Uma Surpresa na Primavera
Capítulo 15
Carne e sangue, meu irmão.
— A tempestade
— Bom dia. — Alistair tirou os olhos do jornal quando Lachlan entrou na cozinha. Havia um bule de café fresco na mesa, com uma jarra de suco de laranja e uma bandeja cheia de torradas. — Tome o seu café — ele disse, apontando para a comida.
— A Lucy já desceu? — Lachlan perguntou, puxando uma cadeira. Ela não estava na cama quando ele acordou. Assumiu que ela havia voltado para o quarto em algum momento antes do amanhecer. Ele deveria ter ficado aliviado, pois nenhum deles tinha a intenção de cruzar aquela linha. Talvez fosse melhor fingir que nada tinha acontecido. No entanto, ele não conseguia se livrar da sensação de nervosismo que o envolvera a noite toda. Desde que deixara seu desejo ultrapassar o bom senso.
— Ela saiu há mais ou menos uma hora. Disse alguma coisa sobre uma emergência no trabalho. — Alistair arqueou uma sobrancelha. — Estou surpreso que ela não tenha te avisado.
Lachlan piscou por um momento. Um olhar para o relógio acima do antigo fogão dizia que eram apenas oito e meia.
— Ela vai voltar?
A expressão de Alistair suavizou. Lachlan não gostou do jeito como o homem inclinou a cabeça em solidariedade.
— Acredito que não, sr. MacLeish. Ela levou a mala e me agradeceu muito pela hospitalidade. É uma jovem adorável, não é?
— Sim, é verdade. Adorável! — Lachlan tentou ignorar a faísca de frustração que aqueceu suas veias. Pegou o café e despejou um pouco em uma caneca. — Ainda está tudo certo para o almoço?
— Claro. Estou ansioso por isso. Mesmo que a Lucy não possa estar conosco.
Lachlan esfregou o queixo com o polegar. A pele ao redor de seu pescoço estava sensível. Uma lembrança de Lucy mordiscando aquela área enquanto ele a penetrava com mais intensidade passou pela sua cabeça.
Caramba, ele precisava parar com isso.
Eles transaram, ela foi embora e não houve arrependimentos. Na verdade, estava feliz por ter tirado essa atração do caminho. Ele não precisava de mais complicações.
— Ah, encontrei uma coisa ontem à noite nos nossos arquivos. Achei que você poderia estar interessado. — Alistair pegou um envelope da bolsa e tirou alguns papéis. — Nós temos muitas fotos antigas. Eu gostaria de mandar catalogar todas um dia. Seria ainda melhor se nós pudéssemos digitalizar no servidor. São uma grande parte da sua herança.
Ele entregou uma pequena foto retangular a Lachlan, que olhou para a imagem — colorida e inalterada de forma surpreendente, apesar do tempo — e franziu a testa.
Havia dois meninos de pé na beira do lago segurando varas de pescar. Se vestiam de maneira idêntica: usavam tartans MacLeish, casacos cinzentos e meias longas azuis. Lachlan olhou para a foto por um momento, se reconhecendo imediatamente. Também se lembrava do kilt. No entanto, por mais que tentasse, não conseguia se lembrar de sorrir com o irmão.
— É o Duncan comigo? — perguntou, a expressão de desagrado nítida em seus lábios.
— Isso mesmo. Acho que fui eu que tirei, embora não tenha certeza. Eu era encarregado do salmão naquela época, e vocês dois eram terríveis. — Alistair riu. — No fim, ensinei vocês a pescar para que pudessem me dar um pouco de paz.
— Não lembro de brincar com meu irmão. — Lachlan balançou a cabeça. — Se isso não fosse tão antigo, eu juraria que a foto era uma montagem.
— Vocês dois se pareciam tanto naquela época que eu não conseguia diferenciar um do outro. Adoravam correr pela propriedade também. Viviam juntos como unha e carne.
— Nunca nos ouvi sendo descritos assim antes — Lachlan murmurou. Ele não conseguia parar de olhar para a foto, para o jeito como estava sorrindo ao lado de Duncan, que também sorria de orelha a orelha. Era tão diferente das lembranças que tinha da infância, da maneira como era tratado toda vez que visitava o pai. Da raiva que sempre via no rosto da mãe de Duncan.
— Posso ficar com isso? — perguntou. Por alguma razão, pareceu importante tê-la. — Vou digitalizar e envio uma cópia para você.
— Claro. Eu tenho outra muito semelhante. Eu devo ter ficado feliz naquele dia. — Alistair sorriu.
E por um momento, apenas um momento, parecia que o mundo de Lachlan estava inclinado em um ângulo. Não muito agudo, apenas o suficiente para fazê-lo sentir como se estivesse inclinado para um lado.
Tomou outro gole de café e deixou o líquido amargo aquecer sua garganta. A cafeína acalmou sua mente.
Lembranças eram coisas estranhas e perturbadoras. Ele preferia muito mais se concentrar no presente.
O Glencarraig Inn era um antigo pub de propriedade familiar, situado à beira da vila, ao lado da estrada principal para Inverness. Lachlan e Alistair andaram até lá — uma caminhada de quinze minutos dos portões do chalé — e, embora o ar estivesse frio e tempestuoso, a neve parecia ter desaparecido por enquanto.
O pub em si era tão antigo quanto a cidade, e por mais de três séculos havia atendido tanto os habitantes quanto os tropeiros que conduziam suas ovelhas pelas margens do vale e paravam no local para comer e beber antes de seguir caminho para o sul, até os mercados de gado.
Enquanto entravam, uma parede de calor atingiu o rosto de Lachlan. O interior era escuro, o teto baixo, as paredes cor de vinho decoradas com cabeças de cervo e pinturas antigas. Era como entrar no passado.
— Gostaria de uma cerveja? — Alistair perguntou, erguendo a voz acima do ruído da conversa. Estava surpreendentemente cheio para um dia de semana, com a maioria das mesas ocupadas.
— Me deixe comprar uma — Lachlan falou, pegando a carteira no bolso.
— De jeito nenhum, essa é minha. Guarde o seu dinheiro.
Levaram dez minutos para chegar à mesa. Enquanto caminhavam pelo pub, todos pararam, conversando com Alistair, lhe dando tapinhas nas costas. Todos pareciam satisfeitos em vê-lo. Quando ele apresentou Lachlan, os sorrisos dos moradores locais se ampliaram enquanto perguntavam sobre seus planos, se iria se mudar para lá e oferecendo condolências pelo pai. Foi tudo um pouco sufocante.
Ele não podia deixar de pensar que, se Lucy estivesse ali, teria se sentido mais relaxado.
Quando chegaram à mesa — ainda arrumada para três —, Lachlan tomou um grande e longo gole de cerveja. Era fria e refrescante, e ele fechou os olhos por um momento, sentindo-a escorregar pela garganta até chegar ao estômago.
— Todos estão felizes por finalmente conhecer você, sabia? — Alistair comentou em voz baixa. — A fofoca da cidade atingiu o ponto de ebulição. Todo mundo quer saber o que vai acontecer com a propriedade.
— Espero que nós possamos resolver tudo isso em breve e as coisas se acalmem — Lachlan comentou.
— Isso seria legal. — O sorriso de Alistair era firme. — Até recebi um e-mail de um MacLeish que mora na Austrália ontem à noite, perguntando se era verdade que você estava brigando com seu irmão por causa da propriedade. Claro que eu respondi que isso era besteira e não fazia sentido. — Ele baixou a voz ainda mais. — Não queremos esse tipo de especulação por aí.
Lachlan disfarçou um sorriso. Havia algo em Alistair de que ele realmente gostava. O homem era honesto, direto e claramente amava estar no comando da propriedade.
— Claro que não.
— O que vocês desejam comer? — o garçom perguntou, parando na mesa deles. — Ou precisam de um pouco mais de tempo?
Lachlan olhou para o cardápio e depois voltou a olhar para Alistair.
— O que você recomenda?
— A torta é sempre boa e também tem haggis, se quiser comer algo mais tradicional — ele falou, se referindo ao prato de bucho de carneiro recheado com vísceras, tradicional na Escócia. — Mas o meu favorito é a caçarola de cervo e tatties, que é uma espécie de nabo — Alistair explicou, fechando o cardápio. — É isso o que sempre escolho.
— Vamos querer dois desse, então.
Depois que o garçom se afastou, Lachlan olhou em volta novamente, notando que vários moradores estavam olhando para ele, e então encarou uma mulher, que se virou imediatamente e começou a rir com as amigas.
— Eu vim aqui quando era criança? — perguntou a Alistair.
— Não que eu saiba. O seu pai nunca gostou muito de vir para a cidade. Ele preferia ficar na propriedade sempre que a visitava.
— Pelo que me lembro, ele não gostava muito de nada — Lachlan concordou, mantendo a voz leve.
— Ah, ele não era tão ruim. Um pouco taciturno, talvez, e difícil de definir. Mas sempre mandava presentes para o pessoal no Natal e contribuía para a feira da cidade todos os anos. — Alistair ergueu o copo de cerveja. — Pelo menos ele não empacotou tudo e vendeu a propriedade em lotes. Você ficaria surpreso com quantas propriedades das Terras Altas foram perdidas dessa maneira.
Lachlan deu um sorriso irônico.
— É como comprar empresas e dividi-las antes de vender, você quer dizer?
— Exatamente assim.
— Sim, bem, o meu pai gostava de construir coisas. Eu, nem tanto.
— O que te faz dizer isso? — Alistair perguntou. O homem se inclinou para a frente, apoiando o queixo nas mãos.
Lachlan deu de ombros.
— Eu tenho uma tendência a investir nos sonhos de outras pessoas. O meu trabalho é lucrar o máximo que puder com eles.
— E você gosta do seu trabalho? — Alistair questionou. A pergunta não soou como uma crítica. Ele parecia realmente interessado.
— Sim, eu amo o meu trabalho.
Alistair assentiu lentamente, franzindo os lábios.
— Bem, talvez você seja mais parecido com o seu pai do que pensa.