Uma Surpresa na Primavera

Carrie Elks · Capítulo 3 de 38

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Uma Surpresa na Primavera

Capítulo 3

Os negócios humanos apresentam altas como as

marés: aproveitadas, levam-nos as correntes à

fortuna.

— Júlio César

 

O garçom retirou os pratos, deixando a mesa vazia, exceto pelos óculos e o bloco de anotações de Lucy. Lachlan observou enquanto ela movia a caneta pela página em branco e a tinta preta marcava o papel, a caligrafia perfeita, assim como o restantes dela. Se ele a achara atraente quando a vira pela primeira vez, agora achava muito mais, com os olhos semicerrados e os lábios apertados, concentrada.

Ela terminou de escrever e olhou para ele, colocando a tampa de volta na caneta. Duas linhas apareceram acima do seu nariz enquanto ela lhe cravava um olhar questionador.

— Por que você acha que o seu pai te deixou a propriedade? — perguntou.

Ele estivera pensando nisso desde que se sentou no escritório do advogado e ouviu a leitura do testamento do pai. Era difícil não estremecer com aquela lembrança; a irritada surpresa do seu meio-irmão lhe veio à mente. Duncan achava que herdaria tudo — e Lachlan havia pensado o mesmo. Por que um filho ilegítimo e indesejado receberia alguma coisa, ainda mais um castelo nas Terras Altas, na Escócia? Ele fechou os olhos, pensando naquela construção de arenito no meio de outro país, no lago espelhado e na floresta verde que levava às montanhas rochosas. Quanto tempo se passou desde que visitou aquele lugar? Devia fazer mais de vinte anos. E, no entanto, esse pensamento fez seu coração bater um pouco mais rápido, trazendo de volta memórias que ele havia enterrado muito tempo antes.

— Não sei — respondeu, com sinceridade. O garçom colocou as xícaras de café na frente deles. Tanto Lachlan quanto Lucy recusaram a sobremesa. — A única coisa em que consigo pensar é que, todas as vezes que visitei o lugar, fui feliz. Ele deve ter notado.

— Ele tinha falado sobre deixar a propriedade para você antes de morrer? — ela perguntou.

— Não. Eu não falava muito com o meu pai depois que me tornei adulto. Ele não tinha muito interesse em mim.

Não doeu dizer isso — não como acontecia antes. E ele estava satisfeito com a maneira como ela não recuara de jeito nenhum — a última coisa que ele queria era compaixão. Ele tinha aceitado seu relacionamento com o pai. As coisas eram como tinham que ser.

— E o restante da família? — ela perguntou. — Eles supunham que o Duncan iria herdar tudo?

— Nós sempre soubemos que ele iria herdar os negócios do meu pai — Lachlan respondeu. — Ele foi preparado para assumir a empresa de transporte marítimo desde muito novo. Mas não lembro de ter ouvido sobre a propriedade na Escócia. Em comparação com os negócios, tinha menos valor.

Em dinheiro, talvez, mas não tanto em significado. Afinal, seu pai havia crescido na propriedade. Era a herança deles — dele e de Duncan —, e só um deles poderia possuí-la.

O pensamento de perder para o meio-irmão parecia uma facada no coração.

— Tudo bem, isso é o que eu preciso saber por enquanto — Lucy falou, oferecendo a ele um sorriso. — Se você decidir que quer que eu te represente, vou montar um plano de ação, e depois nós vamos conversar sobre os próximos passos. — Sua voz estava rouca por falar tanto. Ela tomou um gole de água. — Você tem alguma pergunta? — ela indagou.

Milhares.

— Quais são minhas chances de sucesso?

Ela sorriu.

— Honestamente? Não posso te dar uma resposta segura. Mas, como você é o único nomeado no testamento, cabe ao seu irmão provar a contestação. E, a menos que ele consiga demonstrar que houve coerção ou apresentar uma jurisprudência que o sustente, vai perder. — Os dois terminaram o café e o garçom apareceu quase imediatamente, retirando as xícaras com um floreio. Lachlan pediu a conta. Não que ele precisasse pagar, mas tinha, pelo menos, que assinar. Tudo em seus negócios era feito de forma honesta.

Quando o garçom pegou a conta de volta e Lucy colocou suas anotações na pasta, os dois se levantaram. Lachlan se sentiu relutante em se despedir, sabendo que no dia seguinte ela estaria em um voo para Londres e ele a caminho de Nova York. Todas aquelas perguntas que ele tinha ainda estavam girando em sua cabeça, lutando pela prioridade. E a exaustão que sentia antes desapareceu, sendo substituída pelo nervosismo e pela necessidade de descobrir mais sobre a mulher à sua frente.

— Obrigada pela refeição deliciosa — ela agradeceu. — Por favor, fique à vontade para me mandar um e-mail se pensar em mais alguma coisa. E me avise se quiser que eu assuma o caso.

Lachlan franziu a testa com a pergunta.

— Por que eu não iria querer? — ele perguntou.

De pé, a diferença de altura era muito mais óbvia. Ele era bem mais alto, apesar dos saltos que ela usava. Lucy teve que levantar a cabeça para olhá-lo.

— Está claro que a herança é importante para você. Você não teria me trazido até aqui se não fosse. Escolher o advogado certo não é apenas ter o melhor, mas encontrar alguém em quem você possa confiar.

Seus olhos brilharam enquanto falava, e ele deu um passo adiante, até que havia apenas alguns centímetros entre eles. Ele examinou seu rosto, estudando-a, embora sua expressão não demonstrasse nada. Havia o leve indício de uma cicatriz que desaparecia sob o cabelo, e ele se viu imaginando o que a havia causado.

— Quer que eu confie em você? — Sua voz era baixa.

Os olhos dela não desviaram dos seus.

— Sim — ela respondeu, assentindo devagar. — Senão não vai dar certo.

— Então eu confio — ele falou. — Eu gostaria que você me representasse neste caso.

Enquanto caminhavam em direção à saída, ele sentiu o impulso mais forte de colocar a mão em suas costas, mas cerrou o punho com força, mantendo o braço ao lado do corpo. Ela era sua advogada, não sua acompanhante, pelo amor de Deus.

Chegaram ao saguão. Os dois estavam hospedados no hotel, em quartos e andares diferentes. E pareceu estranho ficarem parados no hall de mármore quando nenhum dos dois estava disposto a se despedir.

— Já é tarde — ele disse, olhando para o relógio na recepção. — Você deve estar cansada por todos os voos que precisou pegar.

Ela olhou para a área de elevadores à sua esquerda, assentindo.

— Foi um dia longo — ela concordou. — Eu tenho que voltar para o quarto e ligar para o meu namorado antes de dormir. — Ela abriu um sorrisinho. — Ainda não consegui fazer isso, e ele vai querer saber que eu cheguei em segurança.

— E eu tenho que trabalhar antes de dormir. — Ele estendeu a mão, apertando a dela antes de dar um passo para trás e um sorriso final. — Obrigado mais uma vez por reservar um tempo para se encontrar comigo.

— Foi um prazer, Lachlan.

Ele gostou do som de seu nome na língua dela, a primeira parte soando mais como “Loch” do que “Lach”. Isso o fez se lembrar da infância, de uma vida em que as coisas não pareciam tão complicadas e as pessoas não estavam constantemente competindo pela sua atenção.

— Boa noite, Lucy — ele disse, lhe dando um último olhar. Ela estava olhando diretamente para ele e seus olhares se encontraram. Por um momento, ele ouviu o sangue correndo pelos ouvidos e bloqueando os sons do hotel. Ele sorriu e os lábios dela se curvaram lentamente, fazendo-a parecer mais atraente do que nunca.

— Durma bem, Lachlan.

Assim que as portas do elevador se fecharam, Lucy apoiou a cabeça na parede espelhada, segurando o corrimão quando começou a subir. Embora ele estivesse no saguão, ainda podia sentir o cheiro de seu perfume e ver aquele sorriso com covinhas. Ela nunca conhecera alguém com tanta presença e tanta habilidade para tirar seu fôlego. Ele era um perigo usando um terno de grife.

E sua resposta para ele a assustara demais.

Era por isso que havia mentido sobre ter um namorado? Para proporcionar uma barreira a si mesma, algo para impedi-la de ser pega em uma atração que era quase impossível de ignorar? Balançou a cabeça, tendo um vislumbre de seu reflexo no espelho. Isso era tão diferente do seu normal que não era engraçado. Estava sempre calma, no controle, e nunca ultrapassava limites. Lachlan MacLeish era um cliente, não importava o quanto fosse atraente. Precisava se lembrar disso.

Erguendo a mão, ela alisou o cabelo e ajeitou os ombros enquanto o elevador se aproximava de seu andar. Ela poderia fazer isso — continuar a ser a profissional que sempre tinha sido. Ele podia ser o homem mais bonito que já vira, mas ela era capaz de superar isso, assim como de manter a reputação profissional.

O elevador fez um sinal e ela caminhou pelo seu andar, tirou o cartão do quarto de dentro da pasta e o colocou na fechadura. Quando entrou, ao tirar os sapatos e os colocar com cuidado no armário, se sentiu aliviada.

Uma boa noite de sono faria bem. Então ela voltaria para casa e ao trabalho, deixando Lachlan MacLeish a milhares de quilômetros de distância.

A vida continuaria do jeito que ela gostava e seria o fim da história.