Uma Surpresa na Primavera
Capítulo 21
Compreendo a fúria em suas palavras.
— Otelo
Eram dez da noite quando ela finalmente chegou em casa. Ainda estava usando o terninho que vestira naquela manhã e puxando a pequena mala atrás de si. Remexendo na bolsa, encontrou a chave, deslizou-a na fechadura e abriu a porta para entrar.
Lar, doce lar. E estava com um cheiro doce mesmo. Elena estivera lá — podia dizer pelo jeito como tudo parecia limpo, arrumado e com o cheiro floral dos produtos de limpeza que ela usava. Lucy puxou a mala para dentro, depois se virou para fechar a porta, mas, antes que pudesse, o familiar flash de pelo amarelo passou por ela.
Tentou pegar a gata, que foi mais rápida e seguiu direto para a cozinha. Fechando a porta com o pé, Lucy decidiu se preocupar com a intrusa mais tarde. Talvez até a deixasse ficar por um tempo aconchegada no seu colo. Sabia que um pouco de calor e contato poderia fazer algum bem às duas.
Tirou os sapatos e colocou-os com cuidado no armário do corredor, depois tirou a jaqueta e a pendurou em um cabide acolchoado ao lado dos outros paletós — alguns ainda nas embalagens da lavagem a seco. Quando se virou para entrar na cozinha, viu o enorme buquê de flores em um grande vaso de vidro sobre a mesa. Estendendo a mão para tocar as pétalas, encontrou um cartão branco aninhado entre o ramalhete.
A gata se esgueirou por suas pernas, o pelo sedoso acariciando seus tornozelos enquanto Lucy abria o cartão. Ao desdobrá-lo, viu uma impressão simples no interior.
Pensando em você. Lachlan.
Traçou as palavras impressas com o dedo, depois olhou para as flores. Lírios brancos estavam misturados com rosas cor-de-rosa claríssimas, entremeadas por orquídeas vermelhas e galhos de urze. Inspirou o aroma por um momento e abriu um sorriso genuíno pelo que parecia ser a primeira vez desde sempre.
Ele era seu cliente e, por alguns dias, também foi seu amante. Agora estava sendo um amigo, e isso a tocava de forma mais profunda do que poderia dizer.
Pegou o telefone e foi para a sala, a gata seguindo logo atrás. Quando se sentou, a gata malhada saltou para o sofá, depois se encolheu de encontro à sua perna.
A chamada se completou em menos de vinte segundos. Quando ele atendeu, sua voz profunda ecoando pela linha, o sorriso dela se alargou.
— Lachlan — falou o nome dele, estendendo a mão para acariciar a gata ao seu lado. — É a Lucy. Liguei para agradecer pelas flores.
— O que está fazendo agora? — Lachlan se recostou na cadeira de couro, cruzando os tornozelos na mesa. Do lado de fora da janela do escritório, o céu de Nova York começava a escurecer, o sol do início da noite deslizando em direção ao topo dos prédios altos.
— É uma ligação pessoal ou profissional? — Lucy perguntou. Sua voz soou como uma risada.
Fazia algumas semanas que havia ligado para agradecer o buquê de flores e, de alguma forma, tinham adquirido o hábito de conversar à noite antes de irem para a cama.
E sim, estava muito além do relacionamento normal entre cliente e advogado, mas, francamente, ele não dava a mínima. Esperava por essas conversas durante todo o dia.
— Isso importa? — ele perguntou.
— Claro. Se for profissional, eu preciso cobrar. Além disso, estou trabalhando em um contrato para outro cliente, então você vai ter que me ligar de volta pela manhã.
— Está me provocando?
— Talveeez. — Ela deixou a palavra se esticar.
— Não gosto que você trabalhe para mais ninguém — Lachlan disse. — Você devia estar gastando todo o seu tempo comigo. Por que eu não sou o laird de Glencarraig ainda?
— Os processos judiciais seguem lentamente aqui. Nós estamos lidando com séculos de história, você sabe. Por que está com tanta pressa?
— Talvez eu queira a propriedade — respondeu. — Isso impressiona as garotas.
— Ah, é mesmo?
— Te impressionou — ele falou baixinho.
— Sim, verdade.
Uma batida na porta tirou sua atenção da ligação. Ele olhou para cima para ver Grant entrando, carregando uma caneca fumegante de café. Lachlan cobriu o bocal.
— Obrigado.
— Estou saindo. Nós temos curso pré-natal. Te vejo amanhã?
Lachlan assentiu.
— Nos vemos, sim.
— Tudo bem? — Grant se demorou, lhe dando um olhar interrogativo.
— Está, sim. Só preciso atender esta ligação. — Lachlan inclinou a cabeça para o celular.
— Tudo bem, então. Tenha uma boa noite.
— Você também.
— E diga oi para ela por mim. — Com isso, Grant saiu da sala. Lachlan revirou os olhos para a porta fechada e levou o telefone de volta ao ouvido.
— Me desculpe por isso. Meu assistente estava saindo. — Ele pegou o café, tomando um gole. — Agora, onde estávamos?
— Você estava me impressionando — Lucy respondeu.
— Verdade. Talvez eu possa te impressionar de novo daqui a algum tempo.
— Isso é um eufemismo? — ela perguntou, sua voz aquecida com humor. — Eu devia te dizer o quanto você é impressionante?
— Sinta-se à vontade. — Ele sorriu para si mesmo.
— Você não tem nada melhor para fazer além de conversar com alguém a milhares de quilômetros de distância? Tipo trabalhar?
— Estou trabalhando — Lachlan protestou, abrindo os e-mails no laptop como se para provar o que dizia. — Posso ser multitarefa, sabia?
— O que você está fazendo?
— Lendo meus e-mails. — Ele não sabia por que estava mentindo. Para provar uma teoria?
Deus sabia qual.
— Engraçado. Enviei um e-mail para você faz cinco minutos e recebi a notificação de entrega imediatamente. Você o viu?
— Eu vi que entrou, mas ainda não li.
— Que pena, é uma foto nua. Vou lembrar disso — ela brincou. — Você não está lendo e-mails, está? Ainda não conheci um homem que consiga ser multitarefa.
— Você está sendo muito sexista, srta. Shakespeare. Presumindo que não consigo ser multitarefa e depois pensando que vou me distrair com fotos nuas. Que tipo de homem você acha que eu sou?
— Já olhou o e-mail?
— Claro que sim. É um documento, não uma foto. E agora estou desapontado. Queria a Lucy nua.
— Você teve a Lucy nua.
E ele a queria de novo. Isso o estava deixando louco.
— Venha me ver neste fim de semana. Vou marcar um voo.
— Não posso simplesmente viajar sem mais nem menos — ela respondeu. — Além disso, eu tenho compromisso.
Ele traçou o lábio.
— Então, quando eu posso te ver? — perguntou a ela.
— No fórum?
Ele riu.
— Isso é uma ameaça?
— Estava pensando que era mais como uma promessa. — Sua voz estava mais suave. Ele olhou para o relógio na parede do escritório. Eram quase sete da noite em Nova York, o que significava que era quase meia-noite em Edimburgo. Estranho como ele adicionava cinco horas em tudo nos dias atuais. Quando chegava ao escritório, automaticamente sabia que estava na hora do almoço em Edimburgo, e, nas raras ocasiões em que realmente tinha tempo para almoçar, imaginava Lucy caminhando para casa pelas ruas molhadas, evitando as enormes poças que se acumulavam nos caminhos irregulares.
Em suma, estava obcecado e sabia disso. Ele simplesmente não sabia o que fazer com esse conhecimento.
— Você tem que ir para a cama — ele falou, se reclinando na cadeira.
— E você tem que ir para casa e comer alguma coisa — ela respondeu, parecendo cansada. — Antes que você desapareça.
— Boa noite, Lucy.
— Boa noite.
— Mesma hora amanhã?
Havia um sorriso em sua voz quando ela respondeu.
— Estarei aqui.
Para ele, isso era um encontro.
— Tente não se preocupar. Nós identificamos cedo desta vez. Eu sei que parece assustador, mas ela está no melhor lugar. — A enfermeira virou para olhar para ele enquanto ajustava o monitor acima da cabeça da sua mãe. Ele não se lembrava de tê-la visto da última vez que a mãe esteve ali. Talvez fosse nova.
Lachlan assentiu, tentando ignorar o modo como todos os músculos de seu corpo pareciam doer. Já devia estar acostumado com isso — os telefonemas frenéticos, a reserva apressada de passagens, a corrida louca até o aeroporto.
Com toda a confusão, havia perdido a ligação para Lucy, e não poder falar com ela o estava deixando nervoso. Como na época em que ele desistiu de cafeína e todo o seu corpo tensionou. Durara menos de dois dias sem a bebida. Tinha certeza de que duraria ainda menos sem falar com ela.
A enfermeira abriu um sorriso simpático.
— O plantonista da noite vai passar daqui a meia hora. Por que não vai tomar um café? O daqui não é tão ruim para um hospital.
Lachlan não se incomodou em discordar, embora soubesse a verdade.
Tudo parecia muito familiar — a caminhada até o café pelos corredores brancos, as portas automáticas que pareciam abrir com pressa. As cadeiras vazias, o barista encostado no balcão parecendo muito entediado. Lachlan desempenhou seu papel, pedindo o café, tamborilando na tela do celular e levando o copo de isopor para o canto. Tomou um gole por um momento, sem ter certeza se a dose extra que havia pedido o fazia sentir melhor ou pior.
Apoiou a cabeça na parede, suspirando, seus olhos se fechando por tempo suficiente para a respiração se tranquilizar e seu corpo relaxar na cadeira. Quando voltou à realidade com um pulo, meia hora havia se passado e o café tinha esfriado. Esticando os braços, voltou ao balcão e pediu outro, dessa vez determinado a ficar acordado.
Pegou o celular do bolso, ligando o aparelho pela primeira vez desde que chegara a Miami. Quase imediatamente a mensagem apareceu na tela.
Senti sua falta esta noite. Espero que esteja tudo bem. Lucy
Quando foi a última vez que alguém lhe disse que sentia sua falta? Ela era a única pessoa a perceber que ele não estava por perto. Eram palavras simples, mas inflamaram uma necessidade nele que era impossível ignorar.
Pressionou o nome dela e, em seguida, o botão verde de chamada, ciente de que era cedo ou tarde demais para ligar. Ainda assim, se viu levando o telefone ao ouvido, desejando que ela atendesse, desesperado para ouvir sua voz.
Estava mais longe do profissional do que nunca, mas, naquele momento, não dava a mínima.
— Alô? — Sua voz estava sonolenta quando ela atendeu a chamada, as pálpebras mal se abrindo. Sentiu o coração acelerado. Um efeito colateral da adrenalina que começou com o toque estridente do telefone. Ela nem se incomodou em verificar o identificador de chamadas. Tinha certeza de que era sobre o pai.
— Lucy?
Ela reconheceu sua voz imediatamente. Profunda, masculina e com o sotaque que fazia seu corpo reagir mesmo quando meio adormecida.
— Lachlan, é você? Está tudo bem? — Ela estendeu a mão para acender o abajur. — Que horas são aí?
Houve uma pausa. Ela o imaginou verificando o Rolex caro, o relógio de ouro brilhando contra sua pele.
— Quase duas da manhã.
— E você ainda está acordado? — Ela se sentou, esfregando o rosto com a palma das mãos. Lentamente, os olhos se ajustaram à penumbra. Raios de luz invadiam seu quarto através das aberturas das cortinas, embora fossem suaves o suficiente para ela dizer que era muito cedo. Olhou para o relógio ao lado da cama.
Seis e quarenta da manhã.
— Recebi sua mensagem — ele falou. Parecia estranho, como se sua voz estivesse ecoando pela sala. — Sinto muito ter perdido nossa ligação ontem à noite. Tive que pegar um voo para Miami.
— É onde você está agora? No aeroporto?
— Estou no hospital.
Bem, isso a acordou.
— Por quê? Está ferido? — Uma dúzia de diferentes cenários percorreu seus pensamentos. E era estupidez, mas ela estava começando a entrar em pânico. A ideia de algo acontecer com ele a fazia se sentir mal.
— Não há nada de errado comigo. É a minha mãe.
O coração de Lucy desacelerou. Ela conhecia muito bem aquele sentimento. Estivera em vários hospitais muitas vezes para não ser solidária.
— Ah, não. Lamento ouvir isso. — Ela parou por um momento, recuperando o fôlego. — Aconteceu alguma coisa com ela?
— Há algum tempo ela está doente. Tem DPOC. — Sua voz era suave, incerta. Isso despertou todo o instinto carinhoso em Lucy.
— DPOC — ela repetiu. — O que é isso?
— Doença pulmonar — ele respondeu. — Não é câncer, mas tem a ver com cigarro. Ela tem isso há anos.
— Tem cura? — ela perguntou. — Ela vai melhorar? — Tudo em que ela conseguia pensar era naquela videoconferência, quando ele a dissuadira do pânico sobre o pai. Ela deveria ter adivinhado que eles também tinham isso em comum. Que ele sabia exatamente como era ter um pai doente.
— É uma condição crônica. — Ele manteve a voz baixa. — Não tem cura. Mas também não mata, pelo menos não sozinha. Mas a doença deixa o corpo sem oxigênio, tornando o paciente mais suscetível a infecções e insuficiência cardíaca. Ela está com pneumonia agora.
Lucy se recostou na cabeceira acolchoada e fechou os olhos. Ela faria qualquer coisa para afastar a dor dele — e sabia o quanto doía.
— Sinto muito.
— Obrigado.
— É difícil encontrar uma resposta adequada para isso, não é? Penso o mesmo com meu pai. As pessoas me dizem que sentem muito, mas nunca sei o que dizer a elas. Deveria sentir mesmo? Não tenho certeza se isso funciona.
Pela primeira vez ele riu.
— É uma maneira de calar as pessoas.
— É horrível ver os pais passando por algo assim. Quando a minha mãe morreu, bem, foi rápido. Terrível, mas rápido. Mas, quando eles começam a se desfazer, é insuportável. Você se sente muito inútil.
— Imagino que qualquer forma seja horrível. — Ele respirou fundo. — Como está o seu pai?
Ela se arrastou na cama.
— Está bem. Que eu saiba, não houve mais incidentes. Mas ele não fala mais comigo ao telefone, diz que não gosta. — Ela balançou a cabeça. — É uma merda, não é?
— É, sim. Sinto muito pelo seu pai, Lucy.
— Deveria sentir mesmo.
Ele riu e foi como se o sol tivesse saído. Ela sorriu também, aproveitando o momento mais leve. Ela se contorceu sob as cobertas, esticando as pernas na frente do corpo.
— Onde você está agora? — perguntou. — Você pode usar o telefone no hospital? Não interfere nos equipamentos ou algo assim?
— Estou no café — ele respondeu. — O único equipamento em que vou interferir é na máquina de café. E, pelo sabor desse espresso, seria uma bênção.
Ela deu risada.
— Onde você está? — ele perguntou. — Já deve ser de manhã aí. Já chegou no escritório?
Ela considerou mentir para ele. Mas, de alguma forma, se viu dizendo a verdade.
— Estou na cama — ela admitiu baixinho.
Outra pausa.
— Sozinha? — Sua voz mudou e a rouquidão a deixou sem fôlego.
— Sim. — Seu coração estava acelerado e não era da adrenalina dessa vez.
— Descreva o que você está usando.
— O quê?
— O que você está vestindo? — ele perguntou de novo. — Me anime. A minha mãe está doente.
— Você é o doente. — Havia um tom de riso em sua voz. A mudança abrupta no tom da conversa a deixou sem fôlego. E, ainda assim, podia sentir o quanto ele precisava dessa brevidade. E queria proporcionar isso a ele.
Queria fazê-lo se sentir melhor.
— Touché. Agora me diga o que você está usando. — Ela podia ouvir o riso em seu tom também. Soou muito melhor que a tristeza.
— Nada.
Ela ouviu um ruído, como se ele estivesse se engasgando com o café.
— O quê?
— Eu durmi nua. Eu gosto de dormir com o aquecimento ligado, mas esta noite ficou quente demais. Fiquei com preguiça de levantar para desligar o termostato, então tirei a roupa. — Muita informação. Até demais. — O pijama está no chão, e eu ainda estou debaixo das cobertas.
— Nua. — Ele disse, como se fosse uma palavra de admiração. — Você conversa nua com todos os seus clientes?
— Só com os que me ligam em horários ridículos.
— Quantos fazem isso?
— Só você, Lachlan.
Ele deu um assobio baixo. Seria de apreciação?
— Fico feliz por saber.
— Acho que preciso desligar — ela disse, sem vontade de fazer isso. — Tenho que me arrumar e ir para o escritório.
— Eu também — Lachlan respondeu, parecendo tão relutante quanto ela.
— Vou pensar em você e na sua mãe. Me avise como ela está indo, tá?
— Sim, claro. Agora pode ir. Vista alguma coisa antes que alguém te veja.
— Eu só estava me sentindo quente. Não sou exibicionista — ela apontou.
— Você é, sim.
— Exibicionista?
— Não, quente.
— Essa parece uma boa maneira de terminar a ligação.
— Tchau, Lucy. Te ligo à noite.
Ainda sorria quando saiu da cama e atravessou o carpete até o banheiro. Podia se ver no grande espelho oposto: o cabelo amassado em direções estranhas, o rosto pálido, exceto pela mancha vermelha na bochecha onde estivera apoiada no travesseiro. E o pijama rosa e azul, coberto de imagens de ovelhas adormecidas. Uma piada, presente de Cesca. Ela tinha uma queda por pijamas extravagantes.
Foi só uma mentirinha, não foi? Ele precisava de distração e foi o que ela deu a ele, mesmo que o pijama ainda estivesse totalmente vestido em seu corpo em vez de caído no carpete.
O maior problema era que ela também estava se distraindo.