Uma Surpresa na Primavera

Carrie Elks · Capítulo 30 de 38

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Uma Surpresa na Primavera

Capítulo 30

É como se uma flecha eu disparasse por sobre a

casa e o irmão, sem ver, ferisse.

— Hamlet

 

O escritório estava como uma cidade fantasma — o que não era uma grande surpresa, já que era sábado. Quando atravessou as portas de vidro fosco que levavam à MacLeish Holdings, Lachlan fora recebido por computadores desligados e as fracas luzes de segurança. Os sensores de movimento o detectaram quando ele foi até as portas de carvalho que levavam a seu escritório, fazendo as luzes piscarem acima dele enquanto se movia, como uma estranha homenagem aos Embalos de sábado à noite. Não que ele pretendesse dançar.

Colocou seu copo de café de isopor na mesa e ligou o computador enquanto se inclinava para a frente, se apoiando sobre os cotovelos, a palma das mãos segurando a mandíbula tensionada. Pareceu uma boa ideia ir até ali — qualquer coisa para evitar seu apartamento cheio de lembranças —, mas agora parecia triste.

Talvez devesse ter ido correr. Ou ligado para Grant e visto se ele queria tomar uma bebida ou duas antes da festa. De toda forma, o que as pessoas normais faziam aos sábados? Nas últimas semanas, ele tinha passado a maior parte do tempo conversando com Lucy. Ou olhando para Lucy. Ou dormindo com Lucy.

Droga, não precisava pensar nisso agora.

Abriu os e-mails, rapidamente apagando os que não significavam nada, sinalizando aqueles que queria ler. Alguns foram resolvidos rapidamente — encaminhados para o departamento apropriado ou para Grant marcar reuniões. Outros esperariam até segunda-feira. Ninguém estava por perto no fim de semana esperando uma resposta sua.

Então ele viu o e-mail de Alistair. Convite Oficial para o Encontro MacLeish. Quando clicou, o e-mail abriu, revelando uma foto de Glencarraig, o chalé aninhado nos arredores das Terras Altas, o lago tão claro quanto ele se lembrava. E é claro que havia o tartan MacLeish, formando uma borda ao redor do convite.

Lachlan MacLeish, laird de Glencarraig. E acompanhante.

Seu primeiro pensamento foi encaminhá-lo para Lucy, mas por que ela se importaria?

Ela tinha ido embora, e ele a afastara com toda a força que tinha. Todas aquelas palavras ditas no calor do momento voltaram para ele de um jeito que o fez estremecer.

Se você sair por aquela porta agora, não se preocupe em voltar. Ele balançou a cabeça, apertando os olhos para apagar a lembrança.

Dizer que o vestido era pagamento por serviços prestados. Meu Deus, que idiota ele tinha sido. Não era de admirar que ela tivesse se afastado. Ele simplesmente a jogara para fora. A dor era como uma espada fincada em seu coração. Ele a perdera e a culpa era sua.

O desejo de ligar para ela era quase impossível de ignorar. Apenas a necessidade de se enrolar e lamber suas feridas o impedia de pegar o telefone e digitar seu número.

Balançando a cabeça, desligou a tela. Havia pouco sentido em fazer qualquer coisa quando mal conseguia se concentrar por mais de cinco minutos. Eram quase quatro da tarde — apenas mais três horas para matar antes que precisasse se preparar para a festa.

Tinha certeza de que seriam as três horas mais longas de sua vida.

 

Lachlan estava na entrada do hotel, alisando o paletó, esperando que as pessoas à sua frente passassem pelo tapete vermelho. Flashes de câmeras vinham dos dois lados enquanto fotógrafos e repórteres da área da imprensa gritavam instruções e perguntas e os convidados paravam para posar na frente dos banners dos patrocinadores.

— Sr. MacLeish, estamos muito felizes por você estar conosco esta noite. — O anfitrião se adiantou para apertar sua mão. — Não tenho palavras para dizer o quanto apreciamos sua generosidade.

— Essa causa era importante para o meu pai — ele murmurou, observando um belo casal passar por ele, o homem colocando a palma da mão nas costas da mulher.

Ela estava usando um vestido de costas nuas — seda cor creme que ondulava até o chão. Seu coração balançou quando se lembrou do vestido rasgado, pendurado no armário em casa.

— Sr. MacLeish, vai se sentar com seu irmão esta noite?

Lachlan se virou, reconhecendo a repórter da coluna social do Post.

— Acredito que não. — Seu sorriso era amplo e completamente falso. — A MacLeish Holdings tem sua própria mesa no baile. — Não quis parecer pão-duro.

— E você está acompanhado esta noite? — A repórter olhou em volta, com expectativa.

— Estou sozinho.

Ela abriu a boca em sinal de surpresa.

— É mesmo? — Parecia que ele tinha acabado de dizer que o mundo era plano.

Depois de mais algumas perguntas, ele foi conduzido ao saguão, atravessando o tapete vermelho até os pisos de mármore. A mesa que comprara por um preço exorbitante estava quase cheia. Viu alguns amigos e clientes ocupando as cadeiras e sorriu quando Grant e Jenn acenaram para ele de sua posição no outro lado. Ele deu a volta na mesa, apertando mãos e beijando bochechas, tendo que falar alto para ser ouvido sobre a orquestra. Quando chegou a Grant, seu amigo já havia lhe garantido uma bebida.

— Achei que você poderia precisar disso — falou, entregando uma taça de champanhe a Lachlan. — Conseguiu passar bem pelos lobos?

— O mesmo de sempre. — Lachlan baixou a voz. — Ele já está aqui?

Grant inclinou a cabeça para o outro lado do salão de baile.

— Sim. — Lachlan seguiu o olhar de Grant para a mesa ao lado do palco. Um homem estava sentado à cabeceira. Um pouco mais baixo que Lachlan, um pouco mais robusto também, mas com o mesmo cabelo escuro e nariz forte.

Por um momento, seus olhos se encontraram antes de Duncan desviar o olhar, se virando para falar com a pessoa a seu lado. Lachlan esperou que os familiares sentimentos de ódio o atingissem, mas não sentiu absolutamente nada. Não sentia necessidade de conversar com o homem com quem compartilhava o sangue. Nem de fazer nada para ele. No fim do dia, o que isso importava?

— Lachlan. — Jenn ficou de pé, oferecendo a bochecha para ele. Ele roçou os lábios na pele quente, sorrindo quando ela o puxou para um abraço.

— Jenn, você está linda como sempre.

— Você sabe o que dizem. Pode passar batom em um porco, mas ainda vai ser um porco usando batom.

Ele começou a rir.

— Você está se comparando a um porco? Jesus, você está radiante e linda. Pare de se colocar para baixo.

Ela deu um tapinha no braço dele.

— E é por isso que eu gosto de você, sr. Charmoso. — Ela baixou a voz, o suficiente para que ele tivesse que se inclinar para ouvi-la. — Sinto muito pela Lucy. O Grant me contou.

Lachlan olhou para o amigo, que deu de ombros, de um jeito que dizia para não culpá-lo.

— Ah, contou?

— Não posso deixar de sentir que a culpa é minha — Jenn falou, esfregando o pescoço com a palma da mão. — Espero não tê-la afastado.

Lachlan franziu a testa.

— Por que a culpa seria sua?

Ela mordeu o lábio, desviando o olhar.

— Falei algo sobre suas outras garotas.

— Que outras garotas? — Ele balançou a cabeça. Não estava entendendo nada. — Não tenho outras garotas.

— E eu disse a ela que você tinha problemas de confiança.

Ele piscou.

— O quê?

— Você não está melhorando as coisas, amor — Grant avisou.

— Sinto muito. Eu realmente gostei dela, Lachlan.

— Jenn... — Sua voz tinha um tom de aviso. — O que você disse a ela?

— Não se esqueça de que é ilegal bater em uma mulher grávida, tá? — Ela recuou, como se estivesse se preparando. — Eu falei para ela que você se afastava das mulheres quando elas chegavam perto demais.

Desta vez Lachlan estava com a testa franzida.

— Por que você disse isso a ela?

— Desculpe. — Jenn segurou seu braço novamente, os dedos circulando ao redor do bíceps dele. — Ela é tão adorável. Eu estava preocupada que você fosse tratá-la como trata todas as outras. Mas o Grant me disse o quanto você está apaixonado por ela e eu percebi que estraguei tudo. Você tem que me perdoar, tá? Senão não vai ser padrinho deste bebê. — Ela estava sem fôlego e ainda se agarrando a ele.

— Calma. — Lachlan deu um tapinha na mão dela. Estava preocupado que ela entrasse em trabalho de parto antes da hora. — Você não estava errada. Eu a afastei. E que história é essa de que estou apaixonado por ela? — Ele se virou para Grant, que estava convenientemente olhando para longe.

— Ele me contou que você perdeu aquela reunião. E que você tentou cancelar outra em Paris. E sobre todos os telefonemas tarde da noite que você achava que ele não podia te ouvir fazendo.

— Você não trabalha tarde da noite. — Lachlan olhou na direção de Grant.

— Tarde da noite para a Lucy, não para você — Grant apontou. — Achei que você tivesse se transformado em um consultor de estilo ou algo assim. Você estava sempre perguntando o que ela estava vestindo.

Lachlan não tinha certeza se estava se divertindo ou chocado.

— Nós precisávamos conversar sobre negócios — ele protestou. — É difícil sincronizar as conversas estando em pontos extremos do mundo. Era o único momento que nós dois tínhamos livre todas as noites.

— Você não fala nem com os seus próprios advogados todas as noites, então por que precisa falar com ela? Encare isso, você se apaixonou pela garota. — Grant deu de ombros. — Não que eu tenha pensado que veria esse dia.

Lachlan abriu a boca para argumentar, mas a fechou rapidamente. O que havia para discutir? Seus telefonemas definitivamente não eram sobre negócios. Qualquer coisa entre ele e Lucy havia deixado de ser sobre a herança de Glencarraig fazia muito tempo.

Ele deslizou a mão para dentro do bolso, sentindo o papel que havia colocado ali antes de sair para o baile. Macio, brilhante e um pouco maltratado.

— De toda forma, não importa — ele disse, levantando a mão e pegando outra taça de champanhe de um garçom que passava. — Acabou. Ela foi embora. — A expressão em seu rosto não deixava dúvidas de que não queria mais falar sobre isso. O que mais havia para dizer?

Ele a perdera e em algum momento teria que aceitar. Mas por enquanto só queria passar por aquilo.

 

Passou a noite inteira sem esbarrar no irmão. Estava deliberadamente evitando todo o lado da família, se mantendo em sua própria mesa, no bar e em ocasionais incursões para falar com amigos. Mas ainda assim poderia sair da festa sem qualquer problema.

Dentro do salão de baile, a festa estava em pleno andamento: a batida baixa da música, o fluxo constante de conversa ecoando pelas portas que abriam regularmente enquanto as pessoas seguiam para o banheiro. Lachlan acenou com a cabeça para o chapeleiro, colocando uma nota de dez na bandeja, mesmo que não tivesse trazido casaco. Olhando para o telefone, verificou se seu carro já estava lá.

Cinco minutos de distância não era tão ruim. Decidiu esperar do lado de fora — a primavera de Nova York estava cedendo lugar ao verão, e a noite estava quente. Ele soltou a gravata enquanto saía e abriu o botão de cima.

Mal pisou na calçada quando parou abruptamente. Na sua frente estava o homem que compartilhava o mesmo cabelo e o mesmo nariz que ele, e algumas coisas mais.

— Duncan. — Lachlan assentiu para ele.

— Lachlan. — Duncan o olhou de cima a baixo. — Já está indo?

Quanto tempo se passara desde que os dois trocaram mais do que um aceno de cabeça? Desde que se tornaram homens, os dois mal se falavam. Havia muita rixa — e muitos anos ruins — entre eles.

— Tenho outro compromisso.

Viu uma contração no queixo de Duncan, como se ele estivesse cerrando os dentes com muita força.

— Bem, obrigado por vir. O nosso pai teria ficado contente.

Era estranho o jeito como essas palavras faziam Lachlan se sentir. Uma mistura de orgulho ao lado de uma ponta de ressentimento por Duncan saber o que seu pai teria sentido.

Porque Lachlan não tinha absolutamente nenhuma ideia.

Seus pensamentos se voltaram para Lucy de novo e sua escolha de sempre colocar a família em primeiro lugar. Era difícil imaginar se sentir assim se o irmão precisasse dele. Não que Duncan tenha precisado.

— Foi uma noite ótima — Lachlan comentou. — Tenho certeza de que vai levantar muito dinheiro. — Ele olhou para o relógio. Onde estava seu carro?

— Eu esperava que nós pudéssemos conversar esta noite. — Duncan parecia desconfortável. — Eu queria falar com você sobre essa coisa do processo. Queria explicar.

Lachlan deu de ombros, tentando parecer indiferente.

— Não precisa explicar. São negócios. — E, francamente, ele não dava a mínima para a herança. Não importava, não mais.

— Não, não são. — Duncan deu um passo à frente. — Eu não queria levar isso ao tribunal. Não há nada mais desagradável do que família processando família. Eu simplesmente não tenho escolha.

Lachlan olhou para ele, franzindo a testa.

— O que você quer dizer?

— É muito importante para a minha mãe que eu mantenha essa parte do nosso pai comigo. Prometi a ela que não ia desistir. — Duncan inspirou profundamente, seus ombros se levantando. — Não quero brigar com você por isso, mas não sei mais o que fazer.

Por um momento, Lachlan pensou na mãe de Duncan — a esposa de seu pai, mesmo quando ele foi concebido. Ela tinha uma aparência sombria sempre que os visitava. Indiferente, mas claramente chateada por ele estar lá. E não era de admirar, já que Lachlan era uma lembrança ambulante das infidelidades do marido.

Fechou os olhos por um momento, se lembrando da maneira como Lucy tentara esconder seu próprio segredo por tanto tempo. Por quantos anos as crianças deveriam pagar pelos pecados dos pais? Será que elas conseguiam se livrar das algemas de seu passado?

— Minha mãe também se sentia assim — Lachlan disse quando abriu os olhos. Mas ele estava realmente se questionando. O que a sua mãe e a mãe de Duncan queriam era irrelevante. Os desejos do pai não foram escritos em pedra. Eles deveriam decidir como lidar com as coisas; eram eles quem estava no controle ali.

Pela primeira vez, viu a si mesmo e a Duncan como realmente eram: marionetes assumindo papéis na peça de outra pessoa. Quando crianças, obedeciam às mães, tornavam-se representantes delas nessa luta louca pelo amor e atenção do pai, o mesmo pai que não demonstrava interesse por eles. E Lachlan simpatizava pelos garotos que eles eram na época. Eram apenas crianças, afinal de contas.

Mas não eram mais crianças. E os dois tinham o poder de mudar as coisas.

— Posso te mostrar uma coisa? — perguntou, tendo que levantar a voz quando um carro da polícia passou correndo com as sirenes tocando.

— Claro.

Lachlan tirou o pedaço de papel do bolso, virando-o para que Duncan pudesse ver a foto. Entregou para o irmão, que a ergueu perto dos olhos, curvando os lábios quando viu.

— O que é isso?

— Recebi em Glencarraig. Não consigo nem lembrar de ter sido tirada. — Lachlan deu de ombros. — Pelo que me contou o gerente da propriedade, nós éramos terríveis. Ele não sabia o que fazer com a gente.

— É difícil parecer terrível quando se está usando kilt — Duncan murmurou. Sua carranca tinha ido embora, mas o olhar de confusão continuava. — O que estavam pensando nos vestindo assim?

— Acho que foi a única vez que usamos as mesmas roupas.

— Como gêmeos. — Os olhos de Duncan se encontraram com os de Lachlan, e por um momento nenhum dos dois disse uma palavra. Simplesmente se olharam.

— Eu queria falar sobre Glencarraig — Lachlan finalmente disse enquanto vários convidados passavam por eles. — Vai estar em Nova York na semana que vem? — perguntou. — Podemos nos encontrar para conversar.

— Claro. — Duncan assentiu. — Vou pedir para o meu advogado ligar para o seu.

Lachlan balançou a cabeça.

— Não, sem advogados. Só nós dois por enquanto.

— Tudo bem, então. Só nós.

Com o canto do olho, Lachlan viu o carro parar no meio-fio. O motorista saiu e abriu a porta para ele.

— É o meu carro. Falo com você na próxima semana.

Foi Duncan quem estendeu a mão primeiro. Lachlan olhou por um momento, observando o braço do meio-irmão estendido como se fosse um objeto alienígena. Demorou muito tempo para perceber que ele estava lhe oferecendo um aperto de mão.

Sentindo o sangue inundar seu rosto, Lachlan estendeu a mão, apertando a palma de Duncan na sua. O contato durou apenas alguns segundos antes que Duncan recuasse e oferecesse ao irmão o menor dos sorrisos.

— Boa noite, Lachlan.

— Boa noite. — Lachlan deu a ele um último olhar antes de entrar no carro. O motorista fechou a porta, e ele recostou a cabeça no encosto de couro, deixando escapar um bocado de ar dos lábios entreabertos.

— Vai voltar para o seu apartamento, sr. MacLeish? — o motorista perguntou, retornando a sua posição no banco da frente.

— Sim, por favor — Lachlan respondeu, passando a mão pelo cabelo. Queria pular no chuveiro, vestir uma calça de moletom e deitar na cama, descansando a cabeça no travesseiro que ainda tinha o cheiro dela.

Talvez amanhã fosse um dia melhor.