Uma Surpresa na Primavera
Capítulo 22
O amor dos jovens então não está verdadeiramente
em seu coração, mas em seus olhos.
— Romeu e Julieta
— O quê? — Grant franziu a testa, balançando a cabeça enquanto olhava para Lachlan. — Está falando sério? Acabei de reorganizar todas as suas reuniões depois de Miami e agora quer que eu faça tudo de novo? Você está louco.
O sorriso de Lachlan era irônico. Ele não podia culpar Grant por olhá-lo daquele jeito. Porque sim, definitivamente ele estava louco, mas não podia evitar. Era como um viciado, desesperado pela próxima dose. Por mais que gostasse de seus telefonemas com Lucy, a necessidade de vê-la pessoalmente o consumia.
— Só precisa mudar um dia de reuniões — Lachlan falou, tentando ignorar a maneira como Grant balançava a cabeça. — Deixe a minha agenda livre na sexta. Vou de manhã e volto no domingo à noite. Nem vai notar que não estou por aqui.
Ele nunca tinha visto Grant fazer beicinho antes, mas, com certeza, era o que ele estava fazendo. Seria engraçado se Lachlan não estivesse falando sério. Grant deu um suspiro alto, depois clicou na tela do laptop.
— Tudo bem, vou reorganizar as reuniões de sexta, mas você precisa começar a me avisar com mais antecedência, pode ser? Estou tentando administrar uma empresa aqui.
— Minha empresa — Lachlan o lembrou.
Grant ergueu os olhos do laptop, respirando fundo.
— Você está certo. Me desculpe, cara. A escolha é sua, claro que é. — Ele bateu os dedos no teclado, olhando para a tela. — Posso reservar o primeiro voo para Londres e, em seguida, uma conexão para Edimburgo. Você deve chegar lá na sexta à noite.
— Está ótimo.
— Vai me falar o motivo disso? — Grant perguntou. — Tem algo a ver com a herança?
— Mais ou menos.
Lachlan não estava pronto para dizer a verdade, não importava o quanto eram próximos. Afinal, o que havia para contar? Que ele transou com essa mulher algumas vezes e agora ligava para ela toda noite como um adolescente apaixonado, sem ideia de como ela se sentia em relação a ele? Grant ia achar que ele estava ainda mais maluco do que já achava.
— Certo, está tudo reservado — Grant falou. E já troquei o horário da reunião para a próxima semana. Está tudo pronto.
— Obrigado.
Grant olhou para ele com cautela.
— Você é o chefe. Se quiser voar para o outro lado do mundo por alguma razão que não queira me dizer, a escolha é sua. — Ele apertou os lábios por um momento, como se estivesse tentando encontrar as palavras certas. — Mas, como seu amigo, e não seu assistente, tenho que te dizer que você está me assustando. Estou preocupado com você, cara.
Lucy abriu a geladeira, sentindo o ar frio passar por ela enquanto olhava fixamente para o conteúdo. Salada, refeições prontas e duas garrafas de vinho branco estavam alinhadas nas prateleiras, mas nada que a atraísse. Fechou a porta, passou a mão sobre o cabelo preso, voltou para o sofá e pegou o laptop, colocando-o sobre as pernas cruzadas.
Estava em pânico, claro e simples. Talvez fosse o fato de que era uma noite de sexta-feira e não tinha nada para fazer. Chegou em casa, foi para o chuveiro, depois prendeu o cabelo molhado e vestiu um pijama velho. E agora eram oito horas, não havia nada na televisão e tudo o que ela tinha para entretê-la era o trabalho.
Ela realmente sabia viver.
Vinte minutos depois, estava concentrada, escrevendo um depoimento, quando seu telefone vibrou. O som quase a fez pular. Um grande sorriso surgiu em seu rosto quando viu quem era.
— Oi, Lachlan, você está adiantado. Deve ser o meio da tarde aí. — Não que estivesse reclamando. Nas últimas duas semanas, os telefonemas dele foram o ponto positivo do seu dia. A única coisa que esperava quando chegava em casa.
— Não, já é de noite.
Ela franziu a testa, olhando para o relógio novamente.
— São oito e meia aqui, então são três e meia onde você está. — Ela ouviu o som de uma buzina, embora não conseguisse identificar se estava soando pela linha telefônica ou do lado de fora da janela. Moveu o laptop para a mesa de centro à sua frente, endireitando suas anotações. Por um telefonema de Lachlan, valia a pena ignorar o trabalho.
— São oito e meia aqui também.
— Você não está em Nova York? — Uma estranha sensação a atingiu. — Onde você está? — Mas já sabia a resposta. Lucy se levantou do sofá e olhou pela grande janela georgiana. Tinha chovido mais cedo e, embora estivesse seco agora, as poças permaneciam, o brilho alaranjado das lâmpadas da rua fazia com que parecessem estranhamente etéreas. Mas não era a beleza da luz que chamava a atenção de Lucy; era o homem parado na porta da frente da sua casa, uma pequena mala ao lado e uma grande bolsa de viagem na mão.
— Ah, meu Deus, você está aqui. — Ela colocou a mão no peito para tentar se acalmar, mas o baque de seu coração era incessante. — O que você está fazendo aqui?
— Não era bem essa a recepção que eu estava esperando. — Ele pareceu se divertir em vez de se aborrecer com a resposta dela.
— Estou... — Ela teve que respirar para tentar se concentrar. — Eu não esperava companhia. Estou horrível. O apartamento está uma bagunça. Me dê cinco minutos. — O pensamento de ele vê-la assim, tão pouco educada e fora de controle, a fez entrar em pânico ainda mais. Mesmo em Paris — quando os dois estavam nus —, ela parecia estar mais sofisticada e elegante do que agora.
— Você não poderia estar horrível. E não precisa arrumar nada por minha causa. Eu vim para ver você, não o seu apartamento. Estou feliz por você estar em casa. Pensei que teria que passar a noite sentado do lado de fora, esperando você voltar da noitada.
— E como você sabe que não vou ter um encontro aqui? — Ela manteve a voz leve, flertando com ele. Interessada em ouvir sua resposta.
— Porque você não esperava companhia — ele respondeu. E ela achou que podia ver o seu sorriso da janela. — Não foi isso que acabou de me dizer?
Um carro virou na rua, espirrando água enquanto seguia em frente. Ela podia ver o seu reflexo no vidro. E sim, ela estava horrível, mas também estava muito animada.
— Não vá a lugar nenhum — ela disse, deixando a cortina se fechar. — Vou vestir algo melhor e te deixar entrar.
— Eu quero ver você desarrumada — ele falou. — Não me faça esperar. Passei as últimas dez horas voando para te ver.
Ah, para o inferno com isso. Ela praticamente correu até o botão perto da porta, apertando-o para liberar a entrada. Em seguida, ouviu passos e o barulho de uma mala sendo arrastada pelo lance de escadas. No momento seguinte, ele estava batendo na porta de sua casa, e ela a abriu, o sorriso largo, o cabelo despenteado e o pijama esquecido. Porque ele estava na sua porta e nada mais importava.
Ela não tinha certeza de quem fechou o espaço entre eles, mas em um momento estavam olhando um para o outro e, no seguinte, ele estava passando a mão pelo seu pescoço, inclinando a cabeça até que seus lábios tocaram os dela. Ela retribuiu o beijo como louca, semanas de flertes reprimidos fazendo-a jogar os braços ao seu redor e fundir o corpo ao seu sem um único milímetro entre eles. Ela havia esquecido o quanto ele beijava bem, a boca quente e exigente e os lábios que faziam todo o seu corpo cantar. Tinha se esquecido de como ele era, seu corpo rígido e forte, os ombros poderosos o suficiente para levantá-la e levá-la para dentro do apartamento depois de fechar a porta.
E, por acaso, não importava o que ela estava vestindo, porque em cinco minutos as roupas dos dois estavam espalhadas pelo chão da sala em um rastro de destruição que levava ao quarto.
Ele a deitou na cama, dando beijos em seu pescoço, peito e barriga, murmurando o quanto sentira sua falta, como sonhara com ela, como precisava estar dentro dela naquele momento. Quando finalmente a penetrou, suas pernas envolveram os quadris exigentes dele, os braços fortes a embalando como se ela fosse algo precioso, todos os pensamentos de que estava horrível haviam desaparecido completamente.
Tudo em que ela conseguia pensar era nele. Naquele momento, nada mais importava.
Eles passaram o fim de semana escondidos na cama, emergindo só para preparar uma xícara de chá ou para ir ao banheiro se refrescar. A primeira vez que realmente saíram do apartamento foi no domingo de manhã, quando o leite finalmente havia acabado e a necessidade de café havia anulado a necessidade de ficarem nus e entrelaçados. Foram caminhando até a região da Royal Mile, compraram café para viagem de uma pequena padaria na esquina e, em seguida, levaram os copos de isopor até o castelo. O sol havia saído com força total — como se tivesse ouvido que Lachlan estava fazendo uma visita e quisesse mostrar a ele o que podia fazer — e o céu azul fez maravilhas pelo arenito da cidade. Isso fez Lucy sorrir tanto que suas bochechas doeram.
— Veja isso — Lachlan falou, enquanto olhava para a vitrine de uma loja de presentes. Havia um manequim vestindo uma camiseta azul com EU AMO A ESCÓCIA escrito no peito. — Você acha que se eu usar essa camisa posso ganhar o caso? — Ele sorriu para ela, o que fez seu corpo todo esquentar.
— Se você usar isso — ela respondeu, tomando um gole de café —, eu mesma vou subornar o seu irmão para cair fora.
Ele entrelaçou a mão na dela, colocando as duas no bolso da jaqueta quando chegaram ao Portão de Portcullis. Acima da entrada, bandeiras balançavam ao vento nos postes. As pessoas corriam pelo portão, parando para comprar ingressos. Lucy e Lachlan se inclinaram na ponte de pedra, observando-os entrar e sair, com o braço em volta da cintura um do outro.
— Venha me visitar em Nova York — ele disse, se virando para roçar os lábios na testa dela.
— Não posso.
— Por que não? — Ela o sentiu endurecer ao seu lado.
Ela fechou os olhos, desejando que o momento perfeito pudesse voltar. Mas, em vez disso, uma enxurrada de pensamentos a percorreu, fazendo-a querer suspirar.
— Porque eu sou sua advogada e você é meu cliente. Se eu for para Nova York, estou assumindo que estamos em um relacionamento, e não posso fazer isso e te representar no caso.
— Você não acha que nós estamos em um relacionamento agora? — ele perguntou. Havia um misto de diversão e confusão em sua voz.
— Não sei — ela admitiu. Não se permitiu pensar sobre isso. O medo a fez trancá-lo em um compartimento dentro de si. — Provavelmente. — Ela umedeceu os lábios, saboreando o café em sua língua. — Acho que eu poderia considerar Glencarraig um evento único e talvez até Paris. Mas, depois disso, não sei. — Ela balançou a cabeça, tentando pensar. Ele tinha voado até lá só para vê-la. Não por motivos comerciais. Eles nem mencionaram o caso até agora.
— Lucy, olhe para mim. — Sua voz era forte. Ela virou a cabeça, seu rosto questionador. Ele estendeu a mão e segurou a bochecha dela com a expressão mais doce no rosto. — No que me diz respeito, isso não é um evento único, um casinho ou o que você quiser chamar. Vim até aqui porque queria te ver, queria passar um tempo com você. E quero que você vá para Nova York passar um tempo comigo.
— Mas o caso...
— Que se dane o caso. Eu te demito se for preciso. — Ele moveu a mão para trás, deslizando os dedos pelo cabelo dela. — Glencarraig pode esperar, mas eu não. Eu quero que você vá me ver.
— Me deixe conversar com o meu chefe amanhã — ela falou, com a garganta tensa de emoção. Não podia acreditar que estava considerando o pedido. A carreira sempre fora a coisa mais importante em sua vida, assim como a família, e admitir a Malcolm Dunvale que estava se relacionando com um cliente não ia fazê-la ganhar pontos. — Vou pedir para ser afastada do caso.
Os olhos de Lachlan permaneceram suaves enquanto ele olhava para ela.
— Você faria isso por mim? — Ele se virou até ficarem frente a frente, ainda procurando por sua resposta.
Ela cerrou os dentes, tentando imaginar o que Malcolm diria. Esse pensamento a fez se sentir mal. Passara toda a vida trabalhando para chegar aonde estava agora. Anos de estudo, seguidos por anos de trabalho, fazendo todas as horas extras necessárias para subir ao topo. Pensar em arriscar tudo a assustava demais.
Mas pensar em não ser possível ver o homem à sua frente a assustava ainda mais. Ela não conseguia identificar quando começou a se apaixonar. Teria sido naquela primeira noite em Miami, quando sentiu uma atração enorme por ele? Ou teria sido em Glencarraig, quando ele a pegara no colo com facilidade e a levara para a cama para aquecer seu corpo congelado?
Ela só sabia que toda noite ia para a cama com um sorriso no rosto porque ele ligava. E agora ele estava ali, tinha viajado muito tempo só para passar o fim de semana com ela, e parecia que tudo o que ela achava que sabia sobre o mundo estava errado.
— Sim — ela disse suavemente. — Eu faria isso por você.