Uma Surpresa na Primavera

Carrie Elks · Capítulo 33 de 38

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Uma Surpresa na Primavera

Capítulo 33

Mas, amigo, se penso em ti um momento, vão-se as

perdas e acaba o sofrimento.

— Soneto 33

 

— O que você disse? — Sua mãe se inclinou para a frente, a boca apertada com firmeza. Ela estava muito melhor do que da última vez que a vira, a respiração regular graças aos tubos no nariz. Estava atenta, os olhos brilhando enquanto esperava pela resposta. Ela parecia muito mais saudável agora que estava de volta à casa de repouso.

— Eu disse que o Duncan e eu chegamos a um acordo.

— Você perdeu o caso? — Ela franziu a testa, balançando a cabeça. — Vamos apelar. Foi por causa desse advogado que você arranjou? Talvez seja melhor contratar outro.

Ele engoliu o gosto da lembrança de Lucy.

— Não foi culpa do advogado. O caso nem chegou ao tribunal. O Duncan e eu estamos conversando.

Ela estremeceu com a menção do nome do seu meio-irmão.

— Estão? Por quê? — Ela parecia confusa. — Achei que você fosse lutar e vencer.

— Só porque não lutei, não significa que perdi — Lachlan apontou. — Estou mais do que feliz com o acordo.

Ela ficou em silêncio por um momento, absorvendo suas palavras. Era impossível não ver a expressão de decepção no rosto dela.

— Mas você queria a herança do seu pai. Nós conversamos sobre isso da última vez que você esteve aqui. Você ia mostrar a todos exatamente quem você era. Que era o herdeiro legítimo de tudo o que eles queriam.

— Eu percebi uma coisa ao longo do caminho — ele disse com voz suave. — Só vale a pena lutar por um prêmio se você o quiser. Eu realmente nunca quis nada que o meu pai tinha. Eu só queria o amor dele, e isso era algo que eu nunca iria conseguir. — E todos os títulos do mundo não lhe renderiam o que ele nunca tivera.

— Mas isso vai te legitimar — ela protestou.

Ele balançou a cabeça.

— Nada vai me tornar legítimo. E isso não muda a cabeça deles a meu respeito. Só piorou as coisas. Não tenho nada para provar para eles, não mais. — Talvez nunca tivesse. Desde o momento em que fora concebido, ele nunca tivera chance na família MacLeish. E não era de admirar. Ele representava a fraqueza do pai, a traição. Preferiam ignorar sua existência a reconhecê-lo como parte da família.

A mãe estendeu a mão para acariciar sua bochecha.

— Mas te magoaram o tempo todo. Eles também merecem sofrer.

— Por causa dos erros do meu pai? — Lachlan perguntou. — Não, eu não concordo. O Duncan não pediu para ter um irmão ilegítimo, assim como eu não pedi para nascer. E a mãe dele também não pediu para ser traída.

Ela estremeceu.

— Nós estávamos apaixonados...

— Não, você estava apaixonada. — Lachlan podia ver claramente agora. — Ele te usou e foi embora. E durante anos acho que você esperava que ele se apaixonasse por mim, e que isso o faria te amar também. Mas não é assim que o amor funciona, mãe. Não se pode fazer alguém te amar se essa pessoa não estiver pronta para isso. — Sua voz falhou, as emoções brilhando através da abertura. — E conseguir um título inútil não vai mudar nada disso.

— Então é isso. Você desistiu?

— Não. — Não parecia uma desistência. Parecia que ele estava desperdiçando muita energia perseguindo algo que nunca iria conseguir. — Decidi me concentrar em coisas que são mais importantes para mim.

— Como o quê?

Ele deu de ombros.

— Meu trabalho, minha saúde. Felicidade. Talvez até constituir uma família.

— Uma família? — A expressão dela se suavizou. — Você conheceu alguém?

Ele soltou um bocado de ar. Ainda doía falar sobre isso. Magoava pensar no que tinha acontecido. E, no entanto, isso não era nada comparado à dor de não pensar nela. Lucy estava em tudo o que ele fazia.

— Conheci e perdi — ele disse.

Sentiu a mãe deslizar os dedos entre os dele, apertando sua mão com força. Ela era surpreendentemente forte para uma mulher doente.

— Você se magoou? — ela sussurrou.

— Algo assim. — A tentativa de Lachlan de dar um sorriso se transformou em uma careta.

Ela olhou para ele, os lábios apertados em solidariedade.

— Quem é ela? — a mãe finalmente perguntou.

— O nome dela é Lucy — Lachlan disse. Só o fato de dizer seu nome era como outra facada no coração. — Ela é linda, divertida e tudo que eu nunca soube que queria.

Sua mãe franziu a testa.

— E o que aconteceu?

— Eu a deixei escorregar pelos meus dedos, porque não pude dar a ela o que ela precisava. E ela me deixou. — Merda, sua voz estava falhando? Ele tossiu para tentar recuperar o controle.

— Ela deve ser muito especial para você ter se apaixonado.

Ele olhou para cima, para os olhos azuis da mãe, sem piscar. Como os seus, eles eram tão vívidos quanto o oceano.

— Eu não disse que a amava.

— Não é preciso.

Não, não precisava. Ele sentia por todo o corpo toda vez que pensava no sorriso, na voz dela, o jeito como ela se enrolava nele no meio da noite. Ele quase podia senti-la ali agora, o perfume floral de seu xampu, ouvir sua risada suave.

Sim, ele estava apaixonado por ela. Apaixonado por Lucy Shakespeare, a mulher mais linda, engraçada e irritante que ele já conhecera. Não era de admirar que ele não pudesse parar de pensar nela.

— Eu a amo — sussurrou mais para si mesmo do que para a mãe.

Ela riu.

— Não pareça tão infeliz com isso.

Ele balançou a cabeça, ainda tentando pensar direito.

— Eu falei umas besteiras para ela...

Ela ouviu enquanto ele contava toda a história, interrompendo ocasionalmente para fazer uma pergunta. Não conseguia se lembrar da última vez que fora tão honesto com a mãe ou da última vez que tinha se emocionado com qualquer coisa.

— Não parece irrecuperável — ela disse, sua mão ainda apertando a dele. — Parece que vocês são dois teimosos. Você finalmente encontrou seu par, querido.

Pela primeira vez ele riu e se sentiu bem.

— Você não está errada. Ela é como um animal selvagem, quase impossível de domesticar.

— Eu te conheço, Lachlan. Quando você quer uma coisa, não desiste até conseguir. — Ela umedeceu os lábios. O oxigênio sempre os deixava ressecados. — Você não queria o título do seu pai, eu entendi. — Havia ainda uma nota de desapontamento em sua voz. — Mas essa garota, se você a quiser, vai ter que lutar até conseguir. Você nunca fugiu de uma briga antes.

Mas talvez as apostas nunca tivessem sido tão altas. Ele a perdera uma vez, e o pensamento de perdê-la novamente era devastador. Havia parte dele — o velho Lachlan — que queria se esconder e lamber suas feridas, acalmá-las com encontros casuais e o vício em trabalho.

Mas essa era a saída covarde. Estivera fazendo essas coisas por tempo suficiente — por anos, de acordo com Jenn —, e elas não aliviavam a dor.

Lucy era o maior prêmio pelo qual ele tinha lutado e perdido. Seria corajoso o suficiente para se jogar no ringue para uma segunda rodada?

O bar do hotel estava meio vazio. Ele passara a maior parte da noite lidando com o trabalho que deixara de fazer durante a visita à mãe, digitando e-mails, fazendo ligações e pedindo a Grant que reorganizasse sua agenda mais uma vez. Sempre impassível, o amigo e assistente tinha mudado as reuniões e transformado algumas em videoconferências enquanto murmurava para si mesmo que Lachlan finalmente havia perdido a cabeça.

E talvez tivesse. Mas, de alguma forma, sentia que estava ganhando alguma coisa também. Uma paz de espírito que nunca sentira antes.

— Prometo que esta é a última vez — Lachlan falou ao telefone, tomando um gole da cerveja gelada que a garçonete havia colocado sobre a mesa.

— Só vou acreditar nisso quando vir — Grant retrucou, a voz aquecida pelo humor. — De qualquer forma, eu posso conseguir uma passagem no voo noturno chegando a Heathrow na noite de segunda-feira. Isso vai te dar tempo suficiente para se encontrar com os seus investidores britânicos antes de pegar o trem para Edimburgo. Tudo bem?

— Sim, claro.

— Quando você quer voltar? Devo reservar a volta para Nova York?

Lachlan não tinha uma resposta para isso. O fato era que tudo dependia dela. Se ela lhe daria uma chance ou se já estava farta dele.

— Não sei — ele respondeu. Parte da condensação do copo de cerveja gelada havia pingado na mesa de madeira. Estendeu a mão, traçando padrões na água. — Eu preciso visitar o Alistair também, conversar sobre a situação. Vamos deixar isso em aberto.

— Claro — Grant ainda parecia se divertir.

— Hambúrguer e batata frita? — A garçonete estava sorrindo quando ele olhou para ela. Deslizou o prato na sua frente. Ele respirou o aroma: quente e saboroso.

— Eu não pedi comida. — Mas cheirava bem o suficiente para provocar um ronco em seu estômago.

— Você parecia com fome. — Outra mulher apareceu atrás da garçonete. Uma mulher de cabelo loiro, rosto em formato de coração e olhos que o mantiveram acordado durante a noite.

— Lucy? — Ele se levantou, sua cadeira raspando o chão de madeira. Levou um momento para perceber que ainda estava segurando o celular na orelha, a voz de Grant perguntando o que estava acontecendo.

— Você vai precisar cancelar o voo — Lachlan falou no aparelho, ainda incapaz de tirar os olhos dela. — Eu ligo de volta mais tarde.

Grant não protestou com a mudança repentina na direção da conversa. Em vez disso, ele disse adeus, desligando imediatamente.

A garçonete se afastou, deixando apenas Lucy e Lachlan, além de um metro e meio de espaço entre eles. Parecia longe demais, não era suficiente. Sua pele parecia estar pegando fogo.

— Você está aqui.

Ela assentiu, o peito subindo e descendo com a respiração.

— Da última vez que voou para me ver, você levou comida. Só estou pagando a dívida.

— Está? — Ele ainda estava tendo problemas para formar frases completas. Ela também as roubara.

— Sim. — Ela estava nervosa. Ele podia dizer pelo jeito como ela retorcia os dedos. — E, pelo que eu sei, desculpas ficam bem acompanhadas com comida.

Suas mãos se abriram e fecharam. Ele queria se aproximar para ver se ela era real. Sentir a maciez da pele dela contra seus dedos ásperos, sentir o calor de ambos se fundindo.

— Não é muito divertido comer sozinho — ele falou. — Me faz companhia? — Apontou para a cadeira em frente à dele.

— Só pedi uma refeição.

— Vamos dividir.

Sua mão tremia quando alcançou a cadeira, puxando-a para que ela pudesse se sentar. Ele se sentou de novo, a mesa entre eles, e empurrou o prato até que estivesse no centro, perto o suficiente para que os dois alcançassem.

— Coma — ele falou.

Ela pegou uma batata frita, mas não a levou até a boca. Ele fez o mesmo, ainda olhando para ela. Havia se esquecido de como ela era linda. Como sua pele parecia porcelana, o rubor em suas bochechas parecendo ter sido pintado por um artista. Ele conhecia cada pedaço daquele rosto: o jeito como os olhos dela se enrugavam quando sorria, a forma como as maçãs do rosto afiadas davam lugar aos picos macios abaixo. E havia os lábios — rosados e grossos, que sempre despertavam o desejo de beijá-la.

— Não estou com muita fome — ela confessou, ainda segurando a batata frita.

— Por que não? — Ele franziu a testa.

— Perdi o apetite em algum lugar do outro lado do Atlântico.

— Você voou hoje?

— Cheguei há uma hora.

Seu peito estava cheio. Ela conseguia despertar cada suave emoção que era possível sentir. Queria puxá-la contra si, dizer que tudo ia ficar bem. Queria cuidar dela da mesma forma que ela cuidava de todos.

— Lucy.

Ela ergueu a mão. A batata frita ainda estava entre seus dedos.

— Não, por favor, só me ouça por um minuto. Se eu não disser isso agora, posso perder a coragem.

Ele sorriu, mas não disse nada. Estava na ponta da sua língua dizer que ela era a pessoa mais corajosa que ele conhecia.

— Fui uma idiota — disse, soltando um bocado de ar depois de suas palavras, como se estivesse aliviada em finalmente admitir isso. — Pensei que, se eu pudesse manter tudo em segredo, a minha família ficaria bem. Mas estava errada. Você me disse exatamente isso. Eu não tinha que esconder segredos das minhas irmãs, e tudo o que fiz foi piorar as coisas.

Ele mordeu a parte interna do lábio para evitar protestar. Estava muito curioso para ouvir o que ela tinha a dizer para impedi-la de falar.

— E, tentando esclarecer as coisas, acabei tornando tudo ainda mais difícil para mim. Se eu tivesse tirado um tempo para pensar em tudo em vez de pular no primeiro avião para casa, não teria te magoado — ela piscou, seus longos cílios baixando — e me machucado ao mesmo tempo. — A batata frita ainda estava entre seus dedos. Ela a torceu, dividindo-a, revelando o interior branco e fofo. — Eu me apaixonei por você. E estava com tanto medo de que você não se sentisse da mesma maneira que corri de volta para Londres. Então, em vez de te ligar ou mandar uma mensagem assim que cheguei, entrei em pânico. Queria que você desse o primeiro passo, mesmo tendo sido eu quem foi embora.

— Isso não é verdade. — Sua voz era rouca. — Eu te afastei. Fui eu que disse para você ir e nunca mais voltar. — Ele balançou a cabeça ao ouvir as próprias palavras. — Fui um idiota e sinto muito. Não quis dizer nada daquilo.

Ele pensou naquela passagem de avião que Grant estava cancelando enquanto falavam. Ela estava tão perto da verdade — ele estava planejando dar o primeiro passo. Mesmo que tivesse demorado muito tempo para fazê-lo.

Seus olhos estavam suaves.

— Também sinto muito. Por te magoar. Lamento ter prometido estar ao seu lado na festa de caridade e ter te abandonado. Sinto muito por me esconder e estar com muito medo e orgulho de ligar para você quando devia ter feito isso imediatamente. — Ela abandonou a batata frita, limpando os dedos no guardanapo antes de erguê-lo para enxugar os olhos. — E você não tem motivo para me perdoar. Deus sabe que você lidou com decepção suficiente em sua vida. Não há razão para ter mais uma.

— Eu te perdoei antes mesmo de você sair para o aeroporto — ele disse, com a garganta apertada. — É a mim que acho difícil perdoar.

Franzindo o nariz para o prato — agora frio — de comida, ela olhou para ele.

— Está com fome?

Ele balançou a cabeça, ainda em silêncio.

— Nesse caso, pode subir até o meu quarto comigo?

Um estrondo de riso rolou por seu abdome, escapando de seus lábios em uma risada profunda.

— Está tentando me pegar? — ele perguntou.

Seus olhos se arregalaram.

— Ah, Deus, não. Só queria te mostrar uma coisa. — Sua bochecha ficou vermelha no mesmo instante.

Ele ainda estava sorrindo. Suas palavras provocaram uma leveza dentro dele que parecia impossível esconder. Como se alguém tivesse inflado um balão em seu peito, levantando-o até que apenas a ponta de seus dedos ainda estivesse em contato com o chão.

— Acho que ninguém nunca tentou me levar para um quarto no meu próprio hotel — ele falou. — É a primeira vez para mim.

Ela engoliu em seco.

— Para mim também.

Por alguma razão, ele gostou de ouvir aquilo.

— Nesse caso — ele disse, estendendo o braço em direção à saída —, vamos lá.