Uma Surpresa na Primavera

Carrie Elks · Capítulo 24 de 38

Páginas do PDF

Uma Surpresa na Primavera

Capítulo 24

O afeto é um carvão que deve arrefecer; do

contrário, irá incendiar o coração.

— Vênus e Adônis

 

No momento em que passou pelas portas de correr e entrou no saguão de desembarque, Lucy perdeu o fôlego. Ele estava encostado em um pilar, tentando responder a alguns e-mails enquanto examinava a multidão com o olhar distraído, sem concentrar toda a sua atenção. Mas, quando ela apareceu com o cabelo loiro enrolado caído nos ombros e o sol de Nova York entrando pela parede de vidro do aeroporto a iluminá-la, foi como se não houvesse mais ninguém ali.

E não havia. Pelo menos não para ele. Lachlan não tinha certeza do que fazer com esse sentimento, então o afastou do mesmo jeito que se afastou do pilar, diminuindo a distância entre eles com passos largos, incapaz de tirar o sorriso do rosto. Quando ela o viu seguindo por entre a multidão, seus olhos se iluminaram e o maior e mais louco sorriso se formou em seus lábios.

Ele não havia percebido o quanto estava tenso até que seus músculos relaxaram e a tensão nos ombros se desfez. Não percebeu que estava prendendo a respiração até que o ar se apressou dentro dele de uma só vez.

— Você é um colírio para os meus olhos — disse quando estava a poucos metros dela. Ela abriu a boca para responder, mas alguém esbarrou em suas costas de repente. Ela caiu para a frente, soltando a mala ao ir para o chão, e Lachlan estendeu a mão, segurando-a um segundo antes de seu rosto bater contra o piso. Ele a pegou nos braços, franzindo a testa enquanto olhava ao redor para encontrar o culpado, mas havia pessoas demais que se desviavam deles como formigas.

— Você está bem? — perguntou, olhando para ela e puxando-a contra si. Estava muito mais bonita do que se lembrava, se isso era possível.

— Estou. — Ela se endireitou e pegou a mala, olhando para ele com grandes olhos arregalados. No meio da confusão, seu cabelo havia caído sobre a testa, e ele gentilmente o afastou com os dedos, prendendo os grossos fios dourados atrás das orelhas. Uma vez que a tocou, não conseguiu tirar as mãos dela. Em vez disso, passou o polegar pela sua bochecha, queixo e lábio inferior. Mas não era o suficiente. Queria beijá-la, prová-la, deslizar a língua em sua boca quente e aveludada. Fazer tudo em que tinha pensado nas últimas duas semanas.

Quando ele roçou os lábios contra os seus, Lucy fechou os olhos, soltando a mala mais uma vez e passando os braços ao redor do pescoço dele. Seu corpo foi pressionado contra o dele, enlouquecendo seus sentidos com a presença de Lachlan, o cheiro suave e o modo como, cada vez que seus lábios se separavam, ela respirava fundo.

— Meu Deus, que saudade.

Ela abriu os olhos, sorrindo para ele.

— Eu também estava com saudade. — A expressão dela combinava com a dele: desejo, associado a algo mais profundo. Algo que ele não tinha certeza de que poderia nomear, mesmo que quisesse. Em vez disso, pressionou os lábios contra os dela novamente, a necessidade pulsando através de seu corpo.

Quando finalmente pararam de se beijar, ele segurou a mala e envolveu Lucy com o outro braço, sem querer que ela fosse empurrada novamente. Eles se deixaram levar pela maré de pessoas, seguindo até a calçada, onde a multidão enfim se dispersava. O carro parou ao lado deles em um minuto. O motorista saiu, pegou a mala, e Lachlan abriu a porta de trás para que Lucy pudesse se sentar lá dentro.

— Você tem motorista? — perguntou, com aquele sorriso bonito no rosto novamente. — Sempre te imaginei andando por Nova York em uma Ferrari.

Ele riu.

— É impossível dirigir em Nova York, quer você esteja em uma Ferrari ou em um carro velho. E, sim, eu tenho um motorista durante a semana. Isso significa que eu posso trabalhar no laptop enquanto ando por aí.

O motorista lentamente pegou a pista do meio, e Lucy olhou para o interior do Lincoln, observando o estofamento de couro na cor creme, os espaçosos bancos traseiros e o monitor fixo na parte de trás do banco do motorista. Olhou de volta para Lachlan.

— É como um escritório fora do escritório.

Ele queria beijá-la novamente. Mas não era uma limusine, e o motorista estava perto deles. E, se fosse honesto, não queria envergonhá-la, conhecendo-a do jeito como a conhecia. Ela era muito discreta — até o beijo no aeroporto não era costumeiro. Não estava planejando brincar com a sorte.

Já havia feito isso vezes demais. Não podia acreditar que ela estava realmente ali, menos ainda que havia se afastado do seu caso. A carreira era tudo para ela, e o fato de ela ter contado ao chefe sobre o relacionamento dos dois o havia surpreendido.

Essa coisa entre eles podia ter começado como uma aventura — ou pior, um desejo difícil de resistir —, mas agora era muito mais que isso. Embora o pensamento de algo sério se desenvolvendo entre ele e Lucy o assustasse, a ideia de que isso não acontecesse era pior. Só o fato de respirar o mesmo ar que ela tornava sua vida muito melhor.

— Está cansada? — perguntou, olhando para ela com carinho. — Ou com fome? Podemos parar e comprar algo para comer no caminho do apartamento, se você quiser.

— Você não precisa voltar ao trabalho? — ela perguntou, checando o relógio. — Ainda está de tarde. Achei que você ia querer ir direto para o escritório.

— Eu estava planejando te levar direto para casa — respondeu. E seu tom não deixou espaço para dúvidas a respeito do que ele quis dizer. Só porque precisava se conter enquanto o motorista estava a poucos metros de distância, não significava que ele não queria rasgar as roupas dela e tocá-la por inteiro.

— Ah. — Ela olhou para o motorista pelo canto do olho. Lachlan se vangloriou mentalmente por antecipar a resposta dela. Estava começando a entender o jeito como Lucy pensava. Muito diferente do dele, mas, ainda assim, muito fascinante.

— E amanhã à noite eu quero te apresentar a alguns amigos meus — ele continuou. — Se preferir fazer alguns passeios turísticos, podemos organizar também.

— Eu já estive em Nova York — ela falou —, não preciso passear. Eu vim para te ver.

Jesus, ela sabia exatamente o que dizer para fazer seu coração acelerar mais.

— Definitivamente, você vai ver muito de mim — ele disse em voz baixa. Ela sorriu, mordeu o lábio e olhou para o colo. Estava deixando-o louco com sua timidez, do mesmo jeito que sempre ficava, não importava o que ela fizesse. Ele nunca se cansaria dela?

— Esse é o plano — ela disse baixinho. Não. Ele nunca teria o suficiente dela.

 

— Ainda deseja seguir pela ponte, sr. MacLeish? — o motorista perguntou, levantando o indicador para sair pela direita. Lucy olhou pela janela para a vista adiante. A noite estava se aproximando, um brilho alaranjado atravessava a ilha de Manhattan. O horizonte se erguia e caía em um esplendor geométrico, os edifícios altos e escuros contrastando com o céu. Era de tirar o fôlego — uma mistura perfeita entre a mão do homem e natureza, tão diferente da beleza antiga de Edimburgo.

— Esta foi a minha primeira visão de Manhattan — Lachlan falou, se inclinando sobre ela para apontar a janela. — Eu tinha 8 anos. Meu pai devia ter mandado alguém me buscar no aeroporto, mas, quando entrei no saguão de desembarque, não tinha ninguém lá.

Lucy se virou para olhar para ele.

— Te deixaram no aeroporto sozinho? Em uma cidade estranha?

Ele assentiu, mas não parecia tão chateado quanto ela. Lucy segurou a sua mão e envolveu os dedos na palma como se pudesse salvá-lo.

— Encontrei um telefone público e liguei para o escritório. Ele me disse para pegar um táxi que ele pagaria na chegada. — Ele deu um sorriso irônico. — Ninguém quis me levar, e, no fim das contas, ele precisou mandar o motorista me buscar. Não sei se o meu pai disse a ele para ir devagar ou se o homem sentiu pena de mim, mas ele pegou o maior percurso só para me deixar ver a paisagem. Disse que a melhor vista de Manhattan era a da Ponte Queensboro.

— Esta ponte? — ela perguntou, olhando para a antiga construção. Situada orgulhosamente em altas torres de pedra que se erguiam da água, suas treliças de ferro subiam e desciam em perfeita simetria.

— Sim. Ele parou por alguns minutos, ignorou todos os carros buzinando atrás e me disse para dar uma boa olhada. Me contou que no passado não havia nada aqui além de campos, rios e animais. Disse que alguém havia parado aqui, do jeito que nós estávamos, e decidiu construir uma cidade. — Lachlan sorriu, os olhos cheios de lembranças. — Se o homem pôde construir Nova York, podemos conseguir qualquer coisa. Só precisávamos sonhar alto o suficiente.

— Ele não se parece com nenhum motorista que já tive em Nova York.

Lachlan riu e o som a aqueceu.

— Definitivamente, ele era único. Embora Frank — ele acenou com a cabeça para o motorista — esteja bem próximo.

— Não vou parar na ponte — Frank falou, ouvindo claramente. — Nem mesmo para o senhor.

Lachlan apertou a mão de Lucy com força, o divertimento transparecendo em seu rosto. Seu momento de vulnerabilidade se fora, substituído pela confiança a que ela estava acostumada. Ela guardou a lembrança — outro vislumbre do homem embaixo da carcaça dura e do sorriso fofo. Um lembrete do que a atraía para ele toda vez que se falavam. Os dois tiveram infâncias difíceis — cada um ao seu jeito —, e os dois eram resultado do desejo de conquistar mais do que poderiam ter. A necessidade de ter sucesso fluiu em suas veias da mesma maneira que fluía através das dela. Uma maneira de provar ao mundo que eram importantes.

Eram duas pessoas resistentes, e isso só a fez querer conhecê-lo ainda mais.