Uma Surpresa na Primavera
Capítulo 28
Um coração conturbado não tem a língua ágil.
— Trabalhos de amor perdidos
Havia sido tão egocêntrica. Podia ver tudo claramente agora, enquanto fechava a mala e a tirava de cima da cama, arrastando-a pelo corredor. Deixou-a ao lado da porta, com os documentos em cima, enquanto esperava pelo táxi que já havia chamado.
O presente que comprara para Lachlan ainda estava no corredor, no mesmo lugar em que havia deixado quando chegou. Olhou para ele, retorcendo os dedos, imaginando o que deveria fazer com aquela coisa agora.
Não parecia o momento certo para presentes.
Não parecia o momento certo para nada além de ir para casa e fazer o que deveria ter feito muito tempo antes. Se certificar de que sua família estivesse bem, que não tivesse desmoronado. Que não se quebrasse como o vaso Kintsugi que dominava o corredor do apartamento de Lachlan.
Checou o telefone para ver se o táxi havia chegado, mas não havia notificação. Apenas algumas mensagens de Lachlan e recados perdidos na caixa postal. Planejava retornar assim que estivesse no táxi.
Depois das tentativas inúteis de retornar para Cesca, suas habilidades para resolver problemas haviam despertado. Em trinta minutos, reservou um voo no avião seguinte para Londres, fez as malas e pediu um táxi. Checando o aplicativo, viu que o carro ainda estava a dez minutos de distância. Balançou a cabeça. Era tudo culpa sua. Tinha perdido o foco e se jogado de cabeça nessa coisa com Lachlan. Negligenciara a família e a carreira, as duas coisas que sempre significaram tudo para ela.
Por um momento, pensou naquele vestido, ainda pendurado na embalagem plástica preta, preso na parte de trás da porta do quarto dele. Pensou em como teria ficado nos braços dele, a renda clara e a seda champanhe contrastando com o smoking preto que ele usaria. Mas era tudo falso, não era?
Permitiu-se entrar em um devaneio: achar que ele estava tão apaixonado quanto ela. Mas ele não estava. Isso ficou claro durante a conversa por telefone. Ela deixara escapar que o amava, e ele não tinha dito uma palavra. Se ficasse e fosse para o baile — como uma das suas “garotas”, como Jenn as descreveu —, estaria colocando essa coisa entre eles acima de sua família. E não podia fazer isso.
Havia sido tão egoísta quanto a mãe. Precisava parar. Precisava retornar para casa e ser Lucy Shakespeare, a mulher que tinha tudo sob controle. Talvez, então, as coisas voltassem ao normal.
Começou a chover quando o carro estacionou em frente ao prédio e o porteiro apareceu com um guarda-chuva, protegendo Lachlan da umidade.
— Boa noite, sr. MacLeish.
— Oi, John. Obrigado por verificar a Lucy por mim.
— Sem problemas — John respondeu e caminhou ao lado de Lachlan em direção ao saguão. — O mal-estar deve ter sido repentino. Ela estava bem quando chegou. — Lachlan franziu a testa, caminhando pela porta que John segurava. O porteiro permaneceu do lado de fora, sacudindo o guarda-chuva. Acenando para o concierge, Lachlan foi até o elevador, que chegou quase que imediatamente.
Assim que abriu a porta do apartamento, algo pareceu errado. Ele entrou no hall, observando as paredes claras, o chão polido, a mesa com o grande vaso de Kintsugi. Tudo parecia igual.
Mas havia outro acréscimo — bem, dois, se fosse contar. A mala dela estava junto à mesa, ao lado de uma grande caixa azul. Seus documentos estavam sobre a bagagem.
— Lucy? — ele chamou, dando outra olhada na bagagem. — Você está bem? — Ele podia sentir o peito apertando, como se alguém tivesse amarrado uma corda nele e tivesse puxado com força. — Onde você está?
— Aqui.
Ele a viu assim que entrou na sala de estar. Ela estava usando jeans justo e suéter de cashmere de cor creme — a lã macia, de alguma forma, complementando sua tez. Mas, quando ele levantou o olhar, viu a vermelhidão dos olhos, a palidez do rosto, a pele macia coberta de manchas lívidas.
— Você está horrível — ele falou, estendendo a mão para ela. Mas ela se afastou.
— Obrigada — ela respondeu, mordiscando o lábio. — Não estou me sentindo bem.
— Posso pegar alguma coisa para você? Um analgésico? Está enjoada ou com dor?
— Estou bem — ela disse, parecendo exatamente o contrário. — Só preciso ir para casa.
— O quê? — Ele piscou, tentando compreender as palavras dela. — Mas você está em casa.
— Não. — Ela balançou a cabeça, estremecendo como se estivesse com dor. — Quero dizer que vou voltar para Londres.
— Seu voo é no domingo, não hoje. — O que ela estava dizendo não fazia sentido. — Você não pode ir embora estando doente, isso é loucura. Vá para a cama e vamos ver como você acorda manhã. Eu vou ligar para o meu médico se você não estiver melhor.
— O meu voo sai daqui a quatro horas — ela disse, ignorando a sugestão dele. — Chamei um táxi. Já devia ter chegado há cinco minutos. — Seu rosto estava iluminado pelo brilho do lustre. Quando ele se aproximou, pôde ver sua pele sensível, como se ela tivesse limpado a maquiagem com uma escova em vez de um demaquilante.
Ele balançou a cabeça.
— Não entendo. Se você está doente, não devia ir embora. Me deixe cuidar de você. — Dessa vez, quando ele a tocou, ela se encolheu. — Lucy? — ele a chamou, ainda sem entender o que estava acontecendo.
— Não estou doente. — Sua voz estava fraca. — Tenho que ir para casa. A minha irmã precisa de mim.
— Qual irmã? O que aconteceu com ela?
Lucy ergueu o olhar lentamente para encontrar o dele. Seus olhos estavam injetados de sangue e, no entanto, de alguma forma, inexpressivos.
— A Cesca. Ela descobriu... — Lucy parou, juntando os lábios em uma linha fina. Quando piscou, uma lágrima escapou.
— Descobriu o quê? — Ele odiava o modo como o ar entre eles parecia sólido. Como uma barreira invisível.
— Ela descobriu sobre a minha mãe. Sobre o caso dela. Disse que eu sou uma mentirosa, que me odeia.
— Por que ela iria te odiar?
Lucy reprimiu um soluço.
— Ela acha que é tudo culpa minha. Não quer falar comigo.
Ele acariciou o braço dela. Estava muito frio.
— Ela só está em choque, só isso. Qualquer um se sentiria assim. Você devia ter contado sobre a sua mãe há alguns anos.
— Você acha que fui eu quem fez isso? — ela questionou. — Que a culpa é minha também? — Ela puxou o braço e o segurou contra a lateral do corpo, que estava tão rígido quando suas palavras. Naquele momento, ela parecia impenetrável.
Ele franziu a testa, tentando encontrar a resposta certa.
— Não, não é isso que estou dizendo. Mas você não podia manter esse segredo para sempre.
Ela piscou para afastar as lágrimas.
— As minhas irmãs precisam de mim, sempre precisaram, e eu não estou lá. Estou aqui, fazendo Deus sabe o quê.
— Você está aqui comigo.
Ele podia senti-la começar a tremer sob seu toque, apesar do calor na sala.
— Mas não deveria estar. Eu deveria estar em casa. Tudo está bem quando estou lá. Assim que a Cesca me disse que ia para Londres, eu soube que deveria ter ficado. Mas, em vez disso, ignorei a vozinha na minha cabeça e embarquei em um avião assim mesmo. E agora tudo deu errado e eu tenho que fazer tudo dar certo. — Ela estava histérica, com a voz aguda e nervosa. Não havia suavidade em seu rosto. Era como vidro rachado, duro, mas quebrável. Ameaçando cortá-lo com cada toque.
Ele podia sentir o pânico crescendo.
— Então, basta um telefonema da sua irmã e você vai embora?
Era como se ela não o ouvisse.
— Não posso acreditar que fui tão estúpida. Não sei em que eu estava pensando ao vir para cá. — Ela balançou a cabeça, olhando para o espaço. — Arrisquei tudo por quê? Por uma aventura?
Suas palavras foram como um chute no estômago dele.
— O quê?
Claro que não era uma aventura. Ela sabia disso, não é? Ela não quis dizer isso quando falou que o amava?
Ele pensou em todas as outras pessoas que deveriam amá-lo também. Sua mãe, sumindo todas as noites, seu pai, que não parecia amar ninguém além de si mesmo. E agora Lucy também o estava deixando. Do mesmo jeito que todos fizeram.
Não desta vez.
— Eu vou com você. Me deixe falar com o Grant. Ele vai reservar uma passagem para mim.
Lucy olhou para o telefone, que estava segurando com força.
— Vou sair a qualquer momento.
O táxi estava virando a esquina.
— Então eu vou te encontrar.
Ela olhou para ele.
— Não. — Seu tom era veemente. — Não faça isso.
— Por que não?
— Porque eu não quero que você vá.
Se as palavras anteriores pareciam um chute no estômago, desta vez eram como um tiro no coração.
— Você não me quer?
— Você não vê? Nós não fazemos bem um para o outro. Eu estraguei tudo. A minha irmã me odeia, o meu emprego está por um fio. Até o Grant me disse que você estava negligenciando os seus negócios. E pra quê? — O telefone tocou, e ela o silenciou. — É o meu táxi. Preciso ir.
— E o baile de caridade? — ele perguntou. — E quanto a isso? — Estava fazendo tudo o que podia para manter a calma, mas só conseguia ficar com raiva. — E o vestido que você comprou?
— Vou transferir o dinheiro para você — ela disse. — Assim que chegar em Londres.
— Não se preocupe — ele grunhiu, sendo finalmente atingido pela raiva. — Considere como pagamento pelos serviços prestados. — Virou as costas, incapaz de olhá-la e apertou os dedos com força.
— Sinto muito, eu... — Ela parou. — Preciso ir. Te ligo quando chegar em Londres.
— Se você sair por aquela porta agora, não se preocupe em voltar. — Assim que disse isso, ele desejou engolir as palavras. Queria se virar e olhar para ela. Implorar para que ela ficasse. Mas o orgulho fez dele uma estátua, ainda de costas para ela.
Lucy não disse outra palavra. Mas o clique suave da porta se fechando quando ela saiu lhe contou tudo o que ele precisava saber.
Com os lábios pressionados em uma linha fina e pálida, ele voltou para o quarto. A porta do armário estava fechada, mas ele sabia, sem precisar olhar, que as roupas dela não estavam mais penduradas ali.
Seus olhos foram atraídos para um longo porta-vestido preto, com o logo da Bergdorf Goodman impresso na frente. Ele caminhou em direção a ele, abrindo o zíper do plástico para revelar o vestido pendurado no interior.
Um corpete de seda na cor champanhe, coberto com renda, as barbatanas do espartilho claramente visíveis onde estava pendurado. Era justo até a cintura, e depois se expandia para ficar cheio e fluído.
Olhou para a peça sem piscar. Podia quase imaginar como ficaria lindo sobre suas curvas quentes, o cabelo dourado preso para revelar os ombros macios. Ao lado do seu terno escuro, teriam feito um casal glamoroso. O tipo que as pessoas paravam e olhavam no tapete vermelho.
O tipo que teria mostrado a todos que ele era um vencedor.
Estendendo a mão, ele pegou o vestido, sentindo as camadas de seda e renda entre os dedos.
Uma onda de fúria o atingiu. Segurando o corpete com as duas mãos, ele o rasgou até que o tecido começou a protestar por sua aspereza. Seus músculos se contraíram, as mãos apertaram o vestido enquanto puxava o delicado tecido até se rasgar completamente.
Maldita fosse por fazê-lo se sentir do jeito que ela fez. Por fazê-lo sentir que ele poderia ser merecedor de cuidado e amor.
Maldita fosse por dar com uma mão e levar com a outra.
Maldita fosse por não usar aquele lindo vestido enquanto entrava no baile ao seu lado.
Que ela fosse para o inferno. E era exatamente para onde ele também estava indo.