amor de Deus. Se contenha, Lucy.
— Bem, não quero te atrapalhar — ela disse, querendo terminar a conversa antes mesmo de começar. — A saúde vem em primeiro lugar. Me mande um e-mail mais tarde se tiver alguma dúvida.
— Pode deixar — ele disse, parecendo divertido. — Mas o seu e-mail não tem anexo, por isso não consigo ler a carta.
Ah, idiota. Ela abriu o e-mail na tela do computador e viu que ele tinha razão; não havia o ícone do clipe de papel para indicar que o documento estava anexado. Como ela conseguiu fazer besteira com uma coisa tão simples?
— Sinto muito, eu vou reenv... — Seu pedido de desculpas foi interrompido pela explosão alta de uma buzina reverberando pela linha telefônica. Então ela ouviu alguns gritos, mas as palavras foram abafadas para que ela não pudesse ouvi-las. — Lachlan, está tudo bem?
— Sim. Alguns taxistas acham que não precisam obedecer aos sinais de trânsito. — Lachlan parecia um pouco ofegante. — Não foi nada.
— Está correndo agora? — ela perguntou.
— Sim. Acabei de chegar ao Central Park.
— E você ainda quer continuar a conversar?
— Só estou aquecendo. Quando estiver indo um pouco mais rápido vai ser mais difícil, mas é só controlar a respiração. Enquanto a conversa corresponder ao ritmo da minha corrida, eu consigo falar normalmente.
Ela tentou imaginar o Central Park naquela época do ano. Tinha visitado Nova York quando se formou, usando o bônus que ganhou da Robinson e Balfour para pagar a viagem.
— Em que parte do parque você está correndo? — perguntou a ele.
— Estou circulando o reservatório e depois vou voltar para o centro. Tenho uma reunião às sete. — Ela podia ouvir o ritmo da respiração dele agora. — Na verdade eu tenho reunião às sete, às nove, às onze e à uma. Além disso, tenho um compromisso à tarde. Então, só vou conseguir ver o e-mail à noite. Tudo bem?
Seu coração estava batendo no ritmo da respiração dele.
— Tudo bem. Eu dou uma olhada nos e-mails mais tarde, para o caso de você responder antes de eu ir dormir. E, se precisar me ligar, fique à vontade. Não quero que a diferença de fuso horário nos cause problemas.
— Obrigado — ele disse, sua voz ainda clara como o dia. — Mas não fique acordada por minha causa. Vou ficar preso no escritório até tarde, então pode ser que eu só comece a ler no meio da noite. Não vou te acordar por isso.
Ela esperou o alívio atingi-la. Em vez disso, sentiu uma decepção tão forte que a fez estremecer. Queria que ele ligasse no meio da noite?
— Parece que você está trabalhando demais — ela falou. E não era o que ela fazia também? Não se chega ao topo da carreira trabalhando das nove às cinco. Você se esforça até os limites e depois se esforça um pouco mais.
Com sua boa aparência e charme natural, teria sido fácil para ele conquistar o que queria sem muito esforço. Mas em vez disso, ele era muito determinado. Lucy não podia deixar de ficar impressionada.
— Sim, bem, é um mundo competitivo. Trabalhei duro pelo que eu tenho. Não pretendo perder agora.
Ela podia dizer, pela cadência de suas palavras, que ele havia acelerado o ritmo.
— Eu vou deixar você em paz agora — disse, se sentindo relutante em encerrar a ligação. — Você precisa terminar sua corrida e eu preciso mandar o e-mail, desta vez com a carta anexada.
Ele riu.
— Certo, Lucy, falo com você mais tarde.
Ela encerrou a ligação, colocando o telefone na mesa ao lado do laptop, e tentou ignorar o modo como as palavras dele a fizeram se sentir. Falo com você mais tarde. Ela não tinha certeza se isso parecia mais uma ameaça ou uma promessa.
A julgar pela maneira como ele a fazia se sentir — como se seu mundo perfeitamente ordenado estivesse sendo derrubado —, com certeza eram as duas coisas.
Lachlan se recostou na cadeira, passando os dedos pelo cabelo enquanto fechava os olhos por um momento, soltando o ar pela boca. O dia tinha sido muito longo e não parecia que terminaria tão cedo. Sua caixa de entrada estava cheia de e-mails que Grant havia marcado como urgentes e o correio de voz de seu celular estivera piscando o dia todo. Por volta das sete da noite, um entregador tinha trazido uma sacola cheia de comida chinesa, mas as caixas continuavam na mesa e tudo estava frio.
Ele tirou o paletó e desabotoou a camisa, soltando o colarinho que apertara seu pescoço o dia todo. Examinando o conteúdo da caixa de entrada, seus olhos pararam imediatamente em um nome familiar, que fez os cantos de seus lábios se curvarem. Lucy Shakespeare. Ela era como um bálsamo frio em sua alma sobrecarregada.
Ele olhou ao redor do escritório, para o interior elegante, o chão de mármore e as pinturas caras presas na parede. Não podia reclamar — não quando havia alcançado mais do que jamais sonhara quando criança, no tempo em que batia pernas nas ruas de Miami e os problemas o seguiam como cheiro ruim. Durante anos ele ficara satisfeito com o que tinha: os artigos de revista que o enalteciam como o próximo grande sucesso, os convites para eventos de gala e estreias exclusivas — coisas que acompanhavam o sucesso. Mas agora, sozinho no escritório, não parecia tão satisfatório quanto antes.
Era difícil apontar o motivo. Ele pensou no pai, o homem que foi para o túmulo mal conhecendo o filho mais velho. Será que Duncan MacLeish, o pai, foi feliz com a vida que teve? Lachlan pensou que provavelmente sim, afinal ele havia construído um império que o transformara de escocês pobre em magnata de Miami. O que havia para não gostar?
Movendo o cursor para a mensagem de Lucy, ele clicou para abrir, lendo rapidamente suas palavras antes de abrir o documento anexado. Seus e-mails eram tão parecidos com a maneira como ela falava que ele quase podia ouvir sua voz enquanto observava a mensagem concisa. Quase podia imaginá-la digitando, os olhos ligeiramente semicerrados e os lábios apertados em sinal de concentração.
Nas semanas desde que se conheceram em seu hotel, em Miami, ela provara ser exatamente a advogada de que precisava. Era uma loucura a maneira como ansiava por suas conversas, tanto que tinha ligado para ela naquela manhã, quando o sol mal havia se erguido no horizonte de Nova York, com o desejo de ouvir sua voz superando qualquer bom senso que ele tivesse. Ainda mais louco foi o fato de que a corrida matinal, acompanhada da conversa que tiveram, acabou sendo a melhor parte do seu dia.
Ele nunca tivera uma paixão antes, se é que podia descrever o que estava acontecendo dessa forma. Grant não estava errado quando disse que as mulheres corriam atrás de Lachlan. Ele gostava da companhia delas, gostava da conversa e, sim, às vezes iam para a cama. Mas isso era o máximo que acontecia. Ele não perdia seu tempo livre pensando nelas.
Até ela aparecer.
Ele balançou a cabeça diante daqueles pensamentos e um meio-sorriso se ergueu no canto do lábio. Ela era boa no que fazia, e ele gostava dessa qualidade. Ela era a chave para conseguir a herança que tanto queria, e era isso que importava.
Não sua beleza, postura, nem o modo como ela o atraía toda vez que se falavam. Ela podia ser diferente de qualquer outra mulher que ele já conhecera, mas isso era irrelevante. Ela era sua advogada e morava a mais de três mil quilômetros de distância. Sua vida era complicada o suficiente — ele não precisava adicionar nada.
Um olhar para o relógio do outro lado da parede lhe disse que eram quase onze da noite. Esfregou os olhos ressecados e mandou uma mensagem para o serviço do transporte executivo, pedindo ao motorista para pegá-lo em meia hora. Isso lhe daria tempo suficiente para responder à mensagem de Lucy e depois ler seus outros e-mails antes de chegar em casa e ir direto para a cama.
Todo o trabalho e nenhuma diversão estava fazendo de Lachlan um homem exausto.
— Tudo certo, então? — Cesca perguntou. — Graças a Deus a casa pode aceitá-lo. Vai ser muito melhor para todos.
— Ainda detesto a ideia de ele ficar em uma casa de repouso. — Juliet torceu o nariz. — Eu me sinto tão... culpada, sabe? Como se eu o estivesse negligenciando. Não o vejo há mais de dois anos.
— Você não tem nada com que se sentir culpada — Lucy falou. — Nenhuma de vocês tem. Ele não queria que ninguém largasse tudo para cuidar dele. Se alguém devia estar fazendo isso, sou eu. Eu sou a que mora mais perto.
Um bombardeio de “nãos” soou através da caixa de som do laptop. A tela de Lucy mostrava as três irmãs, todas localizadas em diferentes partes do mundo. Cesca ainda estava em Budapeste, onde Sam estava filmando. Se observasse bem, era possível ver os sinais reveladores do quarto de hotel — pinturas genéricas nas paredes, roupas simples e elegantes, sem mencionar as três malas no canto da tela.
Juliet, em contraparte, estava sentada em sua cozinha em Maryland, nos Estados Unidos. Extremamente moderna e bonita, mas, de alguma forma, fria. Poppy estava no canto, colorindo da maneira habitual — cheia de prazer. Thomas, seu marido, não estava em lugar nenhum.
E havia Kitty. O bebê da família. Ela estava sentada do lado de fora de um café em Los Angeles, o sol da manhã iluminando os longos cachos loiros. Na mão dela havia um grande copo de isopor e ela bebia enquanto falavam. Estava linda — e não era de admirar. Se apaixonar tinha sido bom para ela.
— Então, e a casa? — Cesca perguntou. — Será que o seguro vai nos deixar mantê-la vazia? Não podemos alugá-la enquanto estiver com todas aquelas coisas lá dentro. — Todas sabiam que o pai era um acumulador.
— Falei com algumas empresas especializadas em limpeza doméstica — Lucy disse. — Acho que não devemos fazer nada até que ele esteja estabelecido, mas depois disso vamos ter que pensar em vendê-la. Vamos precisar do dinheiro para pagar pelos cuidados com ele.
— Que horrível vender a casa da família — Kitty falou. — O papai ama aquele lugar. Assim como a nossa mãe amava.
Lucy olhou para a mesa de canto, repleta de fotografias da família em molduras prateadas e pretas. Do lado esquerdo havia uma pequena foto em preto e branco de um homem alto e elegante e uma mulher bonita, rindo enquanto desciam os degraus do cartório. Sua mãe estava resplandecente em um vestido curto de cor clara. O pai usava um terno elegante e uma gravata com nó perfeito. Parecia mais um anúncio vintage do que uma foto da família.
— Não temos muita escolha — Juliet falou baixinho. — Queremos que o nosso pai tenha o melhor atendimento, e a casa vai pagar por isso. — Ela engoliu em seco, a voz ainda mais baixa. — De qualquer forma, ele não vai poder voltar a viver nela, certo? A tendência é que ele só piore.
Isso as silenciou por um minuto. Quando Lucy olhou para a tela, todas as irmãs estavam com a cabeça baixa.
— Nós estamos fazendo o melhor que podemos por ele — Lucy finalmente disse. — E isso é tudo que nós podemos fazer. Eu sei que é horrível, mas pelo menos desta vez vamos fazer o certo.
— Claro que estamos — Cesca concordou.
— Bom, conte pra gente sobre Budapeste. O Danúbio é tão bonito quanto falam? — Lucy perguntou. A mudança de assunto foi como tirar um peso de todos os ombros, e de repente estavam conversando de novo, as expressões se abrandando enquanto trocavam notícias, falavam sobre maridos e namorados, empregos e casas.
Lucy se recostou na cadeira, observando todas elas com um sorriso caloroso. Ela amava ferozmente as irmãs. Desde os 15 anos, seu trabalho era cuidar das três e se certificar de que estavam felizes.
Para todos os efeitos, ainda era.