Uma Surpresa na Primavera
Capítulo 9
Em meus olhos minha mãe se postou, dando-me as
lágrimas que neste instante eu verto.
— Henrique V
Vai ter um carro te aguardando em Miami. Reprogramei as reuniões de amanhã e cancelei os seus compromissos. Diga para a sua mãe que eu mandei um abraço. Grant
Lachlan leu a mensagem e colocou o celular no bolso, puxando a mala pequena e cara enquanto entrava no saguão de desembarque do aeroporto. A bagagem de mão continha apenas o que foi possível jogar ali dentro antes de correr para o aeroporto JFK e embarcar no primeiro voo que ele conseguiu pegar.
Eram onze da noite no horário local. Já estava escuro, e isso conferia ao aeroporto internacional de Miami uma atmosfera mais silenciosa, completamente adequada ao humor de Lachlan. Ele caminhou pelo piso de porcelanato até o homem que segurava a placa com seu nome, acenando com a cabeça e permitindo que o motorista pegasse sua mala enquanto iam para o carro.
Alguns minutos depois, estavam entrando na via expressa. O motorista fez algumas tentativas de iniciar uma conversa, mas as respostas de Lachlan eram concisas, quase taciturnas. Preferiu ficar olhando pela janela ou checar suas mensagens para ver se havia alguma atualização da enfermeira da mãe.
— É no hospital universitário, certo? — o motorista perguntou, pegando a via expressa.
— Isso mesmo.
— Imagino que não seja um compromisso regular a esta hora.
— A minha mãe está doente. Eu vim de Nova York para vê-la.
— Sinto muito — o motorista falou.
— Obrigado.
— O meu pai ficou internado no Hospital Mercy ano passado — o motorista continuou. — Ataque cardíaco. Deram a ele uma semana de vida, na melhor das hipóteses. Em dois meses, ele estava dançando no casamento da minha irmã. Disseram que foi um pequeno milagre.
Lachlan deu um meio-sorriso. Ele não esperava nenhum milagre — pequeno ou não — para sua mãe.
Levou menos de quinze minutos para o carro parar na frente do hospital. O motorista ligou o pisca-alerta e saiu para pegar a bagagem no porta-malas. Lachlan se levantou e olhou para o prédio de estuque bege. Se não fosse pelos letreiros verde e laranja do Hospital Universitário de Miami, seria possível confundi-lo com um hotel cinco estrelas. Na verdade, alguns dos quartos para pacientes de alto nível tinham vistas fantásticas da praia e da cidade. Dando ao motorista uma gorjeta de vinte dólares, Lachlan pegou a mala e atravessou as portas de correr de vidro da entrada, indo imediatamente para o balcão de informações. Estava silencioso lá dentro — o horário regular de visitas já tinha acabado e a maioria das pessoas já havia ido para casa. Até a equipe falava baixinho enquanto ele pedia indicações para o quarto da mãe.
Quando chegou à UTI, a enfermeira o conduziu discretamente pelo corredor.
— O pneumologista já foi para casa — ela falou com a voz baixa. — Ele vai estar de volta às oito para fazer as visitas do plantão. Você vai poder falar com ele. Mas, enquanto isso, se tiver alguma dúvida, posso te ajudar.
— Como ela está?
— Em estado crítico, mas estável — a enfermeira disse. — Ela teve uma infecção que se transformou em pneumonia. Está sendo tratada com antibiótico e está no oxigênio, mas o coração está fraco. Vamos saber mais sobre o estado dela amanhã.
— Ela vai conseguir superar?
O rosto da enfermeira suavizou.
— É difícil dizer. Existe uma linha tênue entre tratá-la e aumentar o sofrimento dela. Como você sabe, a doença pulmonar obstrutiva crônica é progressiva. Nós só podemos tratar as complicações. Mas estamos fazendo tudo que podemos para ajudá-la a lutar. — Ela parou do lado de fora do quarto, abrindo a porta. Lachlan passou por ela e seus olhos foram imediatamente atraídos para a mulher pálida que descansava na cama de hospital. Ela estava ligada a uma máquina, fios que levavam um soro ao pulso. Uma máscara de oxigênio cobria seu nariz e boca, e toda vez que ela inalava ele podia ouvir um barulho proveniente do seu peito.
— Essa é uma máscara de Venturi — a enfermeira explicou. — Fornece altos níveis de oxigênio para os pulmões. É mais eficaz que uma cânula nasal.
Lachlan assentiu, embora mal estivesse ouvindo.
— Ela também tomou duas injeções de esteroides para melhorar a função pulmonar. Deve fazer outra radiografia de tórax amanhã.
Amanhã. Ao ver a mãe deitada em uma cama de hospital, ele se perguntou se ela o veria. Deixando a mala ao lado da porta, ele se aproximou, puxando a cadeira para perto da cama. Segurou a mão dela e a apertou entre as suas.
— Ela está quente — falou.
— Está com febre. Mas está baixando. Nós vamos verificar seus sinais vitais novamente daqui a meia hora, e esperamos que até lá a febre tenha baixado. — A enfermeira olhou para o relógio. — Vou te deixar aqui por um tempo. Se quiser tomar alguma coisa, o café, no final do corredor, fica aberto a noite toda. E, se precisar de uma de nós, pode apertar esse botão — disse, apontando para o botão vermelho na parede — ou nos encontrar no posto de enfermagem.
— Obrigado — ele respondeu, ainda olhando para a mãe.
— Disponha.
Ele passou a hora seguinte sentado com ela, ouvindo os bipes regulares do monitor cardíaco e sua respiração irregular enquanto ainda lutava por ar. O chiado em seu peito o fazia estremecer, pois parecia que cada respiração era uma luta. Algumas vezes seus olhos se abriram, e ela o encarou com um olhar vítreo, sem reconhecer quem ele era, ou, se o reconheceu, foi incapaz de encontrar energia para cumprimentá-lo.
À meia-noite ele havia adormecido na cadeira de couro acolchoado, a cabeça pendendo para o lado enquanto suas pernas compridas se estendiam na sua frente. Mas o sono não durou muito. A cada hora a enfermeira entrava para verificar a máquina e o soro, fazendo anotações em um tablet para registrar as estatísticas.
Na segunda vez em que a enfermeira o acordou, seu pescoço estava rígido e os músculos das costas reclamavam da posição desconfortável. Ele girou a cabeça algumas vezes, sentindo os nós estalando.
— Onde você disse que era o café? — ele perguntou. Naquele momento, a atração por uma injeção de cafeína era forte demais para ser ignorada. Era uma pena que não servissem nada mais forte.
— Siga pelo corredor e vire à esquerda — ela explicou, ajustando a máquina. — Se tiver sorte, pode ser que o terraço ainda esteja aberto. Tem uma bela vista da cidade.
Não havia fila no balcão. O barista o serviu rapidamente, com o mesmo tom de voz baixo que todos os outros no hospital pareciam usar. Eles faziam algum tipo de treinamento? Lachlan entregou uma nota e levou o café para uma mesa de canto. As portas do terraço estavam trancadas, mas os sons da cidade ainda soavam através das frestas. A tela do celular indicava que era uma e meia da manhã. Sentado ali no canto do café vazio, Lachlan sentiu uma pontada de solidão arder em seu estômago. Tem alguém para quem você gostaria de ligar? Não era isso que perguntavam quando um paciente estava à beira da morte? Se a enfermeira perguntasse isso, para quem ele ligaria?
Provavelmente, Grant se importaria, mas só porque era amigo de Lachlan. E ele estaria dormindo àquela hora. Ele não podia imaginar que Jenn ficaria impressionada se Lachlan os acordasse só para conversar.
Ele tinha outros amigos? Talvez, mas não do tipo que ligaria no meio da noite, procurando por simpatia. Passou a vida cercado de colegas de trabalho, funcionários e amigos com quem gostava de se divertir, mas algum deles estaria lá se ele mandasse uma mensagem naquele momento?
Ele achava que não.
Tomando um gole de café, deixou o gosto amargo envolver a língua e, em seguida, pegou o telefone, checando a hora mais uma vez. Uma e trinta e três da manhã — apenas alguns minutos desde a última vez que verificara. Era como se o tempo se movesse em um ritmo mais lento durante a noite, da mesma forma que as enfermeiras baixavam o tom de voz quando passava da meia-noite. Ele checou seus e-mails, mensagens, agenda. Tomou outro gole da bebida. Duas enfermeiras entraram no café e foram direto para o balcão, depois partiram assim que suas bebidas foram preparadas.
Ele leu as notícias, a previsão do tempo e os preços das ações no mundo todo. Seu café estava pela metade agora, o líquido havia esfriado rapidamente por causa do ar-condicionado. Ele empurrou o copo para longe com uma mão, ainda segurando o telefone com a outra.
Suspirando, tocou na barra de pesquisa em seu navegador. O que ele poderia procurar? Não estava interessado em fofocas, não acompanhava nenhum programa de TV e nem se lembrava da última vez que lera um livro. O teclado apareceu na tela, e ele deslizou os dedos pelas teclas, fazendo as letras aparecerem na busca.
Clã MacLeish.
Assim que pressionou o pequeno ícone da lupa, uma lista de resultados apareceu. Uma loja online vendendo tartan escocês, uma página da Wikipédia e, em seguida, o site sobre o qual Grant havia falado. Lachlan clicou no terceiro resultado, que o levou imediatamente para a mesma página que tinha visto antes, aquela com um fundo xadrez e uma foto de Glencarraig Lodge no banner.
O menu continha várias opções, e ele clicou em história primeiro. Olhou para a tela, leu sobre o combate no século XVIII e como resultou em tantas famílias escocesas mais pobres sendo despejadas por proprietários aristocráticos, levando a uma emigração em massa para o Novo Mundo. Leu sobre Bonnie Prince Charlie e como o chefe do clã MacLeish o apoiou em sua missão de derrotar a ocupação inglesa, levando-o a ser forçado ao exílio, um homem caçado.
Havia tanta informação que Lachlan mal conseguia entender tudo. Quem havia escrito aquilo? Ele não acreditava que seu pai tivesse interesse ou conhecimento técnico para administrar um site. Não havia informações sobre o autor — apenas links para o fórum, que, como Grant havia dito, estava sem postagens —, nem detalhes do alojamento que a Glencarraig Lodge oferecia aos hóspedes e um encontro anual.
Interessado, Lachlan clicou na página da reunião. Uma fotografia do castelo de Glencarraig surgiu novamente, mas dessa vez havia uma multidão em frente a ele. Homens usando kilts no tradicional tartan MacLeish, mulheres de saias mais longas usando um manto xadrez cobrindo os ombros. Havia até crianças, rapazes de kilt e chapéus chato, meninas de saias mais curtas e meias longas. Na parte inferior da foto havia uma legenda: Encontro do clã MacLeish 2017.
Ele deu zoom na foto, examinando as pessoas para ver se reconhecia alguém. Mas nenhum deles parecia familiar. Nem seu pai ou irmão estavam lá e, por alguma razão, isso deu a Lachlan certa satisfação.
A porta do café se abriu novamente e dessa vez houve um fluxo maior de pessoas. Ele olhou para o relógio e ficou chocado ao ver que mais de uma hora tinha se passado. Se levantou rapidamente e voltou para ver a mãe no quarto.
Descobrir mais sobre o clã MacLeish teria que esperar.