Uma Surpresa na Primavera

Carrie Elks · Capítulo 7 de 38

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Uma Surpresa na Primavera

Capítulo 7

Quanto a gula insaciável mais cobiça, mais nos pesa

no estômago.

— A tragédia do Rei Ricardo II

 

— Oi, você veio. — Jenn abriu a porta com um sorriso radiante.

Lachlan se inclinou para a frente e lhe deu um beijo na bochecha antes de entregar a garrafa do vinho Caymus Special Selection.

— Não sabia o que trazer. Espero que vocês gostem.

— Uma garrafa bem baratinha de cabernet seria suficiente — ela disse, olhando para o vinho caro. — De qualquer forma, quer uma taça? — Ela inclinou a cabeça, e Lachlan a seguiu pelo pequeno apartamento em que ela morava com Grant. Os dois se mudaram para lá pouco antes do casamento. Localizado em um quarteirão no East Village, era quente e aconchegante, repleto de fotografias, livros, almofadas fofas e mantas macias.

— Seria bom. Obrigado.

— Como está o excitante mundo da pesquisa? — Lachlan perguntou enquanto Jenn pegava uma taça na prateleira da cozinha.

— Tão excitante quanto o mundo das finanças, espero.

— Não ouvi a porta — Grant falou, saindo do quarto. Seu cabelo estava molhado, como se tivesse tomado banho recentemente. — Obrigado por vir, cara. Eu sei que as coisas estavam loucas no escritório.

— O Grant disse que você ainda estava em uma reunião quando ele foi embora. Quem programa uma reunião para às sete da noite de uma sexta-feira? — Jenn perguntou.

— Eu. — Lachlan teve a decência de parecer envergonhado. — Mas foi uma emergência.

— Tudo resolvido agora, espero — Jenn falou, entregando a Lachlan uma taça do vinho tinto que ele trouxe. — Eu quero que você relaxe e não que fique conversando sobre trabalho a noite toda.

— Nós nem sempre falamos de trabalho — Grant protestou, pegando a taça que sua mulher oferecia. — Às vezes falamos de futebol.

— E também beisebol, hóquei... sem mencionar basquete — Jenn brincou, beijando o marido com carinho na bochecha. — Eu gostaria de fazer uma boa refeição sem falar sobre os planos do Lachlan para dominar o mundo.

— Não se preocupe, Pinky — Grant sussurrou para Lachlan com um sorriso no rosto. — Nós vamos dominar o mundo amanhã. Esta noite nós vamos comer queijo.

— Ou sushi — Jenn falou, erguendo as sobrancelhas. — Estou no fogão desde que cheguei em casa.

— Achei que sushi fosse cru — Lachlan comentou, confuso.

— E é. Eu estava falando no sentido figurado. Agora pare de me amolar e vá se sentar à mesa.

— Como quiser, meu bem.

Desde que conhecera Jenn, quase sete anos antes, Lachlan gostava de sua postura sensata e do fato de ela não facilitar as coisas para Grant ou para ele. Mas esta noite ela parecia um pouco mais tensa que o habitual.

Ele sorriu ao se lembrar da primeira vez que Grant a mencionara. Ele ia sair mais cedo do trabalho e estava reclamando de um encontro às cegas que um amigo havia marcado para ele. Naquela época, assim como Lachlan, ele era um solteiro convicto, que dizia que mulher nenhuma iria amarrá-lo.

Mas ele não havia contado com Jenn.

— O Grant me disse que você vai ser uma espécie de duque ou algo assim — Jenn comentou, colocando uma bandeja de sushi sobre a mesa. A mesa de jantar pequena e redonda ficava no canto da sala de estar, ao lado de uma janela com vista para a cidade. — Lord Lachlan. Soa muito bem.

Lachlan riu, balançando a cabeça.

— É laird de Glencarraig, na verdade.

— Ah, entendi! Preciso fazer uma reverência quando a gente se encontrar?

Ele pegou os pauzinhos, deslizando-os com habilidade entre os dedos. Tinha anos de prática nisso por ter crescido com Grant. Quando criança, praticamente morava na casa do amigo.

— É um título de cortesia. Não significa nada. — Ele deslizou os pauzinhos ao redor de um pedaço de peixe coberto com nori, levando-o ao seu prato. — De qualquer forma, ainda não é meu.

— Por que não? — Jenn tomou um gole de água.

— Achei que a gente não iria falar de negócios — Grant comentou, franzindo a testa. — Isso parece muito com negócios, não é?

— Fique quieto. Isto é interessante. — Jenn deu um tapinha bem-humorado nele. — Então, por que você ainda não foi coroado ou seja lá o que aconteça?

— Só os reis são coroados — Grant destacou.

— Shhh.

Lachlan sorriu. Havia algo muito reconfortante nos dois e em suas briguinhas.

— Porque o meu meio-irmão também quer o título.

— Duncan? — Jenn pareceu surpresa. — Eu não o imaginaria fazendo o tipo Senhor da Propriedade. Ele parece muito interessado na empresa de cruzeiros dele para isso.

— Acho que ele não está interessado no título — Lachlan falou. — São os princípios. Ele quer dar um grande vá se ferrar para mim.

— E você quer mandá-lo se ferrar também. Estou certa? — O rosto de Jenn se iluminou. — Você não vai desistir, vai?

Ele colocou outro rolinho de sushi na boca, engolindo antes de responder.

— Estes estão bons mesmos. E não, não pretendo fazer isso.

— Fico feliz em saber. Eu odiaria vê-lo vencer.

— Você nem conhece o Duncan — Lachlan apontou. A última vez que vira o meio-irmão tinha sido na leitura do testamento. Uma troca de olhares foi tudo o que aconteceu entre eles.

— Sim, mas já sei que não gosto dele.

— Ah, eu sabia que você ficaria do meu lado.

Ela franziu o nariz.

— Isso só vai te deixar mais arrogante, né? — ela perguntou. — Todas aquelas mulheres que já estão no seu pé vão competir pela sua atenção agora que você é um lorde.

Lachlan virou a cabeça da esquerda para a direita, examinando o chão.

— Tem mulheres no meu pé? Onde?

— Ah, cale a boca. — Era a sua vez de ser atingido. Ela não era muito gentil também. — Você sabe o que eu quero dizer.

Ele piscou para ela.

— Eu não preciso de um título para conquistar uma mulher.

— Preciso separar vocês dois ou vão se comportar? — Grant perguntou. Ele serviu outra taça de vinho a Lachlan. — E, de qualquer forma, parece mais do que um título de cortesia para mim. Já viu o site dos MacLeish?

Lachlan franziu a testa.

— Que site?

— Você lembra que a advogada te falou que muitos clãs têm sites e estão nas redes sociais? — Grant o lembrou. — Eu pesquisei no Google e descobri isso. — Ele pegou o telefone e abriu uma página da web, passando o aparelho para Lachlan com um floreio. — Tem um fórum e tudo o mais. Não que seja muito usado, mas já foi bem movimentado. Pelo que eu percebi, a maior parte dos membros do clã MacLeish prefere tuitar e postar no grupo do Facebook agora.

Lachlan afastou os olhos da tela do celular.

— Tem um grupo no Facebook também? Sério? — Seus pensamentos vagaram para Lucy Shakespeare e toda a sua explicação sobre o sistema de clãs. Não pôde deixar de sorrir para o fato de que ela estava certa. Mais uma vez.

— Ei, o que eu falei sobre usar o celular na mesa de jantar? — Jenn o repreendeu, pegando o telefone da mão de Lachlan. Ela era forte mesmo. — Ah, meu Deus, essa é a manta xadrez dos MacLeish?

— Eles chamam de tartan — Grant disse a ela.

No cabeçalho do site havia uma estampa azul e verde com linhas finas em vermelho entrecruzando os quadrados.

— Você tem que usar isso? — Jenn perguntou. — Não consigo te imaginar de kilt.

— Eu já usei um — Lachlan falou baixinho.

Jenn sorriu.

— Quando? E por que eu não vi nenhuma foto?

— Eu era criança. E todas as provas foram destruídas. — Lachlan sorriu de volta para ela. — Sinto muito por te desapontar.

— Não está me desapontando em nada. Está me fazendo ganhar o dia. Lachlan MacLeish de saia. É bom demais.

— Fico feliz que isso te agrade.

Jenn não respondeu. Estava muito ocupada olhando o telefone.

— Cara, tem muita informação aqui. Amor — ela chamou, se virando para Grant —, sabia que o Lachlan vem de uma longa linhagem de MacLeish que remonta a pelo menos 1.638 anos?

Grant pegou o telefone dela com gentileza.

— Nada de celular à mesa, lembra? — Ele colocou o telefone de volta no bolso, depois olhou para ela pelo canto do olho como se esperasse represálias.

Lachlan sorriu.

— Um dia da caça, outro do caçador.

— E só por isso — Jenn disse a ele, cruzando os braços — vocês podem limpar a mesa. Não tô nem aí se você é o rei da Escócia. Pode colocar o lixo todo lá fora.

 

— A Jenn está bem? — Lachlan franziu a testa. Ela tinha terminado de limpar a cozinha, recusando qualquer oferta de ajuda, e depois disse que precisava dormir mais cedo. Grant pegou mais uma cerveja para os dois, sugerindo que subissem para o jardim da cobertura, que tinha vista para a cidade. — Ela não comeu e nem falou muito depois do jantar. Nós a aborrecemos com a coisa do telefone?

Grant deu de ombros, se recostando na cadeira de madeira. Ele estava com os pés em cima da mesa, os tornozelos cruzados e uma garrafa de cerveja na mão.

— Ela está exausta. Tem ido para a cama às sete da noite quase todo dia.

Lachlan franziu a testa.

— Ela está doente? Eu posso ajudar? Você sabe que o plano de saúde tem cobertura total, certo? E eu pago qualquer despesa extra.

Grant sorriu.

— Vamos aceitar a sua oferta, mas não nos próximos meses. Você notou que a Jenn só comeu o sushi vegetariano? Ela não pode comer peixe cru.

Lachlan se contorceu na cadeira, a carranca ainda aparecendo ao redor dos seus lábios.

— Por que não?

— Ela também não pode tomar bebida alcoólica.

Uma lenta sensação de desconforto apertou o estômago de Lachlan. Combinado com o entendimento que surgia em sua mente, isso o fez se sentir desequilibrado como um navio balançando no mar.

— Ela está grávida?

— Como marido metrossexual e apoiador, acho que o jeito certo de dizer é que estamos “grávidos”.

— Bem, isso seria um pequeno milagre. — Lachlan mordiscou o lábio, olhando para a noite escura. Seus olhos se prenderam nos pontos de luz que salpicavam as torres da cidade. — Parabéns, cara.

— Fale isso de coração. — Grant riu.

Lachlan tomou outro gole da cerveja, o líquido frio serpenteou pela sua garganta.

— Estou falando sério. Isso é ótimo, você vai ser pai. Caramba, isso parece tão adulto.

— Nós somos adultos. Já faz um tempo — Grant apontou. — Cuidamos da nossa roupa, fazemos a nossa comida. Bem, pelo menos eu faço. Você paga alguém para fazer isso, mas também cresceu, né?

Lachlan não disse nada por um momento, olhando ao longe. Era assim que Peter Pan se sentia ao ver todos os seus amigos crescerem?

— Ser pai leva você a um nível totalmente novo — ele finalmente disse. — Você se torna responsável por outra pessoa pelo resto da vida. As coisas nunca mais vão ser as mesmas.

— Você está fazendo isso parecer uma sentença de prisão perpétua.

Lachlan suspirou, se chutando mentalmente.

— Eu não quis fazer parecer ruim. É só... diferente, sabe? Sim, eu tenho uma empresa e um apartamento. Mas essas coisas não parecem um fardo. Eu poderia largar tudo a qualquer momento. Não se pode fazer isso com uma criança.

Na verdade se pode, sim. Ele sabia disso por experiência própria.

— Você não pode largar a empresa, mesmo se quisesse — Grant destacou. — Tem funcionários que são sua responsabilidade. Eles têm casas, contas, problemas de saúde. Você está tão amarrado quanto qualquer outra pessoa, mesmo que prefira não acreditar. E, de qualquer forma, ter um filho não é um fardo, não para mim. Não com a mulher certa.

Lachlan se sentou, se virando para encarar Grant.

— Ei, você está certo. Você e a Jenn vão ser pais fantásticos. Todo garoto deve estar se acotovelando para acabar aqui. Caramba, nós podemos até instalar um berçário no escritório, se você quiser. Isso assumindo que a Jenn esteja planejando voltar ao trabalho.

— Sim, quanto a isso... — Grant parou de falar. O sorriso desapareceu quando ele não conseguiu encontrar o olhar de Lachlan. — Eu, ah, não sei o que nós vamos fazer a esse respeito.

Lachlan deu de ombros.

— Vocês têm muito tempo para pensar nisso.

— O bebê nasce daqui a cinco meses.

— Mas ela vai ter licença-maternidade, certo?

— Ela vai sair do emprego. — Grant ficou subitamente cauteloso.

— Ela quer ser dona de casa? — Lachlan perguntou, com os olhos arregalados. — Achei que ela adorasse o trabalho.

— Ofereceram outro emprego para ela. Melhor. Concordaram que ela pode começar no cargo novo depois que o bebê chegar.

Um sorriso genuíno surgiu no rosto de Lachlan.

— Isso é incrível. Eu vou ligar para ela amanhã para dar um duplo parabéns. Ela deve estar vibrando.

— Tem mais — Grant adicionou rapidamente.

— O quê?

— Fica na Universidade da Flórida — ele disse, em a voz baixa. — Nós estamos planejando voltar para o sul.

Lachlan abriu a boca para responder, mas nada saiu. Apenas um suave suspiro que se dispersou na noite. Ele tomou outro gole de cerveja, mais para umedecer a boca seca do que qualquer outra coisa, enquanto tentava descobrir por que seu peito parecia estar sendo espremido por um rolo compressor.

— Flórida? — ele repetiu.

— Sim — Grant ergueu a garrafa. — Vai, Gators.

Uma sirene estridente cortou o silêncio do jardim da cobertura, e Lachlan seguiu o progresso da van, os olhos traçando as luzes azuis enquanto cruzava as ruas da cidade. Ele sentiu como se tivesse acabado de levar um soco no estômago, um punho do tamanho de Grant deixando um buraco no seu estômago.

— Nós realmente queremos criar essa criança longe da cidade grande — Grant disse a ele. — Além disso, vamos estar mais próximos da família e só a algumas horas de Miami. Faz sentido mudar quando o bebê chegar.

— Sim, claro. — Lachlan assentiu.

— Vai levar alguns meses. Pelo menos seis — Grant estava quase tropeçando em suas palavras. — Eu vou te ajudar a contratar um substituto. Você não vai ficar na mão, eu prometo.

— Um substituto?

— Um novo assistente. Nós temos tempo suficiente para treinar alguém novo. E quem sabe ele pode até ser melhor do que eu.

— Nunca. — Lachlan queria perguntar se Grant também conseguiria um amigo substituto, mas afastou o pensamento assim que isso passou pela sua cabeça. — Você é insubstituível.

Grant riu.

— É o que dizem.

— Mas ir para a Flórida é uma mudança grande. — Lachlan terminou a cerveja, colocando a garrafa vazia na mesa. — Você ainda pode trabalhar para mim lá. Eu tenho o hotel e estou procurando outros lugares para expandir. O que você acha?

Grant esfregou o queixo.

— Sim, talvez. Não sei o que nós estamos planejando fazer com o bebê ainda. Se a oferta ainda estiver de pé quando mudarmos, eu vou considerar seriamente.

— Se quiser, o emprego é seu. Você sabe disso.

— Não precisa me fazer nenhum favor — Grant falou. — Não que eu não seja grato por tudo que você faz. Porque eu sou.

— Não seria um favor. Você é um funcionário muito bom para se perder. Se quiser trabalhar em regime parcial, integral, de casa ou qualquer outra coisa, é só falar.

— Que bom saber disso. Obrigado. — Grant pareceu sufocado. — Vai ser uma grande mudança, ser pai, sair daqui. É bom saber que eu tenho opções.

— Você é um bom amigo — Lachlan disse. — Meu melhor amigo. — O seu único amigo, mas isso não precisava ser mencionado. — Vou estar sempre com você.

— Eu também — Grant prometeu. — Cara, nós estamos parecendo aquelas porcarias de emo, né? Posso pegar outra cerveja?

Lachlan olhou para o relógio. Era quase meia-noite.

— Não, está tarde. É melhor eu ir pra casa. E você deveria ir para a cama com a sua mulher. — Ele se levantou, oferecendo a mão ao amigo. — Obrigado pela ótima noite. E parabéns, por tudo. — Dessa vez ele falou de coração.

Falou mesmo.

 

O carro atravessou Manhattan em menos de quinze minutos, nada mal para uma noite de sexta-feira. Lachlan acenou com a cabeça para o segurança quando entrou no saguão, foi direto para o elevador e para seu apartamento no trigésimo andar. Assim que enfiou a chave na porta e a abriu, sentiu o cheiro floral suave dos produtos de limpeza que a governanta usava. Tudo estava arrumado, a louça do café da manhã limpa, suas roupas lavadas, dobradas e colocadas de volta em seu guarda-roupa.

Não havia nada a fazer a não ser tomar banho, escovar os dentes e se deitar debaixo dos lençóis caros que cobriam a sua cama.

Talvez devesse ter ligado para alguma antiga namorada. Ou parado em um bar. Qualquer coisa para se livrar do eco de seus passos quando atravessou o apartamento vazio. Qualquer coisa para aliviar a dor que não deixava seu peito desde que se despediu de Grant.

Tinha que ser o sushi. Talvez não tivesse caído bem. Ou poderia ser a cerveja. Pegou dois comprimidos para indigestão do armário de remédios do banheiro, deixando uma impressão digital no espelho enquanto o fechava.

Uma marca oval quase perfeita, com o design de redemoinhos. Pelo menos daria a sua governanta algo para limpar na segunda-feira.

Depois de se deitar na cama, verificou o telefone uma última vez antes de apagar a luz. Uma dúzia de e-mails de diferentes contatos comerciais, cinco solicitações de reunião para a semana seguinte. Mas nem uma única mensagem de um amigo.

Ele o atirou longe, jogando de forma descuidada sobre a mesa a seu lado, onde o aparelho pousou com um baque. Fechando os olhos, se virou, ignorando a dor surda em seu peito. Ele era rico, poderoso, bem-sucedido. Tinha coisas que sonhava conquistar quando criança.

O que havia para não gostar na sua vida?