Uma Surpresa na Primavera
Capítulo 20
Preciso ser cruel para ser bom.
— Hamlet
— Como ele está? — Lucy perguntou, parando na recepção para pegar o crachá de visitante naquela manhã. — Já se instalou?
Já fazia mais de uma semana que havia chegado de Paris, e essa viagem para ver o pai parecia ter demorado muito para acontecer. A última vez que o vira tinha sido no fim de semana em que elas o levaram para a casa de repouso, e ela queria ter certeza de que ele estava bem.
— Ele está bem — a recepcionista respondeu. — Está comendo bem e fazendo palavras cruzadas todas as manhãs. Às vezes ele até se junta a alguns dos outros moradores para assistir televisão à noite. — Ela sorriu para Lucy. — Ele teve alguns episódios que tenho certeza de que a enfermeira vai te contar a respeito mais tarde, mas no geral está muito tranquilo.
— Episódios? — Lucy questionou. — Que tipo de episódio?
— Nada para se alarmar e completamente normal para a condição dele. Às vezes ele fica confuso, e isso o deixa agitado. — Outro sorriso.
— Obrigada.
Lucy foi direcionada para a sala do dia, um espaço amplo e arejado com janelas e portas de vidro com vista para os jardins principais. Uma televisão estava ligada no canto — embora nenhum som estivesse saindo —, mas a maioria das pessoas não estava assistindo. Algumas permaneciam sentadas em cadeiras, apenas olhando para fora, outras estavam lendo. Uma senhora magra de cabelo branco cochilava do outro lado, roncando alto ocasionalmente.
Ela encontrou o pai em uma das mesas, o jornal à sua frente. Inclinando-se na direção dele, pressionou os lábios em sua bochecha.
— Oi, pai.
Ele olhou para ela com seus olhos azul-claros.
— Olá — ele respondeu, sua voz educada.
Havia dois sulcos alinhados na sua testa.
— Como você está? — Ela se sentou na cadeira em frente a ele, com a mesa entre os dois. — Está bem instalado? Está gostando daqui?
Ele deu uma olhada lenta pela sala.
— Sim, sim, é muito bom.
— E você está comendo bem? — ela perguntou. — Gosta da comida?
Ele piscou algumas vezes, depois pegou a caneta, retorcendo-a entre os dedos.
— Acho que sim. — Ele puxou a tampa da caneta e depois a colocou de volta. — Qual é mesmo o seu nome?
— É Lucy, pai.
— Eu tenho uma filha chamada Lucy.
Foi a vez dela de piscar.
— Eu sei que tem. Eu sou a sua filha.
Ele balançou a cabeça.
— Não seja boba. A Lucy é uma garotinha. — Ele ainda estava mexendo na tampa, abrindo e fechando a caneta. — Você é uma mulher.
Ela estendeu a mão para impedi-lo de brincar com a caneta.
— Pai, sou eu. Sua filha, Lucy.
Ele se afastou como se ela o tivesse queimado. Seu lábio inferior tremeu.
— Você está brincando comigo. Eu conheço a minha filha.
Ela tentou engolir as lágrimas.
— Tudo bem — ela disse baixinho. — Não tem problema. — Mas tinha. Tinha mesmo.
De repente, seu pai estendeu a mão e agarrou a dela, puxando até que ela quase caiu sobre a mesa.
— Onde está a Milly? — ele perguntou, elevando a voz. — Onde ela está? Para onde você a levou? — Ele olhou para ela por um momento, depois se sentou de novo. — Como é mesmo o seu nome?
— Está tudo bem. — Lucy tentou se endireitar, puxando a mão do aperto dele. Por cima do ombro, ela viu uma das enfermeiras caminhando na direção deles. — Sou eu, Lucy. Tente não entrar em pânico.
Mas era ela quem estava em pânico, o peito tão apertado que estava achando difícil respirar, o coração batendo contra as costelas. Lágrimas quentes surgiram em seus olhos.
— Tudo bem, Oliver? — a enfermeira perguntou, se agachando ao lado da cadeira do pai. — Está aborrecido com alguma coisa? — Ela lançou um sorriso tranquilizador para Lucy.
— Ela está mentindo — o pai respondeu.
— Ah, não fique chateado. Ela só veio para dar um oi. — A enfermeira sorriu para ele. — Sou a Grace, sua enfermeira, lembra?
Ele lhe deu um olhar inexpressivo.
— Que tal irmos buscar uma boa xícara de chá? — Grace sugeriu. — E talvez um biscoito também. Eu sei onde guardam os bons. — Ela ofereceu a mão para ele, que a aceitou. — Depois vamos voltar e dar um oi para a Lucy, tá?
— Tá. — Oliver se levantou, complacente como uma criança.
— Pode ficar aqui por um minuto? — Grace deu um sorriso para Lucy. — Geralmente ele se sente melhor depois de uma caminhada e de tomar alguma coisa.
— Tudo bem — Lucy respondeu, assentindo rapidamente. Ela observou a enfermeira levar o pai embora e ficou imóvel como uma estátua, se agarrando às bordas da cadeira.
Não sabia por que se sentia tão abalada. Talvez por estar presenciando sua confusão pela primeira vez ou pela força com que ele a segurou. Seu rosto havia ficado tenso de raiva, como se por um momento ele a odiasse.
Ela detestava vê-lo assim, odiava saber que nunca ficaria melhor, só pior.
E, embora tivesse três irmãs espalhadas pelo mundo, ela se sentiu completamente sozinha.
— John Graves está aqui — Grant avisou a Lachlan, de pé na porta do seu escritório em Nova York. — E eu enviei as projeções para a equipe financeira. Eles vão entrar em contato com você daqui a alguns dias.
— Você pode ficar em cima disso? — Lachlan perguntou. — Peça prioridade. Eu quero dar um retorno para o Alistair com as minhas ideias iniciais na próxima semana.
— Pode deixar. — Grant olhou para o relógio. — E você tem a videoconferência com os advogados escoceses daqui a uma hora. Quer que eu traga café para você e o John?
— Sim, isso seria ótimo. — Lachlan sorriu. — E mande o John entrar. — Fazia algumas semanas que não se reunia com seu diretor jurídico. Estava ansioso para descobrir em que pé estava o caso de Glencarraig.
E, sim, talvez John pudesse mencionar uma certa advogada na qual ele tentava muito não pensar.
Ele se levantou, esticando as pernas depois de uma longa manhã sentado a sua mesa, e se virou para olhar pela janela, para a cidade que se estendia diante de si. Aquela vista foi a responsável por ter comprado o escritório — a ideia de poder trabalhar bem acima de um dos bairros mais ricos do mundo para absorver a atmosfera do distrito financeiro e ficar por dentro de tudo que acontecia.
Mas agora tudo parecia tão cheio. Tão cinzento. Não havia colinas nem lagos azuis espelhados para serem vistos. Apenas uma cidade repleta de pessoas correndo de um lugar para o outro, sem tempo para apreciar o ambiente. Isso se valesse a pena apreciar.
— Lachlan, que bom te ver. — John entrou, estendendo a mão. — Como foi a Escócia?
— Interessante. — Sem pensar, Lachlan enfiou a mão no bolso e sentiu o papel da fotografia. Dois meninos pequenos usando kilts iguais. — E úmida. Muito úmida.
John riu.
— Falei com o Malcolm Dunvale. Parece que a sua equipe escocesa tem controle sobre o caso.
— Eles estão se saindo bem. Nós tivemos uma reunião inicial com o meu irmão e o advogado enquanto estávamos lá. E depois fomos visitar o chalé. — Não mencionou Paris. Não havia motivo para isso. — Eles estão confiantes de que nós podemos ganhar.
— E então a verdadeira diversão vai começar.
— É? — Lachlan franziu a testa.
— Sim, você vai estar encarregado desse lugar a milhares de quilômetros de distância. Provavelmente vai ter que comprar seu próprio jato, pela quantidade de viagens que vai fazer. Primeiro Miami, e agora as Terras Altas da Escócia.
— Eu não estava planejando ir sempre para lá — Lachlan disse, apontando para a mesa de reuniões no outro lado da sala. Havia uma tela na parede ao lado, preparada para videoconferências. — Vou deixar alguém de confiança no controle e essa pessoa conduz as coisas.
— Da mesma forma que você faz em Miami? — John ergueu as sobrancelhas.
— Miami é diferente. Eu tenho outras razões para ir para lá. — Por que seus pensamentos imediatamente se voltaram para a linda loira com o corpo sensual? — Razões familiares.
— É verdade. E como está a sua família?
Passaram os cinco minutos seguintes batendo papo e depois seguiram adiante com os negócios. Grant os interrompeu com uma bandeja de café e depois os deixou quietos. Voltaram a ser interrompidos novamente quando o rapaz os lembrou da videoconferência de que deveriam participar.
— Eu já conectei vocês — Grant estava dizendo. — Preciso ligar o monitor. — Ele foi até a tela na parede e a ligou, ajustando a câmera acima dela para capturar Lachlan e John. — O microfone está desligado — Grant avisou a eles. — Pode ativar quando estiverem prontos para começar.
O monitor ganhou vida, revelando uma sala de reunião com paredes de vidro fosco. Uma grande mesa de carvalho oval estava no meio da tela, com um homem mais velho sentado ali usando um terno cinza-escuro. Lachlan o reconheceu de sua visita a Balfour e Robinson. Malcolm Dunvale — o amigo de John.
Malcolm se inclinou para a frente e apertou um botão no alto-falante em forma de aranha à sua frente.
— Ah, aí estão vocês. Ótimo. Só estamos esperando a Lucy. Ela deve chegar em um minuto.
Lachlan ignorou a forma como seu pulso acelerou.
John se inclinou para ativar o próprio microfone e conversou com Malcolm em tom de voz amigável. Os dois se conheciam havia anos, Lachlan se lembrou, e estavam recordando velhas histórias. Pela conversa, ele percebeu que Malcolm — e Lucy, imaginou — estavam em Londres, não em Edimburgo. Ficou curioso.
— O voo da Lucy está atrasado? — Lachlan perguntou. — É por isso que ela ainda não está aí? — John lhe lançou um olhar interessado.
— Não, nós viajamos ontem à noite — Malcolm respondeu. — Ela precisou cuidar de alguns assuntos pessoais hoje de manhã.
Lachlan abriu a boca para perguntar que tipo de assunto, mas a fechou de novo. Não era da sua conta, era?
Ele olhou para o relógio ao lado do monitor, franzindo a testa. Ela já estava dez minutos atrasada.
— Peço desculpas por isso — Malcolm falou. Seu sotaque soava menos carregado do que o de Alistair, mas ainda fazia Lachlan pensar naquele pub em Glencarraig e no calor do fogo no centro da sala. — Vou verificar se alguém tem notícias dela.
Lachlan tentou ignorar o modo como seu estômago se apertou.
— Sim, isso seria bom. — Onde é que ela estava?
Quando John começou a se levantar, a porta atrás dele se abriu e Lucy entrou. Ela estava usando uma jaqueta e um lenço, que desenrolou e pendurou em um cabide no canto.
— Me desculpem pelo atraso — ela falou, olhando primeiro para Malcolm e depois para a tela. — Espero que não tenha deixado vocês me esperando por muito tempo.
— Tudo bem? — A voz de Malcolm estava baixa, mas ainda audível nos alto-falantes.
Lucy não disse nada por um momento, mas ficou parada, olhando para seu chefe. Em seguida, colocou um sorriso no rosto e se aproximou para se juntar a ele na mesa de reunião.
— Está tudo bem — ela disse, sem olhá-lo nos olhos.
— Oi, Lucy — Lachlan a cumprimentou.
Ela olhou para cima, e ele sentiu o aperto no estômago desaparecer.
— Lachlan. — Sua voz não revelou nada, mas ainda assim ele podia ver que havia uma tensão em sua expressão que não existia antes. — Como vai?
— Estou bem. Não sabia que você estava em Londres. — E ele não gostou. Passou os últimos dias imaginando-a na Escócia, cercada por chuvas enevoadas e prédios de arenito.
Ela estendeu a mão para o copo de água à sua frente. Sua mão estava tremendo?
— Só por hoje. Vamos voltar esta noite. O Malcolm tinha alguns negócios aqui e eu precisava cuidar de uns assuntos.
Ele conteve o desejo de perguntar o que era.
— Você parece tão ocupada quanto o Lachlan — John comentou. — Ele também está sempre em um avião.
Lucy olhou para cima novamente, seus olhos encontrando os dele. Lachlan notou uma cautela que não tinha visto antes.
— Talvez seja por isso que ela me entende — ele disse, sorrindo.
Ela não sorriu de volta. O que estava acontecendo? Ela havia se arrependido do fim de semana em Paris? Lachlan não gostou desse pensamento. Aqueles dias tinham sido mágicos, sensuais, e queria que ela se lembrasse deles dessa maneira.
— Lucy, você poderia dar o pontapé inicial com uma atualização de como estão as coisas? — Malcolm pediu. Ele também parecia confuso.
— Sim, claro. — Lucy se inclinou para a pasta, puxando os arquivos para fora. Quando se sentou de novo, sua expressão estava impassível. — Vamos começar com a correspondência mais recente dos advogados de Duncan MacLeish?
Durante os vinte minutos seguintes, eles discutiram o caso, com Malcolm e John ocasionalmente intervindo, e Lucy respondendo calmamente às perguntas. Eles não pareceram notar que ela perdeu o fio da meada algumas vezes, nem que respondeu a algumas perguntas de forma errada. Não notaram uma tensão em sua voz que normalmente não estava lá.
Mas Lachlan percebeu. Ele teve que cerrar os dentes toda vez que ela falava.
Quando a reunião chegou ao fim e Malcolm e John estavam trocando amabilidades, Lachlan se viu inclinado para o alto-falante.
— Lucy, pode aguardar um momento? — ele perguntou. — Há algumas coisas eu que quero repassar com você. Em particular.
Ela pegou o copo e tomou um gole de água, e seu pescoço ondulou quando ela engoliu.
— Eu não tenho certeza de quanto tempo nós temos antes de sairmos para o aeroporto — ela falou, olhando para Malcolm.
— Sem problemas. Eu tenho outra reunião antes de voltarmos para Edimburgo. E esta sala está livre pelo restante da tarde.
— Ah, certo. — Lucy assentiu, mas não olhou para a câmera. Lachlan olhou diretamente para ela, como se desejasse que ela olhasse para ele.
John se levantou e esticou os braços.
— Bem, eu preciso ir para outra reunião também. Foi ótimo te ver de novo, Malcolm, e você também, Lucy. — Ele se virou para Lachlan. — Te ligo mais tarde, pode ser?
Lachlan assentiu.
— Combinado.
Assim que os dois homens mais velhos saíram da sala, Lucy o olhou.
— Mais uma vez, peço desculpas pelo meu atraso. Espero não ter causado problemas.
— Não estou nem aí com o seu atraso — Lachlan respondeu.
— Ah. Sobre o que você queria falar então? — O rosto dela permaneceu impassível. — Conseguiu os números com o Alistair para as reformas?
— Não quero falar sobre o chalé, Lucy. — Ela não disse nada.
Ele estava tenso.
— Só queria checar se você estava bem.
— Estou ótima.
— Mentira. — Onde estava a mulher que estivera com ele em Paris? Ela se abrira para ele como uma flor, desabrochando suas pétalas lentamente, uma a uma. Mas agora estava tão fechada que ele não conseguia ver nenhuma cor.
Ela parecia chocada com sua explosão. Finalmente uma reação. Ele queria gritar aleluia.
— Não sei do que você está falando — ela retrucou com firmeza. — Perdi alguma coisa? Você está descontente com o meu trabalho?
— Você sabe que não.
— Então qual é o problema?
Um lampejo de frustração o atingiu.
— Não sou eu que tenho algum problema. Foi você que chegou atrasada e agiu como um robô a reunião toda. O que está acontecendo?
— Achei que você não tinha se importado com o atraso.
— Pelo amor de Deus, Lucy, o que há de errado? Você está estranha. Que tipo de assunto pessoal você foi resolver?
Ela voltou a desviar o olhar dele. Droga, se estivessem na mesma sala ele estaria inclinando seu queixo com o dedo até que ela não pudesse evitá-lo.
— Lucy, o que há de errado? — ele perguntou, tentando manter a voz mais suave.
— É... não é nada. — Ela tentou sorrir, mas seu lábio inferior tremeu. — Só umas questões familiares.
— Que tipo de questão familiar? — Ele queria passar o polegar ao longo do seu lábio, sentir sua suavidade.
— Meu pai não está bem. Eu fui visitá-lo.
— Não sabia que ele estava doente. — Um misto de tristeza e alívio tomou conta dele. Odiava vê-la chateada, mas estava feliz pelo motivo de ela estar assim não ser ele.
— Nós o colocamos em um lar de idosos há algumas semanas. Eu fui visitá-lo esta manhã para ver como ele está.
Lachlan rapidamente tomou um gole de água.
— E como ele está?
Quando ela olhou para cima, seus olhos estavam brilhando. Jesus, ela estava chorando?
— Ele... não me reconheceu. — Ela cobriu a boca com a mão, mal sufocando um soluço. Por um momento, fechou os olhos, e ele pôde ouvi-la respirar profundamente. Sem pensar, ele estendeu a mão e depois recuou.
Ele não disse nada por um minuto, deixando-a se recompor. Finalmente, ela afastou a mão, pegando o copo de água.
— Sinto muito, isso é pouco profissional.
— Não dou a mínima para ser profissional — Lachlan disse. — Nós somos mais do que isso, não somos?
Eram? Aquela tensão estava entre eles novamente.
Ela tentou sorrir e parecia sincera, apesar das lágrimas.
— Sim, acho que somos.
— Lembra do que nós falamos em Paris? — ele perguntou, com gentileza. — Eu quero que você seja honesta comigo. Sempre.
Ela respirou de forma irregular outra vez.
— Eu sou.
— Ótimo. E sinto muito pelo seu pai. Você vai ficar bem?
Ela deu uma risada triste.
— Depois de ir ao banheiro e retocar a maquiagem, sim — ela falou. — Sinceramente, vou ficar bem. Foi um choque e eu odiei o que aconteceu, mas é assim que as coisas são. Ele só vai piorar, não melhorar.
Onde ele ouviu isso antes? Lachlan coçou o queixo, depois assentiu para ela.
— Tudo bem, vá lavar o rosto, se maquiar e eu falo com você depois.
Ela olhou diretamente para a câmera.
— Pode deixar. Obrigada, Lachlan.
— Disponha. E, Lucy?
— Sim?
— Mesmo parecendo um panda, você continua linda.