Uma Surpresa na Primavera
Capítulo 12
A primeira coisa que devemos fazer é matar os
magistrados.
— Henrique VI, parte 2
Era como se a confissão dela na manhã anterior não tivesse acontecido. Como se ela não tivesse mostrado uma pequena trinca em sua armadura, revelando a pele macia por baixo. Ele olhou para ela pelo canto dos olhos enquanto esperavam na recepção, observando a saia e o paletó pretos, a blusa de gola alta e os sapatos que deveriam parecer confortáveis, mas que ainda assim deixavam suas pernas maravilhosas. Não que ele estivesse olhando.
Ela parecia calma, senhora de si e nada afetada. Sem contar que estava mais atraente do que nunca. Especialmente agora que ele sabia que ela não tinha namorado.
Ela ainda era sua advogada. Deveria se lembrar disso.
— Sr. MacLeish, srta. Shakespeare? Eles estão à sua espera. Por favor, peguem o elevador até o próximo andar e vocês serão levados até a sala de reunião. — A recepcionista sorriu para os dois.
Sem esperar por ele, Lucy foi até os elevadores e apertou o botão. Quando Lachlan chegou, as portas estavam se abrindo.
— Você está bem? — ele perguntou.
— Estou. Por que não estaria? — Ela parecia serena. — Estou acostumada a reuniões como esta. Não temos nada a temer.
O elevador começou a se mover, e Lucy tentou alcançar o corrimão que circulava o interior da cabine. Automaticamente, ele estendeu a mão para firmá-la, roçando na sua cintura. Ela olhou para cima, surpresa.
E ele imediatamente se afastou.
— Você está pronto? — ela perguntou. — É muito mais pessoal para você do que para mim.
— Estou bem, Lucy. Na verdade, estou ótimo.
— Eu vou ficar responsável pela maior parte da conversa, como nós combinamos — ela disse enquanto os números dos andares passavam no visor. — Sinta-se à vontade para adicionar detalhes quando precisar, mas tente permanecer em segundo plano o máximo que puder.
— Tudo bem.
— Não vamos deixá-los com qualquer dúvida de que vamos lutar contra isso. Não demonstre fraqueza. — Dessa vez ela sorriu.
— É isso que eu gosto de ouvir. — Ele sorriu de volta.
O elevador parou e as portas de metal se abriram, revelando um homem aguardando do outro lado. Quase que imediatamente, Lucy saiu e estendeu a mão.
— Sinclair, é bom te ver de novo.
Assim que Lachlan saiu, ela os apresentou.
— Este é o meu cliente, Lachlan MacLeish. Lachlan, este é Sinclair Dewey, representando seu irmão.
— Meio-irmão — Lachlan murmurou.
A observação rendeu um arquear de sobrancelha de Lucy.
— Posso oferecer uma bebida a vocês? — Sinclair perguntou enquanto conduzia Lucy e Lachlan por portas duplas em que Dewey e Clarke, Advogados estava gravado. Eles o seguiram pelo corredor até uma grande sala de reuniões com painéis de madeira no final, onde ele apontou para duas cadeiras.
— Não, obrigada — Lucy respondeu. Lachlan balançou a cabeça, negando em resposta também.
De um lado da sala, havia duas grandes telas. Uma delas exibia Duncan MacLeish Jr. e do outro lado estava a sala de reuniões em que estavam, mostrando os três. Ele se desculpou por não estar lá pessoalmente, mas Lachlan não podia fingir que sentia muito. Ter o irmão a milhares de quilômetros de distância, sua imagem em uma tela plana, o colocava imediatamente em vantagem. E era exatamente assim que ele gostava.
— Por favor, sentem-se — Sinclair disse, apontando para as cadeiras em frente a ele. Era um homem de quase 50 anos, muito conhecido nos círculos de Edimburgo por representar apenas as pessoas mais ricas da cidade. Ele se virou para a tela. — Duncan, está nos ouvindo?
— Sim.
Lachlan olhou para o irmão por um momento, mas Duncan estava ocupado demais com seu telefone para notá-lo.
— Bem, vamos começar dizendo que esta reunião não trará qualquer prejuízo, como nós concordamos. E, em nome do seu irmão, eu gostaria de agradecer a sua presença, sr. MacLeish. — Lachlan assentiu, mas não disse nada. Ele olhou para Lucy pelo canto do olho.
Seu rosto não demonstrava nada.
— Como vocês sabem, nós estamos aqui para discutir a herança de ambos no que diz respeito a Glencarraig Lodge.
— E o título — Duncan acrescentou, sua voz soando alta através dos alto-falantes.
— Eu tinha a impressão de que sou o único que tem direito a essa herança — Lachlan falou suavemente. — Afinal de contas, eu sou a pessoa mencionada no testamento do meu pai. E sou o filho mais velho.
— Ilegítimo — Sinclair ressaltou. — E o meu cliente acredita que tem direito a uma justa reivindicação sobre a terra e o título.
Lucy mexeu nos seus papéis e toda a atenção se voltou para ela. Lachlan conteve um sorriso.
Depois de mostrar seu ponto de vista, se calaria.
— Talvez você possa começar explicando por que o seu cliente deseja reivindicar a propriedade da terra e do título — Lucy sugeriu, olhando primeiro para Sinclair e depois para Duncan. — Até onde sabemos, ele não demonstra interesse algum nisso há anos.
— Porque é meu — Duncan disse. — Eu sou o filho legítimo mais velho, fui criado para ser o herdeiro. Pergunte a qualquer um, vão confirmar isso.
Lucy olhou para o homem na tela.
— Quando foi a última vez que o senhor visitou a propriedade, sr. MacLeish?
— O quê? — Duncan franziu a testa. — O que isso tem a ver?
— Srta. Shakespeare, a contestação do meu cliente sobre a propriedade não tem nada a ver com a última vez que ele a visitou — Sinclair ressaltou.
— Só estou tentando descobrir a conexão dele com o lugar e porque ele o quer tanto — Lucy respondeu, com o rosto completamente relaxado. — Porque, se ele não tem conexão, então realmente não tem razão para contestar. — Ela deu uma risadinha, embora Lachlan pudesse dizer que era falsa. — Acho que todos podemos concordar que não havia como meu cliente coagir o pai distante a deixar as terras para ele, e ficaria extremamente surpresa se o seu cliente acreditasse que o pai não estava em boas condições mentais quando fez o seu testamento. Então, isso significa que você precisa demonstrar um vínculo forte e contínuo com a propriedade e o título para estabelecer um caso.
Duncan se inclinou para a frente até que seu rosto estava a apenas alguns centímetros da tela.
— Eu ia lá o tempo todo quando era criança.
Lucy assentiu.
— Então a última vez que você foi até lá foi há pelo menos dezesseis anos? — ela perguntou. — Pode me dizer por que não foi mais desde então?
— Não, ele não pode. — Sinclair levantou a mão. — Isto não é um tribunal, Lucy — ele a lembrou. — Estamos simplesmente tentando evitar o litígio, porque não é do interesse de ninguém. — Ele acenou para Lachlan.
Lucy olhou para os papéis que Lachlan havia lhe dado.
— Talvez eu possa fazer outra pergunta — ela sugeriu. — Sr. MacLeish. Duncan, você já participou de um encontro do clã MacLeish?
— Que diabos é um encontro do clã? — ele perguntou.
— Duncan, não responda a isso também. Nada disso é relevante. Estamos aqui simplesmente para lembrar ao seu cliente que, como filho ilegítimo do antigo laird de Glencarraig, a sua reivindicação pelo título é, na melhor das hipóteses, tênue — Sinclair falou.
— Não concordo — Lucy respondeu. — Ele foi nomeado no testamento e não há advertências sobre a propriedade ou o título afirmando que o herdeiro deve ser legítimo.
— Porque ninguém nunca pensou que um filho ilegítimo herdaria. — Sinclair se recostou na cadeira. — Se o pai deles tivesse deixado a terra e o título para uma cabra, também contestaríamos, mesmo que não houvesse advertência sobre isso.
Lachlan se endireitou na cadeira. Ele queria lembrá-los de que ele era uma pessoa, e não a porcaria de uma cabra. Mas Lucy segurou sua mão embaixo da mesa e deu um tapinha, se certificando de que nem Duncan nem Sinclair a viram se mover. Lachlan não precisava ser especialista em linguagem corporal para saber que ela estava dizendo para ele ficar quieto. Ele apertou as mãos, movendo-as, se certificando de manter a boca fechada.
— Se esse é o seu único argumento, acho que esse pode ser o caso mais curto que o tribunal já viu — ela respondeu, com a voz leve.
— Qual foi a última vez que você visitou a porcaria do lugar? — Duncan perguntou a Lachlan. — Você também não tinha nenhuma ligação com a propriedade.
— Vou lá amanhã. — Lachlan sorriu, despertando a raiva do irmão. — É a primeira vez que posso visitá-la desde criança. Estou ansioso para saber mais sobre a minha herança. A história da nossa família é fascinante, não acha?
Duncan olhou para ele sem dizer nada.
— Como você pode ver, o meu cliente tem uma grande conexão com Glencarraig — Lucy disse a Sinclair. — Para ele, não se trata de dinheiro, mas sim da história, da tradição, da beleza da terra.
Sinclair soltou um suspiro inadvertido.
— Vamos direto ao assunto? O meu cliente está muito interessado em fazer uma oferta a fim de evitar processos judiciais. Ele prefere não expor o nome da família em um julgamento longo e cansativo.
— Então não faça isso. — Lachlan disse as palavras sem pensar. E quase imediatamente a mão de Lucy foi para debaixo da mesa novamente, mas dessa vez a mão dele não estava lá. Em vez disso, sua palma pousou na coxa dele, o calor de sua pele aparente através da fina barreira da calça. Ele a sentiu pular na cadeira a seu lado, puxando a mão o mais rápido que podia, seus olhos se arregalando quando percebeu o que tinha tocado. Ele teve que morder o lábio inferior para parar de rir da reação horrorizada.
— Quanto você quer por isso? — Duncan perguntou. — Nós dois sabemos que você não quer o lugar.
Lucy parou por um momento, como se estivesse se recolhendo antes de, finalmente, se dirigir a Sinclair.
— O sr. MacLeish não está disposto a fazer acordo. E, no que nos diz respeito, qualquer reclamação apresentada no tribunal será vista como fútil. Acho que todos sabemos que meu cliente vai vencer, e, além disso, vocês vão arcar com as custas. — Ela olhou para Sinclair, cujo rosto permaneceu impassível. — É um erro que pode sair caro para o seu cliente.
— Então não há nada que nós possamos sugerir para persuadi-lo a fazer concessões? — Sinclair perguntou.
— Nada mesmo.
Na tela, Duncan estava balançando a cabeça.
— Então esta reunião chegou ao fim — Sinclair disse, olhando de volta para seu cliente. — Não temos escolha a não ser entrar com um processo contra você.
— Sempre há uma escolha — Lucy apontou. — Você pode desistir da ideia.
Lentamente, Sinclair balançou a cabeça.
— Isso é mais do que apenas uma herança. Trata-se do direito da família e do meu cliente de ser visto como o laird de Glencarraig. Tenho certeza de que nós podemos convencer o tribunal sobre a veracidade da sua reivindicação contra um homem que não tem o direito de usar o nome MacLeish.
— Então, nos vemos no tribunal.
— Acho que correu muito bem. — Assim que saíram do edifício e desceram os degraus, Lucy deixou aparecer um sorriso no rosto. — Eles ficaram na defensiva desde o início.
— Você estava supertranquila lá dentro. — Ao chegarem ao fim das escadas, ele parou e a encarou. — Obrigado. — Ele não mencionou que ela havia tocado sua coxa por acidente, o que a fez se sentir grata. Depois da gafe do dia anterior, ela não precisava de mais nada que a constrangesse.
Ela deu de ombros.
— Foi um prazer. Você queria fazer resistência a eles e funcionou. Agora você precisa ir até as Terras Altas e fazer sua reivindicação. Dê um jeito de conhecer os moradores e dizer a eles que você está feliz por ser o novo laird.
Um carro parou ao lado da calçada, e Lachlan acenou para o motorista, mas não se mexeu.
— Eu gostaria que viesse comigo — ele disse, se virando para olhá-la. — Você conhece este país e as pessoas. Preciso dos seus conselhos enquanto estiver lá.
O táxi dela parou atrás do carro. Ela assentiu, e o motorista acenou de volta.
— Sério? — Ela sentiu a boca ficar seca de repente. — Tem certeza?
Claro que fazia sentido que ela fosse até Glencarraig com ele. Ela poderia conversar com o pessoal, descobrir mais sobre a propriedade e garantir que a entrevista que ele havia marcado com uma jornalista saísse conforme o planejado.
Mas o pensamento de passar dois dias com aquele homem no meio do nada a assustava muito. Ela já havia se enrolado duas vezes. Quem iria dizer o quanto ela ainda poderia aguentar?
— Tenho, sim. — Ele assentiu, ainda olhando diretamente para ela. — Não quero parecer um idiota. Essa visita é importante para mim e vou precisar da sua ajuda.
O sorriso que ele lhe deu a desarmou completamente. O suficiente para ela checar mentalmente a agenda, pensar no tanto de gasolina que havia deixado no carro e na mala que já havia guardado depois da viagem a Miami.
— Vou precisar remarcar umas coisas. Tenho uma reunião amanhã de manhã que não posso perder. — Ela não podia acreditar que estava concordando com aquilo. — Mas posso dirigir até lá e te encontrar antes do almoço.
— Para mim está ótimo. Vou depois do café da manhã, assim tenho a chance de explorar o lugar. Vou ligar para o gerente da propriedade e avisar que você vai. — Ele estendeu a mão e tocou seus dedos, lhe dando um aperto frouxo. — Te vejo amanhã.
Enquanto ele caminhava até o carro e o motorista saía para abrir a porta de trás, ela se viu olhando para ele e se perguntando como é que havia se metido naquela situação. Calma, confiante e profissional, não era isso que ela deveria ser? Então por que se sentia tão nervosa toda vez que ele estava por perto?