Uma Surpresa na Primavera
Capítulo 5
Sou tão vigilante quanto um gato no momento de
roubar creme.
— Henrique IV, parte 1
Lucy virou a chave na fechadura, abrindo a porta pintada de preto do seu apartamento elegante em Edimburgo. Tinha cheiro de verniz e produto de limpeza — Elena devia ter dado uma arrumada no apartamento naquela manhã. Ela tinha deixado as cartas de Lucy em uma pilha na mesa ao lado da entrada, além de um vaso de flores frescas da primavera. Uma das vantagens de ter um serviço de limpeza.
Com a porta bem aberta, se virou para pegar a mala enquanto um flash amarelo e branco atravessou o corredor. Uma pequena gata malhada passou pelas pernas de Lucy, o pelo macio roçando em suas panturrilhas. Ela permaneceu parada por um momento, mas, em seguida, correu para o calor do apartamento.
— Venha aqui, sua danadinha — Lucy chamou, agarrando a felina do tamanho de um filhote. — Não tem nada pra você aqui. De onde você está vindo?
Quando ela, gentilmente, a colocou de volta no corredor, a gata ronronou e seu corpo vibrou contra as mãos de Lucy. Erguendo-se, a jovem foi pegar a mala e entrar, mas é claro que a gata voltou correndo antes que pudesse impedi-la.
Mesmo com a intrusa ali, entrar em seu apartamento fez Lucy sorrir. Ela adorava o lugar — desde que o comprara, cinco anos antes. Uma casa georgiana convertida, no coração da New Town, em Edimburgo, seu lar era um apartamento de dois quartos e dois banheiros decorados com elegância e uma cozinha enorme e moderna que ela quase nunca usava. Embora gostasse das paredes pintadas de branco e do piso de madeira polida, o que a encantou quando viu pela primeira vez foi o jardim. Um pequeno refúgio murado e cheio de plantas era seu lugar favorito para passar as tardes no verão.
Tirando as roupas da mala e jogando a maioria no cesto de roupa suja — Elena as separaria —, Lucy entrou no chuveiro, deixando a água quente relaxar seu corpo. Quando saiu do banho, enrolando uma toalha no cabelo como um turbante e envolvendo o corpo em um robe branco, voltou para a cozinha, pegou a chaleira e a encheu com água fresca.
Elena tinha reabastecido a geladeira também. Havia algumas refeições prontas e pacotes de salada, além de leite, queijo e o pão de sempre. Lucy pegou o leite e uma tigela pequena, a encheu e colocou no chão. A gata malhada se aproximou e deu uma lambida.
— Só estou sendo educada. — Lucy apontou para a gatinha. — Não pense que pode se aproveitar, porque, quando o leite acabar, você vai embora.
Como se a gata pudesse entender, ela olhou para Lucy por sobre a tigela de porcelana antes de baixar a cabeça e tomar o leite.
Lucy estava prestes a fazer um café quando o telefone começou a vibrar. Olhou para a tela, franzindo a testa quando viu o número. Ela não o reconheceu.
— Alô?
— É a srta. Shakespeare? Lucy Shakespeare?
— Sim, isso mesmo.
— Meu nome é Martha Crawford. Não sei se você se lembra de mim, mas eu moro a duas portas do seu pai.
Lucy desligou a chaleira e franziu o cenho.
— Olá, sra. Crawford. Eu me lembro, sim. Está tudo bem?
— Não há nada para se preocupar. Quero dizer, ele está bem. Bem como sempre está. Ele não é muito de falar, não é?
— Aconteceu alguma coisa com o meu pai? — Lucy perguntou.
— Nem sei se deveria ter ligado. Ele me disse para não ligar, mas nunca se sabe, não é? Mas eu falei com a Deidre, aquela senhora que mora do outro lado da casa dele, e ela disse que era melhor ligar.
— Pode me dizer o que aconteceu? — Lucy tentou, e não conseguiu não soar impaciente.
— O meu marido o encontrou andando de pijama esta manhã. Bem, ele o viu lá fora pela janela da cozinha enquanto estava fazendo o nosso chá. Nós dois amamos tomar um Earl Grey logo de manhã. Eu sei que muitas pessoas gostam de tomar só no café da manhã, mas, na minha opinião, é um desperdício de folha de chá.
— O meu pai estava de pijama? — Lucy perguntou, se sentando em um banquinho. Ela apoiou os cotovelos na bancada. — Aonde ele estava indo?
— Ele estava andando em direção às lojas. Então o Bernard, o meu marido, o seguiu até lá. Felizmente ele não estava de pijama. O Bernard, é claro. — Martha deu uma risadinha. — Quando o Bernard conversou com seu pai, ele se mostrou um pouco confuso. Parecia não saber onde estava. Felizmente, aquela garota, a que cuida dele... qual é mesmo o nome dela, aquela de cabelo curto? Ela estava chegando e o ajudou a voltar para casa.
— Então ele está bem?
— Ele ficou um pouco abalado. O Bernard disse que ele não o reconheceu, e você sabe que os dois costumavam passar muito tempo conversando.
— A senhora sabe se a cuidadora ligou para o médico? — Lucy perguntou.
— Não faço ideia, querida. Só achei que você deveria saber. Por sorte, a Deidre tinha o seu número desde a última vez que você esteve aqui. Espero que não se importe de eu ligar para você.
— Não, não, fico feliz que a senhora tenha feito isso. Obrigada. — Lucy deu um sorrisinho, embora Martha estivesse a quatrocentos quilômetros de distância. — Preciso desligar agora — ela disse, já fazendo uma lista mental das pessoas para quem ligar: a empresa de home care, o médico do pai e, é claro, as irmãs. — Mas muito obrigada por me avisar. Agradeço.
— Disponha. — Martha baixou a voz. A mulher era tão difícil de afastar quanto um paquerador entusiasmado. — Cá entre nós, acho que as coisas estão ficando um pouco demais para ele. Já pensou em colocá-lo em uma casa de repouso?
— Bem, obrigada novamente, sra. Crawford, e, por favor, transmita os meus agradecimentos ao seu marido — Lucy falou em voz alta, encerrando rapidamente a ligação antes que Martha pudesse começar a conversar de novo. Ela pegou o bloco de anotações e a caneta que sempre deixava ao lado do micro-ondas e começou a escrever no papel pautado.
Em caso de dúvida, faça uma lista. Sempre funcionava.
— E aí, como foi em Miami? — sua irmã Juliet perguntou, com a voz ecoando na linha. Lucy quase havia conseguido colocar em dia o trabalho que atrasara enquanto estivera em Miami. Foi o que fez quando não estava telefonando para Londres, conversando com médicos e com a cuidadora do pai para tentar chegar a um acordo sobre o plano de ação. Não tinha sido exatamente o retorno pacífico para Edimburgo que ela esperava.
Ela apoiou o telefone entre a orelha e o ombro enquanto digitava algumas emendas no documento em que estava trabalhando. Era fim de tarde em Edimburgo, e outra tempestade se transformou em fúria, lançando água contra as janelas. A gata havia voltado para o apartamento e estava enrolada no colo de Lucy enquanto ela digitava. Descobrira que ela pertencia aos vizinhos do andar de baixo, mas gostava de perambular pelo prédio como se fosse a dona do lugar. E talvez Lucy gostasse um pouco dela também.
— Foi rápido. Peguei o avião, fiz uma reunião e voltei.
— Parece cansativo — Juliet respondeu. — Você devia estar na cama agora, não me ligando.
— Estou bem. Vou descansar no fim de semana. — Lucy destacou algumas palavras e inseriu um comentário. — Acho que ficar lá só por dia foi bom. Não houve tempo suficiente para o jet lag se estabilizar.
— Não duvido — Juliet disse, com um sorriso na voz. — Se alguém pode vencer o jet lag, é você.
Juliet era dois anos mais nova que Lucy. Na juventude, era a tenente da general Lucy, as duas governando o quarto e dominando as irmãs mais novas, Cesca e Kitty. Então, quando Lucy estava com 15 anos, a mãe delas morreu e os papéis que as garotas assumiram, de alguma forma, se tornaram reais. Talvez fosse por isso que o pai tinha insistido tanto para que ela se mudasse para Edimburgo para estudar direito quando completou 18 anos. Para fazê-la começar a viver sua vida novamente.
— Eu gostaria de poder vencer a velhice — Lucy disse baixinho. — O nosso pai não está bem de novo. Um dos vizinhos o encontrou vagando pelo bairro de pijama.
— Ah, não — Juliet parecia alarmada. — Ele está bem? Pegou um resfriado? O que o médico disse?
Lucy passou os minutos seguintes mantendo a irmã informada.
— Está tudo sob controle — assegurou. — Eu só queria que você soubesse o que aconteceu.
— Ele está piorando, não está?
— Era de esperar. — Ela manteve a voz suave. Mesmo sendo a segunda mais velha, todo mundo sempre era muito gentil com Juliet. — Eu conversei com o médico, e ele me mandou algumas indicações de casas de repouso na região. Ele acha que é o momento de nós pensarmos nisso.
Juliet ficou em silêncio por um instante. Lucy podia imaginá-la na grande sala de estar da sua casa nos Estados Unidos, com o enorme sofá e as poltronas macias.
— Vai ficar tudo bem — Lucy prometeu. — Vou entrar em contato com algumas das casas e te dou retorno. Não precisa se preocupar.
— Mas eu me preocupo...
— Então me diga — Lucy falou, decidindo mudar de assunto —, como a Poppy está?
Juliet parecia tão grata quanto Lucy pela distração.
— Está ótima. Está gostando da escola. Eu te contei o que ela disse para a minha sogra no outro dia?
Enquanto Juliet deliciava a irmã mais velha com histórias das aventuras da filha destemida, Lucy se viu sorrindo, todo o corpo relaxando com as travessuras de Poppy. Aquela garotinha de seis anos era mesmo uma distração dos acontecimentos, e foi um alívio falar sobre outro assunto.
— Está com pressa para ir a algum lugar?
— Lugar nenhum, em particular. — Cada palavra saiu com um sopro de ar. Parecia que todos os músculos do corpo de Lachlan queimavam. Mas ele não ia parar, não até que Grant parasse. Era questão de honra.
O Central Park estava lotado. Os bancos estavam ocupados, os gramados verdes cheios de cobertores, crianças entrando e saindo por entre a lã quadriculada e pulando sobre a grama como formigas atraídas por um pedaço de comida. O aroma de cachorro-quente e pipoca flutuava com a brisa, os carrinhos cercados por turistas e moradores locais que se empurravam para ficar na frente da fila. Era como se ninguém tivesse visto o sol antes. O primeiro dia quente da primavera fez todos saírem para aproveitar a natureza.
— Você está correndo mais rápido que o normal. Achei que tivesse alguma garota te esperando.
Lachlan balançou a cabeça, sorrindo, apesar da dor nas pernas.
— Se tivesse uma garota esperando por mim, eu não estaria perdendo tempo com você, meu amigo. — Às vezes, brincar com Grant era tão necessário quanto o ar. Esse era um desses momentos.
— Ei, se você tivesse uma garota te esperando, eu estaria te dando uma surra por deixá-la sozinha.
— Você acha que pode comigo? — Lachlan riu enquanto os dois pararam ao lado do lago dos patos. Ele se inclinou contra a árvore mais próxima, a casca áspera pressionada na palma de sua mão. Sua respiração era curta, ofegante. O batimento cardíaco estava forte em seus ouvidos.
Ele se sentia bem. Muito bem. Como se pudesse governar o mundo, se o mundo permitisse.
— Ah, a última vez que te bati foi na quinta série. E isso porque você torceu o tornozelo. — Grant se inclinou, apoiando as mãos nas pernas. — Meu Deus, estamos ficando velhos demais para essa merda.
— Não estamos nem na metade dos trinta — Lachlan apontou. Ele recuperou o fôlego e se encostou na árvore. Uma coisa boa em correr diariamente era que seu tempo de recuperação era muito rápido. — Estamos no auge da vida.
— Fale por si mesmo, cara. Eu sou um senhor casado. — Mas Grant não parecia muito infeliz quanto a isso. Ele levantou a mão, observando o sol brilhar no metal da aliança de casamento. — Preciso desacelerar.
— Se desacelerar mais, vai andar de costas — Lachlan disse. — De qualquer forma, se você relaxar, não vai ficar casado por muito mais tempo.
Grant riu.
— Sim, a Jenn não gosta de barriga de cerveja. Ou, pelo menos, acho que ela não gosta. — Finalmente ele se levantou, respirando fundo. — Falando em Jenn, é melhor eu voltar. Nós temos um almoço com os pais dela. Não posso me atrasar.
— Medroso.
— Não, só casado. E amando.
Os dois passaram pelo lago dos patos, indo para o oeste, em direção ao metrô. Era lá que Grant pegaria o trem para o centro da cidade enquanto Lachlan continuaria caminhando para seu apartamento no Upper East Side.
Irmãos de sangue, divididos por riqueza e geografia.
— Tudo certo para sexta-feira? — Grant perguntou quando chegaram à entrada da estação da 103rd Street. Ele permaneceu no topo dos degraus, segurando a balaustrada.
— Claro. A que horas eu devo chegar lá?
— Pode ser às oito?
— Ótimo.
— Não esqueça o seu passaporte. Vai precisar dele para chegar à parte mais pobre da cidade — Grant brincou. Não havia animosidade real em suas palavras. Por que haveria? Ele escolhera sua vida e claramente a adorava. Mesmo que Lachlan não conseguisse entender por que ele não se esforçava para conseguir mais.
— Vou preparar as minhas bebidas também — Lachlan respondeu. — Não quero correr o risco de ser contaminado pelo desejo de casar.
— Tem certeza? — Grant piscou. Ele colocou a mão na orelha. — Ouviu isso? Mil garotas se jogaram no Hudson agora.
— Ei, pare de tentar viver a sua vida indiretamente através de mim. Foi você quem decidiu se amarrar pelo resto da vida. — Lachlan bateu o ombro contra o de Grant. — E eu não escolho as mulheres, elas que me escolhem.
— Se você está dizendo, Casanova. — Grant recuou, socando de leve seu braço. — Te vejo no escritório amanhã, cara.
— Até lá. — Lachlan levantou a mão para se despedir quando Grant se virou e desceu correndo os degraus até o metrô, seus passos ecoando pela escada.