Uma Surpresa na Primavera

Carrie Elks · Capítulo 29 de 38

Páginas do PDF

Uma Surpresa na Primavera

Capítulo 29

Dissestes uma infâmia odiosa. Por minha alma, ele

mente; uma mentira perversa.

— Otelo

 

— Gostaria que eu levasse isto para você? — o comissário de bordo perguntou quando ela entrou no avião, levantando as sobrancelhas para a caixa grande que ela carregava consigo. Ela a segurava como se fosse algo precioso. Supôs que fosse. Por alguma razão, se sentia muito protetora com aquilo.

— É muito frágil — Lucy respondeu, não muito disposta a entregá-la. — Não quero que quebre.

— Nós vamos cuidar disso, senhora — ele prometeu, pegando a caixa azul-escura de suas mãos. — Devolvo quando pousarmos.

Ela assentiu, com os braços ainda estendidos, embora a caixa tivesse sido retirada de seu alcance.

— Obrigada — sussurrou baixinho.

Quando alcançou sua poltrona, o avião estava quase cheio. Homens de negócios, já arrumados para reuniões em Londres na manhã seguinte, se misturavam a famílias com crianças pequenas que se agitavam com seus cintos de segurança. Ela jogou o corpo no assento, deixando a cabeça cair contra o encosto, e fechou os olhos por um momento. Estavam inchados pelas lágrimas, a pele ao redor vermelha e sensível. Estendeu a mão para tocá-la com a ponta dos dedos.

— Senhoras e senhores, bem-vindos ao voo 572 para o aeroporto de Heathrow, em Londres, com previsão de aterrisagem às oito da manhã, hora local. Todos os passageiros já embarcaram. Quando todos estiverem sentados, estaremos prontos para a decolagem. — O anúncio continuou quando o comissário apresentou o capitão, a equipe e explicou que todos deveriam assistir à demonstração de segurança. Aquilo passou batido para Lucy. Sua mente estava muito cheia de pensamentos sombrios para processar qualquer outra coisa.

Poucas horas antes, estivera experimentando vestidos para o baile de caridade. Ela se sentira como uma princesa quando experimentara aquele vestido lindo, ou talvez mais como a Cinderela. Pela primeira vez na vida, ela iria a um baile.

Não, não ia pensar nisso. Nem no jeito como Lachlan a olhou quando lhe disse que estava voltando para casa. Havia uma crueldade em seus olhos que nunca havia percebido antes, quase como se ele a odiasse. Ofegou, tentando apagar a imagem da expressão dele da cabeça. Se ela pensasse muito nisso, poderia matá-la.

— Gostaria de beber algo antes da decolagem? — o comissário perguntou.

Ela recusou, balançando a cabeça.

— Não, obrigada. Só quero dormir.

O rapaz franziu o cenho.

— Está se sentindo bem? Parece estar indisposta.

Lucy tentou abrir um sorriso, mas fracassou.

— Só preciso descansar um pouco. Foi um longo dia. — Ou talvez, longos meses. Tudo estava fora de ordem desde o dia em que ela descera daquele avião em Miami.

O comissário não parecia convencido.

— Tudo bem, mas, se precisar de alguma coisa, é só pressionar o botão. — Ele apontou para o compartimento acima dela. — Quando estivermos no ar, vou vir ajudá-la a arrumar a cama.

Poucos minutos depois, a tripulação da cabine fez a verificação habitual do avião antes de tomarem seus assentos e o capitão taxiou até a pista. Quando o avião decolou, Lucy fechou os olhos mais uma vez, sabendo que por pelo menos oito horas poderia desaparecer no doce e suave esquecimento. Uma espécie de limbo entre o turbilhão que ela deixou para trás em Nova York e a bagunça para a qual se dirigia em Londres. A calma no olho da tempestade.

De repente, oito horas não pareciam suficientes.

— Para onde, querida? — O taxista olhou por cima do ombro através da divisória de vidro. Uma mão estava no volante, a outra apoiada na parte de trás do banco ao lado dele.

 

Se ela apertasse os olhos, poderia se ver de volta a Nova York, com o vestido apoiado em seu ombro enquanto segurava uma caixa enorme de uma galeria local.

O vestido tinha sumido. Assim como Nova York, mas a caixa permanecera em suas mãos, a base apoiada de leve em suas pernas. Pelo tamanho, não pesava quase nada, apesar do grande impacto que havia causado em seu cartão de crédito.

O que ela não daria para voltar àquele táxi amarelo? Fazer tudo o que aconteceu depois desaparecer?

Inclinou-se para a frente para dar o endereço do pai. Se bem que não era mais o endereço dele, era? Era só a casca vazia de uma casa familiar, ecoando com as memórias das quatro irmãs que moraram lá. Se fechasse os olhos, poderia ouvir Juliet rindo ao telefone com um namorado enquanto Kitty aumentava o volume da televisão para abafar a conversa. Cesca geralmente ficava no canto, o bloco de anotações na sua frente e uma caneta batendo contra os dentes.

E quanto a ela? Não sabia ao certo onde costumava ficar. Geralmente se preocupando ou se certificando de que tudo estivesse organizado. Escrevendo cartas para as escolas das irmãs, preparando almoços para o dia seguinte. Verificando o extrato bancário do pai para saber que havia dinheiro suficiente para pagar todas as contas.

E se certificando de que as contas realmente tinham sido pagas.

Seu rosto estremeceu enquanto pensava naqueles dias. Todos estavam deprimidos naquela época, tentando viver em um mundo em que a mãe não habitava mais. Era como o sistema solar sem o sol, o senso de gravidade havia desaparecido completamente.

— Voltando das férias? — o motorista perguntou, saindo do complexo do aeroporto. Ah, ele era desse tipo. Lucy não tinha certeza se estava feliz ou triste por não poder ficar sozinha com sua tristeza.

— Só fui visitar um amigo.

— Foi a algum lugar legal?

— Nova York. — Segurou a caixa com firmeza enquanto ele pisava no freio para não ultrapassar um semáforo.

— Ah, maravilhoso. Levei minha esposa para lá para o nosso aniversário. Fiz a coisa toda. Estátua da Liberdade, Empire State. Até comemos ostras na Estação Grand Central. Coisinhas nojentas. Têm gosto de meleca.

Ela sorriu, apesar da tristeza que sentia.

— Consegui evitar as ostras.

— É uma ótima cidade, não é? — ele perguntou. — Um desses lugares que se pode visitar várias vezes. Preciso perguntar à minha esposa se ela quer ir de novo. — Ele pegou a estrada.

— Sim, é ótima. — Ela olhou pela janela na direção dos campos enquanto passavam por eles. Manchas em tons de verde e amarelo, com sebes altas dividindo-os. Tão diferente da selva de concreto da qual havia acabado de sair.

— Acha que vai voltar?

Se você sair por aquela porta agora, não se preocupe em voltar. As últimas palavras dele ecoaram na sua cabeça.

— Acho... — Franzindo a testa, ela olhou para a caixa em suas mãos. Um presente não entregue. — Não tenho certeza.

Cerca de uma hora depois, ele parou do lado de fora da antiga casa do pai. Ela observou a imponente fachada de tijolos vermelhos, as janelas georgianas brancas, as três chaminés se projetando orgulhosamente do telhado. Parecia igual, mas diferente. Onde, uma vez, a entrada da frente era alinhada com flores bonitas e sebes, agora havia ervas daninhas. A tinta da porta da frente estava descascando, o preto brilhante dando lugar a madeira cinzenta sem brilho. Mais do que isso, parecia triste e solitária. Tão vazia quanto ela se sentia.

Quando ele tirou a bagagem do porta-malas, Lucy checou o telefone. Sem mensagens. Nem de Lachlan, nem das irmãs, nem mesmo de Lynn, no trabalho. Era como se, durante as horas em que estivera no ar, tivesse deixado de existir. Não conseguia se lembrar da última vez que alguém não quisera algo dela. Fosse um sanduíche para levar para a escola ou um depoimento para o tribunal. Havia sempre algo que ela precisava fazer desde muito nova.

E agora... nada.

Agradecendo ao motorista, puxou a mala, ignorando a sujeira entranhada nos pisos vitorianos. Ainda segurava a caixa com a mão direita, colocando-a com gentileza no degrau superior enquanto procurava por suas chaves para abrir a porta.

Hesitou por um momento enquanto colocava a chave na fechadura, não muito disposta a fazer a virada que liberaria todas aquelas emoções novamente. De pé naquela varanda, ela se sentiu pesada, como se uma tonelada estivesse pressionando seus ombros. O mesmo peso que ela conseguiu esquecer quando estava em Nova York com Lachlan.

Estava prestes a girar a chave quando a porta foi aberta. De pé do outro lado estava sua irmã. Cesca parecia menor do que Lucy se lembrava, mais delicada também. Como uma flor tropical que precisava ser protegida do frio e do inverno rigoroso.

— Oi. — Lucy abriu um meio-sorriso para a irmã. — Estou em casa.

Cesca olhou para ela sem dizer nada. A ponta de sua língua umedeceu os lábios. Lucy ficou olhando enquanto inspirava, respirando pelo nariz e depois soltando o ar devagar pela boca.

— Desculpe — Lucy sussurrou. — Desculpe.

— Vou fazer um chá para nós — Cesca se virou e caminhou de volta pelo corredor até a cozinha, deixando Lucy seguir com a mala e a caixa. Ela as deixou no fim da escada antes de tirar os sapatos e voltar para a irmã, com os pés cobertos pela meia.

— Você comeu alguma coisa? — Cesca perguntou. — Tenho certeza que o Sam comprou comida ontem. Não comi nada; não estou com muita fome.

Lucy balançou a cabeça. Parou ao lado da antiga mesa da cozinha e apoiou as mãos no topo de uma das cadeiras.

— Também não estou com fome. — Traçou uma rachadura na madeira com a ponta do polegar. — Não tinha certeza que você ainda estaria aqui.

Cesca encheu a velha chaleira de metal e depois a colocou no fogão, acendendo um dos queimadores de gás.

— Nós vamos voltar para LA amanhã — ela disse, afastando a mão rapidamente quando a chama cintilou. — Não sei por que o papai não pode ter uma chaleira elétrica como todo mundo.

— Não acho que isso importe agora — Lucy falou. — Ele não vai voltar. Não precisamos mais no preocupar que ele incendeie a casa.

Cesca fungou, em seguida deu as costas para Lucy e pegou duas canecas no armário. Quando recuou, seus olhos estavam brilhando no sol da manhã.

— Por que você não nos contou?

Lucy abriu a boca para falar, mas nenhuma das desculpas habituais apareceu. Ela teve a metade de um dia para pensar em todos os motivos, mas, toda vez que tentava se apegar a um, pareciam desaparecer como fumaça no ar.

— Não sei — ela finalmente disse, puxando a cadeira e se sentando. Apoiou os cotovelos na mesa e segurou a testa com as mãos. — Parecia a coisa certa a fazer. Não sei do quanto você se lembra, Cess, mas as coisas estavam loucas naquela época.

— Isso não é desculpa. Você teve anos para falar a verdade. E, ainda assim, escondeu isso de nós por todo esse tempo. Você devia ser a nossa irmã. Devíamos ser uma família.

— Nós somos uma família — Lucy falou com firmeza, erguendo os olhos da palma das mãos. — E ficou mais difícil com o passar do tempo. Quando teria sido uma boa hora para juntar todas vocês e anunciar: a mamãe estava tendo um caso e eu descobri isso pouco antes de ela morrer? No casamento da Juliet? Antes de a Kitty se mudar para LA? Ou talvez eu devesse ter feito isso na sua estreia? Não houve um bom momento. — Ela suspirou, sabendo quanto suas palavras eram ineficazes. Pareciam estúpidas até para seus próprios ouvidos. — Por favor, sente-se, Cess. Deixe que eu faça o chá.

— Está feito. — A voz de Cesca era espessa e rouca, como se tivesse chorado a noite toda. — Aqui está o seu. — Ela deslizou uma caneca sobre a mesa para Lucy, segurando a outra enquanto se sentava em frente a ela.

Elas se encararam por um momento, irmã mais velha e mais nova, com os olhos vermelhos e cabelos loiros combinando. Lucy franziu a testa, sentindo a pele acima das sobrancelhas enrugada enquanto ainda procurava as palavras para fazer tudo ficar bem.

Mas talvez elas não existissem. Talvez não houvesse como consertar as coisas. Era só uma mulher, fazendo o melhor possível, cometendo erros. Partindo o coração das irmãs do jeito que o dela estava partido.

— Eu realmente sinto muito. — Lucy olhou para o chá, vendo o mais fraco dos reflexos no líquido marrom-escuro. — Nunca quis que você descobrisse assim.

— Você não queria que nós descobríssemos, não é?

— Não, não queria.

— Por que não?

Lucy tomou um gole do chá, sentindo o líquido quente queimar a língua. Parecia um tipo bom de dor.

— Porque eu não queria magoar vocês mais do que já estavam magoadas. Vocês tinham acabado de perder a mãe, e eu não queria tirá-la de vocês novamente.

— Nossa mãe. Ela era a nossa mãe.

Lucy assentiu, confusa.

— Sim.

— Ela não era só a minha mãe. Era a sua mãe também. — A voz de Cesca era veemente, como se estivesse tentando afirmar algo importante. — Você a perdeu duas vezes também.

Tudo naquela cozinha parecia cheio de emoção. Como uma nuvem de chuva pesada, atingindo o ponto de saturação. Lucy quase podia sentir o aguaceiro esperando para começar.

E, uma vez que começou, ela não tinha certeza de que seria capaz de pará-lo.

— Mas eu era a mais velha. Minha obrigação era proteger vocês.

Cesca balançou a cabeça.

— Nós todas devemos nos proteger. Nem tudo tem que cair em cima de você. Você é nossa irmã, não nossa mãe.

— É isso que acontece. Sempre acontece. Foi tudo culpa minha.

— Não. Não foi. — Cesca balançou a cabeça com veemência. — Você também se magoou. E eu odeio pensar em você guardando esse segredo por todos esses anos. Deve ter se sentido muito solitária.

Uma nova torrente de lágrimas se acumulou nos olhos de Lucy. Ela levantou a mão, enxugando-as com os dedos.

— Desculpe. Eu geralmente não sou tão chorona assim.

— Talvez devesse ser — Cesca falou, inclinando a cabeça para o lado. — Você não pode ser sempre a mais forte. Todo mundo precisa ser cuidado às vezes.

Por um momento, os pensamentos de Lucy se voltaram para Lachlan e o jeito como ele a tirara daquela cama em Glencarraig. Ele a carregara como se ela fosse tão leve quanto uma almofada cheia de penas, seus braços fortes flexionando enquanto ele a deitava em sua cama.

E, por alguns momentos, pareceu muito bom ser abraçada.

Ela sorriu de leve, sentindo o gosto das lágrimas que umedeciam seus lábios.

— Nunca quis que nenhuma de vocês se magoasse como aconteceu comigo. Queria sentir a dor por todos nós.

— Não funciona assim. Eu sei disso, tentei me proteger da dor por tempo suficiente. Mas, se você proteger demais alguém, vai estar impedindo que essa pessoa aprenda a lidar com a dor. É como uma criança aprendendo a andar: você sabe que ela vai tropeçar e ralar os joelhos, mas precisa deixá-la aprender com os próprios erros. Você não pode protegê-la das lágrimas e do sangue; só pode estar lá para cuidar dela depois.

Lucy suspirou.

— Quando você ficou tão esperta? — perguntou, sentindo uma onda de orgulho pela mulher que sua irmã era. — Você é tão boa com as palavras. Devia ser escritora ou algo assim.

Cesca riu e a cozinha subitamente pareceu mais quente. Lucy sentiu os músculos dos ombros relaxarem.

— Pode me contar sobre a mamãe? — Cesca pediu. — Quero saber exatamente o que aconteceu.

Lucy assentiu.

— Claro que sim. Mas preciso tentar organizar tudo na minha cabeça. — Era estranho que ela sentisse algum tipo de alívio por, finalmente, conseguir conversar sobre as coisas com sua irmã? — E eu gostaria de contar à Kitty e à Juliet ao mesmo tempo, tudo bem? Isto é, se elas estiverem dispostas a falar comigo.

— Elas vão falar com você. Eu falei com a Juliet mais cedo. Ela estava preocupada com você. Todas nós estávamos. A Kitty queria pegar um avião para Nova York para te dar um abraço. Fui emotiva, estava irritada, e não devia ter ficado assim. — Ela balançou a cabeça. — Não acredito que você veio direto para cá.

— Como não? Você é minha irmã e estava magoada. Não aguentei te ouvir chorar e não poder te abraçar.

— Um abraço parece perfeito agora.

Lucy ficou de pé antes que Cesca terminasse a frase. Sua irmã mais nova colocou os braços ao seu redor, o abraço das duas fazendo com que sentissem a respiração uma da outra.

— Não acredito que você deixou o laird sexy — Cesca sussurrou de encontro ao ombro de Lucy, se lembrando claramente da conversa. — Espero que ele não esteja com raiva de mim.

— Ele não está com raiva de você. — Não era mentira e também não era verdade. Mas não estava pronta para compartilhar essa história com elas. Ainda.

Ela contaria sobre isso às irmãs depois que contasse sobre a mãe. E talvez fosse até um alívio compartilhar sua dor, da mesma forma que tinha sido um alívio, finalmente, compartilhar a verdade sobre aquele dia frio e úmido tantos anos antes.

No dia em que todas perderam a mãe e, de alguma forma, Lucy assumira o papel por conta própria.