Uma Surpresa na Primavera

Carrie Elks · Capítulo 36 de 38

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Uma Surpresa na Primavera

Epílogo

 

Seus lábios eram quatro rosas vermelhas no mesmo

ramo, e no verão da sua beldade se beijavam um ao

outro.

— Ricardo III

 

— Bem, tudo parece em ordem — o advogado de Alistair falou, passando o documento para ele. As várias páginas foram analisadas e anotadas, cada uma rubricada na parte inferior. — Estou feliz por estar assinando isto.

— Tem certeza de que quer fazer isso? — Alistair questionou, olhando para Lachlan. — Ainda dá tempo de desistir.

— Tenho, sim — ele concordou. — Tudo está como deveria ser. Você só precisa assinar e transferir o dinheiro.

— Muito bem. — Alistair tirou uma caneta do bolso da camisa, girando-a até a ponta sair. Virou as páginas, depois assinou a última com um floreio, datando, e repassou para seu advogado.

— E o pagamento?

— Aqui está. — Alistair atravessou a sala, colocando uma nota escocesa nas mãos de Lachlan. Ele olhou para a nota azul, vendo as montanhas onduladas de Cairngorms impressas no papel grosso. — Cinco libras, como combinamos.

O advogado entregou o contrato para Lachlan.

— Só preciso da sua assinatura agora.

Lachlan pegou sua própria caneta e assinou rapidamente, datando e entregando de volta.

— Então é isso.

— Muito bem. Algumas questões burocráticas ainda precisam ser atendidas, mas todo o restante está feito. — Lachlan olhou para Alistair. — Está pronto?

— Com certeza.

— Então, vamos lá.

Os dois se levantaram, deixando a biblioteca, e saíram pela porta da cozinha até o quintal. Um palco estava montado em frente ao lago, com equipamento de áudio e luzes. Seguiram pela grama, contornando a multidão que se reunia na frente dele. Moradores se misturavam com MacLeish de todo o mundo, criando um mar de tartan azul e verde.

Assim que chegaram ao microfone, Lachlan o tocou, e um bum surdo ecoou pelos jardins. Ele limpou a garganta, seus olhos examinando a multidão, mas não pôde vê-la.

Onde ela estava?

— Boa noite — disse, se inclinando para que sua boca chegasse mais perto do microfone. — Antes de tudo, eu gostaria de dar as boas-vindas a todos vocês na reunião anual MacLeish. É um prazer ter vocês aqui, de perto e de longe.

Um forte aplauso soou.

— Como vocês sabem, o meu pai, o laird de Glencarraig, morreu há alguns meses. No seu testamento, ele deixou a propriedade e o título para mim. E, apesar de estar muito lisonjeado e ter me apaixonado por esta propriedade assim que a vi, percebi uma coisa.

Ele respirou fundo, olhando ao redor mais uma vez. Podia ver Duncan na frente, com sua esposa. E no canto via a família de Lucy — Cesca e Sam, Kitty e Adam. Mas nenhum sinal da mulher em si.

— O que percebi foi que eu não merecia este lugar — ele balançou o braço. — Ou melhor, ele não me merecia. — Olhou para Alistair, parado impassível ao seu lado. — Uma propriedade como Glencarraig não precisa de um senhorio ausente ou se tornar apenas mais uma hospedagem corporativa sem graça. Precisa de amor e dedicação, alguém que não apenas entenda a terra, mas também sua herança. Em suma, merece Alistair MacLeish.

Um murmúrio de conversa ondulou pela multidão. As pessoas estavam esticando a cabeça para olhar para Alistair.

— A exemplo de muitos de vocês, a conexão de Alistair com Glencarraig remonta a gerações. E, como vocês, ele faz parte da nossa linha de sangue. E fico feliz em anunciar que ele comprou cinquenta e um por cento da propriedade de Glencarraig, o que faz dele o laird de Glencarraig e líder do clã MacLeish.

Um rugido de aprovação seguiu seu anúncio, e, por um minuto, Lachlan não pôde ser ouvido sobre os aplausos. Quando o barulho diminuiu, ele se inclinou no microfone pela última vez.

— Senhoras e senhores, tenho o prazer de apresentar a você Alistair MacLeish, o laird de Glencarraig.

Um movimento na parte de trás do palco chamou sua atenção. Ele a viu pelo canto do olho, sua loira com determinação de aço.

— É todo seu — ele sussurrou para Alistair, recuando enquanto o novo laird se dirigia à multidão. Ele caminhou até o canto onde ela o estava esperando com um enorme sorriso.

Ele parou e a olhou por um instante, absorvendo os cabelos dourados presos com algumas mechas soltas. Seu pescoço elegante e ombros macios, levando até o vestido.

Aquele vestido.

Foi preciso mais do que alguns telefonemas para encontrar a pessoa certa para trabalhar nele. E o custo do conserto foi maior que o do próprio vestido. No entanto, tinha sido importante para ele — para os dois — consertá-lo e torná-lo ainda mais bonito do que ele era quando o comprou.

Quando o apresentara a ela esta manhã, Lucy o chamara de “vestido Kintsugi”. Embora os reparos fossem quase invisíveis, os dois sabiam que estavam lá. Eles não estavam envergonhados de suas cicatrizes, nem do passado. Hoje era o dia de comemorar tudo o que eram e o que esperavam ser. Com suas belas cicatrizes e tudo o mais.

— Eu não conseguia te ver — ele disse, puxando-a para si e envolvendo os braços ao redor de suas costas. — Comecei a ficar preocupado.

— Eu estava aqui atrás o tempo todo — ela respondeu, erguendo o rosto para um beijo. — Não queria interromper. E, a propósito, você foi maravilhoso. — Ela olhou para baixo, sorrindo. — E o único homem que conheço que pode fazer um kilt parecer sexy.

Lachlan sorriu, seguindo o olhar dela até suas pernas.

— Não vamos longe demais agora.

Ela pegou o braço dele, segurando seu pulso.

— Tem certeza que está tudo bem? — ela perguntou. — Deve ser difícil abrir mão deste lugar.

Ele olhou ao redor, para a cabana e o lago, Alistair em pé na frente de uma multidão de MacLeish e moradores de Glencarraig. Ele estava falando sobre seus planos para o futuro, para o chalé e a propriedade, e a multidão estava animada.

— Não vou abrir mão — Lachlan falou. — Ainda tenho quarenta e nove por cento do lugar. Além disso, vou investir também. Só estou colocando o homem certo no comando. — Ele estendeu a mão, passando o dedo pelo queixo dela. — Nós ainda vamos vir aqui para visitar quando quisermos, e prometi ao Alistair que sempre vamos participar das reuniões. Mas olhe para eles. Estão felizes. Ninguém poderia ser um laird melhor do que o Alistair.

Os lábios dela se abriram em um sorriso que iluminou o rosto.

— Então eu estou feliz também. Mesmo que você esteja perdendo toda a sua ligação com a Escócia.

— Não penso assim. A minha namorada ainda mora aqui. — Ele traçou seus lábios, se curvando até suas bochechas. — Por enquanto, pelo menos.

Ela riu.

— Lachlan, pensei que já havíamos falado sobre isso.

— Quando você vai se mudar para Nova York?

— Quando você vai se mudar para Edimburgo? — Ela arqueou uma sobrancelha.

— Touché. Acho que vou ter que fazer de você uma mulher honesta para que me obedeça.

— Nunca vou te obedecer. — Sua voz era suave. — Você sabe disso.

— Nem mesmo se eu usar os cintos dos roupões de novo? — Entrelaçou os dedos nos cabelos dela, inclinando sua cabeça até que os lábios encontraram os dele.

— Assim, quem sabe? — ela murmurou, suas palavras vibrando contra os lábios dele. Ele ia se contentar com isso. Não que ela tivesse deixado muita escolha.

Se ela achava que o Chalé Glencarraig era bonito no início da primavera, no final do verão era positivamente brilhante. Lucy recuou, com a taça de champanhe na mão, e admirou o castelo, observando a torre arredondada e as árvores frondosas e verdes que o rodeavam em três lados. Atrás dele, ao longe, subiam as colinas íngremes das Terras Altas escocesas. O crepúsculo caía, fazendo os milhares de pequenas luzes espalhadas por todas as árvores brilharem, fazendo o chalé parecer o cenário de um conto de fadas.

— É lindo. — A voz de Cesca soou de trás dela. Lucy se virou para vê-la caminhando ao lado de Kitty, as duas resplandecentes em longos vestidos de verão, os cabelos ondulados e os olhos cintilantes. Como Lucy, as duas carregavam uma taça de champanhe — servida por um dos garçons, sem dúvida.

— E você também está — Kitty declarou, parando ao seu lado. — Adorei o seu vestido.

Lucy sorriu e passou as mãos pelas laterais do corpete. Alguém já havia lhe dado um presente tão significativo como Lachlan? Ela achava que não.

As três ficaram juntas, olhando para o castelo. Os discursos terminaram e a reunião havia começado. Garçons estavam entrando no meio da multidão, distribuindo bebidas e canapés.

— Então, quais são os seus planos agora? — Cesca perguntou. — Você e o Lachlan já decidiram o que vão fazer?

— O que você quer dizer? — Lucy pegou uma taça de um garçom que passava, levando-a aos lábios.

— Vocês não podem continuar fazendo essa coisa transatlântica o tempo todo — Cesca falou. — Devem estar exaustos.

— Isso deve explicar por que ela e o Lachlan passam tanto tempo na cama — Kitty comentou, rindo.

— Eu já disse: nós vamos nos encontrar nas áreas de desembarque até estarmos usando andadores — Lucy falou. — Temos carreiras para cuidar.

Lachlan se aproximou por trás delas e se inclinou para beijar o ombro nu de Lucy.

— Não deem ouvidos a ela. Nós estamos trabalhando nisso. Posso mudar algum trabalho para cá e ela pode arranjar alguma coisa em Nova York. Vamos ficar bem.

Ela se virou para olhar para ele, uma sobrancelha arqueada.

— É mesmo?

Ele deu outro beijo no ombro dela.

— Sim. Não quero que os nossos filhos sejam criados com pais em continentes separados.

Toda vez que ele dizia algo assim, fazia seu coração bater mais forte. Não era medo, era ansiedade e o conhecimento de que esse homem lindo realmente a queria. Ele tocou suas cicatrizes e as achou bonitas — mesmo as invisíveis.

— Nossos filhos? — ela repetiu, incapaz de tirar o sorriso do rosto. — Vamos ter filhos?

— Logo depois de nos casarmos.

— Adoro saber que você já decidiu tudo. — Ela revirou os olhos para as irmãs, mas as duas estavam sorrindo de volta. Kitty fingiu um falso desmaio. Era muito bom tê-las perto dela. Duas delas, pelo menos.

— Você está bem? — Lachlan perguntou a ela, deslizando o braço ao redor de sua cintura fina. Ele devia ter notado sua mudança de expressão.

— Estava pensando na Juliet — disse a ele. — Como eu gostaria que ela pudesse estar aqui também.

— Ela está tão chateada que não conseguiu vir — Cesca concordou, sua expressão tão abatida quanto a de Lucy. — Mas agora ela não pode fazer nada para irritar o Thomas, não até que o divórcio seja resolvido.

Nos últimos meses, as coisas entre Juliet e Thomas se tornaram irreconciliáveis. As irmãs passaram longas horas ao telefone ou computador, falando sobre suas opções e que ele estava usando a filha, Poppy, como um peão para controlar Juliet. Lucy queria voar até Maryland para dar uma surra no cunhado. Ele não só havia partido o coração de Juliet, também estava quebrando sua alma.

— Eu gostaria que ela nos deixasse ajudar — Cesca, falou com a voz baixa. — Aquele lugar que ela está alugando é pequeno e precisa de muito trabalho. Mas ela não quer aceitar um centavo.

— Olha quem está falando — Kitty protestou. — Era você que recusava toda e qualquer ajuda quando estava pulando de apartamento em apartamento em Londres.

— E foi você que recusou qualquer ajuda minha ou do Sam quando estava procurando um estágio em LA — Cesca ressaltou.

— Acho que podemos concordar que somos todas tão teimosas quanto mulas — Lucy disse.

— Sim, eu concordo. — Lachlan piscou, e ela revirou os olhos para ele. — Mas é assim que eu gosto de todas vocês. Obstinadas e cheias de orgulho. É assim que as irmãs Shakespeare são.

Ele disse isso como um elogio, Lucy sabia. Várias vezes ele havia dito que isso era uma das coisas que ele mais amava nela. O jeito que ela nunca deixava que as coisas a derrubassem, o jeito como ela lidava com a vida. Ela era uma lutadora e não desistia, não importava as voltas e reviravoltas que encontrasse.

— Espero que as coisas se resolvam para a Juliet em breve — Kitty murmurou.

— Elas vão se resolver — Lucy respondeu, com firmeza.

De canto do olho, ela podia ver Sam e Adam caminhando em direção a elas, os dois segurando uma caneca de cerveja nas mãos.

Sam parou atrás de Cesca e envolveu o braço ao redor dela.

— Tudo bem? — ele perguntou.

— Sim — ela respondeu. Seu rosto se iluminou assim que ouviu a voz dele. — Estava pensando se poderíamos nos casar aqui. Parece o lugar perfeito.

Lucy sentiu a empolgação atingi-la.

— Você gostaria? — ela perguntou. — Tem uma capela linda na vila, e a pousada é perfeita para a recepção. Ou vai ser, assim que terminarem as reformas. E é afastado, também. Muita privacidade.

— Quando vai ficar pronto? — Sam perguntou.

— Vai levar uns seis meses — Lachlan falou. — Por que não conversamos com o Alistair amanhã?

Cesca se virou no braço de Sam.

— Você acha que nós podemos esperar? — ela perguntou. — Seria fácil manter os paparazzi longe se fizéssemos aqui. A Lucy e o Lachlan os colocariam para correr.

Lucy riu.

— Não seja rude.

— Eu posso esperar, se você puder — Sam sussurrou, acariciando o rosto de Cesca com os dedos. — O que te fizer feliz, baby.

— Talvez até esse ponto, o divórcio de Juliet também esteja terminado — Lucy comentou —, e ela e a Poppy poderiam estar aqui para o casamento.

— Isso seria maravilhoso — Kitty concordou. — Seria tão bom ter todas nós juntas pela primeira vez. As videoconferências não são tão boas.

— Quando foi a última vez que vocês estiveram no mesmo lugar? — Lachlan perguntou.

— Na festa de encerramento do filme — Kitty explicou. — No dia em que o Adam me pediu para morar com ele.

— Acho que não estivemos mais todas juntas desde então — Cesca concordou. — Bem, todas nós nos visitamos, mas não ao mesmo tempo. Como hoje à noite. Parece sempre haver alguém faltando.

A velha Lucy teria sentido pânico com esse pensamento. Ela estava planejando juntar todas. Mas deixar as coisas fluírem significava aceitar que agora a vida não permitiria que todas estivessem em um só lugar. Por enquanto, as videoconferências precisariam ser suficientes.

— As quatro irmãs Shakespeare juntas são um espetáculo para ser visto — Adam falou. — O mundo pode nunca mais ser o mesmo se acontecer de novo.

— Que bom que nada te assusta, baby — Kitty falou, sorrindo. Ela entrelaçou a mão na de Adam, inclinando a cabeça loira no ombro dele.

— E não somos mais quatro — Lucy lembrou. — Temos a Poppy também. — Ela sorriu. — Sem mencionar vocês. — Olhou para Adam, Sam e Lachlan. Três homens tão diferentes, mas que se encaixavam perfeitamente na família. As peças do quebra-cabeça que não perceberam que estavam faltando.

Eles eram a laca de ouro dos pedaços quebrados da porcelana das irmãs. Ou talvez fosse o contrário. Tudo o que Lucy sabia era que juntos eram mais do que a soma de suas partes.

Eles faziam o que estava quebrado parecer bonito.

 

Os fogos de artifício começaram logo depois das dez da noite, o céu explodindo em um arco-íris de cores que refletia no rosto dos convidados. Os barulhentos estrondos eram intercalados com os murmúrios da multidão enquanto todos inclinavam a cabeça para assistir ao espetáculo acima deles.

Lachlan era o único que não observava os fogos que floresciam acima deles enquanto as peônias e crisântemos se desdobravam em uma cornucópia de estrelas em chamas. Estava muito ocupado observando Lucy, olhando o modo como seus ombros nus brilhavam na luz refletida, a maneira como seus olhos estavam arregalados, a boca ligeiramente aberta enquanto olhava para o céu.

Como foi que ele teve tanta sorte? Era uma pergunta que se fazia o tempo todo. Era como se, toda vez que olhasse para ela, visse algo novo, e isso o fazia querer nunca tirar os olhos dela.

Ele passou por trás de Lucy, envolvendo os braços ao redor de sua cintura, o corpete de seda e renda do vestido sob a palma de suas mãos. Deu um beijo em seu pescoço, inspirando e cheirando sua fragrância floral, sua pele quente, apesar do ar da noite. Ela inclinou a cabeça para trás de encontro ao peito dele, o cabelo loiro em contraste com o paletó escuro. Por um momento, eles poderiam estar em qualquer lugar — uma garota e um rapaz ao ar livre, no final do baile.

— As coisas sempre fazem sentido quando nós estamos juntos — ele sussurrou em seu ouvido.

— Isso é porque nós estamos destinados a ficar juntos. — Suas palavras eram simples, mas tocaram o coração dele. Passou a vida inteira sendo rejeitado pela família que tanto queria. Entrar naquela, quase pronta, parecia um presente. Ele queria ser digno disso.

— Você acha que pode ser feliz comigo onde quer que a gente vá morar? — ele perguntou. — Não quero que você acabe se ressentindo de mim.

Ela se virou em seus braços, até que estivessem frente a frente. Levantando a mão, gentilmente acariciou sua mandíbula.

— Eu sei que continuo brincando sobre nós ficarmos velhos e ainda morando em países diferentes — ela inclinou a cabeça —, mas estou tão determinada quanto você a fazer isso dar certo. Olhe para a Cesca e a Kitty. Elas conseguiram e eu sei que nós também vamos. — Ela olhou por cima do ombro dele, sorrindo. — Não importa onde estejamos, desde que seja juntos.

Seria possível um coração derreter? Ele não estava acostumado a sentir essas emoções, mas ele as abraçou.

— Juntos — ele disse, sua voz suave. — Eu gosto de ouvir isso.

Ele olhou por cima do ombro, seguindo o olhar dela para o imponente chalé atrás deles. Era estranho como aquilo se tornara fundamental no relacionamento dos dois. Foi a primeira coisa que os uniu, e o lugar onde ele a abraçara pela primeira vez. E, mesmo que não tenha percebido na época, foi onde ele começou a se apaixonar por Lucy Shakespeare.

E agora havia dado meios para estarem juntos. Era mais que um chalé, era um lar.

— Eu gostaria que os nossos filhos viessem bastante aqui — ele murmurou, se virando para olhar para ela. Sua cabeça estava inclinada, mas era para ele que ela estava olhando, não para os fogos no céu. — Eu quero que eles saibam como é ter uma história real, uma família de verdade. Que eles entendam de onde vieram, porque, sem isso, nunca saberão para onde vão.

Eram lágrimas o que ele viu se formando nos olhos dela? Era difícil dizer sob o brilho dos fogos de artifício.

— Eu também quero — ela respondeu, abraçando-o quando ele a puxou com força.

Quando os fogos de artifício aumentaram de intensidade, um barulho alto abafando quase todas as vozes, ele baixou os lábios para capturar os dela. Seus beijos eram familiares, ainda novos, exigentes, mas generosos também, e o incendiavam da mesma forma que o céu estava ardendo.

Ele havia perdido muitas coisas na vida, mas ganhar o coração dessa garota determinada parecia o maior prêmio de todos.