Uma Surpresa na Primavera

Carrie Elks · Capítulo 26 de 38

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Uma Surpresa na Primavera

Capítulo 26

Um paraíso na Terra que ganhei te cortejando.

— Tudo está bem quando acaba bem

 

— Você está bem? — Lachlan perguntou. Lucy estava deitada na cama, o cabelo loiro espalhado sobre o travesseiro branco, os olhos abertos e olhando para o teto. — Não consegue dormir?

Ela olhou para ele.

— Na verdade, não. Estou acordada há horas. — Ela se mexeu no colchão, apoiando a mão na bochecha. — Me desculpe se te acordei.

Atrás dele, os números vermelhos do relógio indicavam que passava das quatro da manhã.

— Não me acordou — ele disse, embora sua voz ainda parecesse sonolenta. — Acabei de me virar e vi você deitada aí. — Ele estendeu a mão, acariciando o rosto dela com a ponta dos dedos. — Acha que consegue voltar a dormir?

— Mesmo que eu não consiga, você deveria. Não precisamos acordar tão cedo.

Ele sorriu.

— Sei de uma boa maneira de te cansar.

— Envolve comprimidos? — ela perguntou.

— Não, mas envolve engolir.

Ela começou a rir. Lachlan se virou na cama, estendendo a mão para acariciar sua bochecha.

— De onde veio isso? — ela murmurou, passando o dedo pelas costas da mão dele, traçando uma pequena linha irregular sob o polegar.

Ele puxou a mão para trás, franzindo a testa. Lucy não pôde deixar de se lembrar do aviso de Jenn. Lachlan não gostava quando chegavam perto demais.

— Não precisa me dizer se não quiser — ela sussurrou.

— Não é grande coisa. — Ele deslizou a mão de volta para a dela. — Lembra que eu te falei que quebrei o vaso da minha mãe? Foi quando consegui essa cicatriz.

Ela a localizou novamente, inclinando-se para vê-la à meia-luz. O sol estava nascendo, os raios do amanhecer atravessavam as cortinas transparentes.

— Se machucou?

— Não lembro. Eu tinha só uns seis ou sete anos.

— Mas você disse que a sua mãe havia saído. Você tinha babá?

Ela o sentiu balançar a cabeça, o movimento movendo o peito dele onde sua cabeça estava apoiada.

— Não, eu estava sozinho.

— Ela deixava você sozinho tão novo? — Lucy franziu a testa, os dedos se entrelaçando aos dele. Outro lembrete de que ele havia sido negligenciado quando criança. Ela desejava voltar até aquele momento para pegar o jovem Lachlan nos braços. Era estranho como um homem tão forte e viril poderia despertar seu instinto maternal. — Isso não era ilegal?

Ele deu de ombros.

— Ela tinha que trabalhar. Mal podia manter um teto sobre a nossa cabeça, então pagar uma babá estava totalmente fora de questão.

— Ela não podia trabalhar enquanto você estava na escola?

A voz dele era baixa.

— Casas noturnas não costumam ficar abertas durante o horário de aula.

Os olhos de Lucy se arregalaram.

— Você ficava sozinho a noite toda? Meu Deus, e se alguma coisa acontecesse? — O estômago dela se apertou com o pensamento. — Não posso imaginar quanto isso deve ter sido assustador para uma criança dessa idade.

Ele lhe deu um meio-sorriso.

— Eu quebrei o vaso em uma crise de sonambulismo. O acidente me acordou. Estava com tanto medo que tentei pegar todas as partes do vaso e foi quando um dos cacos me cortou. — Ele engoliu em seco, o pomo-de-adão movimentando. — Escondi as peças por dias, esperando que ela não notasse. Até que a avó do Grant me contou sobre o Kintsugi.

— Fiquei surpresa quando você me disse que morou ao lado de Grant quando era criança — ela falou. — Não sabia que havia sido assim que vocês se conheceram. Presumi que tivesse sido no trabalho.

— Eu o conheço desde sempre. Nós praticamente crescemos juntos. Nos aproximamos de um jeito estranho. Os pais dele trabalhavam o tempo todo em um restaurante no centro de Miami, então ele sabia como eram as coisas. Mas ele tinha a avó. Ela também morava com eles. Mas nos deixava praticamente por conta própria.

Ela fechou os olhos, respirando o cheiro de sua pele.

— Você teve que crescer rápido.

— Naquele bairro, todos nós tínhamos. Lá era briga de cachorro grande. A gente precisa aprender a se defender. E a melhor forma de defesa era atacar. — Ele flexionou a mão sob o toque dela, fechando-a em punho.

— Mas e o seu pai? — ela perguntou. — Não ajudava? A sua mãe não podia processá-lo por pensão alimentícia ou algo assim?

— Às vezes ele mandava dinheiro — ele disse —, mas a minha mãe nunca foi boa com isso. Lembro de chegar em casa nos dias em que ele mandava dinheiro e ver os armários cheios de comida, roupas novas para mim e para ela. Mas, na semana seguinte, voltávamos às migalhas e ao trabalho duro. — Ele sorriu. — Roupas novas não fazem muito por um estômago vazio.

— Mas deve ter sido difícil saber que ele tinha todo aquele dinheiro e vocês não tinham nada. — Ela passou o dedo para cima e para baixo na parte interna do braço dele, observando os tendões flexionados sob seu toque. Ela o sentiu pressionar os lábios contra a sua cabeça, inspirando.

— Eu não gostava de visitá-lo — Lachlan explicou, com a voz abafada pelo cabelo. — Não por causa do contraste. Acho que, quando você é criança, não questiona coisas assim. Mas porque eles eram ruins. A mulher dele nunca gostou de mim, e não posso culpá-la por isso. Mas, quando você tem 10 anos e as pessoas ficam exibindo riqueza na sua frente, dói pra caramba. — Ele passou o dedo pela coluna dela, seguindo a curva formada na posição que estava deitada. — E o Duncan levou as coisas a um nível totalmente novo. Qualquer coisa que eu fazia, ele tinha que ser melhor. Se eu mencionasse que gostava de futebol, no dia seguinte ele ganhava ingressos para a temporada e uma camisa nova dos Dolphins. Nas raras ocasiões em que eu ganhava alguma coisa, acabava desaparecendo ou sendo quebrada.

Lucy piscou.

— Seu pai não fazia nada?

Ela podia senti-lo balançar a cabeça, seus lábios se movendo contra o cabelo dela.

— Ele não estava por perto a maior parte do tempo. Era workaholic, no caso de você estar se perguntando de onde eu puxei isso. Acho que ele gostou da ideia de ter uma família grande e feliz, mas quando não deu certo, simplesmente nos deixou.

A língua dela parecia uma lixa.

— Eles parecem um bando de idiotas.

Ele riu, seu peito subindo por baixo da bochecha dela.

— Essa é uma descrição tão boa quanto qualquer outra.

Ela levantou a cabeça, olhando diretamente para os profundos olhos azuis dele.

— Mas você se provou a eles, certo? Se tornou alguém, tem seu próprio negócio. Você é um sucesso. — Cada centímetro dele demonstrava isso, deitado ao lado dela. Era quase impossível manter as mãos longe dele.

O canto de sua boca se curvou.

— Acho que sim.

— O que mais há para provar?

— Nada. E acho que é mais do que provar alguma coisa para eles. Tem a ver comigo. Com o meu sucesso, o meu caminho. Quero ser visto como alguém mais que simplesmente o filho ilegítimo do meu pai. — Envolvendo seus braços ao redor dela, ele a puxou até que seu corpo descansasse sobre o dele. Em seus braços, tudo parecia certo.

— Sabe, sou muito boa com as mãos. Eu poderia fazer cócegas até a morte em todos, se você quiser. — Ela sorriu para ele com malícia, passando os dedos pelas laterais do seu corpo. Ele soltou sua cintura, estendendo a mão para segurar os pulsos dela.

— Não quero que você faça cócegas em mais ninguém — ele falou.

— Nem em você.

— Verdade. — Seu sorriso se alargou. — De qualquer forma, você vai conhecê-los pessoalmente no sábado.

— Sábado? — ela perguntou. — O que nós vamos fazer no sábado? — Ela pensou no fim de semana. No fato de que voltaria para casa no domingo. De volta a um país e a uma vida que parecia mais do que a meio mundo de distância.

— Nós vamos a uma festa. — Ele esfregou os polegares em pequenos círculos ao redor dos seus pulsos. — Você, eu, Duncan e metade de Nova York.

— Seu irmão não mora em Miami?

Lachlan deu de ombros.

— Eles vivem em todo lugar. Como eu, o meu irmão tem negócios aqui, da mesma forma que o nosso pai sempre teve. Além disso, o baile é para a instituição de caridade favorita do meu pai.

— E você quer ir comigo? — Ela se sentiu desconfortável com o pensamento. — Por quê?

— Porque eu quero te mostrar. Quero mostrar a eles que sou um vencedor, com uma mulher linda e inteligente ao meu lado. — Soltando seus pulsos, ele segurou seu rosto entre as mãos, passando o quase beijo suave pelos lábios. — Vamos ao baile, Cinderela?

Os olhos dele brilhavam. Ela se sentiu afundar neles, como se fossem feitos de ferro fundido. Duros, quase impossíveis de quebrar, mas, de alguma forma, se tornando um.

Ela pensou no fato de que estaria voltando para casa no domingo de manhã. Que os parentes dele estariam na festa, observando-o, odiando-o, tratando-o como merda. Seu corpo inteiro ficou tenso. Logicamente, ela sabia que Lachlan MacLeish era mais do que capaz de cuidar de si mesmo. A maneira como seus músculos se flexionavam sob o corpo dela era o suficiente para provar isso. E, ainda assim, ela sentiu uma necessidade primordial de protegê-lo — ou, pelo menos, o garoto que ele havia sido. O mesmo desejo que ela sentia com suas irmãs.

Olhando para ele, ela assentiu, engolindo para aliviar a secura da garganta. Mesmo assim, sua voz estava rouca quando falou:

— Claro, eu vou com você.

O sorriso que ela recebeu de volta foi de tirar o fôlego.

Ele a envolveu em seus braços, de conchinha, os bíceps fortes ao seu redor. Suas pernas pressionaram as dela, de modo que ele estava espelhando sua posição. Ela podia sentir seu peito apertar com a sensação dele a abraçando, seu corpo quase como um escudo para afastar o mal.

Não estava acostumada a ser protegida. Nem cuidada. Mas a sensação a fez se sentir aquecida, como se ele tivesse acendido um fogo dentro dela que nunca apagaria.

Ela estava se apaixonando por Lachlan MacLeish. Tinha visto além da persona que ele mostrava ao mundo, quebrou a casca que ele usava para se proteger e vislumbrou o homem lá dentro.

Talvez Jenn estivesse errada. Talvez dessa vez fosse diferente. Porque Lucy estava apaixonada por ele e não tinha ideia do que fazer com isso.

 

— Droga, estamos sem café. — Lachlan fechou a porta do armário, a louça do lado de dentro se balançando em protesto contra a sua veemência. — É isso o que acontece quando dou uma semana de folga para a governanta. Minha vida vira um inferno.

Lucy cruzou as pernas nuas enquanto se sentava no banquinho da cozinha, encostada na bancada. Estava vestindo apenas uma camisa branca e calcinha, que encontrou no topo da mala.

— Por que deu a semana de folga a ela?

Ele se virou para olhá-la, seu rosto ruborizado.

— Porque prefiro não ser interrompido enquanto estou transando com você no sofá.

Ela reprimiu uma risada.

— Acho que vamos ter que ficar sem café, então.

Lachlan balançou a cabeça.

— Isso não é uma opção. Sem café não consigo me concentrar. E nós temos muito o que fazer hoje.

Ela franziu a testa, balançando a perna para trás e para a frente.

— Achei que a gente fosse fazer compras. — Não por escolha dela, mas Lucy não tinha nada adequado para o tipo de evento a que compareceriam no sábado.

— E vamos — ele concordou, calçando os sapatos e pegando a jaqueta. — Mas precisamos de algum sustento. Tenho gostos muito específicos quando se trata de roupas.

— Eu também — ela falou, inclinando a cabeça para o lado. — Isso pode ser interessante.

— Tudo sobre você é interessante. — Ele pressionou os lábios nos dela. — Agora, volte para cama que eu vou levar o seu café lá. Temos quatro horas até o nosso compromisso na Bergdorf.

— E temos trabalho a fazer também. — Ela não pôde deixar de se sentir culpada por todos os e-mails que se acumulavam em sua caixa de entrada. Mesmo que devesse estar de férias, ainda precisava manter as coisas sob controle. Sua carreira dependia disso.

— Isso pode esperar. — Ele pegou as chaves do balcão, colocando-as no bolso da calça jeans. Cada centímetro dele parecia o namorado rico e casual. O cabelo ainda estava molhado do chuveiro, o jeans e a camiseta que usava eram caros. Ele havia se barbeado na noite anterior, mas o queixo estava áspero pela sombra da barba que crescia. Às vezes ela tinha que se beliscar para ter certeza de que não estava assistindo a um anúncio de perfume quando ele estava por perto.

Mas, como em um anúncio, o tempo que passaram juntos era breve demais. Já era quarta-feira — e parecia que ela mal havia chegado. O fim de semana chegaria em um piscar de olhos e, antes que ela percebesse, voltaria para Edimburgo. Como em O Mágico de Oz, ela bateria o salto de seus sapatos vermelhos para deixar a bela terra colorida para retornar a uma vida em preto e branco.

Pare com isso, disse a si mesma. Não era uma existência maçante. Ela havia trabalhado duro para conseguir tudo o que tinha: um lindo apartamento, um emprego fabuloso, uma família que amava mais do que a própria vida. E ela ainda tinha Lachlan, mesmo que de longe por um tempo.

Desceu do banquinho, os pés descalços encostados no chão de madeira polida e quente. Estava quase no quarto quando ouviu o som de um telefone.

O telefone de Lachlan.

Virando-se, ela viu a luz acesa no balcão, o aparelho vibrando contra o mármore enquanto tocava. Ele deveria ter se esquecido de levar com ele. A curiosidade a impulsionou para mais perto, até que ela pudesse ler o nome impresso na tela iluminada.

Grant.

Sem pensar, ela atendeu, levando o aparelho a orelha.

— Telefone de Lachlan MacLeish.

— E... — Grant pareceu momentaneamente desconcertado com a voz dela. — Lucy, é você?

— Oi, Grant. O Lachlan saiu por um minuto. Ele esqueceu de levar o telefone. Quer deixar algum recado?

Grant soltou um suspiro alto.

— Droga. Sabe quando ele volta?

Alarmada pelo tom dele, Lucy sentiu o corpo enrijecer.

— Não vai demorar. Algum problema?

— Ele devia estar em uma reunião. Os caras vieram da Alemanha só para isso. Mandei um e-mail ontem à noite para lembrá-lo. — A raiva de Grant era palpável. Ela sentiu arrepios em sua pele.

— Acho que ele não viu.

— Mas ele sempre checa os e-mails. — Sua voz se elevou.

— Certo — ela não queria discutir com ele. Ele era amigo de infância de Lachlan, mesmo que estivesse sendo um pouco exagerado. — Bem, vou pedir para ele te ligar assim que voltar.

— Você não pode ir encontrá-lo?

— Ele acabou de sair para comprar café. — Ela passou o dedo na bancada de mármore no formato de um oito. — Ele volta logo.

— Café? — Ele tossiu alto. — Sério?

— Ele não perderia a reunião de propósito. Vou fazê-lo te ligar no minuto em que ele chegar.

— Desculpe, Lucy, não quero ser grosseiro com você. Eu simplesmente não entendo. Essa empresa é tudo para ele e não quero que ele estrague as coisas. — Grant fez uma pausa por um momento, depois deu outro longo suspiro. — Desculpe, tenho certeza que vai ficar tudo bem. Só me ignore.

— Ele não vai estragar nada — Lucy falou, com a voz firme. — O sucesso significa tudo para ele.

Da mesma forma que significava para ela. Ou, pelo menos, era como se sentia antes de Glencarraig e aquela noite roubada no quarto dele. Depois disso, ela não sabia o que era mais importante.

E agora, olhe para ela, ficando com um ex-cliente, embora as fofocas na Robinson e Balfour devessem ter feito horas extras. Seu coração começou a bater mais rápido, como se estivesse batendo em uma porta contra suas costelas. Eles estavam fazendo a coisa certa.

Não estavam?

— Vou pedir para ele ligar de volta assim que chegar aqui — ela garantiu, com a voz baixa. Seus olhos se fixaram na porta, na direção do corredor. Permaneceram imóveis. Seu estômago, no entanto, era um assunto diferente. Balançava dentro dela como se estivesse saindo de uma montanha-russa, o abdome se contraindo quando uma sensação de mau pressentimento a atingiu.

Lachlan estava negligenciando o trabalho havia semanas. Ela também. A realidade estava batendo à porta, e, por mais que ela tentasse ignorar o barulho, era questão de tempo antes de tudo explodir na vida dos dois.