Uma Surpresa na Primavera
Capítulo 6
Não se encontram sem que se peguem em uma
escaramuça de espírito.
— Muito barulho por nada
— Você vai precisar de alguma coisa? — Lynn perguntou, parando na porta de Lucy enquanto enrolava o lenço de algodão em volta do pescoço. — Preciso sair no horário hoje. O Marnie tem um concerto na escola.
Eram quase seis horas e o escritório já estava esvaziando. Laptops haviam sido desligados e fechados, xícaras de café colocadas na lava-louças que zumbia na cozinha. Metade das salas dos sócios estava às escuras e a movimentada troca de e-mails em sua caixa de entrada já havia diminuído para uma ou outra notificação.
Lucy levantou os olhos da carta que estava lendo.
— Estou bem, obrigada, Lynn. E boa sorte com o concerto. — Deu um sorriso rápido para sua assistente.
— Vou precisar. E obrigada, te vejo amanhã. Eu vou ser aquela que não escuta nada porque ficou surda com um milhão de acordes desafinados. — Lynn acenou e fechou a porta ao sair, deixando Lucy sozinha em seu escritório. Ela checou a hora no relógio. Tinha tempo de elaborar uma resposta rápida antes de a videoconferência começar.
Mas então seu laptop se iluminou e um ícone verde de câmera mostrou a chamada entrando. Ela pegou o mouse e passou a outra mão na parte de trás do cabelo. Deu um breve clique na tela e a ligação começou.
— Boa noite, Lucy. — A voz profunda de Lachlan ecoou pelos alto-falantes do laptop. Era a primeira vez que o via desde o encontro em Miami, mas o tempo e a distância não tinham feito nada para diminuir sua atratividade. Ele estava sentado no que ela imaginava ser seu escritório em Nova York, com a gravata frouxa, mas ainda com nó, as mangas da camisa enroladas para revelar antebraços bronzeados. Atrás dele, ela podia ver o céu azul, pontilhado aqui e ali com nuvens finas.
— Boa tarde — ela disse, inclinando a cabeça para ele. O sol do meio-dia brilhava através da janela atrás dele, iluminando o horizonte de Manhattan. Era glorioso comparado à chuvosa Edimburgo.
— Obrigado por arranjar um tempo para mim. Eu só queria checar os próximos passos e ter certeza de que nós estamos alinhados. — Ele sorriu e a covinha apareceu e sumiu da sua bochecha, conferindo uma pitada de juventude que normalmente ele não exibia. Ela afastou os olhos, observando o restante de seu escritório. Havia uma pintura na parede oposta, que quase não era visível. Só conseguia ver a borda, os respingos de tinta clara organizados em uma espiral hipnótica. Era outro Pollock? Ela abriu a boca para perguntar, depois a fechou novamente. Deveriam estar falando sobre o caso dele.
Ela pegou a pasta ao lado do laptop e a abriu na primeira página.
— Recebeu o rascunho da carta que enviei hoje cedo? — ela perguntou, pegando sua própria cópia e tirando a tampa da caneta vermelha. — É a resposta que eu proponho enviar para o advogado do seu irmão. Eu gostaria de informar por escrito que nós refutamos completamente as reivindicações dele.
— Eu consegui dar uma olhada nisso há um minuto — Lachlan falou, olhando para a tela. — Parecia tudo certo. Mas nós precisamos mesmo mandar uma carta? Não vamos estar dando crédito à contestação se respondermos?
— Tudo faz parte do processo legal. Eles escrevem para pleitear uma reclamação, nós a refutamos, eles entram com a ação no tribunal. Eu sei que parece prolixo, mas, se eles deixam de dar algum passo, podem ter as reclamações descartadas, e, se nós deixamos de fazer alguma coisa, podemos perder. A ação real só vai acontecer quando nós estivermos na frente do juiz. Isto é, se chegar tão longe.
— Você acha que não vai? — ele perguntou.
— Depende. Há muitos outros passos a serem dados antes que qualquer coisa chegue ao tribunal. Assim que a ação for apresentada, nós vamos ter duas semanas para responder. Então o juiz vai considerar se o caso tem fundamento antes de permitir que vá adiante. O meu trabalho é convencê-lo de que não tem.
Havia uma sugestão de sorriso nos lábios dele quando ela terminou de falar. Seus olhos estavam mais suaves do que ela se lembrava, mas ainda mexiam com ela. Sentiu o estômago revirar quando o olhar deles se encontrou.
Bom Deus, ela precisava se segurar. Tinha 29 anos, não 19.
Alguém entrou no escritório de Lachlan, colocou uma xícara de café e alguns papéis em sua mesa. Lucy não conseguia ver o rosto — apenas a mão quando apareceu na tela. Lachlan murmurou para quem quer que fosse, que disse algo igualmente ininteligível de volta.
— Está chovendo aí? — ele perguntou, semicerrando os olhos ao olhar para a tela. Lucy se virou automaticamente para olhar a janela atrás de si, o vidro salpicado de gotas de chuva.
— Quando não está? — ela perguntou, se virando para a tela. — Eu passo metade da vida correndo debaixo do guarda-chuva ou torcendo o cabelo molhado. É uma das desvantagens de morar em Edimburgo.
— Mas tem vantagens também, não é?
Ela sorriu.
— Tem, sim. É uma cidade linda, cheia de cultura e pessoas interessantes. É tão vibrante quanto Londres, mas não parece, nem de perto, tão grande e movimentada. Ainda tem aquele jeito de cidade pequena que eu adoro. — Ela poderia falar sobre o lugar o dia todo.
— Eu estive aí uma vez quando era criança, se não me engano — Lachlan disse, semicerrando os olhos como se estivesse tentando se lembrar. — Nós visitamos o chalé e eu lembro de ter sido forçado a comer alguma comida nojenta em um pub antigo, mas fora isso não sei nada sobre o lugar.
— Bem, se vier visitar Glencarraig, você com certeza tem que parar em Edimburgo. Fica a algumas horas de carro das Terras Altas, o que parece uma eternidade para nós, mas imagino que seja uma pequena distância para um americano.
Ele assentiu lentamente, olhando diretamente para ela.
— Talvez eu faça isso.
Uma leve onda de pânico a atingiu. Era fácil conversar com ele quando havia uma distância entre os dois, mas o pensamento de tê-lo ali, em sua cidade, era um assunto diferente.
— Nesse meio-tempo, vamos terminar esta carta e dar andamento a isso — Lucy falou, voltando aos negócios. Ela ergueu o braço, torcendo o pulso deliberadamente para que ele pudesse vê-la verificando o relógio. — Está terminando o dia aqui e eu vou sair mais tarde. E tenho certeza de que você também está muito ocupado.
— Vai fazer alguma coisa legal?
Ela engoliu em seco.
— Só jantar com alguns amigos. — Ela teve um vislumbre do Pollock novamente, um raio de sol iluminando repentinamente aquele canto do escritório dele. Podia imaginá-lo visitando galerias de arte, admirando as exposições, retirando seu Amex preto da carteira...
Era apenas uma fantasia. Ele tinha pessoas para fazer isso por ele. Designers de interiores, decoradores e assistentes. Provavelmente nem sabia quanto a pintura valia.
— Certo, então — ela disse, pegando o papel de novo. — Vamos rever linha por linha e eu envio amanhã. Quem sabe seja o suficiente para fazer o seu irmão desistir da contestação.
Durante os minutos seguintes, sua postura se manteve profissional, sua voz esteve firme, seus olhos cuidadosamente treinados no papel à sua frente, e não no homem na tela do laptop. Quando a reunião terminou e eles se despediram, ela sentiu o corpo relaxar pela primeira vez desde que aceitara aquela porcaria de ligação.
Quando se tratava de relacionamentos com clientes, havia linhas que não se deviam cruzar. Mas, com Lachlan MacLeish, parecia que essas linhas estavam por todo lado, e, quando ela abria a boca, estava pisando perto demais da borda.
Precisava ser mais cuidadosa. Caso contrário, era apenas questão de tempo antes de cair direto no abismo.