Uma Surpresa na Primavera
Capítulo 23
Meu coração amou antes de agora? Renega tal fato,
minha visão. Pois nunca havia visto a verdadeira
beleza até esta noite.
— Romeu e Julieta
Ela estava adiando a conversa havia horas. Desde que entrara no edifício da Robinson e Balfour naquela manhã, fingia trabalhar no laptop enquanto continuava olhando para o escritório de Malcolm na tentativa de descobrir o melhor momento para falar com ele.
O problema era que não havia um bom momento. Estava prestes a admitir que tinha sido completamente antiprofissional e havia colocado em risco o bom nome da empresa. Ele estaria em seu direito de repreendê-la por má conduta e não poderia culpá-lo se ele fizesse isso. A empresa existia havia mais tempo do que ela estava viva — cerca de cem anos a mais, na verdade —, era maior que qualquer outra.
Baixou a cabeça e a apoiou entre as mãos. Como tinha conseguido se meter nessa bagunça? Fechando os olhos, por um momento considerou não dizer a ele, mas isso não era possível. Mesmo que não houvesse mais nada entre ela e Lachlan, ela ainda havia ultrapassado os limites muitas vezes.
E o fato era que havia muito entre eles. O fim de semana tinha mostrado isso a ela. Por mais que se sentisse mal em ter que falar com Malcolm, a ideia de não ver Lachlan de novo doía muito mais.
Ela realmente não tinha escolha.
Lynn levantou os olhos quando Lucy saiu da sala e abriu um grande sorriso.
— Tudo bem? — a secretária perguntou. — Posso pegar alguma coisa para você?
— Preciso falar com o Malcolm. — Até mesmo dizer isso em voz alta fazia seu peito doer. — Sabe se ele está livre?
— Está, mas é melhor você se apressar. Ele vai sair para uma reunião no almoço em vinte minutos. — Era agora ou nunca. Que Deus a ajudasse.
— Não sei bem o que dizer. — Malcolm tirou os óculos, esfregando a mancha vermelha na ponte do nariz. — Eu podia esperar isso de qualquer outro funcionário, Lucy. No que você estava pensando?
— Desculpe — respondeu, olhando para as mãos. — Eu não queria que nada disso acontecesse. E sei que deve te colocar em uma posição realmente desconfortável. Mas não posso continuar com o caso. Não estaria certo.
— Ele se aproveitou de você? — Malcolm perguntou. — Porque, se foi o que aconteceu, há coisas que podemos fazer.
Ela ergueu os olhos para encontrar os dele. Sentiu-se horrorizada.
— Não, não, ele não fez nada disso. Tudo o que aconteceu foi... consensual. — O rosto dela ficou vermelho. Aquilo era mortificante. Ela poderia ter se despido e dançado nua pelo escritório e teria se sentido melhor do que agora. — Sinto muito — ela disse de novo. O que mais havia para dizer?
Ele deslizou os óculos de volta no nariz. Em seguida, se inclinou sobre a mesa com as mãos entrelaçadas.
— O que está feito está feito. Eu preciso descobrir quem tem espaço disponível para encaixar o caso. E esperamos que você se certifique de que tudo esteja pronto antes de repassá-lo.
— Claro.
— Mas não vou conseguir evitar as fofocas no escritório — ele avisou. — As pessoas vão especular sobre o motivo de você ter sido afastada do caso.
Ela engoliu em seco.
— Entendo.
— Vão ligar os pontos e perceber que você está dormindo com um cliente ou vão assumir que este caso é demais para você. De qualquer forma, vai repercutir mal. — Ele balançou a cabeça lentamente. Lucy odiava ver que ele estava desapontado. Ela o havia decepcionado, deixado a empresa de lado porque não conseguira controlar suas emoções. Que tipo de pessoa ela era?
— Eu sei. — Sabia mesmo. Já havia visto pessoas arruinarem a carreira por muito menos.
— Bem, acredito que você tenha feito a coisa certa em me dizer. — Ele olhou para o relógio e suspirou. — Eu preciso ir a uma reunião agora, mas volto mais tarde e vou trabalhar no encaminhamento do caso. — Ele olhou para ela pela lente grossa dos óculos. — Não sei o que está acontecendo com você e o sr. MacLeish agora, mas, o que quer que seja, espero que você não se arrependa disso.
Lucy também. Mais do que poderia dizer.
— Você vai para Londres? — Lucy perguntou, desviando o olhar da revista Scottish Times que estava lendo. A capa mostrava Lachlan, encostado na lareira de Glencarraig, parecendo o verdadeiro laird da mansão. Apesar da calorosa entrevista, Marina Simpson foi surpreendentemente generosa em seu artigo, descrevendo-o de uma forma muito simpática. Havia apenas algumas menções ao pai, mas nada sobre a maneira como seus pais se conheceram, graças a Deus.
Mesmo fora do caso, ela ainda estava desesperada para que ele ganhasse. Para que tudo desse certo. Sentia como se a sua carreira dependesse disso.
— Quando você chega? — perguntou à irmã pelo telefone. — Quanto tempo vai ficar? — Era um alívio estar falando com Cesca, ouvir seu humor caloroso ecoando pela linha. Depois da semana que tivera e do drama de contar a Malcolm sobre ela e Lachlan, falar com a irmã era como uma lufada de ar fresco.
— É uma visita rápida — Cesca respondeu. — A irmã do Sam vai se formar na semana que vem, e ele quer dar um pulo aí. Só vamos ficar em Londres por alguns dias. Vou visitar o nosso pai em algum momento enquanto estivermos na cidade.
— Mas eu não vou poder estar lá. — Lucy rabiscou uma flor no papel branco, tentando engolir o desapontamento. Raramente via as irmãs, e doía perder essa oportunidade. — Vou estar em Nova York. Viajo amanhã. — Se sentiu dividida. Desesperada para ver Lachlan, mas precisando ver a irmã também. Afinal de contas, não era sempre que todas estavam no mesmo país.
— Não tem problema — Cesca respondeu. — Nós vamos sentir a sua falta, é claro, mas não precisa me acompanhar. Eu posso visitar o nosso pai sozinha. E, além disso, posso aparecer lá em casa, dar uma olhada antes que as pessoas a visitem. Quando você espera colocá-la à venda?
— No começo do mês que vem — Lucy falou. Duas linhas se formaram em sua testa. — Talvez eu possa trocar a viagem, ir até lá e te ver. Não acredito que bem na semana em que vou estar nos Estados Unidos você vem para Londres.
— Estamos parecendo navios que passam um pelo outro à noite — Cesca brincou. — Mas um dia todas nós vamos estar no mesmo continente. O mundo não sabe o que o espera quando as irmãs Shakespeare estiverem juntas novamente.
Um sorrisinho se formou nos lábios de Lucy, embora não fosse suficiente para afastar a sensação de tristeza.
— Tem certeza de que não há nada que possamos fazer para nos encontrarmos? Talvez eu possa adiar por uns dias.
— Mas por que você vai viajar para lá? Tem alguma coisa a ver com o trabalho?
— Sim, mais ou menos isso. — Por um momento, pensou em contar a Cesca sobre Lachlan. Confiar seus medos à irmã: o fato de ter quase arruinando sua carreira e se sentir fora de controle sempre que seu ex-cliente estava nas proximidades. Sobre achar que poderia estar se apaixonando por ele e não ter ideia de como lidar com isso. A jovem fechou a boca com a mesma rapidez com que a abriu. Era melhor ir até Nova York e vê-lo antes que começasse a contar à família o que estava acontecendo. Todos achariam que havia enlouquecido se dissesse a verdade.
— Você está bem? — Cesca questionou. — A sua voz está engraçada.
— Engraçada como?
— Você está diferente — a irmã disse. — Está com algum problema?
— Não, claro que não. Só não gosto de ficar fora por uma semana quando o nosso pai não está bem.
— Bem, agora você pode ir sem se preocupar — Cesca falou. — Se houver algum problema, eu vou estar aqui. É o destino.
— Acho que sim.
— O que realmente está acontecendo? — Cesca insistiu. — Você não parece ansiosa para viajar. E o nosso pai não está em estado crítico; ele pode durar anos. Estou preocupada com você, Luce.
Lucy levantou os olhos do bloco e da intrincada flor que desenhou.
— Não sei — ela admitiu. — Tudo parece meio louco agora. O trabalho está corrido, tenho uns mil casos para cuidar e agora vou para Nova York. Não sei como encaixar tudo.
— Ah, é por isso que você está indo para Nova York? — Cesca perguntou. — Não é onde o novo laird mora? Ou é em Miami? Nunca me lembro.
— Ele mora nos dois lugares. — Ela deveria dizer a Cesca que estava fora do caso; mas sentiu aquela hesitação de novo, adicionada ao medo que carregava havia dias. Não queria que a irmã pensasse mal dela.
— Então é ele que você vai encontrar? — Cesca parecia um cachorro com um osso quando estava interessada em alguma coisa. Lucy sentiu que ela não ia desistir do assunto.
— Sim, entre outras coisas que eu tenho que fazer. — Foi o máximo que ela quis dizer.
— Outras coisas? — A voz de Cesca se elevou. — Que outras coisas? Não me diga que Lucy Shakespeare está interessada em outras coisas além de trabalho. Vai ver uma peça? Ou sair para jantar? Não me diga que está saindo com alguém.
— Claro que não. — Lucy mal reconheceu a própria voz.
— Ah, meu Deus, você está saindo com alguém, né? — As palavras de Cesca demonstraram sua excitação. — Quem é ele? Qual é o nome? Já partiram para a ação?
— Não tem ninguém — ela disse com firmeza.
— Tem, sim. — A certeza de Cesca tirou o fôlego de Lucy. Era como se ela tivesse uma antena de verdade e estivesse apontando diretamente para Edimburgo. — Espere, é ele, não é?
— Quem? — Lucy estava tentando ganhar tempo.
— O laird sexy. Você está misturando negócios e prazer? Nossa, Lucy, isso não é a sua cara. — Cesca parecia muito feliz. — Você precisa me contar tudo. Como aconteceu? Isso é demais.
— Pare com isso. — Ela se arrependeu de ter aberto a boca.
— Vamos, me dê alguma informação. Vou colocar na minha próxima peça.
— Quando você está planejando chegar em Londres? — Lucy perguntou.
— Pare de tentar mudar de assunto. Me fale sobre esse cara.
— Agora? — Lucy estava determinada a encerrar a conversa antes que Cesca se aproximasse da verdade. — Tenho uma teleconferência em cinco minutos. Falo com você quando voltar de Nova York, tá?
— Você pode correr, mas não pode se esconder, irmã mais velha. — Cesca estava rindo. — E, quando você voltar, espero ouvir todos os detalhes.