Uma Surpresa na Primavera
Capítulo 13
Oh, Escócia! Escócia!
— Macbeth
A viagem para as Terras Altas havia levado pouco mais de três horas. Lucy deixou Edimburgo em meio a um chuvisco, as nuvens cinzentas lançando um manto sobre os prédios de arenito da cidade. Mas, depois que passou por Perth e pegou a estrada A90, a chuva se transformou em granizo, obscurecendo a vista das belas colinas verdes e da água azul que ela sabia que estavam lá. Assim como a primavera.
A entrada da propriedade de Glencarraig era feita através de dois enormes portões de ferro forjado, presos a muros marrons que deveriam circundar as terras. Ela conduziu o carro pelo imenso caminho de cascalho ladeado por amieiros majestosos que conduziam até a grande construção. O enorme edifício, semelhante a um castelo, era cercado por urzes, as flores roxas quase nascendo, que refletiam na água e que pareciam vidro. Ela sentiu que estava voltando no tempo, para uma Escócia que só havia conhecido na universidade, um lugar onde os clãs dominavam a terra e homens de verdade usavam kilts.
As fotos que vira realmente não faziam justiça ao lugar. E, pela primeira vez, ela teve um vislumbre do motivo pelo qual exatamente Lachlan estava lutando.
No momento em que estacionou ao lado de um grande Bentley e de um carro menor e esportivo, Lachlan abriu a porta principal e desceu os degraus. Quando ela saiu, pôde ouvir seus passos no cascalho.
Um floco de neve solitário caiu do céu cinzento, pousando em sua bochecha. Ela olhou para cima, sentindo-o derreter contra sua pele, deixando um beijo frio e úmido antes de desaparecer.
A jovem estremeceu, apesar do casaco grosso que estava usando.
— Bem-vinda a Glencarraig — Lachlan disse, estendendo a mão para pegar sua bagagem. — Chegou rápido.
Como sempre, ele parecia bastante relaxado, usando jeans escuro e suéter de cashmere cinza-claro que, de alguma forma, combinava com o ambiente. Ela respirou fundo o ar das Terras Altas, sentindo o oxigênio acalmá-la. Estava ansiosa para vê-lo novamente, mas, ao mesmo tempo, receosa. Porém, agora que estava ali, tudo parecia certo.
— Estou decepcionada — falou, olhando para as pernas dele. — Estava esperando um kilt.
Ele sorriu, conduzindo-a para os degraus que levavam ao chalé.
— Pensei em deixar para mais tarde. Não queria que você ficasse deslumbrada logo que chegasse.
Ela reprimiu uma risada.
— Espero ansiosamente por isso.
— Aposto que sim.
Um homem estava parado na entrada, onde as portas envernizadas com laca negra estavam abertas. Ele era mais velho — devia ter uns 50 anos — e usava calça marrom de lã e jaqueta de tweed com apliques nos cotovelos.
— Há quanto tempo você está aqui? — ela perguntou a Lachlan enquanto subiam as escadas.
— Cheguei há uma hora. O Alistair me deixou entrar. — Ele acenou para o homem que os observava. — Ele é o gerente da propriedade.
Alistair avançou para encontrá-los quando chegaram ao topo dos degraus.
— Srta. Shakespeare, é um prazer conhecê-la. — Ele tinha um sotaque escocês suave que era quase lírico. — Temos café na cozinha, e o cozinheiro fez biscoitos para vocês.
Ela apertou sua mão, apreciando o calor contra sua pele fria.
— É um prazer conhecê-lo também. E, por favor, me chame de Lucy.
— Certo, Lucy.
Eles seguiram por um corredor que levava a uma enorme sala de dois andares com uma escadaria que flanqueava os dois lados. Lachlan colocou a bolsa dela no chão, e eles seguiram o homem mais velho. Lucy assumiu que estavam indo para a cozinha.
— O Alistair trabalha aqui há mais de trinta anos — Lachlan explicou enquanto seguiam pelo corredor. O chão era coberto por pisos de pedra cinza enormes. Bonito de se olhar, mas, sem dúvida, congelava os pés. — Começou cuidando do gado e foi sendo promovido.
— Você deve ter visto tudo. — Finalmente eles chegaram à cozinha. Lucy pôde sentir o calor atingi-la assim que entraram. Tinha cheiro de baunilha e açúcar, uma deliciosa combinação. Seu estômago roncou com a investida.
— As coisas mudaram bastante ao longo dos anos — Alistair explicou. — Renovamos a pousada, construímos o depósito para estocar salmão e, é claro, colocamos banda larga, o que não foi fácil por estarmos em um lugar tão remoto. — Ele parecia satisfeito em responder. — Há muito mais a fazer, claro. O sistema de aquecimento precisa de uma revisão geral, e nós estamos constantemente conversando com a companhia telefônica na tentativa de melhorar o sinal. — Ele sorriu. — Para os nossos visitantes, é uma bênção e uma maldição o lugar ser tão remoto e isolado.
— Se você está na propriedade há trinta anos, é provável que estivesse aqui quando Lachlan visitou o lugar — ela falou e sentiu Lachlan parar ao seu lado. — Se lembra dele?
— Claro. Lembro de levar ele e o irmão em uma caçada, um dia. E eu estava sempre os enxotando para longe do lago. Eles ficaram fascinados pelo lugar.
Ela se virou para olhar para Lachlan. Duas pequenas linhas se formaram entre suas sobrancelhas quando ele franziu a testa.
— Você se lembra disso? — ela perguntou.
— Nem um pouco. — Ele lhe deu um sorrisinho. — Eu lembro da casa e da terra, de passar o tempo andando pelo lago. Mas não lembro de estar com o Duncan.
Havia uma melancolia em seu tom que ela nunca ouvira antes. Fora do escritório — e usando aqueles ternos que sempre o faziam parecer sempre no comando — ele tinha um lado mais suave, que o tornava ainda mais intrigante.
— Você tem algum registro de quando ele veio até aqui? — ela perguntou a Alistair. — Livros de visitas, fotos ou algo assim? Seria bom ter alguma evidência sólida.
Alistair se apoiou no balcão da cozinha, esfregando o queixo com o polegar.
— Devemos ter em algum lugar. Vou pedir à equipe que examine os registros antigos. Tudo fica no escritório da propriedade, na área antiga.
— Não há pressa — Lucy falou. — Mas seria bom ver.
Lachlan se remexeu a seu lado novamente. Talvez não estivesse tão relaxado quanto ela pensava.
— Já teve a chance de dar uma olhada por aí? — ela perguntou.
— Não. Nós pensamos em te esperar. Temos algumas horas antes de a jornalista chegar.
Marina Simpson, jornalista do Scottish Times, tinha concordado em publicar um artigo sobre Lachlan no suplemento de domingo. Pareceu uma boa ideia para fincar seu nome em registro público.
— Que amável. — Ela sorriu para ele. — E você já organizou o encontro com a equipe toda?
Lachlan pareceu se divertir com a pergunta.
— Já, sim, Lucy. E o Alistair reservou uma mesa em um pub na vila para almoçarmos amanhã, assim nós podemos conhecer as pessoas da região.
— Aqui está o café. — Alistair entregou a caneca a ela. O vapor subiu enquanto ela a levava aos lábios. — E pegue uns biscoitos.
Lachlan pegou dois e passou um para ela, as pontas dos dedos roçando nos seus enquanto ela o segurava. Lucy sentiu aquela vibração de novo, como se tivesse tocado em uma cerca elétrica de baixa voltagem.
— Obrigada — ela murmurou e tomou outro gole de café, ignorando o sorriso que apareceu no rosto de Lachlan. Ou ele sentiu a vibração também ou notou sua reação a ele, e qualquer cenário parecia perigoso.
Seriam vinte e quatro horas bem longas.
— Me diga, Lachlan, quando você descobriu que seria o laird de Glencarraig? — Marina Simpson perguntou. Os três estavam sentados na sala de estar com painéis de madeira. Lachlan e Marina estavam nas poltronas, enquanto Lucy estava sentada no banco perto da janela atrás deles, tentando se manter fora da conversa. Desde a chegada da jornalista, uma hora antes, o céu havia escurecido ainda mais, e Alistair havia acendido o fogo na lareira de tijolos para evitar o frio do começo de abril.
— Quando o testamento do meu pai foi lido — Lachlan respondeu, calmamente. — Foi mencionado nele.
— Ah, sim, o seu pai era um homem interessante. Me conte um pouco sobre ele.
Lucy se inclinou para a frente, se afastando da janela. Sua respiração tinha embaçado o vidro. Ela ouvia atentamente, inclinando a cabeça para o lado. Seus pensamentos se voltaram imediatamente para o artigo que havia lido. Lachlan tinha sido muito vago sobre o pai.
— O que você quer saber?
— Que tipo de homem ele era? Ouvi dizer que ele era um pouco recluso. É verdade?
— Ele era um homem que se fez sozinho — Lachlan respondeu. — Construiu um negócio do nada. Nos últimos anos, preferiu passar o tempo aproveitando os frutos do seu trabalho em vez de ficar no centro das atenções.
— Ele não se fez exatamente sozinho — Marina apontou. — Ele era um laird antes de se mudar para a América, não era?
— Sim, mas muito pobre. Ele trabalhou muito até conseguir dinheiro suficiente para comprar o primeiro navio. Depois disso, construiu o seu negócio até se tornar a principal empresa de cruzeiros do mundo. Essa é uma grande conquista para um garoto escocês que deixou o país praticamente sem nada.
— Você parece ter muito orgulho dele — Marina comentou. — E isso é compreensível. Mas também ouvi dizer que nem tudo corria bem com vocês dois quando ele morreu. Me conte um pouco sobre o seu rompimento com a família.
Lachlan se moveu no sofá. Um movimento imperceptível para a maioria das pessoas, mas Lucy podia ver suas costas se endireitando.
— Não houve um rompimento.
Lucy prendeu a respiração. No momento seguinte, ele estava olhando para ela, os olhos azuis dele encontrando os seus. Expirando suavemente, ela lhe deu um sorriso tranquilizador.
Ele não retribuiu.
— Seus pais não eram casados, correto? — Marina prosseguiu.
— Sim. — Lachlan assentiu.
Ele se mexeu na cadeira, cruzando as pernas. Sua mandíbula se contraiu enquanto olhava para a jornalista.
— Deve ter sido difícil crescer com o estigma da ilegitimidade. Especialmente porque o seu pai já era casado quando você foi concebido.
Do lado de fora da janela, uma enxurrada de flocos de neve caía, dançando quando a brisa os levantava antes de deixá-los alcançar o chão. Mas Lucy estava muito mais interessada no que estava acontecendo ali dentro. A atmosfera gelada na sala de estar poderia rivalizar com as temperaturas baixas do lado de fora.
No sofá, Lachlan inclinou a cabeça para o lado, mantendo o olhar em Marina.
— Muitas crianças sofrem dificuldades — disse. — É assim que nós aprendemos e crescemos.
— Mas você parece ter sofrido mais do que a maioria — a mulher ressaltou. Ela parecia não se incomodar com o olhar intenso de Lachlan. — De acordo com a sua biografia, você teve uma infância dura, apesar da riqueza do seu pai. Por que isso aconteceu?
— Seria melhor perguntar aos meus pais — Lachlan disse. — E, em comparação com a vida de algumas crianças, até que não foi tão ruim assim. Sempre tive um teto e comida na mesa. Eu não morava em um barraco.
— Bem, não posso perguntar ao seu pai — a jornalista deu uma risadinha. — Mas talvez eu possa falar com a sua mãe em algum momento.
— Isso não vai ser possível — Lachlan respondeu. Seu tom não deixou espaço para perguntas.
Lucy engoliu com dificuldade, já que sua boca estava seca. Lachlan estava tão rígido quanto uma tábua. Ela se remexeu, tentando se sentir confortável.
— Talvez você possa me contar um pouco mais sobre a sua mãe, então — Marina falou, remexendo seus papéis. — Consegui descobrir um pouco a respeito dela com algumas fontes.
— É mesmo? — Era possível que sua voz soasse ainda mais baixa? — Por quê?
Marina afastou o cabelo escuro do rosto.
— É o meu trabalho, Lachlan. Se eu aparecesse aqui sem fazer minha pesquisa, que tipo de jornalista eu seria?
Lachlan engoliu em seco, mas não disse nada.
Marina mordiscou a caneta e a colocou de volta no bloco.
— Bem, se não posso falar com ela, talvez eu possa perguntar a você. Como ela e o seu pai se conheceram? É correto dizer que ela era uma acompanhante?
A boca de Lucy se abriu. Ela ficou muito quieta e olhou de Marina para Lachlan novamente. Podia ver a tensão em sua mandíbula e os olhos semicerrados.
— Não. Ela era recepcionista de um clube noturno — ele respondeu. — Mas não tenho certeza da relevância disso.
— Foi assim que eles se conheceram? — Marina perguntou novamente. — O seu pai pagou a ela por... ah... favores?
— Nunca perguntei como eles se conheceram.
Marina rabiscou alguma coisa em seu bloco.
— E o que a sua mãe faz agora? — Embora o rosto de Lachlan estivesse impassível, suas mãos estavam unidas com muita força.
Lucy podia ver o branco dos nós de seus dedos. E então ele olhou para ela, parecendo quase uma criança. Vulnerável, ferido, precisando de proteção.
Vê-lo completamente diferente do seu usual fez Lucy ficar de pé.
— Encerramos? — perguntou, caminhando até onde Lachlan e Marina estavam sentados. — Vai escurecer em breve e nós gostaríamos que você desse uma volta na propriedade antes de ir embora, Marina. E eu sei que o seu fotógrafo queria tirar algumas fotos de Lachlan enquanto a luz está boa.
— Mas eu tenho mais algumas perguntas...
— Sem problemas. Pode me enviar que o Lachlan vai responder. — Lucy não aceitaria um não como resposta. — Vou pedir a alguém que sirva uma xícara de chá, e em seguida vamos tirar as fotos.
O escritório na área antiga da propriedade cheirava a mofo — como se a chuva que havia encharcado as paredes de pedra durante séculos nunca tivesse secado totalmente. Localizava-se em outra casa — um pequeno chalé construído com as mesmas pedras do principal —, onde, no passado, seria o local em que o gerente da propriedade morava, espremido a vida inteira naqueles quartos minúsculos. Atualmente, Alistair morava na própria cabana na aldeia vizinha, deixando o lugar servir de escritório administrativo, embora, é claro, houvesse uma biblioteca muito mais luxuosa na casa principal, a qual o pai de Lachlan costumava usar sempre que visitava o lugar.
Lachlan levantou os olhos das planilhas que estava examinando e observou a antiga escrivaninha de madeira onde Alistair estava sentado.
— Você conseguiu bons resultados.
— Até certo ponto. Mantemos o lugar funcionando, mas precisa mesmo de investimento. Para atrair o tipo de hóspede de que nós precisamos, temos que oferecer luxo. É o que os americanos esperam. — Alistair ofereceu um sorrisinho a Lachlan.
— Que tipo de investimento? — Ele estava interessado. Se inclinou para a frente, examinando as planilhas novamente.
— Não sei. Acho que muito investimento. — Alistair deu de ombros. — Nós fizemos o básico, instalamos o wi-fi e consertamos o telhado, mas isso era muito mais do que o seu pai queria pagar. O tipo de cliente que nós queremos atrair são executivos. Investir em uma renovação ajudaria muito.
Lachlan assentiu, a mão ainda pairando no teclado. Falar de negócios o fazia se sentir mais seguro, como se estivesse em um terreno mais firme.
— Preciso pedir para a minha equipe financeira analisar os números. Você tem alguma estimativa do tipo de receita que nós podemos atrair?
— No momento nós estamos reservados para alguns fins de semana de caça por ano — ele respondeu. — Mas algumas das outras propriedades estão totalmente reservadas e também organizam casamentos. Não sei o quanto você sabe sobre a diáspora MacLeish, mas temos muitos membros do clã em todo o mundo que vão aproveitar a chance de conhecer mais sobre sua herança, cercados de luxo.
— Diáspora? — Lachlan indagou.
— Escoceses que emigraram para o exterior. Sabia que existem mais MacLeish no Canadá e na América do que na Escócia?
Lachlan inclinou a cabeça para o lado.
— Não. Eu não fazia ideia.
— Há também milhares de MacLeish na Austrália, Nova Zelândia, Brasil... sinceramente, eles estão por toda parte. E, como estão em um novo mundo, querem saber sobre o seu passado e a sua herança. É aí que nós entramos. Muitos deles já nos visitam durante o encontro dos MacLeish, embora a maioria permaneça na aldeia. Eu gostaria de aproveitar isso.
Lachlan bateu os dedos na velha escrivaninha de carvalho.
— Eu li sobre o encontro no site.
— Ah, você viu?
— Sim, essa era uma das coisas sobre as quais eu queria falar com você. Quem administra isso? Um de nós?
Alistair pareceu satisfeito.
— Eu mesmo. Eu criei o site e o atualizo. É bem fácil. Fica hospedado em um site do WordPress. E nós também temos redes sociais. Até criei uma página no Twitter ano passado.
— Tem muita informação lá — Lachlan observou. — Seu conhecimento da história dos MacLeish é impressionante.
O sorriso no rosto de Alistair se alargou. Ele se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos na mesa.
— Eu trabalho nesta propriedade por mais da metade da minha vida. A minha mulher me diz que eu sou obcecado. — Ele deu uma risadinha. — Mas, sério, foi só quando montei o site que percebi como as pessoas se interessavam. Depois disso, começamos a fazer as reuniões todos os anos. As pessoas viajam de todos os cantos do mundo para passar o fim de semana. Fazemos um culto na igreja, um passeio pela propriedade e, então, o destaque do fim de semana, que é a festa no jardim. — Ele baixou a voz novamente, como se alguém estivesse ouvindo. — E não quero dizer isso de forma desrespeitosa, sr. MacLeish, mas os americanos são os que mais gostam disso.
Lachlan abriu um enorme sorriso.
— Aposto que sim.
Olhando mais uma vez para as planilhas, Lachlan repassou as possibilidades na cabeça. O tipo de investimento que Alistair estava propondo era enorme, e seria necessário um salto muito grande nos rendimentos para compensar. Se estivesse analisando isso com os olhos de um simples investidor, recusaria.
Mas não era apenas um investimento, não é? Era um legado dado a ele por um homem que mal conhecia, em um país que dificilmente visitaria. Ele tinha muito o que pensar.
Virando a cabeça, olhou para fora da pequena janela com vista para o chalé. A enxurrada de flocos de neve que acompanhara sua caminhada até ali havia parado e um raio de sol atravessava as nuvens, brilhando no lago atrás da construção, sua superfície de vidro refletindo as montanhas ao longe. Era estranho o pouco que ele conseguia se lembrar desse lugar — ou das pessoas que trabalhavam ali.
Ficando de pé, Lachlan sentiu seus músculos reclamarem por estarem confinados na cadeira do escritório durante muito tempo. Sua cabeça não estava muito melhor. Depois do confronto com o irmão no dia anterior e da entrevista de hoje — sem mencionar o esforço de Alistair para salvar o nome MacLeish —, ele precisava fazer alguma coisa para relaxar.
— Acho que vou dar um passeio — declarou a Alistair. — Só até o lago.
Alistair olhou para cima.
— Claro. Mas é melhor se agasalhar. O sol pode estar tentando sair, mas esses raios não fazem nada para aquecer o ar até a chegada do verão. Essa paisagem pode ser enganosa.
Lachlan assentiu, pegou o casaco e enrolou o cachecol em volta do pescoço. Erguendo a mão para se despedir, saiu do escritório e se viu caminhando ao longo da calçada de cascalho e depois virando à esquerda da ala leste do chalé.
— Você parece estar trabalhando duro.
Lucy olhou para cima e viu Alistair parado na porta da biblioteca.
— Eu tinha que enviar uns e-mails — ela falou, esticando os braços. — Terminou sua reunião com o Lachlan?
— Sim, nós terminamos por enquanto. — Alistair assentiu. — Vou voltar para casa. Precisa de alguma coisa?
— Onde ele está? — perguntou. — Está por aí em algum lugar?
— Saiu para uma caminhada — Alistair respondeu. — Ele disse alguma coisa sobre ir ver o lago.
— Com este tempo? — Ela olhou para a janela quase fosca com vista para o jardim. A neve tinha parado rápido, mas o ar gelado permaneceu. Mesmo dentro da casa, sentia um arrepio do qual não conseguia se livrar.
— Não se preocupe, ele se agasalhou. — Alistair lhe deu um sorriso. — E, pelo que eu posso dizer, finalmente o clima mais ameno está chegando. É provável que você não veja, o que é uma pena. Talvez você possa voltar no verão.
— Talvez. — Ela sorriu de volta. — Deve ser realmente encantador.
— Bem, boa noite, srta. Shakespeare. Acredito que a cozinheira tenha deixado o jantar no forno para vocês. Espero que tenham uma noite tranquila.
Depois que Alistair saiu, ela olhou para o laptop por mais algum tempo, verificando seus e-mails e respondendo aos urgentes. Mas seu coração não estava ali. Ficou pensando em Lachlan, que havia saído no ar frio e gelado. Será que ele ainda estava pensando na entrevista? Não tiveram muitas oportunidades de conversar desde que Marina partiu, mas ela não pôde deixar de pensar na expressão em seu rosto quando a jornalista fez as perguntas intrusivas.
Lucy sentiu um puxão, como um barco sendo arrastado para a praia. Era inevitável que encontrasse o casaco e o cachecol, calçasse as botas de couro marrom polido, sacudisse os cabelos para soltá-lo enquanto saía pela porta da frente e descesse as escadas. Antes que percebesse, seus pés estavam esmagados contra as folhas de grama enquanto ela caminhava na direção do vale.
Depois de alguns minutos, ela se aproximou do lago, maravilhada com a água azul que atingia a costa congelada. Ao longe, podia ver as montanhas cobertas de neve, seus picos brancos refletidos na superfície espelhada. Do outro lado havia uma série de rochas, penhascos marrons — os carraigs, que davam nome à propriedade. Era como algo saído de uma história, tão lindo que a deixou sem fôlego. Um lembrete de que a natureza fez da terra sua casa muito antes de o homem decidir intervir.
Pelo canto do olho, notou um movimento. Um flash marrom contra o fundo verde. Lentamente, ela virou a cabeça para se deparar com um cervo parado ao longe, com os chifres imóveis, mas ameaçadores. Não pôde deixar de pensar na pintura de Landseer novamente.
— Não se mova. — A voz de Lachlan veio da sua esquerda. — Vi algumas corças antes, mas não esperava ver o cervo também.
Lachlan estava em pé, tão esticado e imóvel quanto o animal. Sua vulnerabilidade anterior tinha sido substituída por uma robustez que espelhava ao seu redor. Uma lufada de vento levantou seu cabelo escuro, revelando a testa suave, sem marcas de expressão.
— Ele é lindo — ela sussurrou, com medo de perturbar a cena à sua frente. — Tão elegante e grandioso.
— Se o meu pai estivesse aqui, atiraria nele.
— Então é bom que não esteja — ela falou sorrindo.
O cervo se virou lentamente para olhá-los, o desdém por todas as coisas humanas transparente em sua expressão. Em seguida balançou a cabeça, se apoiando nas patas de trás antes de pegar o impulso para uma corrida, galopando ao lado do lago e na floresta.
Havia algo muito bonito na cena diante deles, e isso a deixou sem fôlego. Não havia sinal de civilização nem de humanos, apenas a natureza em seu estado selvagem, se erguendo nas rochas e mergulhando em clareiras arborizadas. Eles poderiam estar ali em qualquer momento da história e a vista teria sido a mesma.
— Não tenho certeza se já vi alguma coisa tão linda — ela sussurrou.
— É desta vista que eu me lembro — Lachlan sussurrou, a voz tão suave quanto a dela. — Quando era criança, eu vinha aqui e fingia que era um animal como um cervo e um peixe. Eu não tinha nenhuma preocupação, nem precisava lutar ou disputar pela minha vida. Não penso nisso há anos, mas, agora que estou aqui, tudo voltou.
Ela o observou com o canto dos olhos. Ele estava olhando diretamente para ela, seus olhos gentis. E, desse jeito, ele a deixou sem fôlego novamente, mais do que o cervo e a vista. Quando Lachlan MacLeish estava por perto, todo o restante desaparecia, se tornando insignificante.
— É uma visão como essa que me faz pensar que um dia vou desistir do mundo competitivo e passar meu tempo viajando — ela confessou. — Passo muito tempo olhando para as mesmas paredes, é fácil esquecer quanto o mundo pode ser bonito.
— Eu te entendo — Lachlan concordou. — O Grant fez uma análise de como foi o meu ano. Pelo que ele disse, eu passei cinquenta e um por cento do tempo no escritório, vinte e quatro por cento em aviões e vinte e um por cento em casa. Isso só deixou quatro por cento do meu tempo ao ar livre. E a maior parte disso eu gastei correndo.
— Você corre todos os dias? — ela perguntou, se lembrando da conversa enquanto ele estava no Central Park. O jeito como ele mal precisara recuperar o fôlego enquanto eles falavam.
— Sempre que posso — ele disse, sorrindo com o pensamento.
— Você gosta? — ela perguntou. — Ou é só uma daquelas coisas que você faz para se manter saudável, como beber água e comer cinco vezes por dia?
— Não é que eu goste, mas sinto que ficaria louco sem isso. Às vezes só consigo correr na esteira do escritório por meia hora, mas até isso é melhor que nada. É o único momento em que posso tirar tudo da cabeça e focar no que estou fazendo.
— Exceto quando você está falando comigo.
Ele riu e seu rosto se iluminou.
— Touché. — Ele se virou até estar olhando diretamente para ela, apenas alguns metros entre eles. — E você? — ele perguntou, aquele olhar suave em seus olhos. — Você corre?
— Só se a minha casa estiver pegando fogo. — Ela deu de ombros. — Estou matriculada em uma academia que não uso há dezoito meses. Parece que eu vou precisar ir até lá para fazer alguma diferença.
— Quem poderia imaginar?
— Sério, eu deveria ir mais vezes. Estou sempre muito ocupada. Se não estou no escritório, estou trabalhando em casa. Não sobra muito tempo para correr na esteira.
Lachlan franziu a testa em resposta, como se isso o deixasse triste.
— O que você faz para relaxar?
Ela deu de ombros.
— Saio com os amigos, converso com as minhas irmãs. Ah, e passo um tempo brincando com um gato. Essa é uma boa maneira de se manter atenta.
— Você tem um gato? — ele perguntou.
— Não fique tão surpreso. — Lucy sorriu para sua expressão. — Na verdade, não tenho. É uma gatinha malhada que pertence aos meus vizinhos do andar de baixo. Ela parece ter se apegado a mim. Toda vez que chego em casa, ela está me esperando e entra no apartamento comigo. Então ela se enrola ao meu lado enquanto eu termino meu trabalho.
— Gata sortuda.
Seus olhos se encontraram e o coração dela bateu contra o peito.
— Acho que ela me impede de ser uma viciada chata em trabalho.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Talvez eu tenha uma coisa por viciadas chatas em trabalho.
— Que tipo de coisa?
Ele sorriu.
— Você está realmente me perguntando sobre a minha coisa? Achei que nós fôssemos profissionais. Agora você está aqui, me interrogando sobre...
— Pare com isso. — Ela estava sorrindo também.
Ele estendeu a mão, o braço fechando a distância entre eles, e passou o dedo enluvado pela bochecha dela. Era o menor dos toques, mas parecia tão íntimo, tão sensual, que deixou todo o seu corpo em chamas.
— Nunca há um momento de tédio com você — ele murmurou.
Digo o mesmo a seu respeito, sr. MacLeish.
Embora uma barreira de couro separasse sua pele da dela, Lachlan praticamente podia sentir o frio no rosto de Lucy enquanto acariciava sua mandíbula. Suas bochechas estavam rosadas, os olhos brilhando, os lábios vermelhos por causa do frio. Foi um erro chegar tão perto. Com apenas alguns centímetros entre eles, todo o seu corpo implorava para que fechasse o espaço entre os dois. Queria provar o frio nos lábios dela para aquecê-los com os seus. Desejava deslizar sua língua dentro daquela boca macia e aveludada, sentindo a respiração batendo com a dele.
Antes, ele havia pensado nela como uma loira fria. Mas aqui fora, na natureza, ela era muito mais que isso. Era como se a jovem tivesse descongelado com a poeira da neve no chão, expondo seu verdadeiro eu. Não a profissional perfeitamente preparada que Lucy projetava nas reuniões, mas um lado mais suave e gentil que era só para ele.
Depois dos dias que havia tido, ela era como uma lareira crepitante após um período de frio, e ele queria se deliciar com ela.
— Sou um louco por querer manter este lugar? — questionou.
Era sua imaginação ou ela estava se inclinando para mais perto da sua mão?
— Tenho quase certeza que sim — ela respondeu, fechando os olhos por um momento. — Mas o que te impediria?
— Seria preciso um investimento alto. — Ele passou o polegar pela bochecha dela. Precisou fazer o máximo de esforço para não tirar a luva, removendo a barreira final entre os dois. Era loucura a forma como ela o prendia, fazendo-o sentir que não podia escapar, mesmo que quisesse. — Reformar este lugar seria uma grande tolice.
Ela virou a cabeça para olhar o espaço onde o cervo esteve. Tudo o que restava eram suas pegadas.
— Mas nem sempre tem só a ver com dinheiro, não é? — ela perguntou.
Sua mão pairou no ar quando ela moveu a cabeça para longe. Com relutância, se afastou, descansando o braço ao lado do corpo. Como ele já podia sentir falta da conexão entre eles? Havia algo viciante demais nisso. Como uma droga, ele a queria, mas sabia que o mataria no final.
— Não — concordou. — Nunca teve a ver com o dinheiro. Mas também não quero perder dinheiro com isso.
— Acho que depende do jeito como você encara os fatos — ela falou, olhando para as árvores onde o cervo tinha desaparecido. — As pessoas pagam para viajar de férias o tempo todo. Tudo o que levam de volta são as lembranças. O mesmo vale para hobbies: o que uma pessoa chama de desperdício de dinheiro, outra considera dinheiro bem gasto.
— Você está dizendo que eu deveria manter este lugar como um hobby? — Lachlan perguntou, em tom divertido. — Sabe quanto custa manter isto?
Um raio de sol abriu caminho através da camada cinzenta de nuvens, e ela apertou os olhos quanto atingiu seu rosto.
— Eu só sei que, se eu fosse dona deste lugar, jamais conseguiria deixá-lo. Não importa o quanto eu fosse perder.
A primeira vez que ele a vira, naquele restaurante de Miami, a achara atraente. Mas ali, no meio das Terras Altas escocesas, cercados por rochas e água intocada pelo tempo, ele podia ver que ela era muito mais que isso. Linda, cativante, encantadora.
Ela era uma tentação em forma de mulher. E ele não tinha certeza de quanto tempo mais poderia aguentar.